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Resenha: Elementos do Estilo Mangá
Por Alexandre Nagado
10/03/2011

“Por que é tão difícil para nós, ocidentais, desenhar em estilo mangá? Não como aquelas imitações que vemos por aí, mas em autêntico estilo mangá. Será possível superar as barreiras culturais e desenhar como os mestres japoneses? E afinal, em que consiste o mangá? Descubra-o nesta jornada pioneira rumo à essência do mais popular – e mais toscamente copiado – estilo do mundo. Desperte o mangaka que existe em você.”

Com essa provocação, escrita na quarta capa, o artista plástico João Henrique Lopes apresenta sua obra, o livro Elementos do Estilo Mangá. A tarefa a que ele se propõe é pretensiosa, mas não desprovida de embasamento. Primeiro, ele trata de separar a narrativa da definição de mangá. Ele busca as origens do termo com uma tradução literal: Desenhos transbordantes. Lembrando que outras traduções já se popularizaram, como “desenhos divertidos” ou até “desenhos irresponsáveis”. Considerando o termo a definição de um tipo de desenho, o autor exclui do processo a narrativa, ou seja, o encadeamento lógico de imagens e quadros que, no mangá, tem ritmos bem diferentes da maioria das HQs ocidentais. Segundo o autor, “A história de um mangá pode ser contada de qualquer jeito, mas não desenhada de qualquer jeito. As características desse jeito são o assunto de todo o livro”. Cabe aqui registrar que o significado de mangá tem evoluído, bem como suas formas, e que muitos autores, incluindo este que vos fala, têm dito que a narrativa é o principal elemento para o moderno mangá. Pode-se discordar do pensamento do autor, mas não sem uma lida cuidadosa no livro, que é muito bom - e seria melhor se tivesse mais imagens, imprescindíveis nesse caso.

Considerar mangá somente pelo aspecto ilustrativo é deixar de lado as conquistas narrativas de Osamu Tezuka e dos grandes mestres da arte sequencial japonesa. Mas é a opção do autor, que explica seus pontos de vista e busca diversas citações para reforçar seus argumentos. No livro, a força da argumentação vem de explicações sobre os conceitos ligados à arte no ocidente e no oriente e o quanto a espontaneidade sempre foi cultivada na arte japonesa. Os exemplos são numerosos e, ao citar obras conhecidas do público brasileiro, a leitura torna-se mais saborosa.

Há questões técnicas que podem discutidas por profissionais do traço. Em certo momento, ao comentar sobre a naturalidade do desenho finalizado com pena, ele descreve as canetas como “ferramentas inflexíveis”. Não é assim que são as canetas descartáveis de tinta permanente, ou as canetas com ponta de pincel. Ele se refere às tradicionais canetas de nanquim, realmente rígidas quanto à espessura e fluidez de traço e cujo uso tem diminuído bastante.

No geral, a visão é bastante romântica e idealizada da arte, mas autores com prática profissional na produção de HQs ou ilustrações podem ter outra visão sobre retoques manuais ou digitais. Enfim, é um livro para ser debatido e é uma importante referência sobre aspectos criativos do desenho. Quando o autor discorre sobre economia de traço, soluções de contraste, clareza de informação visual e composição, a leitura informativa se converte em aula, sendo interessante tanto para o iniciante quanto para o profissional e o pesquisador. Meio sem querer, a preocupação com a clareza narrativa invade o discurso sobre o visual, mostrando que o mangá é, acima de tudo, uma forma de HQ que se destaca por contar bem uma história – e o faz com as mais variadas técnicas de desenho.

Elementos do Estilo Mangá nasceu do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) em Artes Visuais do paraense João Henrique Lopes pela Universidade Federal do Pará (UFPA). O livro é uma publicação independente do autor (que também desenhou a capa) e pode ser adquirido no site da Livraria Cultura.

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