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Entrevista: Anita Costa Prado (Poesia e Quadrinhos contra o preconceito!)
Por Marcio “Ulisses” Baraldi
26/02/2007

Baraldão chega junto na Katita, ou melhor, Anita


Foi-se o tempo que gays e lésbicas podiam ser maltratados impunemente! Agora, em tempos de gigantescas Paradas e de leis que proíbem a repressão e discriminação de casais GL em locais públicos, só faltavam mesmo personagens de Quadrinhos homo-afetivos bem amados e bem resolvidos. E coube a uma brasileira, poetisa e escritora de Quadrinhos talentosa, lésbica das mais felizes, criar uma das primeiras personagens homossexuais bem resolvidas dos Quadrinhos. Anita Costa Prado criou Katita, uma garota bonita e charmosa que adora outras garotas bonitas e charmosas! E não perdeu tempo: lançou em 2006 o primeiro livro da personagem, colaborou com o livro Roko-Loko: Born to be Wild!, do Baraldão (esse nome não me é estranho!...), publicou poesias  aqui e ali , faturou dois prêmios Angelo Agostini como Melhor Lançamento e Melhor Roteirista e ainda papou um prêmio por sua poesia Somos loucos por ti, América!. Enfim, um 2006 bem agitado! Para falar de tantas alegrias, e também das dores e delícias de ser o que é, Katita, ou melhor, Anita concedeu esta entrevista EXCLUSIVA para o glorioso Bigorna.net. Atenção, machões inveterados, amarrem-se todos aos mastros que a sereia vai cantar. E é impossível resistir! Canta, minha sereia, canta!...

Vamos falar um pouco de sua origem. Quando você descobriu que tinha alma de poeta? Você vem de um clã familiarizado com a literatura?

Meu pai, apesar de militar e rígido, tinha uma veia poética e artística, enquanto minha mãe adora Castro Alves. Essas são minhas influências familiares, mas as leituras no colégio, especificamente na adolescência, me motivaram a escrever não só poesia, bem como contos e crônicas.

Quais são os poetas que realmente a tocaram? Aqueles com quem você compartilha uma “irmandade lírica”?

Não é bem uma irmandade lírica já que gosto de poetas irônicos, debochados e polêmicos como Gregório de Mattos, o “Boca do Inferno”, e Rimbauld. Mas sempre me interessei por poetas marginais, esquecidos pela grande imprensa, como Rogério Salgado.

Você me parece aquela canceriana típica: tímida, fechada, delicada, sonhadora, porém repleta de romantismo e sentimentos bem guardados dentro de si. É isso mesmo? Você diria que a poesia e a escrita foram o seu canal para escoar, como diria Roberto Carlos,”tantas emoções”(risos)?

Sou uma canceriana tímida, fechada e sonhadora mas a escrita sempre foi um meio de criticar, denunciar e polemizar; dificilmente escrevo algo romântico.

Como e quando surgiu seu interesse por Quadrinhos? E quando você decidiu que ia escrever Quadrinhos também?

Sempre fui, basicamente, leitora de Quadrinhos. Comecei a ter contato com desenhistas para que eles ilustrassem minhas poesias, contos e crônicas. Daí para fazer roteiros, foi um pulo.

Como e quando surgiu a idéia da Katita? Ela é auto-biográfica, não (rs)? Ela serviu também para ajudá-la a se resolver bem consigo mesma?

A Katita surgiu em 1995, achei que uma personagem lésbica deveria ter espaço, retratando seu cotidiano de forma bem humorada. É auto-biográfica sim e a maioria das tiras é baseada em fatos reais, bem como personagens. Na entrega do Angelo Agostini, por exemplo, vários personagens do livro estavam lá. Mas nunca tive grandes problemas com auto-aceitação; sou tímida para conversar com um desconhecido, por exemplo, mas totalmente desencanada e desinibida com minha orientação sexual.

Como você vê a situação dos gays e lésbicas nas HQs? Você acha que este público está esquecido e faltam personagens “politicamente corretos” e livres de estereótipos pejorativos com os quais possam se identificar?

Não diria esquecido, mas ainda há espaço para muitos personagens que retratem a comunidade GLBT. E é óbvio que a conduta de um personagem, gay ou não, não deve ser algo limitador. Mas além de politicamente corretos é interessante mostrá-los sem conotações preconceituosas, afinal, os Quadrinhos podem e devem ser um veículo para combater o preconceito e derrubar tabus.

Você conhece a poetisa Safo, da ilha de Lesbos, patrona das artistas lésbicas? Qual a importância que você atribui a obra dela?

A danadinha da Safo, pelo que dizem, ensinava suas alunas a arte da poesia e também do amor entre mulheres. Sua importância vem da referência em si, mas pesquisadores dizem que vários textos atribuídos a ela não são comprovadamente de sua autoria.

Quais os Quadrinhos e personagens que lhe influenciaram?

Sou apaixonada pelo Zé Carioca e Professor Pardal. Me identifico com a Magali na questão da melancia, e apesar de ser careta e certinha, eu adorava a Rê Bordosa (que Deus a tenha). Mas bebi de várias fontes; muitos personagens me encantaram e encantam e devo ter sido influenciada por dezenas deles. Agora preciso contar uma coisa: uma vez vi as histórias de uma personagem que me deixou chocada, mas achei a idéia e o desenho genial! Era de uma personagem chamada Pitt-BullTina. O tempo passou e o responsável por isso entrou profissionalmente na minha vida e agora está me entrevistando (risos)!...

Sééério?!?!? Quem será esse cara (gargalhadas)?!?

Um maluco aí (risos)!

Como está a sua produção poética? Além do Livro da Tribo, onde mais as pessoas podem encontrar poesias suas? Você tem algum livro de poesias publicado?

Minhas poesias estão espalhadas nos jornais alternativos, fanzines e antologias pelo Brasil afora. Mas minha maior ferramenta tem sido a Internet; basta clicar meu nome em algum buscador. O Livro da Tribo é uma agenda poética com a qual colaboro desde 1997 e quero continuar colaborando. Quem a conhece sabe que é uma das melhores publicações do Brasil!

Que tal foi faturar três prêmios de uma só vez? Seu ego está muito inflado (risos)?

Estou muito feliz, mas sei que não consegui nada sozinha! Sou grata ao meu desenhista Ronaldo Mendes (que foi uma benção na minha vida), ao meu editor Henrique Magalhães e a todas as pessoas que votaram e me apoiaram ao longo do tempo! E ego é algo para ser combatido e não reverenciado.

Como você vê o preconceito contra a mulher lésbica hoje, tanto na mídia quanto no dia-a-dia? Acha que já houve avanços substanciais? Você milita em alguma entidade pró-direitos das mulheres lésbicas?

A mulher lésbica sofre o preconceito em dobro: por ser mulher e por ser lésbica, mas  tem que se impor e isso certamente começa pela auto-aceitação e inteligência. Os avanços só serão substanciais quando existirem ferramentas eficientes, com leis como a parceria civil por exemplo. Ao contrário do que muita gente pensa, não sou militante. No entanto, tenho uma ligação afetiva e artística com a CADS (Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual), órgão municipal que trabalha no combate à homofobia, oferece apoio psicológico e jurídico e faz uma série de atividades e eventos importantes para o respeito à diversidade.

Quais seus próximos planos mirabolantes para o presente e futuro?

Quero que a Katita voe mais alto, tenha uma tiragem ampla e distribuição eficiente. Sei das limitações da editora que me acolheu, mas tenho consciência de sua bravura diante de um mercado altamente competitivo. Tenho dezenas de novas tiras finalizadas, bem como ilustrações. Agora é hora de pensar novas estratégias, analisar propostas e solidificar contatos.

Deixe um recado final para a galera do nosso Brasil Varonil!

Seja quem você é e não o que os outros querem que você seja!

Pra encerrar, uma pérola poética de Anita (dificilmente escreve algo romântico, né? Sei!...):

Iguais
(Anita Costa Prado)

“Somos iguais
Na anatomia.
E, quem diria...
Iguais se atraem;
Desfrutamos da paz,
Amor e Alegria.
Tristeza, Agonia,
De fraqueza caem;

Quero só você
Como companhia.
Quem não entendia,
Já entende demais.
Gente a mais,
De pouca valia,
Tem a mania,
De querer sempre mais.”

(Foto de Marcio Baraldi)

O Bigorna.net agradece a Anita Costa Prado pela entrevista, concedida em 22.02.2007.

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