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A Casa: Guimarães Rosa no teatro (SP)
Por Ruy Jobim Neto
13/07/2006


(Foto: Jorge Haddad)

O universo do escritor mineiro de Cordisburgo e imortal autor de Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa, invade com maestria um casarão tombado na Bela Vista, em pleno Centro de São Paulo. Para quem vem à capital paulista até 31 de agosto, o espetáculo A Casa é, com certeza, uma opção teatral de brasilidade garantida. E a montagem fica a cargo do Grupo Redimunho. Escrito e dirigido por Rudifran Pompeu com extrema sensibilidade e muita percepção do falar e sentir do brasileiro interiorano, A Casa ocupa, com suas salas, cozinhas, banheiros e quartos, o espaço onde hoje está a Escola Paulista de Restauro, num belo imóvel construído em 1912. Desde a entrada, o espectador se defronta com este Brasil. Um jagunço faz guarita. 
 
O público aguarda numa saleta com estantes antigas, fotos, fac-símiles de Guimarães Rosa, chapéus de couro, rádios com painéis estampando emissoras como a Nacional e a Mayrink Veiga, um prefácio para o espetáculo que se seguirá. O jagunço entra e anuncia a que vem. Um personagem novo aparece para o público e é ele quem vai conduzi-lo casarão adentro, para a vida, as dores, os amores, morte e redenção de personagens presentes em nosso Interior mágico e repleto de histórias. Nas salas e nos quartos é que os personagens se entrecruzam, amam e odeiam. Das dores dos oratórios, das loucas varridas, dos casais embrutecidos pelo sertão, nada cai no esquecimento da talentosa montagem. São painéis, quadros, cenas compiladas e costuradas como numa colcha de retalhos. O resultado é Brasil, em essência.
 
Como é dito no programa do espetáculo, o projeto "é uma intérmina viagem ao país da memória e as paisagens da lembrança estendem-se tanto fora como dentro de nós", e assegura que "não é gratuita a insistência na idéia da travessia desse sertão". Desta forma ouvimos cantilenas, vemos procissões de velas, monstros fantásticos dos medos de infância, mortes e durezas na vida do sertanejo. Guimarães Rosa ficaria orgulhoso. Daí, o elenco ter começado suas pesquisas há cerca de um ano, exatamente em Cordisburgo, cidade natal do autor de Sagarana. E foi nesse livro de Rosa que algumas das histórias foram inspiradas para compor o texto e o entorno de A Casa. Enquanto a platéia perpassa, em grupo, as salas, podem-se ver cenas de todos os tipos: uma garota nua se lava numa banheira, uma outra passa roupas e noutro ambiente dormem jagunços, noutro ainda uma prostituta aguarda o próximo cliente. Um mágico se apresenta com uma bengala voadora. Uma festa na roça. Quanto mais se adentra pelo casarão, mais imaginamos as vidas que por ali estiveram. E quanto mais A Casa vai seguindo suas cenas, mais mergulhamos na alma brasileira.
 
Outro momento do espetáculo exige do elenco (e mesmo da platéia) um pouco de resistência e boa vontade nas noites de inverno. Há cenas localizadas no quintal atrás do casarão e assim, munidos de cobertores cinzas, os espectadores assistem a cenas que se passam sempre às escuras, iluminadas por lampiões e tochas, nos confins dos sertões. Por isso, a sensação de que aquilo tudo nos é ancestral está sempre presente. E o ritmo é administrado com enorme prazer pelo Grupo Redimunho, uma vez que os integrantes se dividem na parte técnica, na trilha sonora e na ambientação geral. O Grupo tem o seu espetáculo nas veias, praticamente. No elenco de A Casa, além do diretor/autor Rudifran Pompeu, estão Carlos Landucci, Izabela Pimentel, Renata Laurentino, Leandro D'Errico, Juliana Fagundes, Miriam D'Errico, Érika Malavazzi, Karlo Caruso, Roberto Borenstein, Flavio Pereira, Giovanna Galdi, Felipe Pereira e Marcus Martins. E assim, os esforços de um elenco muito disposto, pesquisador e sério estão nas palavras de uma das integrantes do Redimunho, a atriz Érika Malavazzi, que demonstra que todo o trabalho do espetáculo "é fruto de muita dedicação e empenho de um grupo que abraçou uma causa única e exclusivamente por amor, chegando até a abdicar de propostas de trabalho economicamente mais rentáveis". A viagem a esse Brasil, portanto, tem uma passagem com tíquete garantido, neste belo e imperdível espetáculo em cartaz durante o inverno paulistano. E durante as noites interioranas de nossa memória.
 
Serviço
Data: até 31 de agosto
Horários: quintas e sábados às 21h (R$ 20,00) e domingos às 17h (R$ 25,00)
Local: Casarão da Escola Paulista de Restauro
Endereço: Rua Major Diogo, 91- Bela Vista
Informações: (11) 3237-4898

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