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Saudades da Chiclete com Banana
Por José Salles
21/07/2005

Claro que cedo ou tarde eu iria acabar falando sobre um gibi Chiclete com Banana - é sem dúvida o marco incontestável no mercado editorial brasileiro, "o primeiro fanzine de grande circulação", como bem definiu Glauco Mattoso (um assíduo colaborador na história da Chiclete). Então por que escolhi este número 24? Pra ser diferente dos outros, que provavelmente escolheriam o primeiro número da revista, e não este nº 24, que foi o último? Por que escolher um número que não tem sequer os dois ícones da revista, Rê Bordosa & Bob Cuspe? Já sei, tá tudo mundo pensando no jogo do bicho, né? Bem, primeiramente, numa coleção antológica como esta da Chiclete com Banana, que influenciou toda uma geração de udigrudeiros - donde eu humildemente me incluo, afinal, li a Chiclete desde o primeiro número, e mesmo quando, num primeiro momento, fui obrigado a me desfazer de minha coleção, não descansei até conseguir refazê-la novamente.

Todos os números da Chiclete, uns mais, outros menos, foram inesquecíveis. Este número 24 trouxe quadrinhos e textos de grande impacto, que até hoje estão grudados na minha memória. Por que foi este o último número da revista, se as vendas não estavam indo mal, mesmo em plena depressão collorida? Tento encontrar algumas explicações: primeiro, a evidente & eterna instabilidade financeira do país, que pode variar de uma semana para outra (que diremos de um mês); segundo, algo que li no livro Fantasias e Cotidiano nas Histórias em Quadrinhos, do pernambucano Nadílson Manoel da Silva. Diz o autor que o crescimento editorial da revista Chiclete com Banana, paradoxalmente a este sucesso, levou o gibi ao cancelamento - e isto se deu porque o público que catapultou o sucesso da Chiclete (as tribos urbanas das grandes cidades brasileiras) foram deixadas de lado - não que os editores quisessem, mas com uma tiragem de centenas de milhares de exemplares, inviabilizou-se a possibilidade da revista funcionar como um fanzine - a característica que a tornava diferente de todas as outras publicações, o fato que a fez ganhar vida própria e ditar usos & costumes a toda uma nova geração de leitores que se formava. Não espanta que a sessão de cartas deste número seja pífia se comparada aos números anteriores - não há nem mesmo a consagrada seção dos suburbanos, onde as tribos deixavam seus recados & recalques.

Outro motivo que me vem à cabeça e que talvez explique o cancelamento da revista Chiclete com Banana, diz respeito aos anseios pessoais e profissionais do editor Angeli. Talvez ele mesmo estivesse querendo mudar de ares, fazer outra coisa menos cansativa e ingrata, algo assim. Não me esqueço duma entrevista que li não muito tempo depois do lançamento deste número 24, onde Angeli reclama de sua HQ Drugstore, a primeira que aparece nesta edição. De memória, recordo-me que o quadrinhista se dizia muito insatisfeito com a referida HQ, que a fez meio forçado, algo assim - repito que relembro esta entrevista de memória, sujeito que estou a equívocos. Vejam como são as coisas: se esta Drugstore realmente desagradou ao próprio autor, foi umas das histórias que mais me divertiram em toda a trajetória da Chiclete. Cheguei a tirar cópias de algumas páginas e as deixei fixadas na parede da casa onde eu morava, na ocasião (na cidade de Bauru/SP - e isso acabou me causando alguns problemas com o proprietário). Drugstore fala sobre Cosmo, um modista drogado que pira de uma vez e cai no evangelismo.

Este número, assim como todos os outros, trouxe colaborações fantásticas. Cito as marcantes: a piada de As Abobrinhas da Brasilônia, de Glauco "Geraldão", é de trincar o bico: um guri esperto tira sarro do pai cocainômano (era bonzinho, o pessoal da Chiclete, né?); e a terceira parte de um artigo de Cláudio Willer sobre escritores beatniks e a relação das drogas com a literatura - até então, eu jamais lera alguém tratar esta questão sem hipocrisia, como fez o Sr. Willer nesta série de artigos (teríamos o quarto, se houvesse um 25º número de Chiclete com Banana). Foi lendo estes artigos que eu, assim como boa parte da multidão de leitores do Chiclete, fomos apresentados a escritores como Burroughs, Cassidy, Kerouac, Solomon e outros malucos. Há passagens no texto de Willer que até hoje estão registradas em meu cérebro - e foi com muita diversão que reli este trecho que agora lhes transcrevo: "quanto aos efeitos sociais da droga, aos danos que causa, deve ser incluída entre eles a chatice, principalmente daqueles que bebem além da conta e acham que o resto da humanidade deve servir de platéia para seus delírios". Matou a pau.

Segue um artigo como sempre muito provocativo de Glauco Mattoso, lindamente ilustrado por Osvaldo. Especialista que é da parte mais baixa do ser humano, Mattoso narra sua experiência como jurado de um concurso para coroar o pé e o calçado mais chulepentos dos EUA. Na verdade, o articulista jamais fôra convidado para tanto, mas, usando seu inegável talento de escritor, aproveitou-se deste fato real para o exercício de sua deliciosa & provocativa ironia (acreditem, eu vi esse concurso sendo noticiado pela TV!!! E os jurados iam lá e metiam o nariz nas solas fedorentas! E pareciam gostar muito!).

Os leitores na certa se lembram do encarte Jam, não é? A revolução dentro da revolução, um fanzine mal disfarçado dentro da revista (ou gibi). As iniciais j-a-m a cada número tinham um significado diferente, sempre meio nada há ver (aqui temos "joelhos atrapalham manicures". Me lembro de outro que dizia "jamais amei mamãe", e outro ainda mais engraçado, "jumento alucina mulheres"). Neste número, o destaque do Jam é uma entrevista cabeluda com a polêmica banda de ska Vírus 27 feita por Glauco Mattoso. Oi!Oi!Oi! A despeito dos esforços do entrevistador e do entrevistado para separarem o joio do trigo (ou seja, diferenciar as bandas carecas das bandas white power), se esta entrevista fosse publicada nos dias de hoje, provavelmente os editores da revista Caros Amigos (onde Glauco Mattoso atualmente publica uma coluna mensal), incentivados por Frei Betto, não só demitiriam como também mandariam prender o poeta podólatra.

Outro destaque do Jam são algumas fotos de Robert Mappelthorpe, o controvertido fotógrafo estadunidense, suas viadagens & perversões (que inclui um cabo de chicote enfiado no próprio cu). E ainda os ilustradores, as feras que sempre marcavam presença: Adão Iturrusgarai, Fábio Zimbre, Luiz Gê. Chiclete com Banana nº 24 ainda tem HQ antológica de André Toral, uma história de amor, traição e luta-livre no bairro paulistano da Mooca; os samurais tresloucados de Newton Foot, e uma curiosíssima HQ de Priscila F. zoando com os straight edges - se fosse publicada nos dias, de hoje, talvez alguns dos xsxex (faltou algum x?) fizessem alguma emboscada nalgum canto da cidade para espancar a desenhista. As contracapas de Luis Gustavo (o sujeito mais cool dos quadrinhos) e do próprio Angeli são obras de arte. A de Luis Gustavo eu reproduzi no fanzine Gibizada Extra - Galeria de Arte nº 1.
  
Há um texto de Furio Lonza que é mais do que curioso. "Psicografando" o inquisidor Torquemada, Lonza aproveita para escrever um artigo irônico sobre tipos que já haviam torrado o saco, de tanto tempo que estavam na TV. E querem saber quais foram alguns dos nomes citados? Hebe Camargo, Roberto Carlos, Jô Soares, Chico Anísio, Renato Aragão, Ronald Golias, da Nóbrega, Sílvio Santos. E isto em 1990, pobre de nós! E ainda dizem que a vida é curta... só pra quem é atropelado com 5 anos de idade. Chiclete com Banana não poderia deixar de vir com todos aqueles tipinhos inúteis: Bibelô; Rampal, o paranormal; Wood & Stock; Angeli em Crise - personagens consagrados no panteão nacional, marcas históricas das HQs de todos os tempos.

 Veja também:
 Bang-bang Brasiliano

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