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Quadrinhos Poético-Filosóficos no Brasil
Por Edgar Franco
27/04/2010

Notadamente a partir do início dos anos 1990, o cenário quadrinhístico brasileiro tem demonstrado uma certa tendência a apresentar artistas que desenvolvem trabalhos poéticos, eles geralmente fogem aos padrões que compõem o que tradicionalmente ficou conhecido como HQ, ou seja, gênero narrativo formado por uma sequência lógica de imagens destinada a desenvolver um enredo. A primeira maneira encontrada para tentar classificar esses trabalhos foi chamá-los de “poéticos”, num paralelo com a literatura, ou seja, os quadrinhos tradicionais estariam para a prosa assim como os quadrinhos poéticos estariam para a poesia. Como todo rótulo, esse certamente foi insuficiente para classificar a abundância e diversidade dessas manifestações que não passariam despercebidas até ao mais desatento leitor que acompanhe o cenário de quadrinhos alternativos brasileiros. É importante frisar que os vícios de um mercado de HQs dominado por modas e tendências que saltaram do “mainstream americano” para o “mangá japonês”, nunca deram espaço para a obra desses artistas que raramente viram algum de seus trabalhos publicados no mercado, a não ser em coletâneas de autores.

Figura 1: Capa do álbum “A Guerra dos Golfinhos” de Flávio Calazans

Esse gênero de quadrinhos ficou restrito, durante duas décadas, ao prolífico cenário de fanzines brasileiro. Um dos maiores do mundo, fato revelado, entre outros dados, pela presença maciça de zines brasileiros expostos nas saudosas e notórias exposições mundiais de fanzines que aconteciam durante a década de 90 em Ourense na Espanha. Atualmente com a diminuição dos custos gráficos e a descoberta das possibilidades das leis de incentivo à cultura, esses artistas estão também publicando trabalhos com melhor acabamento, migrando das fotocópias para as revistas e álbuns com capa colorida.

O pesquisador e professor doutor Elydio dos Santos Neto está desenvolvendo um pós-doutorado na UNESP em São Paulo, no qual estuda os quadrinhos poético-filosóficos como um gênero genuinamente brasileiro, Elydio sintetiza as 3 características básicas desses quadrinhos : 1. A intencionalidade poética e filosófica; 2. Histórias curtas que exigem uma leitura diferente da convencional; 3. Inovação na linguagem quadrinhística em relação aos padrões de narrativas tradicionais nas histórias em quadrinhos. Para Elydio alguns dos principais autores de quadrinhos poético-filosóficos são: Flávio Calazans, Edgar Franco, Gazy Andraus, Henry e Maria Jaepelt e Antonio Amaral. Desde o final dos anos 80 alguns desses artistas começaram a se destacar por sua proposta que rompia com os padrões vigentes e por sua produção que era constante, demonstrando um interesse real em explorar as possibilidades da linguagem dos quadrinhos, sem prender-se aos limites da narrativa linear e aos cânones do desenho. Todos estes quadrinhistas possuem suas singularidades, mas algumas das características de seus trabalhos podem reuni-los num grupo que, como disse anteriormente, passei a chamar de quadrinhistas “poéticos-filosóficos”, anexando a palavra filosóficos ao rótulo por verificar que a maioria deles também apresentam trabalhos com a pretensão filosófica de levar o leitor a refletir sobre alguma questão existencial, citando inclusive filósofos, além de poetas.

Nesse contexto, Flávio Calazans (fig.1) foi um dos primeiros quadrinhistas a se notorizar pela qualidade de seus roteiros filosóficos, inspirados em fatos históricos, mitos, lendas e filósofos de todas as eras. Ele também desenvolveu um conjunto de HQs de inspiração alquímica, totalmente herméticas para não iniciados e com lógicas intrínsecas nada aparentes, além de fortes mensagens subliminares. Outro artista que se destaca nesse contexto é Gazy Andraus (fig.2). Seu trabalho também é muito pessoal e foge aos rótulos. De traço fluido e explosivo, muitas vezes Andraus lança mão de um processo semelhante ao da escrita automática tão utilizado pelos surrealistas, ou seja, ele desenha suas HQs diretamente à tinta sobre o papel, deixando imagem e texto fluírem sem nada questionar. O quadrinhista diz-se influenciado pela pintura Taoísta que está mais preocupada em captar a essência furtiva do momento inconsciente do artista do que em obter uma imagem agradável aos olhos. O trabalho de Gazy está recheado de citações a filosofias orientais e seu referencial esotérico vem sempre à tona em seus textos positivos, ele também sofre influência da poesia de William Blake, o visionário artista inglês. Gazy continua nos brindando com suas HQs de qualidade e singularidade únicas em zines e revistas alternativas como a mineira “Camiño Di Rato”.

Figura 2: Página de HQ de Gazy Andraus

Também se destaca no cenário nacional o catarinense Henry Jaepelt (fig.3), que desde o começo investiu num estilo pessoal e hermético, fundindo imagens oníricas e fantásticas a um texto poético algumas vezes niilista, noutras visionário e surreal, Jaepelt continua ativo e seu estilo único apurou-se muito no decorrer da década passada. Certamente o pesquisador americano Scott McCloud enquadraria o trabalho de Jaepelt na categoria de “Non Sequitur”, isto é, quadrinhos que não apresentam uma seqüência lógica aparente, mas que são ligados por nossas conexões inconscientes. Jaepelt continua criando HQs para os fanzines e em algumas delas conta com a colaboração de sua esposa Maria Jaepelt.

Figura 3: Página de HQ de Henry Jaepelt

Dentre esse grupo de artistas, o mais iconoclasta de todos é Antônio Amaral (fig.4), piauiense que apresenta um trabalho instigante, com traço fluído e intenso no qual trabalha abstrações e elementos da cultura regional, o mesmo acontecendo com seu texto aparentemente hermético, mas que é escrito a partir de uma cosmogonia própria extremamente interessante.

Figura 4: Página de HQ de Antonio Amaral

Como autor de quadrinhos também me considero integrante desse grupo, e acredito possuir minhas singularidades. Invisto em símbolos e arquétipos do inconsciente coletivo, recorrendo a mitos e lendas e somando-os às perspectivas hipertecnológicas pós-humanas, quebrando a forma narrativa tradicional dos quadrinhos. Para definir os meus quadrinhos e os de Gazy Andraus, o crítico espanhol Henrique Torreiro criou outro rótulo: “Fantasia Filosófica”.

Entre fins da década de 90 e início do novo milênio, uma importante revista dedicada aos quadrinhos poético-filosóficos foi publicada pela editora Marca de Fantasia, trata-se de Mandala (fig.5), título que durou 11 números e destacou trabalhos de Calazans, Gazy Andraus, Edgar Franco (fig.6), além de muitos artistas com menor produção ou que já deixaram de produzir quadrinhos, como Erika Saheki, Al Greco, Rosemário, Michel, entre outros.

Figura 5: Capas da revista Mandala

Alguns procuram buscar referenciais para as HQs poético-filosóficas, dizendo que seriam um reflexo tardio da HQ de FC que explodiu na Europa dos anos 70 com a Metal Hurlant, mas eu discordo dessa opinião, pois acho que a conexão evidente talvez seja o uso de figuras fantásticas  - como Ets, ninfas, seres mitológicos, híbridos humanimais - presentes nesses trabalhos. Penso que eles apresentam muito mais diferenças do que semelhanças com aquele momento da HQ européia, o que certamente lhes dá uma singularidade dentro do cenário mundial das HQs, ainda mais se observarmos o fato de que atualmente não se tem notícia de outra cena mundial de quadrinhos que esteja desenvolvendo as mesmas temáticas e estética.

Figura 6: Capa da revista “Artlectos e Pós-humanos # 4” de Edgar Franco

É claro que estes trabalhos, como toda e qualquer vanguarda, não são para o leitor comum, pois possuem um teor de conteúdo e uma exploração de linguagem que só atrairá leitores mais maduros e interessados em quadrinhos de arte, na expressão autoral. Muitas vezes os artistas abdicam da compreensão fácil por parte do leitor e usam referências literárias e mitológicas para construírem o seu trabalho, noutras vezes simplesmente deixam a poética fluir. Devido a isso existe uma grande polêmica instaurada no meio alternativo com relação a esses trabalhos, pois muitos críticos consideram-nos pretensiosos, sem pé nem cabeça ou até mesmo fazem questão de afirmar que não se tratam de histórias em quadrinhos.

Como quadrinhista tenho a plena convicção de que os meus quadrinhos destinam-se a um público muito restrito, mas não estou disposto a popularizar o meu trabalho visando o mercado, a minha preocupação é produzir algo que tenha conteúdo e ao mesmo tempo explorar o potencial da narrativa e do desenho, não ficando limitado à linguagem tradicional. Pago o preço por essa escolha, como todos os artistas citados também pagam, mas é algo feito com consciência.

 

Edgar Franco é artista multimídia, mestre em multimeios pela Unicamp, doutor em artes pela USP e professor do mestrado em Cultura Visual da UFG. Franco mantém a série regular de revistas “Artlectos e Pós-humanos” editada pela Marca de Fantasia (www.marcadefantasia.com) e a banda Posthuman Tantra ( www.myspace.com/posthumantantras )

 

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