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Resenha: Graffiti 76% Quadrinhos #16
Por Matheus Moura
21/11/2007

Não dá para esperar pouco de uma revista como a Graffiti 76% Quadrinhos. Não é para menos, neste novo número – lançado durante o FIQ (MG) e em SP neste mês – a revista se supera ao trazer para suas páginas artistas do velho mundo. Infelizmente aí começa uma das “falhas” da revista: não são indicados quais trabalhos são estrangeiros, levando o leitor a adivinhar quem seria os quadrinhistas italianos. Isso se torna um “problema” pois dois brasileiros têm sobrenomes que se assemelham ao italiano (se não o forem) como é o caso de Guazzelle, autor da primeira história, Midia Trainning. Nesta HQ é narrado um contratempo envolvendo uma grande marca de eletrodoméstico e a busca da assessoria por abafar/resolver o caso. Uma história simples, mas muito bem construída mostrando o lado oculto de coisas que geralmente passam despercebidas na vida. Antes desta que é a primeira HQ – e ao fim –  da revista, há as características fotografias que compõem a Graffiti. Neste número elas foram tiradas por Rafael Soares e Enzo Giaquinto (sedas).

Na página em que se encontra o índice da edição, abaixo da gravura central há um texto em italiano, o qual não possui tradução para o português. Despertou a curiosidade e ficará por isso mesmo. Acredito que, mesmo o texto sendo dirigido ao público estrangeiro, não custava deixar os brasileiros a par da informação. Na segunda história, Vizinhos de Casa, de Giacomo Monti, a trama gira em torno das incoerências humanas. Como as pessoas agem sem ao menos refletir com relação a seus atos não percebendo nos outros a si mesmos. A HQ é desenhada com traços simples, entretanto extremamente competentes, por terem boas perspectivas e representação de ambiente. O uso do vazio pelo autor é um dos pontos altos na composição de página. Na seqüência, Ciranda Coraci, de Wellington Srbek com traços de Laz Muniz: nesta HQ é adaptada uma lenda indígena a respeito da criação. Os desenhos são bastante firmes e variam de uma passagem à outra sendo em alguns momentos extremamente detalhistas e em outros mais solto, pendendo ao infantil. A quarta história fica à cargo de André Diniz: De Pai Pra Filho se passa durante a escravatura no Brasil. Com seu traço singular André consegue dar uma dinâmica ímpar à narrativa. Percebe-se, vez por outra, principalmente na composição de cenário, influência de Colin. Nos desenhos o destaque fica para as expressões dos personagens. Em Arado, de Bruno Azevêdo e Marcelo D'Salete, há traços fortes que representam bem o clima de roça, onde tudo se apresenta diferente de ante dos olhos de citadinos. Apesar de simples a história demonstra bem como pensa alguém que vive pela enxada.
 
Logo em seguida a única história propriamente colorida da revista: Dulce, de Lelis. Como na Ragú #6, Lelis conta a história de um viajante que chega a uma cidade qualquer e lá acaba passando por situações inusitadas. A aquarela do autor é linda, combina perfeitamente com seus cenários e personagens estilizados. Destaque para a representação arquitetônica – soberba. Chegamos ao meio da revista, o qual possuí a HQ Bang! Bang!, de Caballero (também autor da capa) e o texto O Quadrinho Undergound Italiano, escrito por Maurizio Ercole. A HQ, à primeira vista, parece ser bastante repetitiva, com cenários simples, mostrando prédios e situações diárias da noite em uma grande cidade. Poderíamos colocar a cidade representada como qualquer uma no país, porém o autor dá dicas de que se passa em Belo Horizonte, como por exemplo a aparição do Edifício Niemayer, na praça da Liberdade, região central da capital mineira. Além disso, o autor se apropria de criações de outros artistas para enriquecer sua história; é o caso do personagem do quadro O Grito, do pintor Edvard Munch. No texto escrito por Ercole, apesar do título, aborda mais a obra do autor – o qual colabora também com uma HQ – sem deixar de falar um pouco a respeito do cenário subversivo italiano.
 
Passado o meio da revista, encontra-se o texto do professor da UFMG, Bruno Guimarães Martins, A Suspensão da Leitura, o qual faz um ensaio quanto “tipografia popular”, comum nas cidades brasileiras – grandes ou pequenas. Legal ficou colocar o texto escrito à mão, apesar de alguma dificuldade em se ler o que está escrito em alguns momentos. A falha mesmo fica por conta da repetição do último parágrafo. Incomoda também ser divulgado um e-mail ao fim do texto traduzido para o italiano, sendo este não mostrado ao fim do texto original. Em seguida, La Piazza, de Bagnariol Piero. Uma história que fala de linguagem e interpretação. Bastante interessante, nos faz refletir quanto a significação das escrituras antigas e a grande influência religiosa impregnada no simples fato de se comunicar. Um bom artifício do autor foi usar linhas pretas durante uma seqüência de quadros para mostrar uma linha narrativa diferente, fazendo com isso duas histórias paralelas. Andrea Bruno conta a história Aquilo que Queima: esteticamente é a HQ que mais se destaca na revista, seus desenhos são Agressivos, sujos e, ao mesmo tempo, bastante expressivos. Infelizmente por conta de tamanha “brutalidade”: o penúltimo quadro ficou indecifrável – ao menos para mim. Esta é uma história em que seu sentido está restrito a ela mesma, desconexo a qualquer outro ponto de conhecimento do leitor.
 
Chegando ao fim, há a HQ de Ercole, Serial Toys. Nos traços o Quadrinho se mostra bem influenciado pelo underground estadunidense, com expressões características às utilizadas por esse movimento. A trama é legal, apesar de em alguns momentos parecer forçada. É uma espécie de terror. Para encerrar as HQs, Exercício nº 26, de Odyr. História curta interessante e bastante reflexiva. Há citações à Freud, Picasso, Vaudevile e Mcay (Little Nemo). Apesar de tudo acima, não há como realmente explicitar como é a Graffiti 76% Quadrinhos, tanto a 16, 15, 14, etc. Há de se ter em mãos e apreciar o belíssimo trabalho que vem sendo realizado em BH com a edição desta que já toma característica de cult dentro do cenário nacional de HQ. Precisa recomendar?

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