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Entrevista: Marcos Franco
Por Eloyr Pacheco
13/03/2009

O baiano Marcos Franco criou os personagens Redentor e Penitência, muito conhecidos no meio independente. Ele já teve uma coleção de revistas de Histórias em Quadrinhos cheia de raridades, mas teve que vendê-la. E já participou de muitos projetos de Quadrinho Independente. Nesta entrevista, entre outros assuntos, Franco comenta sobre seus gostos pessoais, o mercado de Quadrinhos, e sobre a produção de uma revista estrelada pela Penitência com um time de roteiristas e desenhistas de primeira grandeza. Sobre esse assunto há um preview aqui no Bigorna.net. Sobre os demais assuntos leia a seguir.

Essa é sempre para começar: como surgiu seu interesse por Quadrinhos?

Meu interesse se deu ainda na infância, quando eu nem mesmo sabia ler. Possivelmente motivado pelas séries animadas de TV da época, protagonizadas pelos heróis Marvel/DC... ou quem sabe, influenciado pelo jogo de marketing que as empresas alimentícias promoviam para conquistar o público infanto-juvenil, vinculando aos seus produtos imagens dos mais variados personagens dos Quadrinhos. Lembro com muito saudosismo das tampas de Delicia Cremosa estampadas com os heróis DC e os bonecos de borracha da Pepsi, das figurinhas do Chiclete PLOC com os heróis Marvel e de tantas outras promoções maravilhosas.

Essas promoções foram realmente um sucesso! Você tem guardado alguns desses produtos?

Infelizmente não. Eu até tinha alguma coisa guardada, só que no começo dos anos 90, quando eu ainda morava com os meus pais, passei uma temporada em Salvador e quando retornei tive triste notícia de que a minha mãe havia jogado no lixo toda a minha coleção de Quadrinhos, álbuns de figurinhas e os meus estimados bonecos. Ela achava que eu já estava velho demais para guardar aquele tipo de coisa (risos).    

Quais seus personagens preferidos?

Essa é uma pergunta um tanto quanto difícil pra mim... olha, eu na verdade analiso mais o trabalho dos autores do que o próprio personagem em si. Não me apego a esse ou aquele personagem, curto mesmo são determinadas fases. Gosto muito do Hulk pré-inteligente do Bil Mantlo, Homem-Aranha em toda a fase escrita por Gerry Conway, Motoqueiro Fantasma do Gary Fredrich e Jim Mooney, Jonah Hex do Joe Orlando e Tony de Zuniga, Spirit do Will Eisner, Monstro do Pântano do Alan Moore e Berni Wrightson, O Guerreiro do Mike Grell, Homem-Coisa do Steve Gerber, Espectro do Michael Fleisher, Vingador Fantasma do Bruce Jones, Senhor Destino do Martin Pasko e Keith Giffen, Esquadrão Atari do Gerry Conway e José Garcia Lopez, Corto Maltese do Hugo Pratt, Groo do Sergio Aragonéz e Mortadelo e Salaminho do Francisco Ibáñez. Dos nacionais eu adorava o Trio Diabólico e o Homem do Patuá do Elmano Silva (Mano), o Frauzio do Marcatti e o Gordo do Ely Barbosa (um verdadeiro gênio que infelizmente morreu no ostracismo).

Creio então que os roteiristas e desenhistas que você mencionou são os que mais o influenciaram. É isso mesmo?!

Alguns deles sim. Mas ainda existem outros roteiristas norte-americanos e nacionais que me inspiram. Quem conhece o meu trabalho sabe que conduzo e narro os meus roteiros influenciado pelo estilo anos 80 de escrever. Portanto, tomo como base ainda os trabalhos de nomes como Jim Starlin, Marv Wolfman, Chris Claremont, Don McGregor, Roy Thomas e o Steve Englehart. No Brasil curto e também tento assimilar alguma coisa de caras como Rubens Francisco Luccchetti, Gian Danton, Carlos Patati, Júlio Emilio Braz, Ota e Ataíde Braz.

Sei que você anda atrás de revistas antigas publicadas pela Bloch e RGE para completar sua coleção... Ela é muito grande?

Se comparado a de outros colecionadores acho que não... atualmente tenho cerca de três mil exemplares, mas já tive muito mais que isso. Infelizmente por razões financeiras, recentemente tive que me desfazer de quase mil raridades. Tinha muita coisa antiga das Editoras Ebal, GEA, GEP, Saber, Distri, Trieste, O Cruzeiro, D’Arte, Grafipar, Iceia, Vecchi, La Selva e Globo.

Cite uma raridade da sua coleção?

Pois é, as raridades foram todas nesse lote que me desfiz. Só pra citar algumas, tinha uma edição do O Tico-Tico de 1941, edições do Gibi Mensal e Semanal, álbuns gigantes da Ebal com o encontro entre Super-Homem e Homem-Aranha e Super-Homem e Mohamed Ali; as números “0” dos Super Heróis Marvel Ebal, distribuídas pelos postos Shell; almanaques Ebal da década de 50, os almanaques GEP Terra de Gigantes, Capitão Marvel, X-Men e Surfista Prateado; a coleção de Nick Fury da editora Trieste, as nacionais Grilo, Balão e Circo; alguns números do Pasquim e mais uma pilha de outras pérolas nacionais.

No Brasil o mercado de revistas raras ainda é muito pequeno e não há parâmetros para mensurar o quanto valem. Você acha que fez um bom negócio se desfazendo do lote de revistas que mencionou?

Não. Com certeza não. Demorei anos para juntar essas raridades e tenho certeza que dificilmente conseguirei reavê-las. O pior de tudo, é que eu ainda acabei levando o “cano” em metade da grana da venda.

Nossa! Isso é de doer, hein?! Como foi que você começou no meio independente?

Bem, meu primeiro contato com os Quadrinhos independentes se deu em 1993. Foi quando eu editei, roteirizei e desenhei, junto com um primo, o fanzine intitulado de O Mutante. Depois desse primeiro contato tomei gosto pela coisa e passei a colaborar em diversas outras produções independentes nacionais. Em 1996, voltei a editar um outro zine, o Made In Bahia. No ano seguinte, editei ainda o New Heros, Arquivo Confidencial e fechei uma parceria com Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana para a criação de um núcleo de Quadrinhos. Com o apoio da entidade passei a organizar mostras e exposições de Quadrinhos na cidade e também a publicar a revista independente Brazuca Comics. Com o fim da parceria passei por um grande período inativo, só voltando a ativa há cerca de 3 anos. Nesse meu retorno já escrevi roteiros para o fanzine Heróis Brazucas e as revistas Impacto, Prismarte, Fantasia e Ficção, Dogma, Tempestade Cerebral e Lendas e Mistérios da Turma do Xaxado.

Destas colaborações, qual a que mais o agradou?

Eu acredito que o trabalho artístico em qualquer que seja o seguimento da arte é uma evolução continua. É natural que a cada novo trabalho haja uma nova evolução, por isso costumo sempre dizer que o melhor trabalho é sempre o nosso último.

Você tem dois personagens muito famosos no meio independente: o Redentor e a Penitência. Como foi que os criou?

A idéia da criação dos personagens surgiu em meados da década de 90. Na época eu já havia criado vários outros personagens, mas nenhum deles havia emplacado da forma prevista, obviamente pelo fato de todos serem apenas meras cópias dos famosos heróis Norte-Americanos. Então cheguei a conclusão de que se realmente pretendia projetar um personagem teria que buscar um diferencial que causasse impacto e empatia no público leitor. Foi aí que tive a sacada de abordar o gênero Comic de uma forma diferente. Percebi que os personagens misteriosos, sombrios e com poderes sobrenaturais despertavam um certo fascínio no leitor, então decidiu criar anti-heróis mais voltada para o público adulto, associando as tramas de suas HQs elementos dos gêneros suspense, drama, terror e muita violência urbana.

Quais seus planos para o Redentor?

Se tudo der certo o Redentor deverá voltar a ser publicado de forma regular na revista gaúcha Fantasia e Ficção, que será editada pelo gaúcho Gilberto Borba, ex-fanzine O Mundo Obscuro. Essa revista será um mix com Redentor, Lagarto Negro, Velta e Equipe Action (Heróis criados pelo próprio Borba). Além dessa novidade, tem a segunda parte da HQ O Maníaco do Parque, que foi concebida por Rod Gonzáles (roteiro) e o paranaense Sandro Santos (arte), e também uma minissérie com uma versão pessimista de um futuro improvável do personagem, que está sendo produzida pelo meu grande amigo Valmar Oliveira, o desenhista regular da revista Raio Negro, publicada pela editora Júpiter II. Estes dois trabalhos provavelmente deverão ser publicados de forma digital... é uma pena.

Uma pena por quê? Você ainda não considera a publicação digital um meio de veiculação de HQ?

Não é isso. Não é que eu considere a publicação digital como um meio inviável de veiculação de HQ, só acho que o autor acaba meio que tendo o seu trabalho um pouco desvalorizado, já que ele não tem nenhum retorno financeiro por esse tipo de publicação. Eu tenho plena consciência de que almejar viver de Quadrinhos no Brasil ainda é uma utopia, mas se tiver de trabalhar de graça eu ainda prefiro que esse material seja publicado na forma convencional.

E quais seus planos para a Penitência?

Pra este ano está programada a publicação da Penitência na versão digital de forma regular e na minissérie Grande Obra pelo site HQ Nado e em forma impressa pelas revistas independentes Alexandria, do gaúcho Jader Correia; Projeto Continuum Especial, dos cearenses Rafael Tavares e Daniel Siqueira; Tempestade Cerebral, do paulista Alex Mir e edição especial Ogum e Penitência, que também será publicada pelo mesmo Mir. Mas não pára por aí, também estão nos planos para 2009 a publicação de uma revista solo da personagem. Tenho aproximadamente 100 páginas de HQ inéditas, que poderão ser publicadas juntas ou separadamente, já que elas não seguem uma certa ordem cronológica. Modéstia à parte é um material de qualidade, produzido por grandes nomes do meio independente, porém até o momento não consegui uma editora interessada em publicar, apesar dos contatos já realizados. Estou otimista de obter êxito nesse projeto, mas se até o segundo semestre não encontrar uma editora disposta a publicar a revista já penso até em financiá-la com recursos próprios.

Mas, você tem algum sinal positivo de alguma editora para publicar esse material da Penitência? Acho que a boa qualidade do trabalho, como foi mostrado aqui no Bigorna.net, deve chamar a atenção dos editores.

Até o momento eu só ofereci o material ao Alex Mir da Mir Designer Comics e ao José Salles da Júpiter II. O Mir se propôs bancar 50% dos custos de impressão e o Salles informou que até poderia publicar a obra, se no momento não estivesse impossibilitado devido várias outras publicações já pendentes. Como sei que as grandes não investiriam num projeto dessa alçada, pretendo agora tentar um contato com as editoras HQM, Marca da Fantasia e Bossa Nova. Será que alguém aí tem mais alguma outra opção? Editores, estou aberto a negociação!

Você pode falar um pouco mais sobre o encontro entre Ogum e Penitência?

Eu escrevi originalmente o encontro para ser publicado na revista Defensores da Pátria #2, mas como Alex Mir cancelou esse título e é provável que o crossover saia mesmo como edição especial. A HQ que foi intitulada como Maldição Secular, é uma viagem ao mítico-religioso universo dos orixás e a história da escravatura no Brasil. Se trata de uma saga dinâmica, repleta de mistério, misticismo e muita ação. Ela foi escrita por mim e ilustrada por Márcio Luiz (Força Mística/Tempestade Cerebral) e Omar Viñole (Tianinha).

Como comentei antes, o time de colaboradores que você reuniu é de primeira e eles fizeram um ótimo trabalho com a Penitência. Fale um pouco mais sobre os roteiristas e desenhistas que o estão ajudando na produção de HQs para a futura revista da Penitência?

Além de mim, na parte dos roteiros temos grandes nomes como Estevão Ribeiro, criador do personagem Tristão; José Salles, editor da Júpiter II e roteirista/criador do personagem Máscara Noturna; Leonardo Melo, editor e roteirista da revista Quadrinhópole; Rodrigo Garrit, da revista Brado Retumbante e criador do personagem Monte Castelo; Lexy Soares, cineasta independente e roteirista de Quadrinhos; Anne Caroline Quiangala, poeta e roteirista de Quadrinhos (por muita insistência de minha parte ela acabou vindo pro “lado negro da força”... risos). Já na parte dos desenhos conto com a colaboração de nomes como Emmanuel Thomaz; desenhista dos personagens Máscara Noturna e Crepúsculo; Jader Correia, da revista Alexandria; Ednilson Gomes, desenhista da revista Catarze; Luciano Oliveira (Luke Oliver), desenhista da Tempestade Cerebral; Demetrius Eiróz, criador do personagem João Onça-Brava; Eddie Alves, do estúdio Impacto; Airton Marcelino, veterano ilustrador do meio independente; Mauro Barbieri, da revista Prismarte; Márcio Abreu, do estúdio Rascunho e Carlos Brandino, já bastante conhecido pelo seu trabalho em Space Warrios e na 100% BR. Aproveitando a oportunidade eu gostaria de agradecer aqui a todos esses artistas que vêm nos ajudando na produção e divulgação do projeto Penitência.

O que você acha do atual momento do Quadrinho Independente?

Os Quadrinhos independentes estão plena ascensão, todavia não vejo isso como um ponto totalmente positivo. Estão surgindo muitas produções independentes, mas isso é justamente em razão do descaso das grandes editoras que persistem em não investir nos Quadrinhos nacionais. Essas produções independentes são praticamente a única forma de nós escoramos as nossas produções, porém sem um veículo adequado de distribuição, marketing de venda e o respaldo financeiro de uma grande editora, elas estarão sempre fadadas a morrer prematuramente na primeira edição (salvo algumas exceções, é claro).

Você não acha que o meio independente pode existir sem as grandes editoras? No que precisaríamos delas?

O meio independente existe e sempre existirá. Ele não depende em nada das grandes editoras, mas os artistas sim. Os editores independentes não possuem recursos para pagar pelo trabalho publicado, geralmente é tudo na base da conhecida “colaboração”. Dessa forma, os únicos reféns das grandes editoras ainda são os artistas que almejam tornarem-se profissionais da área de Quadrinhos no Brasil.

Falando em meio independente, a organização é fundamental. Soube que você tem participado de reuniões para organizar uma Associação de Quadrinhistas. Isso procede?

Procede sim. Temos realizado aqui na Bahia reuniões regulares com objetivo de criar uma associação de quadrinhistas locais. Além de mim participam dessa empreitada grande nomes da HQ baiana como Cedraz, Caó, Café, Gutemberg Cruz, Davi Sales, Hector Salas, Valmar Oliveira, Hélcio Rogério, Betonnasi, Ricardo Cidade, André Leal, Elenilton Freitas, Danilo Dias, Marcelo Fontana, Lucas Pimenta, Marcelo Lima e vários outras feras. Como é natural, houve alguns contratempos no início, mas acredito que agora a coisa está entrando nos eixos. Estamos definindo as bases do nosso estatuto, criando a nossa home e definindo várias outras medidas para consolidar de vez a criação dessa entidade. Para maiores detalhes sobre essas reuniões e a União de Quadrinhistas da Bahia acessem este link.

Valeu, Marcos. Obrigado pela entrevista e sucesso aí nos seus projetos.

Que é isso, sou eu quem agradeço pela oportunidade cedida por essa grande vitrine que é o Bigorna. Valeu então. Mais uma vez obrigado.

O Bigorna.net agradece a Marcos Franco pela entrevista concedida por e-mail e finalizada no dia 10 de março de 2009

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