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Entrevista: Edgar Franco
Por Marcio Baraldi
30/11/2007

Decifrando a Esfinge Bio-Cibernética!

Edgar Franco caracterizado como "mago da floresta" (foto: Bruno Santos)


Responda rápido: "O que é mais fácil, copiar uma fórmula de sucesso comprovado ou seguir o que seu coração manda sem ter certeza de que será compreendido pelas massas?". Se você respondeu a primeira alternativa é sinal de que é uma pessoa típica e “normal”. Mas ainda bem que existem pessoas fora do “normal”, que optam pelo caminho mais difícil e menos provável. É o caso do mineiro Edgar Franco que desde cedo enveredou pelos Quadrinhos filosóficos, existenciais  e “viajantes”, cuja compreensão talvez não seja fácil para todos e cujo apelo comercial provavelmente é bem menor. Mesmo assim, Edgar não arredou pé de suas convicções e preferiu passar longe de caminhos fáceis e consagrados (e muitas vezes repetitivos e saturados) para trilhar seu próprio longo, sinuoso e imprevisível caminho dentro da HQ brasileira. A exemplo de Lourenço Mutarelli, Edgar faz um trabalho absolutamente particular e pouco decifrável, pois seus Quadrinhos mais parecem uma misteriosa e enigmática receita de algum druída das florestas escuras do que um prato de guloseimas coloridas oferecida ao público. Ou talvez, a exemplo de Oswald de Andrade, os biscoitos finos de Edgar ainda estejam esperando o público despertar para devorá-los!... Para tentar decifrar (pelo menos um pouco) dessa esfinge bio-cibernética do Quadrinho nacional, o Bigorna.net foi procurar o “druída-pretovéio” Edgar Franco,que a exemplo de seus Quadrinhos, não tem respostas fáceis ou superficiais. Liguem seus plug-ins ao córtex cerebral que o Doutor Mago da floresta vai emitir suas ondas de pensamento eletro-magnético. Plunct! Plact! ZUUUUUUUUUUMMMMMMMM!!!! E boa viagem!!!

O Seu trabalho atingiu um grau de doideira e complexidade tão grande que fica difícil descobrir de onde você partiu. Pra tentar decifrar essa Esfinge chamada Edgar Franco vamos partir do começo. Você nasceu em Minas Gerais mesmo? Mas você nasceu de um "Útero-Liquidificador” (risos)?

Sim, sou do Triângulo Mineiro, de uma cidade pequena chamada Ituiutaba, morei lá até os 19 anos de idade e saí pra fazer faculdade de Arquitetura & Urbanismo em Brasília na UnB. No entanto até hoje tenho uma ligação telúrica profunda com minha cidade natal, meus pais e os pais de minha esposa moram em Ituiutaba e passamos pelo menos um mês por ano lá! Nessas idas sempre reencontro grandes amigos e tenho a chance de recarregar minhas energias passeando pelas ruelas da minha infância, e tendo longas conversas com meu pai, meu mentor intelectual, uma das mentes mais sensíveis e inquietas que já conheci. Minha mãe é uma mulher de espírito forte, enérgica (mas muito amorosa), ela não vai gostar nem um pouco de ler essa pergunta, é uma boa mamãe mineira e não lembra nem de longe um “Útero Liquidificador” (risos). Por outro lado, se analisarmos a questão de forma metafórica, sim eu nasci de um “Útero Liquidificador” chamado Século XX, quando os processos & avanços tecnológicos iniciaram sua aceleração desenvolvimentista, numa louca velocidade de escape que passa a reestruturar profundamente as formas com que nos relacionamos e percebemos o mundo. O “Liquidificador” é essa máquina que serve para misturar o orgânico, mixar múltiplos itens e gerar o novo, o liquidificador engole múltiplos alimentos e regurgita uma massa uniforme que condensa os valores de todos os alimentos, nem sempre o resultado é algo agradável – é uma metáfora muito boa para a cultura globalizada, o caldo sócio-tecno-cultural no qual estamos sendo inseridos gradativamente a partir da segunda metade do Século XX. Viu só! Que hilário, você fez uma pergunta divertida pra começar a entrevista descontraidamente e eu acabei complexizando tudo (risos)!!!!  
 
Você foi daquelas crianças introspectivas, voltadas para a leitura? Você era CDF na escola, tinha vocação para ser intelectual desde pequeno?

Essa é uma boa pergunta, eu adorava ler e criar meus mundos fantásticos desde muito cedo, passava horas lendo e comecei a escrever poesia com 10 anos de idade. Meu pai, Dimas Franco, tinha uma biblioteca com cerca de cinco mil volumes em casa e nasci no meio dos livros e da arte. Nunca houve pressão para que eu lesse, foi algo natural, já que antes de saber falar eu já ia a única banca de revista-livraria da cidade com meu pai todas as semanas. Aí ele passou a presentear-me com gibis e livros infantis desde aquela época. Mas eu tinha um outro lado MUITO moleque, consegui equilibrar a paixão pela leitura e arte com a vida agitada de criança do interior, jogava bola na rua, fazia carrinho de rolimã, realizava longos passeios pelo campo de bicicleta. E tinha o lado mais selvagem, como as guerras de mamona que fazíamos em um terreno baldio perto da minha casa, um tipo primitivo de “Paint-Ball”, onde dividíamos a turma em dois grupos – cada um com o seu estilingue – e partíamos pra guerra, sempre alguém saía cheio de vergões pois usávamos mamonas como munição! Numa época, quando tinha uns 10 anos, eu fiquei fascinado com o ato de derreter chumbo/estanho – hoje acho que era o arquétipo do alquimista que estava sendo desperto no meu espírito! Com isso tornei-me uma espécie de “coletor noturno”, saia em aventuras solitárias pela noite com um pequeno alicate e tirava os lacres dos relógios de força das casas e alguns balanceamentos de rodas de carro. No outro dia derretia o chumbo/estanho e fazia pequenas barras usando como fôrmas caixas de fósforo – isso sem meus pais saberem, é claro! Parei com essas coisas quando fui finalmente absorvido pelo ato de desenhar, por volta dos 12 anos. Tive uma recaída aos 13, quando decidi que a melhor coisa para divulgar meus desenhos pela cidade era pixar muros com eles! E foi o que comecei a fazer, até que fui pego pela polícia e meu pai teve que ir tratar com o delegado da cidade. Aos 14 comecei a dedicar-me com mais afinco ao desenho e minha fascinação pela linguagem das HQs cresceu, também descobri o rock e continuava fascinado pela literatura. No período da adolescência fui mais introspectivo, pois tinha dificuldade de encontrar outras mentes jovens que trafegassem pelos mesmos universos que eu. Apesar de discordar de boa parte do sistema de ensino, desde cedo eu fui bom aluno, tinha facilidade na escola, pois era um bom leitor, não era um típico CDF, mas sempre tirava boas notas.

Como e quando surgiu seu interesse por Quadrinhos? Quando adolescente você lia gibis normais (Super-Heróis, etc.) ou já preferia os livros de filosofia, psicologia e afins? Você era daqueles adolescentes que ficava trancado no quarto escrevendo e lendo sem parar?

O amor pelos gibis começou cedo, eu ganhava muitos títulos de meu pai mensalmente sem nem saber ler! Logo fui me afeiçoando por alguns como Brotoeja, Mortadelo e Salaminho, Pato Donald e os Quadrinhos de Mauricio de Sousa. Também desenvolvi um interesse pelo gênero horror já na infância. Em 1976  - eu tinha 5 anos - pedi pra meu pai deixar-me assistir com ele uma versão em preto e branco do clássico O Fantasma da Ópera que passaria na TV, ele ficou um pouco apreensivo mas permitiu. Aquilo me fascinou profundamente e não tive o menor problema pra dormir depois, he, he. Então ainda na infância comecei a interessar-me por cinema de horror e literatura gótica, descobri a obra de Edgar Allan Poe muito cedo, pois meu pai era admirador do escritor – inclusive meu nome é uma homenagem a Poe e a Edgar Wallace, escritores que meu pai admirava. Devorei tudo que encontrei na biblioteca de meu pai relacionado a esse gênero e ao mesmo tempo, por volta de 10-11 anos, comecei a colecionar Quadrinhos de horror. Eu já desenhava e amava as narrativas, o preto e branco e os alto-contrastes das revistas em Quadrinhos de horror me fascinavam, aquilo me incentivou a querer desenhar mais, criar histórias. Poe levou-me também gradativamente a gostar de poesia, pois era poeta e ao ler suas poesias descobri uma forma de linguagem que não era tão estruturada na narrativa, mas era por vezes mais poderosa. Com 12 anos desenhei minha primeira HQ, era uma mistura de horror gótico, com narrativa poética e muito sangue! Da poesia saltei para a filosofia e li a obra de caras como Schopenhauer, Nietzsche & Spinoza, primeiro em bolsilivros que resumiam suas idéias filosóficas, pra mais tarde ler suas obras já no final da adolescência. Ao mesmo tempo descobri filósofos orientais como Krishnamurti, que me marcou profundamente. Nunca gostei de Quadrinhos de super-heróis, achava vazios e enfadonhos, tentava lê-los mais não me agradavam. Só gostava de Conan, pelos aspectos relativos à espada e magia, tenho a coleção completa dos Conans da Abril – gostava também das HQs dos outros personagens de Howard, sobretudo “Bran Mak Morn”. No começo da adolescência eu só comprava e lia HQs de horror & FC, então tinha muitos ídolos brasileiros, caras que publicavam em revistas como Spektro, Mestres do Terror & Calafrio. Amava o trabalho de Elmano Silva, Rodval Matias, Mozart Couto, Flavio Colin, Shimamoto & Jaime Cortez. Era um tempo bacana, onde se lia quadrinhos brasileiros mensalmente. Aí veio aquela fase legal com revistas da Abril como a Aventura & Ficção, com bons trabalhos de autores estrangeiros e abrindo espaço pra brasileiros no final. Só fui começar a curtir HQs de herói quando do boom das “Graphic Novels”. Quando li o Cavaleiro das Trevas, Asilo Arkham e aqueles trabalhos primorosos de Frank Miller, Alan Moore, Grant Morrison, Neil Gaiman, e vi a arte de caras como Bill Sienkiewicz & Dave McKean. Naquele tempo eu já estava começando com minhas HQs poéticas de fundo filosófico e não conhecia nada da HQ européia, no interior não chegava nada importado, fui conhecer HQ européia lendo a revista Animal, e aquilo foi uma revolução na minha cabeça, EU AMEI O QUE VI ALI!!!! Eu sempre fui multimídia, curtia música, cinema, literatura, poesia, filosofia e Quadrinhos, não fui daqueles que só lia HQs. Tinha gostos muito peculiares para a minha idade, e isto me tornava um adolescente mais introspectivo, mas nunca deixei de ir às baladas e conquistava as garotas escrevendo poesias, aproveitando-me também desse meu caráter exótico de jovem artista-intelectual, o que aborrecia algumas, mas fascinava outras. 

Quando você decidiu misturar Quadrinhos com existencialismo e demais assuntos complexos? Quais foram os autores que lhe influenciaram nessa decisão? Teve algum Quadrinho que um dia você leu e pensou: "É isso que eu quero fazer! Essa e a minha praia!"?

Foi uma coisa muito natural, na verdade eu nunca li nada que me influenciou nessa direção, eu simplesmente fui fazendo e deixando fluir livremente aquilo que acreditava ser interessante, como eu nunca li só Quadrinhos, fui unindo minha paixão por filosofia, poesia e cinema no meu fazer quadrinhístico, tinha um amplo universo de referências e foi isso que acabou gerando esses meus Quadrinhos "complexos" (risos). Não gostava de copiar nem desenho! Meu traço demorou mais pra evoluir porque decidi nunca copiar outros artistas, simplesmente fazia muitos desenhos de observação e aos poucos comecei a desenhar meus delírios visuais. Essa insistência em não copiar fez com que meu desenho evoluísse mais lentamente, mas muito cedo o pessoal dos fanzines já dizia reconhecer o meu traço, já tinha certa identidade. Como comecei a publicar HQs nos zines muito cedo, também passei a vivenciar essa fascinante cena, da qual participei ativamente durante toda a década de 90, publicando mais de mil páginas em fanzines de todo o país. Esse foi um momento muito rico da produção alternativa de Quadrinhos, com o surgimento de grandes quadrinhistas autorais e grande experimentação de linguagem. Sofri influência de jovens autores como eu que trocavam experiências e criavam prolificamente, sobretudo de Gazy Andraus, Flávio Calazans, Antônio Amaral e do saudoso Joacy Jamys. Foram Calazans e Gazy que ao lerem minhas HQs reconheceram algo de dois importantes quadrinhistas franceses nelas e me apresentaram a suas obras: Caza & Druillet. E até hoje são os quadrinhistas estrangeiros que mais admiro, sua obra toca-me profundamente, mas o bacana é que nunca os copiei, fui apresentado a eles por meus colegas enxergarem semelhanças entre o meu trabalho e o deles. Tem um episódio curioso, eu não conhecia praticamente nada do Moebius, mas o pessoal dos zines também encontrava semelhanças entre meu trabalho e o dele, em 1989 quando passei no vestibular da Unesp em Bauru – morei lá 4 meses e desisti do curso – entrei em uma grande livraria no centro e ela tinha alguns álbuns importados de Quadrinhos. Vi lá o álbum Os Olhos do Gato (em edição espanhola) de Moebius & Jodorowski, eu li o álbum dentro da livraria e aquilo me tirou o fôlego, eu cheguei quase às lágrimas, está aí uma HQ que eu gostaria de ter feito, é o MELHOR trabalho de Moebius para mim, é claro que o genial Jodo contribuiu pra isso. Depois acabei lendo tudo do Moebius, mas nada foi tão marcante. Duas coisas são curiosas, primeiro que eu nunca comprei o álbum, não porque não quero, mas ele sempre me escapou das mãos! O segundo fato engraçado foi quando em uma reunião com vários figurões das HQs nacionais escutei a pérola sair da boca de uma pesquisadora doutora: “Aquele álbum ‘Os Olhos do Gato’ do Moebius é uma coisa safada, um quadrinho por página, aquilo é coisa de preguiçoso querendo ganhar dinheiro fácil!”. Ainda bem que não fui eu que iniciei o papo sobre o álbum, por isso fiquei calado, respeito muito essa pesquisadora, e cada um pode ter sua opinião. Foi divertido, pois fiquei imaginando o que ela deve pensar dos meus Quadrinhos! (risos). 
 
Você é uma pessoa tão complexa quanto o seu trabalho? Você é daqueles intelectuais que sua esposa lhe diz "Bom Dia" e você responde "Como assim, bom dia? Com que sentido você perguntou isso?" (risos)

Eu penso que não, eu me considero um homem de vida muito simples, com prazeres simples. Talvez meio exóticos, mas nada complexos: gosto de caminhar com meus cães e minha esposa, gosto de cinema e somos vegetarianos, sou muito seletivo quanto às minhas decisões de consumo, por isso não tenho celular e não dirijo. Gosto de visitar lugares com energias especiais e conhecer pessoas com conteúdo verdadeiro. Abomino certas conversas fiadas intelectualóides das rodas de acadêmicos, nem sou daqueles acadêmicos decoradores de pensamento alheio que só sabem vomitar idéias dos outros. Tenho uma relação muito leve e agradável com minha esposa – o amor da minha vida - que gosta da filosofia que pode ser encontrada nos atos cotidianos e já me ensinou muito mais que todos os livros que li em nossa relação de mais de 16 anos. Prezo muito o simples maravilhamento de estar vivo, simplesmente viver, por isso guardo a filosofia para os momentos adequados e tento levar a vida com leveza e entusiasmo. Algumas pessoas até estranham ao conhecer-me pessoalmente! O grande mestre Shimamoto ficou assustado quando me viu pela primeira vez, pois sou extrovertido, ele foi categórico: “Esperava uma figura introspectiva e tímida”! Assim como ele muitas outras pessoas que não me conheciam pessoalmente tinham uma imagem muito diferente de mim. Gosto disso, é bom não corresponder a um estereótipo!

Para um intelectual como você a carreira acadêmica caí como uma luva, não acha? Você sempre quis ser Doutor e professor universitário? Como seus alunos enxergam você, como o "Professor maluco" da faculdade (risos)?

Meu pai é professor como eu, mas sempre foi autodidata, um verdadeiro mestre na arte de ensinar, infelizmente não teve oportunidade de fazer mestrado e doutorado e isso limitou bastante as oportunidades em sua carreira. Quando eu era mais novo, eu via essa coisa de doutorado de forma glamourosa, bonita, achava que os homens que galgavam tal título eram “gênios” além do bem e do mal. Essa visão de garoto com certeza impregnou-se em minha mente inconsciente e me fez desejar muito ser também um doutor. É claro que com a ida para a universidade e o contato direto com os verdadeiros doutores comecei a vê-los de maneira mais realista, encontrei criaturas desprezíveis e sem caráter nenhum com o título de doutor e se desfez o encantamento! Chega a ser triste perceber os “doutos” com seus egos insuflados brigando por suas idéias pomposas e vazias em congressos, reuniões, no dia a dia das universidades, são tão humanos e cheios de desejos de poder, fama e coisas do gênero como qualquer participante de Big Brother. É claro que existem as exceções e por sorte encontrei várias delas em minha caminhada, esses bons “doutores” me fizeram manter o sonho. Como descobri cedo o prazer de ensinar - ainda na faculdade ministrava cursos de desenho e de Quadrinhos - e também o gosto pela pesquisa, optei por fazer logo o mestrado e o doutorado. E por incrível que pareça essas pesquisas foram coisas maravilhosas em minha vida, não vivi o costumeiro drama de se fazer mestrado e doutorado que todos os acadêmicos reclamam, tratam a coisas como um calvário. Para mim foi até divertido, pesquisei o que gostava. O meu mestrado em multimeios na Unicamp, uma pesquisa pioneira sobre as HQs na Internet que resultou no livro HQtrônicas (Editora Annablume & Fapesp). Na parte prática do doutorado em artes na USP envolvi a minha produção de Quadrinhos como o álbum BioCyberDrama (com Mozart Couto) e musical, a parte teórica está sendo formatada para a publicação de um novo livro. Sobre os alunos, é engraçado, eu amo estar entre as pessoas mais jovens, poder capturar algo de sua energia, sempre aprendo mais do que ensino. Mas para eles é estranho, não sou o estereótipo de professor, uso anéis nos 10 dedos, tenho cabelo comprido, uma barba a lá Wolverine e uso camisetas de bandas - de Amorphis, passando por Celtic Frost e chegando a Mortiis. Entretanto sou muito exigente e rígido quando o assunto é ensinar, isso às vezes é meio contrastante para eles. Muitas vezes crio rupturas grandes na visão de mundo de alguns, pois lhes apresento aspectos inusitados da vida e da arte, coisas do universo em que estão inseridos, mas que lhes passam despercebidas. Isso é algo assustador para alguns! Pode ter certeza que eu sou o professor doidão sim, o cara que rompe paradigmas, também procuro criar laços afetivos com os alunos, conhecê-los um pouco mais, ensinar é para mim um ato de amor, amor pela raça humana! Acho que um dos novos depoimentos de uma aluna minha no orkut resume bem essa visão que têm de minha faceta professor: "‘Digar’ é o professor mais looooooooouco que eu conheço!! Doidimaaaaaaais... ...mas é O PROFESSOR!!! um ser exótico admirável... apesar de às vezes me dar medo e me irritar!!rsrsrs adooooooooooooro essa pessoa!! beijão!” (Cleide Lu).
 
Como e quando você descobriu o rock? O Rock progressivo e a New Age tem muita influência sobre seu trabalho, não? Quais são os seus músicos preferidos, que fizeram sua cabeça?

O rock apareceu num momento muito importante, por volta dos meus 14-15 anos, e quando me interessei por rock foi no momento em que vi as bandas de heavy metal que utilizavam o horror como base, o primeiro disco de rock que amei de verdade foi o Bark At The Moon, do Ozzy Osbourne. Depois dele encontrei o Iron Maiden e eu ficava fissurado nas capas, eu queria também ser capista de heavy metal (risos). No entanto, foi a fúria do thrash metal que me inseriu completamente no mundo do rock, foram dois grandes marcos, a audição de Ride The Lightning do Metallica – uma cópia importada por um amigo de um amigo – e depois o To Mega Therion do Celtic Frost com a capa grotesca, blasfema e maravilhosa de H.R. Giger e o som mais cru misturado a certos elementos eruditos no meio da podridão. O Heavy Metal foi um alimento importante para conseguir atravessar a primeira fase da adolescência, os meus conflitos. Nunca deixei de escutar metal, mas tive um segundo encontro com o rock quando descobri o progressivo, ouve uma identificação grande com bandas como Uriah Heep, Yes & Pink Floyd, me apaixonei pelos aspectos míticos e fantásticos da música e proposta conceitual dessas bandas. Tinha também o aspecto visual, como as artes de Roger Dean, o maior capista de todos os tempos pra mim. A partir do rock progressivo minha viagem musical foi adentrando terrenos ainda mais inusitados e conheci na época da faculdade bandas como Tangerine Dream e músicos como Vangelis, o compositor revolucionário John Cage, e o gênio Brian Eno. Nos anos 90 descobri as vertentes mais inusitadas da chamada música ambient, uma música pensada para gerar atmosferas e criar cenários mentais, inspirada nas trilhas sonoras de FC, suspense, horror e nas viagens alucinógenas, esse é o tipo de som que eu faço, ele cria uma conexão intrínseca entre minha arte gráfica e as atmosferas musicais. Dentre as bandas de ambient que admiro citarei: Melek-Tha, Camisole, Nitrous Flesh, Lustmord, Napalmed, Mental Destruction, Stalaggh, Brighter Death Now, Antimatter, Ashtool, Merzbow, Dissection Table, Manes, Bad Sector, Loop B, A Irmandade, Each Second, Fafnir, Midnight Syndicate, Reclacitrant, All Scars Orchestra, Noisecore Freak, Seven Pines, Gäe Bolg, The Victims Shudder, Thy Veils, Ulver, Hollowing, Metanemfrost, Agaloch, Coph Nia, Aesthetic Meat Front, Beyond Sensory Experience, Sator Absentia, Boring, Elend, Ordo Rosarius. 

Do Quadrinho você vazou também para a música e acaba de lançar um projeto ousado, o Posthuman Tantra. O primeiro CD Neocortex Plug-in, muitíssimo bem produzido, foi mixado na Suíça e lançado por uma gravadora de lá (Legatus Records) e é uma mistura de darkwave, ambient music, poesia e, claro, muita viajeira existencial. Enfim, não é um trabalho "comercial", nem para qualquer ouvido. Qual e a sua proposta com esse trabalho afinal? Você ficou satisfeito com o resultado?

Minha história com a música é antiga, na verdade na adolescência fui baixista de uma banda de heavy metal que não saiu do quintal, depois me liguei à cena através do trabalho como capista de CDs, já totalizei quase 100 capas, entre CDs, coletâneas, Eps, 7” vinis e vinis, sem contar fitas demos e CD-demos. No fim dos anos 90, eu, o Gazy Andraus e um amigo, o Dênio Alves, criamos um projeto musical experimental de inspiração dadaísta-cósmica chamado Essence. Era algo espontâneo e divertido, nos reuníamos em Ituiutaba, escrevíamos as letras e íamos até o estúdio primitivo e bacana do Dênio, onde gravávamos horas de jams insanas e com muita psicodelia e viajeira. Depois o Dênio fazia a edição das melhores partes e nós lançávamos o material como fita demo. Fizemos duas fitas demo e dois CDs demo (já em 200-2001). As duas fitas demo do Essence foram até comentadas na seção de demos da revista Rock Brigade, fomos esculachados, mas adoramos! Na primeira resenha, o crítico disse que nossa música poderia ser definida como o álbum Ummagumma do Pink Floyd tocado ao contrário! Foi a glória (risos), já na segunda crítica ele falou que esse som era coisa de caras ligados em maconha e cogumelos, o mais divertido é que nós não usamos drogas de espécie alguma, nem bebemos, e eu e o Gazy somos até vegetarianos. Deve ser o que uma aluna minha disse-me certa vez: “Edgar você não precisa de drogas, é doido de “oxigênio” mesmo!”(risos)”. O Posthuman Tantra foi o meu amadurecimento como músico, meu encontro com as possibilidades da música eletrônica, comecei a criar músicas com softwares por volta do ano 2000, no início pra brincar mesmo. Com o desenvolvimento de meu conhecimento no início de 2004 resolvi finalmente criar um projeto musical num estilo que alcunhei de “Sci-Fi Ambient”. Produzir uma espécie de trilha sonora para a ambientação de meus mundos fantásticos, sobretudo da chamada Aurora Pós-humana. Nesse universo ficcional desenvolvido durante meu doutorado, imaginei um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador seja algo possível e cotidiano, onde milhares de pessoas abandonarão seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas; imaginei também que neste futuro hipotético a bioengenharia tenha avançado tanto que permita a hibridização genética entre humanos e animais, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Finalmente imaginei que estas duas "espécies" pós-humanas tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades estado ao redor do globo enquanto uma pequena parcela da população, uma casta oprimida e em vias de extinção, insiste em preservar as características humanas, resistindo às mudanças. Este universo tem sido aos poucos detalhado com dezenas de parâmetros e características, trata-se de um work in progress que toma como base todas as prospecções da ciência e das artes de ponta para reestruturar seus parâmetros. A partir dele já foram desenvolvidos uma série de trabalhos artísticos, em diversas mídias e suportes e atualmente outras obras estão em andamento. Já foram criados para as hipermídias: o site Neomaso Prometeu (menção honrosa no 13º Festival Videobrasil), o trabalho em CD-ROM Ariadne e o Labirinto Pós-humano (que participou da mostra SESC SP de artes – 2005), o site de vida artificial O Mito Ômega (ainda em desenvolvimento) e ainda a faixa multimídia Game-o-tech 2.0. Nos Quadrinhos desenvolvo a trilogia BioCyberDrama (parceria com o lendário quadrinhista Mozart Couto), com o primeiro álbum lançado pela editora Opera Graphica (que recebeu o prêmio Angelo Agostini de melhor desenhista de 2003) e também a revista em Quadrinhos Artlectos e Pós-humanos que acaba de ter o seu número 2 publicado. Entre muitos outros trabalhos. O Posthuman Tantra surgiu de minha necessidade intrínseca de pensar todos os aspectos relativos à Aurora Pós-humana. A partir de uma experiência anterior com música e do encontro com as sonoridades eletrônicas decidi criar um projeto musical-multimídia que criasse as ambiências sonoras para minha ficção e que corroborasse minha visão prospectiva sobre esse futuro pós-humano em sua concepção lírica. O projeto iniciou como algo menor no contexto de minha produção artística multimídia, mas aos poucos foi crescendo e atualmente é um trabalho para o qual dedico muito de meu tempo, é impressionante o poder de penetração da música – uma linguagem universal que consegue realmente tocar profundamente as mentes quando elas estão preparadas. Hoje o Posthuman Tantra é uma de minhas prioridades, mas é importante deixar claro que desde o início o projeto já nasceu com uma proposta multimidiática, não é simplesmente a música que o compõe, a parte visual composta por minhas ilustrações, cards que acompanham os CDs e toda uma performance multimídia – construída a partir de meus desenhos e animações – comporá as apresentações ao vivo do projeto que estão em fase de preparação. A faixa multimídia presente no novo CD Neocortex Plug-in é um exemplo importante dessa minha proposta – ela não é simplesmente um videoclipe, é em si um trabalho de arte conceitual interativo/reativo, na verdade trata-se de minha mais recente HQtrônica, ou seja, os quadrinhos estão presentes no CD do Posthuman Tantra! Eu já havia publicado muitas páginas de minhas HQs em países da Europa, mas a assinatura do contrato com o selo Suíço Legatus Records, para o lançamento de Neocortex Plug-in, foi uma grande realização pessoal e a certeza de que existe um público maduro o bastante e interessado em conhecer a proposta tecnometafísica de minha música e arte. O nome “Posthuman Tantra” apresenta esse paradoxo poético curioso, qual seria a dinâmica energético-sexual tântrica para essas novas criaturas híbridas pós-humanas? Também funde em um conceito tecnologia & transcendência, numa espécie de tecnognose. Não é um trabalho para muitos, assim como minhas HQs e todo o meu trabalho artístico, mas tenho encontrado pessoas de mente aberta que se maravilham com minha proposta conceitual  e artística. Fiquei contente com o resultado final do álbum, esmerei-me muito na parte gráfica e levei nove meses compondo e gravando as músicas, além disso, o trabalho de masterização feito na Suíça ficou estupendo.

O crítico Amyr Cantúsio Junior, da revista Rock Hard Valhalla, fez uma resenha muito positiva do seu disco. Como a crítica musical esta recebendo seu projeto?

Pois é, o CD caiu nas mãos de uma pessoa especial, gabaritada e com o necessário feedback intelectual & metafísico para compreender a minha proposta. Depois de ouvir o CD o Amyr escreveu-me um e-mail enviando-me congratulações pelo trabalho, fiquei emocionado, pois o Amyr além de ser um crítico admirável é um grande músico - talvez o mais importante nome brasileiro na área dos teclados e sintetizadores. Eu admiro muito o trabalho dele e tenho muitos vinis e CDs de seu seminal projeto progressivo ALPHA III, pra se ter uma idéia da magnitude da música de Cantúsio é só lembrar que Roger Dean incluiu um dos álbuns do ALPHA III na sua lista de melhores 10 álbuns de todos os tempos! O mais bacana de tudo é que comecei uma amizade com Amyr e resolvemos desenvolver um álbum juntos, já tem até nome Gothik Kama-Sutra, uma criação a quatro mãos entre Alpha III & Posthuman Tantra! A nota 9 na Rock Hard Valhalla foi uma surpresa, e ainda publicaram entrevista e foto! Para um projeto musical com uma proposta tão sui-generis, isso é uma grande vitória, o melhor é que a repercussão da resenha tem ajudado no surgimento de novos fãs. Outras resenhas em sites especializados e em revistas européias estão sendo muito positivas, com isso o disco está sendo distribuído até no Japão e na Rússia!

Seu disco e suas fotos promocionais me lembram um pouco o Mortiis, músico norueguês que já tocou black metal e hoje se veste como um "espírito da floresta” e toca darkwave. Você conhece o trabalho dele?

Você é perspicaz mesmo! Eu curto muito o trabalho do Mortiis, principalmente os primeiros discos, ele é o músico de dark ambient mais conhecido, abriu as portas para que os amantes de heavy metal começassem a se interessar por música ambient. Ele também tem uma preocupação especial com o visual o que me agrada muito, criou uma aura de mistério em torno de sua figura, pois usa uma maquiagem de troll, algo com conexão direta com as florestas escuras da Europa. Gosto da música de Mortiis, o Posthuman Tantra não é diretamente influenciado por seu som, mas sua postura de palco e visual são referências para mim.
 
Nas suas fotos promocionais você está vestido como uma espécie de "mago da floresta". Qual a intenção daquele visual? Você se considera uma espécie de "Alquimista Cultural"? Como você define seu trabalho e a si próprio?

Sim, acho que sou um tipo de novo alquimista biocybertecnológico, um mago da floresta com chip de silício implantado na pineal pra conectar a internet e outras galáxias! (risos). Mas alquimista é um termo muito europeu, medieval. Como tenho sangue europeu, árabe, negro e índio correndo em minhas veias, sou um legítimo vira-lata, resistente, apto a entender os múltiplos pontos de vista vindos de sul, norte, leste e oeste. Sou um “tecno-pajé-alquimista-preto-velho-gênio-da-lâmpada”, busco minha “pedra-filosofal” através da arte - meu caminho para a transcendência e minha maneira de tentar contribuir com um grão de areia na evolução da espécie rumo à consciência cósmica. Meu visual é algo que deve retratar essa busca, deve representar uma ruptura, corresponder ao meu conteúdo e minhas mensagens. Demorei a compreender isso, mas no momento estou em mutação no sentido de adequar-me visualmente à minha arte, sermos unos, criador e criatura.

Poços de Caldas é uma cidade razoavelmente pequena e eu imagino que você seja uma figura folclórica nela. Como e sua relação com a cidade? Ela compreende você e seu trabalho?

Moro em Poços de Caldas só há quatro anos, ainda não deu tempo de me tornar folclórico por aqui, talvez só no âmbito da universidade (PUC-MG) tenha acontecido algo do tipo. Poços é uma bela cidade, com um clima maravilhoso e ótima energia, mas como toda cidade pequena tem muito de provinciana, por isso contenho minha vontade de apresentar meu trabalho mais efetivamente por aqui. Sou mais conhecido em minha cidade natal, Ituiutaba, lá sim talvez eu seja meio folclórico, já dei várias entrevistas para os jornais locais e sempre divulgam os meus trabalhos na imprensa. Isso me deixa muito contente, vai contra o ditado “santo de casa não faz milagre”. Inclusive fui eleito por unanimidade membro da ALAMI – Academia Ituiutabana de Letras, Música & Artes. Sou um imortal (risos) e ocupo a cadeira de número 46. Essa é para mim a maior de todas as honrarias, estou na mesma academia de letras de escritores conterrâneos consagrados como Luiz Vilela e novos talentos como Whisner Fraga e Luciano Teodoro. 

Quando eu conheci o trabalho do Lourenço Mutarelli, achei que ninguém conseguiria ir mais longe que aquilo, mas seu trabalho parece um Mutarelli elevado à enésima potência (risos). Vocês são dois casos à parte no mercado dos Quadrinhos brasileiros. Como você acha que as pessoas recebem o seu trabalho? Você acha que todo mundo entende o que você quer dizer? Aliás, o que VOCÊ quer dizer (risos)?!?

Eu admiro o trabalho de Mutarelli, principalmente a primeira fase dele, mais visceral e experimental, e por isso menos popular. Sinto-me honrado por você ter de alguma forma conectado nossas propostas, pois o Lourenço tornou-se uma espécie de lenda da HQ autoral brasileira e ele SIM conseguiu fazer parte do mercado, é claro que teve que se desdobrar e tornar-se um cara multimídia, trabalhando pra publicidade, cinema e escrevendo romances, e se deu bem melhor financeiramente nesses campos. Acho que em fases mais recentes ele conseguiu amenizar seu lado experimental, adequar-se melhor às exigências do mercado, enxugar suas narrativas barrocas. Em minha opinião sua arte perdeu com isso, mas é só minha visão – inclusive já vi intelectuais dos Quadrinhos dizerem que o Mutarelli só fez Quadrinhos ”de verdade” a partir da saga de Diomedes. Discordo totalmente, para mim seu clássico absoluto é Transubstanciação. Acho que eu não sou “um caso à parte no mercado de Quadrinhos”, porque eu não estou no mercado! Infelizmente nunca ganhei um tostão sequer com meus Quadrinhos, o máximo que consegui é empatar o meu gasto de tempo e investimento. Isso pode ser considerado um fracasso para alguns, mas para mim não é, optei pela carreira acadêmica, pois com ela tenho a grana necessária para manter minha sobrevivência e também algum tempo para desenvolver minha arte. E minha arte é o meu processo alquímico, minha forma de conexão direta com o universo e com as forças transcendentes, por isso ela é algo intocável, ou seja, ela não está à venda! Eu não preciso submetê-la à visão mercantilista de editores, ou melhor, “publicadores”. Meu estilo evolui e se desenvolve, é claro, sou contra a estagnação artística, mas o que não admito em nenhuma hipótese é que alguém diga o que tenho que fazer ou como devo fazer. Bons ou ruins, TODOS os meus trabalhos artísticos são meus, saem de mim e da essência cósmica que consigo conectar durante meus transes artísticos, por isso não aceito “dicas para adequação ao mercado” (risos). Na verdade eu sou um artista multimídia que tem como hobby lecionar na universidade, eu vivo de meu hobby para poder manter minha arte intacta. Já recusei MUITAS propostas de publicação de meus Quadrinhos porque “publicadores” – que ainda por cima pagam uma ninharia - queriam que eu mudasse algo neles. Isso aconteceu até com o álbum BioCyberDrama (com Mozart Couto), um pseudo-editor – por sinal um chato de galocha – solicitou-nos que mudássemos o final para que o álbum fosse publicado: “tinha que ter mais ação”! (risos) BABACA! Simplesmente ignoramos a editora. Adoto o mesmo procedimento em tudo que faço, quando assinei com a gravadora Suíça Legatus Records, tive carta branca e TOTAL LIBERDADE para criar o CD, das músicas à arte gráfica, é assim que eu trabalho em todos os meios expressivos que crio. Preciso citar aqui dois verdadeiros editores de Quadrinhos, espécie rara no país, eles sempre acreditaram em meus Quadrinhos e me apoiaram de forma incondicional. O primeiro deles é Henrique Magalhães, e sua lendária editora Marca de Fantasia – DEVO MUITO A ESSE GRANDE AMIGO E SUA VISÃO AMPLA DO QUE SÃO QUADRINHOS! O segundo é o José Salles, que abriu as portas de sua nova Editora SM para o meu título Artlectos & Pós-humanos. Tenho plena consciência de que meus Quadrinhos são para um público restrito, pessoas que terão o background filosófico, artístico e místico para conseguir compreendê-los. Mas mesmo aqueles que não entendem nada são afetados pela mensagem de minhas HQs, pois ela flui pelos seus cérebros direitos e alcança seus inconscientes, resgatando arquétipos e reconfigurando mitos. Mais importante do que “entender o que quero dizer” é “sentir” os meus Quadrinhos! SINTA aí BARALDÃO, esses quadrinhos GRANDES de página única (risos)! 
 
O universo futurista que você sempre retrata no seu trabalho é muito triste, violento e complexo. Você acha que o futuro da humanidade realmente será assim?


Discordo que eu seja fatalista, na maioria de minhas HQs e obras sempre existe uma mensagem implícita de esperança na espécie humana, esperança de que ela possa redimir seus erros e alcançar a plenitude completa para a qual o universo a projetou! Mas existe uma tendência contemporânea de só enxergar o grotesco, o horrível, por isso algumas de minhas HQs nas quais só apresento um possível modelo de comportamento decrépito de futuro – uma reflexão sobre possibilidades tenebrosas, um aviso – são as que as pessoas mais gostam. As mais sanguinolentas são as que mais aparecem, mas mesmo nelas não estou sendo fatalista ou niilista, apresento um ponto de reflexão. Como trabalho muito com corpos, seres híbridos, fluídos corporais, sexualidade, sensualidade & morte, as pessoas acabam chamando meu trabalho de monstruoso ou bizarro, mas quem olha minha obra mais a fundo consegue perceber claramente a esperança que existe em minhas mensagens, ver até muita doçura em minhas histórias. Recentemente o sensível pesquisador e prof. Dr. Elydio dos Santos Neto fez algumas análises soberbas de meus Quadrinhos, é mais um que teve o feedback necessário para mergulhar em meus mundos, nesses momentos tenho certeza que estou fazendo a coisa certa e que devo continuar criando o que acredito. Sobre o futuro da humanidade, existem duas possibilidades, ou a espécie fracassa e se extingue ou chegará à plenitude. Torço e luto pela segunda hipótese, mas reflito poeticamente sobre as duas em minhas obras. Veja o exemplo de duas faixas do CD do Posthuman Tantra, uma reflexão positiva, outra continuísta:

Visions From The Abyssal Neurogenetic Circuit (3:49”). Faixa instrumental baseada nas possibilidades de transe através de realidades virtuais computacionais, transes tecnológicos semelhantes aos dos alucinógenos. Transes que poderão fazer com que alcancemos as verdades universais através de nosso circuito neurogenético (presente no DNA). Trata da possível descoberta da consciência cósmica com auxílio da tecnologia, e da redenção da humanidade. É inspirada nas reflexões de Roy Ascott & Robert Anton Wilson.

Glorification Of Our Nanotechpain (8:20”) - Música densa e obscura com várias participações vocais (entre elas a de Kenji Siratori – escritor cyberpunk Japonês & Mike, mentor da banda Suíça TransZendenZ). O conceito que a engendrou trata das ameaças possíveis como a criação de nanorobôs que inicialmente serão gerados para erradicação de doenças, mas depois passarão a ser produzidos em larga escala de forma clandestina para inocular novas doenças e fazer uma poderosíssima indústria farmacêutica do futuro lucrar com a venda de “nanorobôs antídoto”. É o continuísmo, a alta tecnologia aliada ao velho egoísmo humano.
 
Você tem religião? Acredita em Deus? Se não, quem você acha que criou o universo todo?


Questão complicada, eu te pergunto então: Se Deus criou o Universo, quem criou Deus? (risos). Eu acredito em forças poderosas equilibrantes que estruturam o cosmos, não sou cético, mas sou adogmático, tenho a mente livre para tentar abarcar o máximo de informações sobre a nossa frágil espécie, buscar outros níveis de consciência para tentar vislumbrar lampejos das verdades universais. O dogma é um veneno, a espécie pode sucumbir por causa dele! O pior mal da humanidade é o dogma, a prisão que ilude e anestesia as mentes fazendo-as acreditar que vivem em uma realidade superior aos demais seres humanos. O dogma produz “túneis de realidade”, cegando os indivíduos, tornando-os criaturas formatadas e de mente embotada, mortos-vivos que acreditam serem os donos da verdade fechando-se em seus mundinhos e resistindo a abrir sua percepção e mente a toda e qualquer coisa que esteja fora da doutrina dogmática que aderiu. O dogma pode ser religioso, como o muçulmano, o cristão, o judeu, o hinduísta; mas também pode ser étnico como o dogma ariano, ou mesmo o dogma black power (perpretado por Malcom X); também pode ser cultural ou nacional – pregando a superioridade de uma cultura ou nação; pode ser ideológico, como os dogmas socialista & capitalista, e finalmente pode ser intelectual, exacerbando o ego de homens letrados que se colocam numa posição superior aos demais. O dogma é a grande praga que assola a espécie humana desde que as primeiras culturas se solidificaram, infelizmente ele poderá ser o responsável pela falência de nossa espécie nesse planeta, aliado à sede de poder e à burocracia ele é o maior de todos os cânceres da Terra. O combate ao comportamento dogmático é uma tarefa árdua e lenta e deve partir dos indivíduos, devemos buscar o ideal de “livres pensadores” e mesmo acreditando em algo, desenvolvermos um profundo respeito pelas crenças, culturas e etnias dos demais humanos. A máxima cristã, hoje tão aviltada, é a síntese do caminho para o fim do dogma: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Infelizmente o que assistimos é diferente, cristãos odeiam muçulmanos que odeiam judeus que não suportam budistas. Dentro do próprio cristianismo existem milhares de subdivisões que se vilipendiam e se odeiam. Diante dessas constatações eu amo a máxima de Robert Anton Wilson - que longe de ser um ateu, era um homem de mente aberta para viver experiências transcendentes nas mais diversas formas de religião e cultura - ele dizia: “Eu não acredito em nada, SOU LIVRE!

Você gosta de Ufologia? Já teve algum contato bacana com algum OVNI?

Sim, sou um LIVRE PENSADOR! Todos os assuntos que vão contra o materialismo dogmático e apresentam caminhos diversos da dureza científica cartesiana me interessam. Já contatei múltiplas formas de inteligência nos infinitos recônditos do Universo durante meus transes artísticos! 

Seu e-mail é oidicius@hotmail.com, "oidicius" é "suicídio" ao contrário. Você tem alguma fixação ou simpatia pela idéia do suicídio?

(Risos) Você já disse tudo: Oidicius é suicídio AO CONTRÁRIO! Na verdade esse meu e-mail é uma declaração de amor à vida! Não tenho nenhuma fixação suicida, gostaria de viver no mínimo uns 500 anos nesse plano, vou tentar! VIVA A VIDA!

O Brasil tem poucos quadrinhistas existenciais-psicológicos. Os mais conhecidos são você, Gazy Andraus, Henry Jaepelt e Flávio Calazans. Você tem amizade com todos eles? Identifica-se com o trabalho deles?

Esses caras são meus irmãos de jornada, tenho um profundo respeito e admiração por eles, são MUITO ESPECIAIS pra mim. Já estive mais próximo do grande Calazans e de Jaepelt, mas as circunstâncias de trabalho e outras coisas da vida nos distanciaram um pouco nos últimos tempos. Já o Gazy tornou-se um VERDADEIRO IRMÃO, é meu padrinho de casamento e o quadrinhista brasileiro que mais admiro - um gênio que só as futuras gerações conseguirão dar o devido valor! MEU ABRAÇO CARINHOSO E TODA MINHA ADMIRAÇÃO A ESTES TRÊS GRANDES ARTISTAS E AMIGOS!

Como você vê o mercado de Quadrinhos brasileiro atualmente? O que você gosta e o que não gosta?

Acho que a cena alternativa tem se desenvolvido muito, os novos artistas estão desenhando pra car@$#* e escrevendo bem também. Outro aspecto positivo é a questão gráfica, os custos baixaram muito e o pessoal tem conseguido produzir materiais com um acabamento gráfico incrível. Nos anos 90 esse era o sonho de todo zineiro, mas era impossível e tudo era fotocopiado mesmo. Acho que o acesso à informação está se democratizando com a Internet, com isso os novos quadrinhistas têm pra onde recorrer, dezenas de manuais de roteiro e desenho, milhões de HQs online, isso é maravilhoso. Por outro lado confesso estar decepcionado, pois pego as revistas e fico estupefato com a qualidade dos desenhos e o refinamento dos roteiros, entretanto tudo tem um cheiro de “já vi isso antes”. Ou seja, aquela borbulhante cena que floresceu na HQ alternativa do final dos anos 80 e durante os anos 90 - revelando revolucionários da linguagem dos Quadrinhos em nosso país - não mais existe. Você mesmo, Baraldi, é fruto dessa cena, seus Quadrinhos são originais, não é cópia de ninguém, você experimentou e chegou a um estilo de HQs muito pessoal, autoral, e ainda conseguiu o feito de alcançar o grande público! Atualmente todo o aspecto experimental esmoreceu, 99% do que tenho visto sendo produzido pelas novas gerações é “mais do mesmo”. Isso me deixa triste. É claro que existem algumas pouquíssimas exceções. O pior de tudo é que a restrita crítica de Quadrinhos no Brasil insiste em elogiar demasiadamente esses quadrinhos derivativos, é pena.

Quais sao seus próximos projetos? O que mais vai sair do Caldeirão do "Mago da Floresta" (risos)?

Minha mente é inquieta e se retro alimenta do processo criativo, portanto sempre estou envolvido em vários projetos, nas mais diversas mídias. Vejamos alguns que estão em processo e em breve devem sair do meu caldeirão.

Na música:
• The Epilogue – box com 2 CDs que conclui a série Kelemath Invasion, parceria entre o Posthuman Tantra e a banda francesa Melek-Tha. Inclui cinco cards redondos especialmente criados por mim, além de 11 novas faixas de minha autoria. Deve ser lançado na França em janeiro de 2008.
 
• Gothik Kama-Sutra – Inusitada parceria entre o Alpha III – projeto do lendário tecladista Amyr Cantúsio Jr., e o Posthuman Tantra. Trará 11 faixas, sendo que cinco delas foram compostas à quatro mãos. Lançamento independente agendado pra fevereiro de 2008.
 
• The Hollow Earth – Outro projeto em parceria com a banda francesa Melek-Tha. A novidade é que serão 2 CDs encartados em um álbum de Quadrinhos de 60 páginas, as músicas são uma espécie de trilha sonora da HQ – uma versão em inglês de meu álbum Agartha - lançado originalmente pela Marca de Fantasia - que agora terá uma nova capa e introdução. Lançamento previsto para meados de 2008.
 
• Tenho agendadas participações em pelo menos cinco novas coletâneas, no Brasil, Europa e Ásia.
 
Nos Quadrinhos:
• Já estou preparando o número 3 de minha revista Artlectos & Pós-humanos (SM Editora).
 
• Estou escrevendo a parte final da trilogia BioCyberDrama, a ser desenhada por Mozart Couto. Por falar nisso BioCyberDrama II está concluído e continuamos buscando editores interessados em lançar esse material. 
  
• Iniciei um novo álbum, ainda sem título, esse é o meu projeto mais ousado nos Quadrinhos. Totalmente escrito e desenhado por mim, terá umas 80 páginas e será todo colorido. É trabalho para uns 2 anos ou mais. 
 
No vídeo:
• O projeto de um curta-metragem que será dirigido por minha irmã Ariadne Rengstl e baseado em uma HQ curta minha, estou participando da produção.
 
• O primeiro videoclipe do Posthuman Tantra, também em fase de produção. A direção é da Ariadne Rengstl.
 
Nas hipermídias:
• O projeto O Mito Ômega, web arte envolvendo princípios de vida artificial e computação evolutiva. Trata-se de um work-in-progress desenvolvido em parceria com meu cunhado alemão Christian Rengstl que é doutor em ciência da informação. Já é possível visitar a versão beta do site online e colocar as criaturas para cruzarem e gerarem filhos. Visitem aqui.  
 
• Ampliação do projeto da Freakpedia, uma versão poética de enciclopédia online que ironiza com a pretensa liberdade da Wikipedia e propõe ser a “verdadeira enciclopédia livre”. Esse projeto de web arte é uma parceria com o artista Fábio Oliveira Nunes. Visitem e participem aqui.  
 
• Vislumbres Pós-humanos, instalação multimídia, projeto que está sendo desenvolvido também em parceria com Fábio Oliveira Nunes. 
  
Deixe um recado existencalista-psicodélico-tecnofuturista para os leitores do Bigorna.net.

Antes agradeço a você grande Baraldi e a todos os envolvidos nesse projeto maravilhoso chamado BIGORNA, em especial ao Humberto Yashima e ao Eloyr Pacheco, é realmente uma oportunidade única e valorosa poder expressar minhas idéias e falar um pouco de minha arte num veículo que tanto admiro. Agradeço a todos aqueles que se dispuseram a ler essa entrevista e convido todas as criaturas de mente aberta e espírito livre a entrarem em contato comigo. É sempre um grande prazer compartilhar meus trabalhos com outras mentes. Cada ser humano é um universo maravilhoso a ser descoberto! Seguem links para meus sites. Um grande abraço, vida longa e próspera a todos!

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* O Mito Ômega (clique aqui)  
* Freakpedia (clique aqui)  
* Ritualart (site pessoal - nova versão está sendo desenvolvida - clique aqui

O Bigorna.net agradece a Edgar Franco pela entrevista concedida por e-mail e finalizada em 30/11/2007

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