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Entrevista: Sergio Júnior
Por Marcio Baraldi
30/01/2010

“Os fanzines têm importância fundamental na contracultura!”

Sergio Júnior, o "pai" do personagem Fécum

O carioca Sergio Júnior é um dos mais ativos fanzineiros do Brasil. Figurinha fácil no meio das publicações independentes, este advogado, poeta e roqueiro ainda arruma tempo para ser roteirista de Quadrinhos e espalhar seu personagem Fécum, um roqueiro cabeludo que fuma o dia inteiro, por uma infinidade de fanzines pelo Brasil. Seu personagem, aliás, nasceu ainda na puberdade do autor, como um grafite pelas paredes dos subúrbios do Rio e ganhou vida depois como personagem de tiras. Nesta entrevista exclusiva ao Bigorna.net, Sergio falou de tudo um pouco: drogas, violência urbana, política, Capitão Aza e, claro, muitos Quadrinhos! Puxe fundo e segure, caro leitor, que a fumaça vai subir! Cof, cof, cof...

O teu personagem Fécum já completou trinta anos. Mas você ainda é novo, então você era criança quando criou o Fécum? Como nasceu o personagem, afinal?

Na verdade eu tinha 12 anos de idade quando criei o Fécum! Foi em dezembro de 1979 e eu queria retratar os maconheiros do bairro, uns caras cabeludos, esguios, que viviam pelas sombras e esquinas. Então, um dia eu fiz uma caricatura desses cabeludos numa banca de jornal, arranhando na tinta com minha chave. Nascia ali o Fécum!!! Pior que meus colegas gostaram do personagem e passaram a desenhar também e virou moda lá no bairro! Aí passei a desenhar ele com pincel atômico em muros, portões, bancas, etc, virou uma praga pela cidade (risos)! Aí em 1982 comecei a fazer umas tiras dele e publicar no jornalzinho do Colégio Hélio Alonso, onde eu estudava. Mas ainda era tudo descompromissado. Eu vivia deixando ele engavetado, fazia algo e guardava na gaveta. Só mesmo a partir de 2002 passei a publicá-lo em vários fanzines pelo país, além de fazer meus próprios fanzines também.

O Fécum é um roqueiro cabeludo que fuma erva o dia inteiro. Por acaso ele é auto-biográfico (risos)?

(risos) Não, não... Mas pior que todo mundo pensa isso mesmo (risos)... Eu até tentei afastar mais ele de mim. Por exemplo, nunca o fiz falando do KISS ou usando camiseta do KISS, pois todos sabem que eu sou superfã da banda. Mas aconteceu algo engracado, eu não curtia Beatles, mas fazia o personagem ouvindo Beatles direto e por causa disso comecei a ouvir e acabei gostando. Ou seja, o Fécum me influenciou (risos)! Mas eu pessoalmente não suporto fumaça e, acredite se quiser, nunca puxei um fumo. Acho que se eu desse um trago morreria de intoxicação (risos)!...

Mas, agora a pergunta que não quer calar... afinal, o que quer dizer Fécum?!? Da onde você tirou esse nome (risos)?!?

Capa de uma edição do
fanzine do Fécum

Putz, essa nem eu sei responder (risos).... Vai ver que o vento fez a fumaça dos caras vir pro meu lado e eu acabei bolando esse nome (risos). Mas foi assim, eu desenhei ele na tal banca e escrevi embaixo "Fécum". Mas não tem nada a ver com fecundação, nada disso. Botei porque gostei da sonoridade mesmo. Eu ia colocar o nome dos caras que fumavam, Estéu, Preá... mas aí eles poderiam não gostar, né (risos)?!... Mas foi perfeito assim, não consigo imaginar o Fécum com outro nome.

Você gosta do Capitão Presença, do Arnaldo Branco? Já imaginou um crossover entre o Fécum e o Capitão? Quem faria mais fumaça (risos)???

Conheci o pessoal que faz o Capitão Presença, até mandei uns argumentos para eles. Na época sugeri entregar o zine na entrada das sessões do filme com os personagens do Angeli, Sexo, Orégano e Rock'n'Roll, teria tudo a ver. Um encontro com os dois seria bem legal... Quanto a saber quem puxa mais fumo, acho que é Preza, pois o Fécum acorda muito tarde (risos)!...

Você é do Rio de Janeiro. Por que a galera do Rio sempre teve esse humor escrachado, depravado, descompromissado? Você acredita que o clima praiano desenvolve o bom humor das pessoas?

Acho que a praia ajuda mesmo. Mas o carioca sempre teve aquela fama de malandro, do gingado, de estar sempre dando um jeitinho, bem Zé Carioca mesmo. Nos anos 80 tinham os filmes Garota Dourada e Menino do Rio, as surf-wear Píer e Bolt, a K&K, o chinelo Katina Surf, o bairro da Lapa, a Praça Mauá, tudo tinha esse clima meio malandro, descontraído. Acho que herdamos um pouco a tradição da malandragem e o fato de vermos as coisas meio que com mais escracho. Vemos os palavrões, o sexo,a sacanagem, de forma natural...

Você gosta dos humoristas clássicos do Rio de Janeiro? Se identifica com eles? Me diga o que você acha de cada um destes: Stanislaw Ponte Preta, Jaguar, Barao de Itararé, Millôr, Nani, Casseta & Planeta.

Interessante, tem uns caras que eu me amarro e muitos nem são daqui do Rio, sabe? Desses que você citou não curto muito o Ponte Preta, mas reconheço sua importância. Jaguar é um cara meio impaciente, mas isso é algo particular dele. Quanto ao trabalho dele eu gosto, é ácido e cínico, um humor muito crítico. O Barão tem um estilo bacana, meio diferentinho, mas legal. Mas não é dos que mais gosto. Millôr eu acho legal, inteligente e fino. Classudo mesmo! Nani eu acho um barato, já vi muitos cartuns dele nos jornais, todos impagáveis!!! Já a Casseta & Planeta eu não gosto. Mas deixa eu citar aqui, dois caras que me amarro de montão: Ofeliano e Ota! Esses são nota DEZ!!!

Você fala de marola nos seus Quadrinhos. E ao mesmo tempo conhece de perto o problema do tráfico de drogas e da violência nos morros cariocas. Na sua opinião, como resolver esse problema todo? A legalização de todas as drogas seria a solução, ou parte dela?

Aqui no Rio falta muita disposição das autoridades para combater o crime de verdade, usando inteligência e estratégia! Cercar, asfixiar e invadir! Mas infelizmente tem muitos interesses envolvidos e a coisa vai sempre ser assim. A liberação da maconha diminuiria pouco o lucro do tráfico e o enfraqueceria pouco também, pois eles vivem mais da cocaína, e tem boa fatia no comércio de armas também. Teria que haver um esforço conjunto, envolvendo a educação da população, mas também um efetivo interesse das Polícias em sufocar os focos onde estão os marginais.

Na sua opinião, porque drogas terríveis como o cigarro e o álcool sempre foram legalizados e a maconha, que é tão popular, ainda não foi? Quem ganha o que com a não legalização da maconha e da cocaína?

Em parte, parece que o pessoal gosta mais da maconha assim, proibida, parece que tem mais prazer no proibido. A maconha tem até uso medicinal. Acho que o lance é saber quem a venderia e como. Se por um lado tem gente faturando com a erva, por outro, faturariam também com a legalização. Acho que há um receio de alguma empresa tomar a frente pelo seu comércio legal e ser mal interpretada. Por mim liberava. Isso deixaria meu personagem menos marginal (risos)!...

Sei que você é um grande admirador do Getúlio Vargas. Se você fosse presidente do Brasil, o que faria por estas questões: violência e tráfico de drogas, meio ambiente e devastação ambiental e educação?

É verdade, sou mesmo. Bem, agir contra a violência seria o mais fácil. Apoio das Forças Armadas, cerco eficaz aos pontos de risco, onde o tráfico se esconde, cadastramento de moradores, invasão pacífica e educação e conscientização dos moradores, sobre o Estado e suas Leis! O Meio Ambiente sempre foi bandeira de campanha dos políticos,mas na prática sempre recebeu pouca atenção. Só mesmo incentivos fiscais e multas pesadas podem ajudar a melhorar este campo. E a devastação ambiental é outro assunto que, com disposição, pode ser resolvido! Aeronáutica, Exército e a Polícia Federal podem deter o desmatamento!!! Mas, com certeza, também temos interesses escusos envolvidos nessa destruição toda. A Educação teve uma queda assustadora de uns anos para cá. Não basta oferecer ajuda de custo. Tem que, em primeiro lugar, conscientizar e fazer campanhas para levar as crianças de volta à escola! E que sejam melhor tratadas, com uma refeição decente, um bom nível de ensino, pratica de esportes. Com o sucateamento atual da Educação, até o civismo da nação está se esvaindo.

Você, como advogado, conhece bem a Lei do Quadrinho Nacional? Considera que ela é realmente viável? O que falta para ela ser posta em prática e dar certo?

Falta um pouco de boa vontade dos empresários, das editoras. Falta também fiscalização. Lei no Brasil costuma ser mais modismo do que regra, lançam ao vento e se pegar, pegou. Tem muito Quadrinho Nacional de qualidade mas infelizmente muitos dos quadrinhistas tem que ter uma outra profissão por fora para se garantir. Por isso o cara acaba nem tendo muito como correr atrás. Acho que falta única e exclusivamente a esta Lei ser aprovada e se fazer respeitar! E um pouco de boa vontade das editoras. Enquanto isso não acontece, o lance é ir se firmando nas editoras independentes que estão aí, firmes e fortes, dando um tremendo gás no alternativo, como a Jupiter 2 e a Marca de Fantasia, por exemplo.

Você é roteirista. Quais são os quadrinhistas que já ilustraram as tiras do Fécum pra você?

Fécum em Woodstock, no traço de Mauricio Tadeu

Bastante gente boa: Laerçon Santos, Edson Gonçalo, Arthur Filho, Lexy Soares, Paulo Joubert, Adriano Pelaez, Celsinho, Andrade, Paulo dos Anjos, Eliane Soares, Dolabela, Márcio Sennes... e para minha alegria, até mesmo você, Baraldi. Que mesmo com tanta coisa para fazer, ainda fez uns desenhos que coloquei no número 7 do Fanzine do Fécum. Me desculpem os que esqueci de mencionar, mas é muita gente boa...

Com quantos anos você fez seu primeiro fanzine? Você acha que os fanzines foram um grande canal de contracultura no mundo?

Meu primeiro zine decente mesmo foi em 1985, aos 18 anos... o Controle Marvel!!! Foi uma época bem agitada!!! E eu acho sim, que os zines têm uma importância fundamental na contracultura, no alternativo, no underground!!! O zine é livre, é liberdade de expressão, no zine nós somos nossos proprios patrões, bancamos tudo e eles têm uma importância grande mesmo, até mesmo na formação de opiniões, pois o intercâmbio entre os zineiros e o público é muito grande e intenso!

Acha que agora a Internet, sobretudo os blogs gratuitos, se tornaram esse novo canal de discussão e propagação de uma cultura alternativa?

Não temos como fugir disso. A Internet é uma mídia imediata, sem custo, de alcance total e com fotos coloridas, links, espaço para opiniões. E o futuro chegando! Sou fã do papel, mas a coisa está num pleno momento de mudança e adaptação.

Sei que você é um superfã do Capitão Aza, famoso apresentador de TV dos anos 70, vivido pelo falecido ator Wilson Vianna. Você chegou a conhecê-lo? Você fundou um fã-clube dele, né?

Sim, sou MUITO fã!!!! Eu assistia o Capitão Aza desde 1972. Quando eu era crianca ele foi na minha escola, tirei foto com ele, até está no meu orkut. E só deixei de assistir quando ele saiu da Tupi, em 1979, por não receber salários a quase um ano. Em 1997, eu e um amigo conseguimos ir na pousada que o Wilson Vianna tinha em Penedo e dissemos a ele que queriamos criar um fã-clube dele. Ele autorizou o fá-clube e passamos a fazer várias sessões de exibição dos programas dele pela cidade, uma vez que colecionávamos essas séries e desenhos antigos. Ele ia em muitas destas sessões, tirava foto com os fãs, dava palestras, era um barato! Hoje está lá na sede do fã-clube o capacete oficial dele, roupão, medalhas e uns troféus, doados pela mãe de seu filho, que infelizmente faleceu num acidente de moto. Tem um livro muito legal sobre o Capitão Aza, escrito por Dora Mendonça, uma jornalista que era fã dele e temos ainda, na sede do clube, alguns exemplares para venda. Quem quiser comprar o livro entre em contato comigo pelo e-mail sergiocriss@bol.com.br. Um que comprou comigo, foi o grande Roberto Guedes, que teve a sorte de ter dedicatória e autógrafo do Wilson Vianna e registrado em foto!!! Saudades do Capitão Aza...

Então, como fã do Capitão, você colecionava aqueles gibis da Bloch, que tinham uma parceria com o Capitão, o “Clube do Bloquinho”?

Com certeza!!! Eu já comprava mesmo os gibis da Bloch que, para mim, foi a melhor fase da Marvel no Brasil! Sei que eles tinham lá seus defeitos, mas foi a época que mais curti a Marvel. E quando o Capitão Aza passou a ter uma coluna nos gibis, uniu o agradável ao ainda mais agradável (risos). E no tal “Clube do Bloquinho”, saíam aquelas matérias maneiras sobre Bruce Lee, Émerson Fittipaldi, Chaplin, que eu me amarrava!!! Tenho muitos gibis Bloch guardados, inclusive os de terror, que eram sensacionais!!!

E você se liga em gibis de Super-Heróis ainda? Ou voce prefere Freak Brothers, Crumb, esses undergrounds marofeiros (risos)?

Hoje estou mais voltado para os nacionais que ralam no alternativo mesmo. De estrangeiros só leio quando cai algo deles na minha mão. Ando mais a fim de ler mesmo os amigos, como teus próprios álbuns do Roko-Loko e afins, que tem uma qualidade e capricho flagrantes! Já gastei muito com autor estrangeiro, agora estou mais "caseiro" mesmo...

Uma curiosidade: por acaso você chegou a ir na sede da EBAL? Conheceu o Adolfo Aizen pessoalmente? Ou você não se ligou nos gibis da EBAL?

Infelizmente não me liguei na EBAL, não na época boa dela. Tenho amigos que estiveram na Editora, foram bem recebidos e tal. Mas confesso que só em meados dos anos 80, chegaram nas minhas mãos uns álbuns da EBAL emprestados, Príncipe Valente, Flash Gordon, etc. Mas, de meu mesmo, acho que não tenho nem dez álbuns da EBAL...

Quais os planos para comemorar os 30 anos do Fécum e o que você planeja para o personagem para os próximos anos?

O fanzine comemorativo de 30 anos vai sair agora, no início deste 2010 e também vou lançar um CD com as músicas preferidas do Fécum. E pretendo continuar editando meus dois fanzines, a Folha do Fécum (nome sugestivo, não? risos) e o Fanzine do Fécum, contando com a ajuda de meus amigos e eu mesmo dando umas rabiscadas. Mas tudo sem comprometimento com prazos. Faço por lazer mesmo e não lucro nada com isso.

Sei que você, além de roteirista, também é poeta. Deixe um poema bombástico seu pra finalizar a entrevista.

Caramba, assim, no sopetão (risos)??? Estou sem escrever nada há anos, mas aí vai...

                 “Ante o verme que anseia a decomposição
                  Me flagro na encruzilhada desta vida
                  Sem saber se mais amado, se mais odiado
                  Mas com a certeza do escárnio incontido

                  Não julgo o verme voraz que espreita
                  Nem absolvo minha existência pregressa
                  Anos mais de vida eu tivesse...
                  Mais esbórnia deitaria meu cansaço.”

O Bigorna.net agradece a Sergio Júnior pela entrevista, realizada no dia 27 de janeiro de 2010

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