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Teatro: resenha de O Zoológico de Vidro (SP)
Por Ruy Jobim Neto
19/01/2009

O Retrato de uma Garota em Vidro

Kiko Mascarenhas e Cássia Kiss (respectivamente Tom e Amanda)

Cássia Kiss completa 30 anos de carreira artística com O Zoológico de Vidro, a mais recente versão do clássico de 1944, À Margem da Vida, de Tennessee Williams, que acabou de estrear em São Paulo, no SESC Consolação (Centro), e resolveu comemorar em alto estilo. Além dela, um elenco brilhante (Kiko Mascarenhas, Erom Cordeiro e Karen Coelho) divide a cena sob a criativa direção de Ulisses Cruz.
 
Tudo funciona magistralmente, a alma de Tennessee Williams está lá, através da tradução de Marcos Daud, da trilha sonora de Victor Pozas (em que brilhe o teclado da máquina de escrever para compassar os temas da sombria casa dos Wingfield), os figurinos de Beth Filipecki e Reinaldo Machado, a delicada iluminação de Domingos Quintiliano (com a complicadíssima e muito bem resolvida operação de luz de Tié Fabiano) e a cenografia dividida entre os móveis tristes, o armário com rodinhas repleto de objetos de vidro, o recamier, as armações das escadas de incêndio, soluções de Hélio Eichbauer.
 
A história é praticamente autobiográfica. Amanda Wingfield e seus filhos, Tom e Laura, residem em St. Louis, no Meio Oeste americano, em plenos anos 30. Ao mesmo tempo em que há Guernica e revoluções acontecendo mundo afora, a sociedade americana está cega (nas palavras do candidato a escritor Tom Wingfield, que trabalha num entediante depósito de calçados e, inquieto, chega a escrever poemas nas caixas de sapatos). Amanda vive o passado, quando era uma bela e falante jovem em Blue Mountain, uma fictícia propriedade rural da família, muito antiga (das colheitas de algodão e escravos), no Sul dos Estados Unidos. Amanda vislumbra um futuro brilhante para seus filhos, como ela imagina ter sido o seu próprio passado.
 
O espectador percebe, sabe e sente que está diante de um clássico do Teatro Universal. No palco, é aberto o cofre sentimental da pungente vida doméstica dos Wingfield (Tom, "alter ego" do próprio Williams, interpretado por Mascarenhas; Amanda, na pele de Cássia Kiss, com o devido histrionismo dilacerado pelas lembranças que lhe são doces pedaços de vida, e Karen Coelho na pele de Laura, a tímida irmã de Tom, manca e praticamente a razão pela qual a peça existe – inspirada na irmã de Tennessee Williams, Rose, transfigurada numa criatura frágil e sedutora - mesmo sem saber -, dona de discos antigos que o pai deixara para ela, além de animaizinhos de vidro com os quais ela fala).
 
A aparição do quarto personagem, Jim O'Connor, interpretado por Erom Cordeiro, um "candidato" a  pretendente de Laura (na cabeça de Amanda) é que vai mudar para sempre o destino dos Wingfield, vai transformá-los naquilo que eles menos esperam. Por último, o pai da família, que aparece apenas num retrato, a dizer da peça, "num tamanho maior que o natural", mas a presença desta foto ou da ida deste personagem estão vivos em Amanda (a orgulhosa esposa deixada para trás), Laura (os discos antigos) e Tom (na vontade de se juntar à Marinha Mercante e abandonar tudo, mesmo se sentindo culpado). 
 

Erom Cordeiro e Karen Coelho (interpretando Jim e Laura)


Karen Coelho é quem defende Laura, com os olhos arrebatados pela dor de ser quem é, sensibilíssima, a criatura mais amada pelo irmão Tom. A talentosa atriz carioca de 24 anos (que estreou em TV na novela  da Rede Globo Ciranda de Pedra, e que esteve no elenco do musical de Chico Buarque e Paulo Pontes Gota d'Água) tem, por sua graça de performance na peça de Williams, a platéia nas mãos. Um exemplo: no momento preciso em que entra para a cena do jantar, que acontece lá pela segunda metade do espetáculo, Karen arrebata e comove. A sétima cena da peça, por sua vez, com sua Laura praticamente seduzindo Jim O'Connor, sem saber e mesmo sem querer, o desfecho e o monólogo final de seu irmão, narrador, quando ela participa, é de mexer com nossas emoções. Tennessee Williams escreveu isso em estado de graça.
 
Kiko Mascarenhas compõe um Tom que revive suas memórias com sarcasmo por sua mãe, dor e saudade por sua irmã (lembremos que o primeiro nome de Tennessee Williams era Thomas, daí o alter ego), o ator vai no ponto, nem mais nem menos, é certeiro. Aliás, o elenco inteiro está todo muito intenso e coeso, contido e delirante, tal qual pede a delicada peça de Williams. Erom Cordeiro faz um Jim O'Connor engraçado e aspirante ao futuro, como foi escrito pelo autor, e leva a platéia com ele, nas piadas do personagem. Mas o show é também de Cássia Kiss, em sua comemoração de três décadas de palco. A atriz chega a um dos maiores personagens da Dramaturgia mundial em grande estilo. Cássia é daquelas atrizes de entrega. Haja vista sua composição televisiva para a memorável personagem Ilka Tibiriçá, da novela Fera Ferida, cujos trejeitos o Brasil inteiro imitou, à época. Amanda Wingfield é delirante, beira a insanidade, mas tem um amor tão intenso pelos filhos que acaba por sufocá-los. Cássia nos dá de presente esta jóia de personagem, em todas as filigranas.
 
O cenário de Helio Eichbauer não apenas corresponde ao clima da peça, ele gera possibilidades para a luz de Domingos Quintiliano praticamente nos deliciar, fazendo a platéia viajar pela "memory play" de Tom Wingfield. Como o personagem mesmo diz na sua fala inicial, numa peça de memória, você é levado pela luz suave, não realista, pela atmosfera diáfana, e pela música que você não sabe exatamente de onde vem. A tradução do texto, por Marcos Daud, expõe ainda mais algumas sutilezas, ele dá margem a brincar em alguns pontos, criar sem deixar de ser Tennessee Williams em momento algum. Os efeitos sonoros de Laércio Salles enfatizam o clima de memória da peça, dentro da cabeça de Tom (é onde estamos, portanto, enquanto platéia), pois os sons da casa parecem todos amplificados. Há piadas que Ulisses Cruz pontuou com seus atores que, à leitura do texto, ficam quase imperceptíveis. O diretor tira pedacinhos preciosos de vidro a partir de seu elenco. Jóia rara. São Paulo tem Williams no palco.
 
Portrait of a Girl in Glass era o título original de um conto de Tennessee Williams, onde ele falava inspirado sentimentalmente em sua irmã Rose, que era esquizofrênica, ela tinha verdadeira aversão ao pai, e depois foi submetida a uma das primeiras operações de lobotomia nos Estados Unidos. À Margem da Vida ou The Glass Menagerie (como foi traduzida mais fielmente para O Zoológico de Vidro), veio a partir deste conto e gerou um roteiro cinematográfico que Hollywood  encomendou ao dramaturgo depois do imenso sucesso da peça em Chicago, em 1944, e do ano seguinte, na Broadway, em Nova Iorque. O texto se tornou um dos maiores clássicos do Teatro Americano (Williams também escreveu outros sucessos, não menos clássicos como A Rosa Tatuada, Gata em Teto de Zinco Quente e Um Bonde Chamado Desejo).
 
A primeira montagem de todas tinha a luz e o cenário de Jo Mielziner. No elenco original estavam Laurette Taylor (como Amanda), Eddie Dowling (também produtor da peça, como Tom), Julie Haydon (como Laura) e Anthony Ross (no papel de Jim). O criador da EAD, Alfredo Mesquita, estava em Chicago quando da estréia, em 1944, amou a peça e comprou o livro com idéias de montá-la no Brasil. Mandou a peça por correio e pediu que o texto fosse traduzido. Voltando dos EUA, ao chegar de navio ao Porto de Santos, foi recebido pela atriz Nídia Lícia que, com o texto nas mãos, desfechou a pergunta: "Eu vou fazer a Laura, né?". Entre os atores que interpretaram Tom Wingfield estão Arthur Kennedy, Kiefer Sutherland, Christian Slater e Hal Holbrook. No cinema, há algumas versões – uma delas com Sam Waterson (sendo Katherine Hepburn a intérprete de Amanda) e outra sob direção de Paul Newman, com John Malkovich (onde Karen Allen fazia Laura e Joanne Woodward interpretava Amanda). Entre as atrizes que foram Amanda figuram Jessica Tandy, Brenda Blethyn, Maureen Stapleton e Jessica Lange. Laura foi interpretada por Calista Flockhart e Jane Wyman, entre muitas outras.
 
Há uma versão cinematográfica em preto-e-branco com Kirk Douglas (no papel de Jim O'Connor) que foi renegada por Williams. O filme, de 1950, praticamente mudava o final da história. Por outro lado, um filme inspirado por esta obra de Williams, Little Voice (aqui no Brasil foi chamado de Laura – A Voz de Uma Estrela), teve seu roteiro vindo de uma peça teatral escrita para o talento de uma ex-atriz do Old Vic, a britânica Jane Horrocks, que interpreta Laura, dona de uma voz magistral, colecionadora dos discos antigos que o pai lhe deixara, e tímida que só ela e com uma mãe dominadora (Brenda Blethyn). Mesmo sem haver quase mais nenhum ponto de ligação com The Glass Menagerie, o filme traz um elenco estelar, Brenda Blethyn (que já fez Amanda nos palcos), Michael Caine, Jim Broadbent e Ewan McGregor.
 
No Brasil, houve uma montagem de que muitos se lembram com imenso carinho (inclusive o diretor da atual montagem, Ulisses Cruz) que foi dirigida pelo grande Flávio Rangel, tendo no elenco Ariclê Perez (Laura), Edwin Luisi (Tom) e Beatriz Segall (Amanda). Anos mais tarde, houve a montagem com Regina Braga no papel de Amanda e seu filho na vida real, o ator Gabriel Braga Nunes, praticamente estreando no Teatro, no papel do inconformado Tom. Enfim, uma peça teatral com imenso pedigree. Impossível não se emocionar com essa delicada obra de Tennessee Williams, falecido em 1983. Que as velas de Laura sejam apagadas por muito tempo, ainda. Bravo!

(fotos: Lenise Pinheiro)
 
Serviço
O Zoológico de Vidro
Texto: Tennessee Williams
Tradução: Marcos Daud
Direção: Ulisses Cruz
Elenco: Cássia Kiss (Amanda), Kiko Mascarenhas (Tom), Karen Coelho (Laura), Erom Cordeiro (Jim)
Cenografia: Hélio Eichbauer
Trilha Sonora: Victor Pozas
Iluminação: Domingos Quintiliano
Figurinos: Beth Filipecki e Reinaldo Machado
Duração: 125 minutos (com intervalo)
 
Onde: SESC Consolação (320 lugares, ar condicionado)
R. Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque (Centro), São Paulo-SP
Quando: 6ª e sábados, 21h. Domingos, às 19h.
Ingressos a R$ 20,00
Até 22/02

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