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Até a próxima estação, Mestre Colonnese!
Por Marcio Baraldi
11/08/2008

Baraldi entre seus dois mestres: Rodolfo Zalla e Colonnese

Eu era criança nos anos 70. Um moleque espevitado que não parava quieto, quase insuportável. Garoto ariano, muita energia pra gastar. Só uma coisa me acalmava: ler gibis e desenhar compulsivamente na mesa da cozinha, lotando cadernos e mais cadernoscom super-heróis, naves espaciais, carros absurdos e outras doideiras que é melhor nem lembrar. Consumia gibis vorazmente. Preferia os nacionais: Mônica, Pererê, Satanésio, Gabola, Sacarrolha, CRÁS, e claro, os "proibidos", aqueles que minha mãe não queria que eu lesse pois julgava prejudiciais à minha tenra saude mental: os de Super-Heróis e de... TERROR!!!

Pois lógico que eram justamente esses, que eu descolava escondido dela, que eu mais queria ler! E ali, naquele território "proibido" descobri a genialidade de dois mestres do Quadrinho mundial: "Eugênio Colonnese e Rodolfo Zalla". O primeiro, italiano, e o segundo, argentino, ambos radicados no Brasil, eram uma espécie de irmãos-gêmeos de profissão. Tinham um estúdio juntos, o histórico D-Arte, onde criaram milhares de páginas de Quadrinhos em verdadeira linha de produção. Suas cabeças ferviam de idéias, madrugadas eram passadas na prancheta, quilos e quilos de lápis, papel, borracha e tinta naquim eram consumidos mensalmente numa pequena "fábrica de Quadrinhos" tocada por dois artistas geniais e alguns colaboradores esporádicos. Foi uma ótima época para o Quadrinho nacional: muita demanda, muita produção!Uma época em que crianças e adultos liam MUITO, sem a concorrência desleal da Internert e dos videogames e quando a TV colorida ainda dava seus primeiros passos no Brasil. Nesse cenário Colonnese e Zalla sabiam ser comerciais sem perder a qualidade artística de seu trabalho. Ambos eram mestres em anatomia e dominavam técnicas modernas e vanguardistas de ilustração e acabamento. Tinham vivência internacional e estavam antenados com o que havia de mais atual no gênero.

Colonnese era o mais radical. Virginiano detalhista e obssessivo, não deixava escapar minúcia alguma em seus cenários elaborados, repletos de referências fotográficas, ou nas curvas irresistíveis de suas deliciosas mulheres "mignons". Boêmio convicto e grande fã do sexo oposto, se especializou em desenhar mulheres típicas brasileiras: morenas, baixinhas, quadris largos, seios fartos, bumbums arrebitados e... ahhhh!... bocas carnudas! Suas mulheres de papel viraram sua marca registrada. Inconfundíveis, eram reconhecidas à distância. Nos anos 70 elas pareciam uma coqueluche, estavam em todo lugar: nos gibis de Super-Heróis como Mylar e Escorpião (também produzidos pela D-Arte), nos de terror onde Colonnese criou a mais famosa delas, a vampira Mirza, em anúncios publicitários variados e acreditem se quiser... nos livros escolares! Como bons artistas "paus-pra-toda obra", Colonnese e Zalla não negavam fogo e trabalhavam maciçamente para os mais variados veículos. Nos anos 70 e 80 a maioria dos livros e cartilhas escolares eram com ilustrações suas.
E foi assim que travei meu segundo contato com Colonnese! Estudei com seus livros e reconheci os traços daquele mesmo autor dos arrepiantes Quadrinhos de terror e super-heróis que eu gostava tanto. "Que mundo pequeno! Será que algum dia eu ainda vou conhecer esses artistas pessoalmente?" pensava eu do alto dos meus dez anos de idade.

Pois bem, o tempo passou, aqueles desenhos na mesa da cozinha evoluíram e eu também me tornei um desenhista de Quadrinhos profissional. Publicava em zilhões de revistas nas bancas e ainda não conhecia pessoalmente meus mestres da infãncia. Porém, num dia no final dos anos 90, o destino tratou de corrigir essa falha. Foi na estação de trens de Santo André, bem no coração da cidade onde nasci e a qual Colonnese adotou como seu lar desde que chegou ao Brasil, nos anos 60. Vi aquele senhorzinho baixo e magro esperando o trem, com uma pasta dessas típicas de desenhistas debaixo do braço. Me pareceu familiar, embora com certeza não o conhecesse. Porém um detalhe foi determinante para eu puxar papo: um broche da editora Opera Graphica, uma das editoras para a qual eu trabalhava, na lapela de seu paletó!

Cheguei junto no hómi e o diálogo foi esse:
- "O senhor trabalha na Opera Graphica?"
- "Sim, faço Quadrinhos e ilustrações pra eles."
- "Coincidência, senhor! Eu também. Qual seu nome?"
- "Eugênio Colonnese."
- "Carvalho!!! Eu moro na mesma cidade e trabalho na mesma empresa que o mestre Colonnese e nem sabia?!???"

Por coincidência (se é que elas existem) eu tinha feito recentemente uma HQ para uma revista da Opera Graphica, onde parodiei a vampira Mirza. E por mais concidência ainda a revista estava na minha pasta (sim, eu também tenho uma pasta de desenhista!). Puxei-a e mostrei pra ele. O hómi ficou surpreso e disse que conhecia a HQ, tinha adorado e queria conhecer o autor. "Mundo pequeno!" pensei de novo, dessa vez do alto dos meus vinte e muitos anos. Entramos animados no trem e viramos amigos instantaneamente. Peguei a revista e escrevi na contracapa: "Mestre Colonnese, a vida é como uma longa viagem de trem. A cada estação alguns vão chegando e outros partindo. Vamos trocando de trens e de estações até chegar a uma  estação final, grande e luminosa, que existe em algum lugar, e onde nos encontraremos todos novamente. Obrigado por pegar um destes trens comigo". Ele leu emocionado, enxugou uma lágrima que se insinuou e agradeceu a revista.

Dali pra frente nos encontramos muitas vezes, em convenções de Quadrinhos, premiações, eventos, enfim, em muitas outras estações. Agora Colonnese pegou outro trem. Obrigado pela viagem, Mestre! E até a próxima estação!

(foto: Marcio Baraldi)

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