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Entrevista: Mozart Couto
Por Humberto Yashima
08/02/2008

O quadrinhista mineiro Mozart Couto, um dos mais conhecidos artistas do Brasil, já teve seus trabalhos publicados na Europa e também trabalhou para o mercado norte-americano de Quadrinhos. No Brasil, ilustrou HQs como BioCyberdrama, escrita por Edgar Franco, e A Boa Sorte de Solano Dominguez, escrita por Wander Antunes. No bate-papo a seguir, Mozart fala sobre sua carreira, o período em que desenhou para editoras norte-americanas, rotina de trabalho e muito mais.

Como surgiu a sua paixão pelas Histórias em Quadrinhos?

Acho que desde a primeira vez que vi uma revista de Quadrinhos, e nem me lembro quando foi. Com mais ou menos com 4 anos, eu já fazia desenhos em seqüência e com balões, depois, pedia meu pai, ou minha mãe, que escrevessem nesses balões a história que eu queria narrar.

Você é um desenhista autodidata ou tem formação acadêmica na área?

Sou autoditata. Meu pai era desenhista e excelente músico; meu avô, pai dele, gostava de artes em geral e chegou a tocar um pouco de violino. Então, além de ter essa coisa “no sangue”, meu pai me ajudou muito nos estudos de desenho, desde os 12 anos, que foi quando eu comecei a estudar e a praticar com regularidade.

Quais os artistas que influenciaram seu estilo?

Eu me lembro que gostava muito dos desenhos do Halrold Foster (Príncipe Valente), e do ilustrador Brasileiro Ivan Wasth Rodrigues, falecido recentemente. Esses dois foram os que mais me influenciaram no início; Depois, vieram os desenhistas de super-heróis: Jack Kirby; John Buscema; Eugene Colan e outros. Depois, aprendi a gostar de artistas que publicavam nas revistas Creepy e outras do gênero. Mais tarde, descobri os Europeus e os Japoneses, então, eu tenho influência de muitos artistas de muitos estilos e de épocas diferentes.

Fale um pouco sobre o período em que você ilustrou revistas para o mercado norte-americano de Quadrinhos.

Eu fui convidado pelo Deodato Borges (nós somos colegas de trabalho há muitos anos) para trabalhar com ele em uns projetos já em andamento, para o mercado americano. Aceitei e cheguei a produzir por, mais ou menos, dois anos, se não me engano, para o mercado de Comics. Dividi alguns trabalhos com o Deodato, e o Emir Ribeiro fez grande parte da arte-final dos meus desenhos. Depois, dois ex-alunos meus me ajudaram na arte-final de algumas histórias do personagem Turok- Dinosaur Hunter (o mesmo do game), que desenhei por quase um ano. Também desenhei para a Dark Horse uma pequena série chamada Gamera, um personagem japonês, tipo Godzilla. E fiz algumas outras coisas para a Marvel. Mas, comics não é meu estilo preferido de trabalhar. Depois que trabalhei para o mercado europeu (isso foi antes de produzir comics), nunca mais me interessei por comics.

Turok no traço de Mozart Couto

Qual das suas HQs você considera o seu melhor trabalho? Por quê?

Acho que não há nenhuma assim especial não. Eu não sei se é porque sou exigente demais comigo e não gosto de quase nada que fiz... Não sei. O que eu penso é que meu trabalho nos Quadrinhos, por mais de 25 anos, foi um trabalho muito honesto, da minha parte. Eu fiz uma coisa que eu acreditava, e me dediquei com honestidade. Isso é o mais importante pra mim.

Muitos autores nacionais têm conseguido publicar seus trabalhos, seja em fanzines, revistas independentes ou até em editoras como a Devir e a Desiderata. Você acha que houve um aumento de interesse dos leitores nas HQs brasileiras?

Não sei se houve um aumento, mas hoje temos muito mais “barulho” em torno dos Quadrinhos. Encontros; Premiações; Eventos diversos; Penso que discute-se bem mais que antes sobre Quadrinhos no Brasil. Temos a Internet com seu bombardeio de informações. Bom, eu espero que tenha aumentado o interesse sim. Uma coisa eu percebo, os Quadrinhos, apesar de terem sido ultrapassados pelos novos meios de entretenimento, continuam exercendo sua magia em muita gente.

Você tem algum projeto “engavetado”, um “xodó”, que gostaria de ver publicado algum dia no Brasil?

Eu estou com uma história, inédita, uma “novela gráfica” de 144 páginas, de nome Vila do Ouro sendo avaliada para publicação. É Quadrinho autoral, que é o que gosto. É uma história que se passa no Brasil, Séc. XVIII, nas Minas Gerais. Eu gostaria que fosse publicada e que tivesse uma aceitação que me permitisse continuar com a saga dos personagens. Acredito que essa seria a “obra da minha vida”, se pudesse desenvolvê-la com o cuidado necessário.

Como é a sua rotina diária de trabalho? Você possui um estúdio separado ou faz tudo em casa mesmo?

Eu trabalho em casa mesmo. Acho bem melhor assim e já desenvolvi meu esquema. Acordo cedo, por volta das cinco, ou seis horas, e trabalho pesado até meio-dia ou treze horas. Depois do almoço, descanso e retomo por volta das quinze horas. Geralmente paro dezoito ou, mais raramente, dezenove horas. Quase nunca trabalho aos sábados (só por necessidade extrema) e (nem pensar) no domingo. Ainda faço os desenhos com lápis e papel. Em alguns casos, ainda utilizo pincel, pena e tinta na arte-final, outras vezes não, utilizo a mesa digitalizadora e programas de edição de imagem. Todo o resto do acabamento é digital.

Você utiliza muito o GIMP para desenhar e até posta em seu blog tutoriais sobre o assunto. Fale sobre as vantagens desse programa.

Eu gosto muito de aprender coisas novas e de experimentar. Descobri o GIMP e achei que ele poderia ser muito útil para “hobbistas”, iniciantes e profissionais que não precisam da sofisticação que só alguns programas proprietários complexos e com licenças caras nos dão. Meu interesse, não só no GIMP, mas também nas possibilidades do software livre, se deve a minha preocupação com a imensa “vala” que divide as pessoas, no mundo todo, que podem pagar por licenças caras de programas e sistemas operacionais proprietários das que não podem. E também por causa das cópias ilegais e compartilhamento ilegal de softwares. Então, se temos à disposição um sistema operacional e vários programas que são livres para serem baixados e usados (não é preciso pagar licença para usar. E pode ser usado profissionalmente), livres para serem abertos e estudados, modificados e até compartilhados, achei que essa era uma boa opção para quem não quer propagar a ilegalidade, que é um “tiro nas próprias costas” de todos. O GIMP é um programa robusto e, e com o tempo, vai se impor como uma opção segura é muito válida para profissionais. Aliás, em certos casos, já pode ser considerado assim. E, tecnicamente, tem lá suas vantagens (as mesmas do Linux) que, com o tempo se tornarão mais e mais interessantes. Vale a pena conhecer e experimentar. E, claro, usar tranqüilo, para qualquer finalidade, sem lesar a um proprietário do software pelo não pagamento de licença.

Para finalizar, deixe um recado para os novos quadrinhistas que batalham para ter seus trabalhos publicados no nosso país. 

Eu tenho visto, entre os ilustradores, que está havendo uma conscientização e uma movimentação muito grande quanto à valorização da profissão e dos profissionais da área, alicerçada nas possibilidades de troca de informações pela Internet, tipo listas de discussões, fóruns, etc. Então, eu penso que também veteranos e os jovens quadrinhistas devem seguir por aí também. Saber bem como funciona o mercado de trabalho antes de se deixarem levar pelo fascínio da produção e da publicação e ainda mais grave: pela ilusão de publicar no exterior. Precisamos nos estruturar melhor para podermos trabalhar e ter um retorno seguro, legal. O resto é estudar muito e praticar, além de aprender com os que nos precederam. Manter a mente aberta e aceitar estilos diferentes, não só os “mainstreams” da vida, também é muito bom.

O Bigorna.net agradece a Mozart Couto pela entrevista, realizada por e-mail e finalizada em 04/02/2008

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