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Como foi: sétimo dia do 6º FIQ (MG)
Por Matheus Moura
14/10/2009

José Aguiar, autor de Folheteen e Quadrinhofilia

Segunda-feira (12), dia das crianças, último dia de FIQ. Excepcionalmente neste ano o festival teve um dia a mais de programação, em vista do feriado. Por um lado foi muito bom, por outro nem tanto. Para os visitantes quanto mais melhor, apesar de segunda ter sido um dia bem morno em comparação com domingo. Já para os expositores, fica aquela sensação de “fim de feira” e todos estão doidos para irem embora. A programação seguiu normal, como nos outros dias, tendo oficinas infantis na parte da manhã e mostras de animações. Às 14h houve o bate-papo com José Aguiar. Muito simpático e atencioso, Aguiar falou do seu trabalho, carreira, pontuou suas principais obras. Tudo sendo ilustrado via data show. Apesar de haverem pouquíssimas pessoas presentes, a conversa rendeu. O autor falou que prepara a continuação de Folheteen, publicado pela Devir. Ainda sobre Folheteen, curiosamente, Aguiar disse ter feito o livro de trás para frente, pois a primeira página que havia desenhado era a última, a qual justamente ganhou o concurso para ser publicada. “Depois me propus o desafio de contar a história de como os personagens chegaram aquela situação mostrada na página”, pontua o autor. José Aguiar comentou ainda quanto ao fazer HQs históricas. Para ele, elas são essenciais para instigar o leitor a refletir quanto à realidade do país. E disse ainda gostar de trabalhar com HQ por encomenda, como a exemplo do álbum A Revolta de Canudos, escrito por André Diniz. Um dos motivos desse gosto, conta, é por “obrigá-lo” a pesquisar roupas, costumes, conhecer épocas etc.

Às 15h houve a mesa Quadrinhos fora do papel: multiplicando as possibilidades da linguagem nos novos mercados. Participaram Leo Ortiz, Alex D’ates e Gio Vieira. Os três fazem parte do Kaplan Project, um projeto que desenvolveu um mundo fictício estilo D&D, mas em Quadrinhos e para o formato Iphone. De acordo com os três, o Kaplan Project foi a primeira experiência do gênero o Brasil, tendo agora no mesmo mercado, ao lado deles, a Patre Primordium. O grupo foi questionado do porquê não fazerem a Kaplan para todos os formatos de celulares e foi dito que, se isso ocorresse, o formato mudaria e criaria uma diferença de padrão. O que não acontece mantendo a HQ exclusivamente para Iphone, uma vez que ele é padronizado. A Apple também desenvolveu uma loja online muito organizada destinada apenas a vendas de aplicativos, que, no fim, é outro ponto a favor do formato. O custo de cada episódio de Kaplan, para o leitor, é de R$ 1,79. Apesar dos poucos downloads, Alex disse já terem passado Os Transformers em vendas. O formato na tela, diferentemente da Patre, em que a história é rolada e possui dublagem, é quadro a quadro, estático e sem som. Para o trio criador, foi decidido assim para não saírem muito do padrão História em Quadrinhos. Pois, de acordo com eles, há características da linguagem em Quadrinhos que, quando mudadas, acabam por distorcer o entendimento do que seja Quadrinhos. Ao tocar nesse assunto, foi questionado justamente a falta da sargeta (o espaço entre dois quadros). Foi respondido que realmente eles não a usam, mas a mudança de um quadro para outro provoca sensação semelhante à da sargeta. Cada episódio possui em média 120 quadros que dá aproximadamente 24 páginas. Mais informações sobre o projeto aqui.

Will Conrad (à direita) falando sobre Anatomia


Logo em seguida, às 15h30min, ocorreu o bate-papo sobre Anatomia, com Will Conrad. Parecia que a mesa estava fadada a ser fria, sem muito o que se dizer. Grande parte disso devido à pouca presença de público. Mas no final ela rendeu bem. Como realmente era a proposta da mesa, ela se ateve a discutir técnicas de desenhos, teceu-se comentários a formatos anatômicos de personagens. Will criticou os aspirantes a desenhistas que só querem desenhar pessoas que usam anabolizantes e mulheres, como diz ele, “Barbies”, ou seja, que não existem. Às 16h30 teve início a mesa mais quente de todo o FIQ: Versão em Quadrinhos. Nela estavam Luis Gê (SP), André Toral (SP) e Wellington Srbek (BH). Quente porque, dentre todas as mesas do festival, essa foi a única que houve interação, discussão e discórdia entre os participantes. Luiz Gê começou a discussão falando de seu novo trabalho, O Guarani, e parodiou Lula ao dizer que “pela primeira vez no Brasil as grandes editoras se interessam em publicar HQs”, a exemplo da Ática. Foi então que acabou a energia de grande parte do centro de BH e a mesa teve de continuar na penumbra. Logo depois de Gê, André Toral fez suas considerações dizendo que as editoras, ao contrário de que Gê havia dito, não dão liberdade de criação, limitando bastante o artista, principalmente quando se é adaptação de literatura. Isso porque as Histórias em Quadrinhos ainda são vistas como arte de “retaguarda” e não de vanguarda, o que é um erro. Srbek toma a palavra e comenta a própria adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O autor comentou que teve o cuidado de manter o máximo possível do texto original de Machado, fazendo apenas pequenos ligamentos entre uma ideia e outra, acrescentando bem pouco ao texto.

Wellington Srbek, Luis Gê e André Toral


A discussão pesada entre os participantes da mesa se deu devido o desacordo quanto ao processo criativo. Enquanto Gê mostrava um posição de apoio ao que se era feito no país, Toral discordava e Srbek se manteve neutro. Em determinado momento Toral tomou a palavra e comentou do perigo de adaptar clássicos “indigenistas” como Iracema, e usá-los para fins paradidáticos, uma vez que não existe rigor histórico nessas obras. Ao contrário, elas por serem dadas a uma época de romantismo literário brasileiro, tendem a distorcer a caracterização do índio. Srbek lembrou que muitas das vezes esse material é usado em aulas de literatura e não de história e fez adendos quanto ao início de O Guarani de Gê, o qual retrata europeus no Brasil desbravando a floresta vestidos com armaduras medievais. Gê se sentiu ofendido e defendeu sua escolha dizendo que como estavam indo para batalha (devido às pesquisas realizadas) eles estariam, sim, usando trajes similares aos descritos. Os ânimos se inflamavam a todo instante. Até a mesmo um membro da platéia se sentiu impelido a intervir e tecer críticas quanto à obra de Gê, dizendo que a adaptação de O Guarani já havia sido realizada com extrema competência na primeira metade do século 20 e que não houve necessidade de se mudar ou acrescentar trechos da obra, como havia feita Gê. O consenso entre os três se deu quando a questão das Edições Maravilhosas, editadas pela Ebal. O ponto de acordo foi que esse material não usava a linguagem das HQs, pois nada mais era que literatura ilustrada, sendo o texto original publicado praticamente na íntegra, apenas subsidiando por ilustrações.

Olivier Tallec, autor de Negrinha


Terminada a mesa, a última conversa do 6º FIQ teve início. O convidado era o francês Olivier Tallec, co-autor do livro recém lançado Negrinha. O desenhista contou não ser artista de HQs e ter sido convidado a fazer o história Negrinha justamente por isso. A editora francesa Gallimard (literatura em francês), possui uma revista de mesmo nome, a qual tem como proposta justamente publicar autores não quadrinhistas fazendo Quadrinhos. No caso, Tallec trabalha principalmente ilustrando livros infanto-juvenis, os quais diz ter um mercado de 6 mil títulos anuais na França. O autor disse que a história de Negrinha é em parte biográfica, sendo narrada parte da vida da mãe de Jean-Christophe Camus, que franco-brasileiro. Para poder imergir no Rio de Janeiro da década de 1950, Tallec passou um período de três meses na cidade, a fim de “absorver a atmosfera da cidade e do povo”. Como curiosidade, Tallec diz ter tido de adaptar o traço para poder conceber a HQ Negrinha. Ele disse ainda que teve certa dificuldade por ter um método de trabalho diferente: ele primeiro faz as cores e, só depois, as linhas. Tallec contou que trabalha de duas em duas páginas em formato A4, pois ele costuma criar os desenhos no tamanho real em que serão publicados. Tallec adiantou também que Negrinha terá continuação e que já estão trabalhando nela. Atualmente ele desenvolve outro projeto de HQ para a mesma revista que publicou Negrinha, mas desta vez a respeito da Prússia em 1715.

Como saldo geral do evento, apesar do início conturbado e problemático (pelo qual a organização chegou a cogitar o cancelamento do FIQ), pode-se dizer que foi positiva. Aliás, para o pessoal dos estandes, mesmo com algum prejuízo pela chuva, houve sim muitos ganhos. Os dados quanto a visitação ainda não foram divulgados, mas dá para se ter uma ideia de que, caso não houve tantos visitantes quanto em 2007, houveram mais. Lançamentos de Quadrinhos independentes com certeza superaram a edição anterior. Atrações internacionais idem. Número de exposições e filmes exibidos também. Saiba como foi o primeiro dia (aqui), o segundo dia (aqui), o terceiro dia (aqui), o quarto dia (aqui), o quinto dia (aqui) e o sexto dia (aqui) do evento.

(fotos: Matheus Moura e Rose Lima [Assessoria do FIQ])

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