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A hora e a vez das tirinhas brasileiras
Por Ruy Jobim Neto
19/06/2006

Comecei este artigo com certa dose de nepotismo (risos), devo admitir, apresentando um trecho de uma tira cômica de meu personagem canino, o Jarbas, mas vá lá, não há necessidade aqui de eu pedir autorização a algum outro cartunista, neste caso. Piadas "nepóticas" à parte, uma pergunta que poderia ser feita ao amigo internauta é: qual foi a última vez que você leu tiras cômicas em jornal?
 
Não faço essa pergunta graças à Internet, pois é verdade que clicando em vários sites se pode ler uma infinidade de tirinhas cômicas em ferramentas que as posicionam por data e por título. Muitos sites são realmente sensacionais. Mas eu perguntei mesmo era sobre jornais impressos. Afinal, foi nos jornais impressos que elas surgiram. Exceção feita a pouquíssimos, raríssimos periódicos Brasil afora (e são muito poucos mesmo, alguns deles somente em capitais), é cada vez mais raro o leitor encontrar tiras em jornais impressos. Podemos aqui fazer uma lista de autores, e eles são muitos. Muitos são os títulos de tirinhas, também. Da mesma forma, não são poucos os jornais – e olha que nós temos um total de vinte e cinco capitais e um Distrito Federal. Imaginemos uma média de dois a quatro bons jornais por cada capital.
 
Depois de uma seríssima crise do papel em meados dos anos 1980, os jornais impressos encolheram e, além disso, manter cartunistas contratados é um investimento que poucos deles estão fazendo hoje em dia. Um caso que posso lembrar aqui é o do Diário de S. Paulo, comprado pelas Organizações Globo, e que tinha em suas páginas as tiras do cartunista Gilmar (Ócios do Ofício) e charges do também cartunista Fausto Bergocce. Hoje esses dois artistas já não fazem mais parte das páginas do dito jornal, embora Gilmar esteja publicando suas tiras em livros editados pela Devir. O jornal O Globo, também da família Marinho, possuía a penúltima página de seu caderno de variedades preenchida com nada menos que vinte tiras diárias diferentes. O esquema era o seguinte: as tiras cômicas mais famosas (Hagar, Recruta Zero, Calvin, entre outras) ficavam posicionadas na parte superior da página. Na parte inferior ficavam as tiras seriadas (Fantasma, Homem-Aranha, Mandrake, e por aí vai). Funcionava, mas não mais para o departamento comercial do diário carioca. Hoje há uma míngua de tiras, mas pelo menos estão publicando Graúna, de Henfil, e a resistente Urbano, o Aposentado, de A. Silvério, dois títulos brazucas.
 
No Rio Grande do Sul, o jornal O Sul, de Porto Alegre, tem quatro páginas diárias supercoloridas repletas de tiras, de vários títulos. Acredito que é a única iniciativa do gênero, atualmente. E tomara que dure tempo suficiente a pontos de fazer escola. Lembra os deliciosos cadernos dominicais de O Globo e do Jornal do Brasil nos tempos áureos da década de 1970. Só que faz mais – o periódico gaúcho publica todo santo dia tiras coloridas diferentes, isso nos tempos atuais. É uma vitória. Guardadas as devidas proporções, coisa parecida aconteceu com um diário de Piracicaba, terra do Salão Internacional de Humor, em que se publica uma página de jornal standard colorida com tiras, crônicas e cartuns. Outra vitória. Num País cujo espaço para as tirinhas vem reduzindo cada vez mais, a experiência sulista é um alento. Artistas e tiras sobram, há muitos por aí, alguns até mesmo multi-premiados. Outros nem mesmo conseguem espaço para publicar. Num País onde jornais como a Folha de S. Paulo fazem concursos de década em década para descobrir novos talentos, também temos tiras como Níquel Náusea, de Fernando Gonsales, que completam 20 anos de publicação em 2006. Temos de tudo, de jornais que publicam só duas tiras americanas (em Cuiabá, por exemplo) e periódicos importantes como o Jornal do Brasil publicando dez tiras brasileiras diariamente, entre elas a clássica O Pato, de Ciça.
 
No entanto, a pergunta fica ao internauta, tal como no início deste artigo com cara de nepotismo (risos) - qual foi a última vez que você leu tiras em jornal impresso? Há comunidades no orkut somente voltadas para o assunto, para esses leitores-fãs. Num País onde tiras cômicas são publicadas atualmente em livros, sejam pocket-books pela L&PM gaúcha, sejam em livros supercoloridos pela Devir, a tira não pode se dar ao luxo de virar artigo caro. Tira cômica é material popular, pílulas de humor diário. Tira cômica, historicamente, foi quem deu origem ao gibi. É bom que lembremos disso quando estivermos rindo com a próxima tirinha. E quem sabe, num jornal impresso.

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