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Na Noite Passada eu escrevi uma carta
Por Roberto Guedes*
04/06/2008

Baby,
Você bem sabe que eu não sou nenhum Shakespeare, mas me esforço pra ser compreensível, então nem esquenta. A lembrança que eu tenho do inverno de 1978 é de que foi um período bastante chuvoso. Deliciosamente frio e garoento – como jamais aconteceu de novo na cidade de São Paulo. Pode até ser que a minha memória esteja a me pregar uma peça, mas e daí? É assim que eu lembro dos fatos... é assim que vale pra mim. A única coisa para se lamentar, é o fato de que você não esteve por lá. Mas vou tentar “te localizar” (...)

Naquela época, as notícias corriam bem mais devagar. Pra você ter uma idéia do que eu estou falando, o fuzuê no pátio da Scania demorou de maio a outubro pra reverberar em toda a classe metalúrgica do ABC Paulista. Se fosse hoje, era só usar o Orkut (...) Pois é, o mundo de então era um lugar um tanto quanto preguiçoso e vagarento. Aliás, lá na rua, só a nossa família possuía linha telefônica... mas todos os vizinhos usavam o aparelho. “Casa Orelhão”, manja? Mas por isso mesmo, sabíamos digerir tudo que nos era despejado via as Telefunkens da vida, com uma paixão incrível. Nada era efêmero... embora muita coisa ainda fosse em preto-e-branco – e nem estou me referindo às revistas da EBAL. Quase tudo era um grande acontecimento. Por exemplo: quando meu irmão do meio chegava com um disco de Rock “Pauleira” debaixo do braço, o vulgo “LP” – fosse o Stone Blue do Foghat ou o Coliseum Rock do Starz –, a turma toda lá da vila se precipitava à nossa Sala de Estar para ouvir o bolachão no “3 em 1”, numa clara e alienante celebração à felicidade. “Cabeludos, uni-vos!

No campo futebolístico (isto é pleonasmo?), vimos o Divino Ademir da Guia se aposentar um ano antes, e testemunhamos o surgimento de um tal “Doutor” Sócrates, oriundo do Botafogo de Ribeirão Preto. Triste mesmo, foi sair da Copa da Argentina como “Campeões Morais” – apesar daquele gol inacreditável do Nelinho contra a Itália. Diga: você conhece alguém que não assistia ao Clube do Mickey na Tupi com a única e exclusiva intenção de ver aquele sorriso lindo da Kelly Parsons? Tsc... nem vou me estender demais nesses meandros Pop Culturais, senão, daqui a pouco, estarei “falando” de Black Côco, a música-tema do personagem Leo, da novela Te Contei?, vivido pelo irrepreensível Luiz Gustavo. Ops! E não é que já falei? Até posso imaginá-la parafraseando Ana e Ângela neste momento, Baby: “Ele é um cara de pau...” – mas antes que um dia eu me dê mal, já vou mudando de assunto. Afinal, comecei a escrever esta pra comentar sobre gibis. Aliás, você gosta de gibis?

Página do "misterioso" álbum (de 1978) com a primeira aparição de Nova no Brasil - Clique para ampliar

Pergunto, pois o inverno de 1978 foi muito especial! Por um momento – também conhecido como “julho, o mês de férias” –, todos nós, órfãos da Marvel, sonhamos com uma possível volta de Hulk, Thor, Capitão América, Quarteto Fantástico e Homem de Ferro – sumidos que estavam desde meados de 1976 – às bancas de jornal. É que, na ocasião, a Bloch Editores lançou uma edição especial com todos eles reunidos... um verdadeiro “Álbum Maravilha”. Recordo que andei cerca de 3 quilômetros pra achar essa edição. Ufa! Calculo que esta era a distância entre minha casa e a banca em frente ao colégio Visconde de Itaúna, lá no Ipiranga. Bah! Mas foi só fogo de palha. A editora do cachorrinho ainda lançava aracnídeos, lutadores de Artes Marciais e alguns vampiros, mas já vivia seus estertores com os heróis de Stan Lee. Nós, os True Believers, mal sabíamos que teríamos de esperar até o ano seguinte pra acompanhar outra vez nossos queridos personagens em séries mensais e/ou bimestrais, por outras publicadoras.

Umas delas, a RGE, do mega-empresário Roberto Marinho, publicava a gloriosa Kripta – “...qualquer dia é sexta-feira, qualquer hora é meia-noite”, WOW! Lembra? Claro que não! – a revista de terror mais legal da paróquia (hmm... expressão da minha época, don’t worry about it!), que inspirou um montão de revistas congêneres concorrentes. E num momento raro nos anais de nosso meio editorial, o formatinho mensal do Fantasma começou a publicar as cartas dos leitores. O Espírito-que-Anda, definitivamente, vivia um bom momento. Recém-casado, pai de gêmeos, e morando no alto de uma árvore com sua eterna, e não menos adorável Diana (nada a ver com a musa do Neil Sedaka).

Quer mais? Coloque algumas HQs back ups da loiruda Lorna e, enfim, seu gibi estará completo. Epa! Agora que me toquei: Lorna é uma personagem antiga da Marvel, dos anos 1950, quando a editora atendia pela alcunha de “Atlas”. Ou seja, antes de Aranha e Hulk estrearem em novas revistas em fevereiro de 1979, a RGE publicou os Marvels em Terra Brazilis... em 1978. É óbvio que não estou contando as duas edições da adaptação do seriado televisivo O Homem do Fundo do Mar, também desse ano sensacional. Exagero meu? Conhece o Nova, vulgo “Cabeça-de-Balde”? Todo mundo diz que sua estréia por aqui ocorreu em Super-Heróis Marvel 1, o que não deixa de ser verdade. Pelo menos em termos de publicação de História em Quadrinhos. Só que o rapaz apareceu antes mesmo, num álbum de figurinhas (cuja razão social da editora, minha memória insiste em não lembrar) supercolorido, em... ora veja... 1978.

Por motivos que não sei explicar – coisa de louco, talvez –, toda vez que falo em Nova, lembro do Speed Racer, cujos Quadrinhos eram editados pela Editora Abril. Não eram os mangás originais, mas sim, quadrinizações mexicanas bem “tosqueiras”. Olé! Bom, eu tenho quase certeza de que eram mexicanas. É só olhar nos códigos de rodapés: “MET” – que é a sigla para “Meteoro”. Como assim “e daí”? Ora, “Meteoro” é como o Speed era (ou ainda é, sei lá) chamado no México. E se o Speed tinha a Trixie, o Nova tinha a Ginger...

Bom, vou parando com esta por aqui, pois não quero que você me acuse de ser saudosista. Pior, de ser louco de pedra por ficar falando sobre pessoas e personagens que você nem tem idéia de quem sejam. A carta é de ontem à noite... hoje nunca mais. E, como já se dizia naquela música... tudo isso faz parte de uma era que já era... a era dos Super-Heróis.
Bom inverno de 2008 pra você também.

* Guedes trocou as carreiras promissoras de jogador de futebol e vocalista de banda de rock, pela conturbada missão de super-herói. Em sua identidade secreta, costuma atuar como escritor. Lançou recentemente pela Editora HQM “A Era de Bronze dos Super-Heróis”.


E se você ficou curioso...
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Saiba mais sobre Starz e Foghat aqui... ...e aqui.
- E pra ficar por dentro de Ademir da Guia e Sócrates, clique aqui e aqui.
- Olha o “Álbum Maravilhaaqui, ó.
- “E com vocês”, Kelly Parsons.
- Te Contei? Não?

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