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Entrevista: Gonçalo Junior
Por Capitão Marcio "Pede pra sair" Baraldi
16/11/2007

Desabafo e Trajetória de um dos Maiores Jornalistas de HQ do Brasil
                                                                 
Há tempos Gonçalo Junior merecia uma entrevista longa, profunda e sem frescuras como essa! Soteropolitano de Salvador, Gonçalo começou a carreira como cartunista, fanzineiro e “roqueiro virtual”, virou roteirista de Quadrinhos infantis e pornôs (pau pra toda obra, como bom brasileiro!) até vir com a cara e a coragem pra São Paulo, onde se tornou um dos nomes mais sérios e respeitados do “jornalismo HQ”. E sem dúvida, o mais produtivo de todos também! Em seis anos o caboclo lançou nada menos que DEZ livros!!! Todos obras, senão definitivas, no mínimo fundamentais e obrigatórias para qualquer amante, estudioso ou pesquisador dos Quadrinhos brasileiros daqui até a eternidade. Defensor radical do “jornalismo investigativo”, Gonçalo não titubeia em passar dias, semanas, meses, anos, mergulhado em pesquisas, bibliotecas, arquivos pessoais, porões e sótãos empoeirados, na busca obsessiva de informação e mais informação! Detalhes, minúcias, checagem e mais checagem de fatos, datas, nomes e locais: Gonçalo garimpa dados compulsivamente como quem não descansa até encaixar todas as peças de um imenso quebra-cabeças. Recentemente Gonçalo queixou-se em sua coluna neste site sobre um suposto plágio de seu livro A Guerra dos Gibis. No mesmo texto, em tom de desabafo, queixou-se também da crítica especializada e do mercado de Quadrinhos nacional, acusando-os de “turma de compadres” e de “panelinhas”. Para compreender melhor a natureza de tais queixas e desabafos, Capitão Baraldi Nascimento procurou Gonçalo pra uma conversa franca, de cabra-macho, sem moleza nem frescura, onde o jornalista falou de tudo um pouco: preconceito étnico, política, rock, violência urbana, e sobretudo sobre os problemas que enxerga no nosso mercado de Quadrinhos, tanto do lado dos autores, quanto da crítica. Um tema cuja discussão, sem dúvida, é fundamental para o desenvolvimento desse mercado e deveria ser objeto de reflexão diária e permanente de todos os profissionais (ou aspirantes a) que compõem tal mercado. Levantem-se já todos vocês que estão lendo, fiquem na posição de sentido e prestem atenção nas colocações mais que sensatas e oportunas feitas pelo entrevistado. Pois Gonçalo, caboclo arretado e um tanto desassuntado, mete o dedo em feridas que muita gente esconde embaixo do cobertor. Baiano macho cuspiu no chão! E quem não aguentar, pede pra sair!....

Muito bem, tô aqui na casa do Gonçalão Junior, aqui em Campos Elíseos, maluco. Campos Elíseos já foi um bairro chique, hoje já não é mais tão chique, né (risos)?

Não é mais, não (risos).

Hoje o bairro tá mais proletário, tá ligado? Então o Gonçalão, como um bom proletário, tá morando aqui, sacou, na Barão de Limeira. Hoje é dia 1º de novembro, que signo você é, maluco?

Peixes.

Peixes! Eu estou aqui falando com um pisciano, em plena casa astrológica do escorpião, tá ligado? Vamos ver que bicho que vai dar. Tudo bem aí, véio?

Tudo.

Eu li a tua coluna desse mês e fiquei tentado a fazer essa entrevista, bater esse papo aqui contigo hoje. Vamos começar do começo mesmo, da tua carreira. Você veio da Bahia, não é mesmo?

É, de Salvador.

Você desenhava HQ nos anos 80?

Desenhava e eu cheguei a ser ilustrador de jornal.

Você não fazia um personagem que era um negrinho, cara, uma tirinha de um negrinho?

É, era o Baiano, um favelado.

Eu lembro dessa bagaça, véio!!! Sabe por que eu lembro? Em 1986 eu organizei uma mostra de Quadrinhos em Santo André e neguinho mandou desenho de tudo quanto é lugar. E tinha tiras desse teu personagem lá. Eu lembro dessa bagaça, eu lembro que tinha o nome Gonçalo. Era você mesmo?

Era. Tinha muita gíria de Salvador. Salvador na época era uma cidade muito militante, combativa. É uma injustiça que se faz com Salvador, Salvador é uma cidade punk, sabia? Basta você imaginar que foi de Salvador que saiu o Camisa de Vênus...

Que é maravilhoso!...

É, eu acho que é a banda mais politizada, mais radical, que o Brasil já teve. E não é possível que uma banda tenha saído de lá assim à toa, então Salvador tinha, como dizem assim, toda uma cena. Eu tava vendo o documentário Botinada (Nota do entrevistador: Sobre o movimento punk brasileiro, produzido por Gastão Moreira) outro dia e eu tava vendo lá o seguinte, o Gastão isola Brasília como um punk de mauricinhos, foca São Paulo, e da Bahia só cita o Camisa de Vênus, mas Salvador tinha muito mais que o Camisa. Tinha muita loja, muito espaço alternativo, e foi na época de explosão dos fanzines, teve essa explosão por causa da xerox barata. Que era a época que a gente fazia de tudo e não tinha grana pra po%%@ nenhuma. Então tirava cópia barata. Eu não sei se você fazia isso, que a gente virava o envelope do avesso...

É, pra aproveitar o mesmo envelope.

Passava a cola de leve no selo, aí eu mandava pro cara, o cara ia lá, botava o selo na água, a cola de cima saída junto com o carimbo, ele botava o selo de novo e aí a gente comprava muito disco pelo correio, e aí naquela coisa do rock brasileiro, a gente acabou sendo muito influenciado pelos Quadrinhos mais politizados.

Mas você era de classe média ou não? Ou era proletário mesmo?

Eu era filho de funcionário público. Minha mãe era dona de casa mesmo. Então era aquele esquema de ralar pra poder pagar colégio de 4 filhos, a escola pública entrava em greve direto, depois a universidade também. Salvador sempre foi uma cidade muito politizada! Então a gente vivia no clima das greves. Depois que essa po%%@ dessa axé-music chegou acabou com, por exemplo, o carnaval de Salvador, que era o mais politizado e mais questionador do Brasil. Acabou por exemplo com o bloco do Sindicato dos Bancários, o Sindicato dos Petroquímicos tinha o seu bloco, sempre com temas políticos... Cada lugar, cada sindicato tinha o seu bloco, agora que essa po%%@ desse axé chegou, as quadrilhas dos blocos dominaram a cidade, pegam aquelas pessoas que ficam 10 horas arrastando uma corda, um carnaval altamente racista e elitizado, em que você vê um monte de negro ganhando 10 reais por dia pra que os turistas, os brancos, fiquem ali se beijando, e aí acabaram com a cidade. Mas na década e 80 ainda tinha essa coisa mais política, e foi nessa onda que eu comecei a fazer Quadrinhos...

Então você curtia tanto punk quanto carnaval, era uma coisa toda misturada.

Era, a gente tinha por exemplo...

O bloco dos punks? (risos)

Não, mas a gente ouvia The Clash direto e curtia o Carnaval politizado dos blocos sindicais.

E curtiam Raul Seixas também...

Claro!!! Raul era e sempre será o grande punk do rock brasileiro, inclusive antes do próprio movimento punk!

E aquele culto ao Antonio Carlos Magalhães que sempre existiu na Bahia? Que negócio estranho era esse lá?

Rapaz,o ACM era o seguinte, era aquele cara que perseguia até faxineiro de escola. Perseguia,né? Porque ele já foi...

Ele foi dessa para pior (risos).

Não, foi pro inferno mesmo! Se tem inferno ele foi pra lá. Lá em casa, por exemplo, como meu pai era funcionário público, ele morria de medo do ACM despachar ele lá pro c* da Bahia, lá no fim do mundo. O funcionalismo público inteiro na época da ditadura não se envolvia com política com medo de qualquer coisa chegar aos ouvidos de Antonio Carlos e ele perseguir as pessoas. E eu acho que o velório de ACM foi o melhor indicativo de que ele era muito mais temido do que amado, um colega jornalista passou de madrugada lá e o corpo dele tava lá sozinho com um vigia, só com os mosquitos em volta. O segurança e os mosquitos desovando lá.

Então o povo não respeitava ele de verdade, todo mundo tinha é medo mesmo.

Era medo mesmo! Uma das táticas dele, além de exonerar do cargo ou mandar pra pu#@ que o pariu, ele tinha o hábito de desapropriar imóveis das pessoas, então ele alegava algum motivo irrelevante de interesse público, ia lá e desapropriava a propriedade de imóvel. A justiça da Bahia é toda corrompida por causa dele. Dos 27 desembargadores na época, pelo menos 20 comiam na mão dele. Uma justiça altamente corrupta. E aí nessa coisa ele foi derrotado, em 87, Salvador foi sempre oposição, então ACM conseguia votos no interior, mas Salvador ia lá e bloqueava, PC do B e tal. Mas daí, da década de 90 pra cá, vem uma alienação completa que eu chamo de terreiro em transe, que é uma relação promíscua dos políticos e dos artistas, tipo Chiclete com Banana e tal, e nisso ele toma a Rede Globo pra ele, dá um golpe em Mario Carneiro. Ele fez o Mário Carneiro ir a falência e a NET passou a ser de Roberto Marinho e aí ele ganha de brinde a Globo da Bahia. A partir daí ele começou a manipular informação, tomou o poder, ficou 17 anos, até o PT tomar posse esse ano. Na verdade ele tava desde 1967, 40 anos no poder, aí a Bahia virou uma desgraça total porque tem miséria em excesso, desempego, e um delírio coletivo geral em que as pessoas ficam atrás do trio elétrico, mas quando o trio passa que você e as pessoas ali prensadas nas calçadas, com aquela coisa, aí explode a violência. Carnaval de Salvador é um dos mais violentos do país, é o mais violento do mundo, não tenha dúvida. Aí eles manipulam e escondem os dados e tal. Nesse meio aí a gente começou a fazer Quadrinhos, fanzines e tal.

Você teve banda, alguma coisa assim ou não?

A gente tinha banda em Quadrinhos. Chamava-se Los Merdas, era um trio e durou de 1983 até 1990, quando durou essa fase dos fanzines. Era uma banda virtual, existia apenas nos Quadrinhos e que a gente colocava letra, colocava tudo nos Quadrinhos e não saía dali. E era uma banda punk. Tinha muita banda de skinhead em Salvador, por incrível que pareça. Me pegaram uma vez. Tinha uma turma que ficava na mesma rua, num bar chamado Motolanche, era um pessoal mais punk que se concentrava ali. Do outro lado, no fim da rua, tinha uma garagem do pessoal dos carecas, onde eles se reuniam. E ali havia uma hostilidade muito grande, um grupo ameaçava de pegar o outro. Aí um dia me pegaram num viaduto lá...

Sozinho?!?

Sozinho, eu levei um soco no olho que me aumentou 6 graus da miopia, eu tenho 25 graus nesse olho aqui! Eu levei um soco no olho tão forte na época que pulou de 12 pra 18 graus...

(surpreso) Nossa!

Porque achatou a córnea e como eu tinha tido um acidente antes, o líquido que você tem dentro do olho meio que derramou, e esse líquido não é reposto. E como eu tomei uma porrada, ficou achatado.O pessoal me pegou ainda bêbado, rapaz, 11h30 da noite eu tava voltando de um bar, me pegaram na rua, perto da Secretaria de Segurança Pública, me arrancaram um dente, po%%@, cara, é fo#@!... Eu fiquei seis meses fazendo fisioterapia, foi um linchamento!!!...

E agora tá com o olho legal?

Não dói, mas eu tenho que fazer transplante e eu fico adiando, né?... Eu não tenho coragem. Pra você ter uma idéia, para ler eu uso três lâmpadas de 150 volts. Então eu acho que é por isso que eu tento fazer as coisas muito rápido, com muita pressa! Eu fico muito tempo pesquisando. Esses últimos livros que eu publiquei nos últimos anos, se você for olhar no meu computador, eu devo ter mais uns seis. Então eu fiquei muito tempo pesquisando em época de faculdade, viajei muito na época de fanzine, é uma coisa que vem aí de vinte e tantos anos. E vai fazer 25 anos já que eu mexo com essa coisa de Quadrinhos, de fanzine, essa coisa toda. Foi aí que veio a militância pelo Quadrinho brasileiro, nos fanzines. A gente comprava tudo nas bancas, pra dar uma força pro artista brasileiro. Mas depois você começa a perceber que se você tem que ser um pouco crítico, você tem que se profissionalizar, você tem que se tornar competitivo. Eu acho que é aí que as pessoas não entendem o que eu tou falando sobre os Quadrinhos brasileiros. Tem que discutir, não adianta só culpar os americanos, vamos fazer um trabalho do cacete pra que a gente consiga derrubar os caras,sabe?

Mas você não virou um profissional dos Quadrinhos, você desistiu de ser quadrinhista...

Eu desisti porque me envolvi com um pessoal lá do Cedraz, que vendia desenho animado. Que trabalhava com, num sei se você viu um desenho animado do Chico Liberato, um longa-metragem, acho que Boi Aruá, um desenho do ca#@%#*, premiado internacionalmente!

Eu acho que eu já vi.

Era uma turma que fazia desenhos animados com o Chico Liberato, que precisava da ajuda de Cedraz. Foi através desse grupo de desenho animado que eu me aproximei de Cedraz e várias pessoas que trabalham com ele lá. Ele tem um estúdio grande. Ele conseguiu uma coisa fora do esquema do Mauricio de Sousa, a Bahia tem várias políticas de incentivo à cultura e tem muita grana que corre lá, por exemplo, no Pólo Petroquímico. Então eles conseguem patrocínio através disso e Cedraz sempre tem patrocínio. Agora mesmo ele conseguiu vender um livro do Xaxado, que foi incluído no plano do governo.

Eu gosto do trabalho do Cedraz!

Eu também gosto e acho uma injustiça ficar limitando ele apenas a um cara influenciado, que copia Mauricio de Sousa. Porque eu acho que ele conseguiu com aquele formato, os bonequinhos deles são menores...

Ele até começou copiando mas depois ele achou a praia dele, que é essa praia nordestina, que o Mauricio de Souza não tem isso. Os Quadrinhos do Mauricio de Sousa são ambientados nas cidadezinhas do interior de São Paulo, Mogi, aquela coisa de uma casinha aqui, uma casinha ali, aquele descampado do carvalho!...

É, Chico Bento e tal. Então não é só o caso do Cedraz, se você começar a comparar referências, você vai ver que o Mauricio começou se inspirando em Luluzinha e também na turma do Charlie Brown. Ele tem muita coisa do Charlie Brown.

Mais Luluzinha! Charlie Brown é muito cabeça... Eu não gosto do Charlie Brown, você gosta?

Algumas coisas. Aquilo não pega no Brasil, né?

É, pra mim não pega. Mas então você foi desenhar pro Cedraz?

A minha idéia era desenhar. Eu levei tirinhas. Ele disse assim: “eu tô vendo que você leva jeito pra história, e nós não temos roteirista, precisamos de gente pra escrever as histórias”, aí eu comecei a escrever as tirinhas.

E você começou a ser roteirista do Cedraz?

É, e a gente teve uma produção intensa na década de 80. Fiquei lá de 1983 até vir pra São Paulo em 1997. Eu fiz coisas pra ele aqui em São Paulo também, então durante muito tempo...

Fala abertamente aí, assume aí! Ele falou que o seu desenho era ruim?!? (risos)

Não era ruim, era uma me#%@ mesmo!!! (risos)

VIVA CEDRAAAZZZZZ (gargalhadas)!!!! O Cedraz é sincero, tá ligado?!? Ele acabou com a carreira de desenhista do Gonçalo (risos)! Mas você escreveu muita história pra turma do Xaxado?

Eu fiz centenas de tirinhas. Sabe o que a gente fazia muito? A gente fazia cartilha pra Prefeituras. Eu fazia as historinhas e pegava a grana pra fazer fanzine, eu torrava tudo em livro e Quadrinho. Aí eu ia fazendo aquilo e ao mesmo tempo fazia jornalismo. Mas aí nesse período eu e minha turma fazíamos muito Quadrinho underground. Tínhamos uma revista chamada Livre Cativeiro que saía um número e ficava dois inéditos(risos). Era punk mesmo!...

E dessa galera quem se destacou? Você, o Cedraz, mais alguém?

Tem o Sydnei, que continua trabalhando com o Cedraz e tem o Leônidas que é um grande desenhista que virou diretor de filme pornô lá em Salvador. E nós voltamos a fazer parceria esse ano depois de uns 15 anos que ele sumiu, e ele tá desenhando histórias minhas de terror em um roteiro aí que eu tinha pensado pra um filme que o cara me indicou.

Você conhece o Queiróz, do fanzine Portal do Encantamento?

Eu só encontrei ele uma vez. Não tenho muito contato.

Ele é muito gente boa.Ele deve ter o quê, uns 70 anos? Ele é psiquiatra, uma figura, uma pessoa muito gentil, ele fez um texto pra mim muito legal, vou botar no meu próximo livro, cara. Ele tem paixão por Quadrinhos da Golden Age. Ele tem um fanzine, o Portal do Encantamento, que é um dos mais lindos do Brasil!

Legal!

Sobre o teu desabafo na tua coluna no Bigorna, com relação ao livro da EBAL, do Ezequiel de Azevedo. Como você chegou à conclusão que ele plagiou teu livro A Guerra dos Gibis?

Rapaz, eu levei uns quinze anos para escrever A Guerra dos Gibis. E aí eu fui na inauguração da livraria HQ MIX, do Gualberto, fui lá pegar autógrafo de Fausto, comprei aquele livro da EBAL, cheguei em casa, comecei a ler e não parei mais. Fui até o fim do livro, aí não dormi mais!

Mas você acha que ele transcreveu vários pedaços do teu livro?

Não, ele fez um resumo do livro. E eu desafio ele a provar que não, a me apresentar as fontes. Agora o que ele tá fazendo? Ele é um cara muito bem relacionado, tem uma turma de amigos muito grandes... E aí eu vejo na Internet uns comentários das pessoas dizendo assim, que nós usamos as mesmas fontes, ou seja, os filhos de Aizen. Quer dizer, você fica quinze anos escrevendo um livro pra ouvir só o filho de Aizen?!? Po%%@, eu consultei pelo menos três mil documentos que eu peguei na gaveta de Aizen, que o filho dele abriu!!! Depois que ele morreu ninguém tinha aberto o material, e aí ele abriu a gaveta, eu peguei e xeroquei aquilo tudo, são mais de dez pastas, eu li um por um pra fazer o livro! Eu consultei aproximadamente duzentas mil páginas de jornais, na biblioteca do Rio de Janeiro pra montar uma cronologia. Fui a Curitiba, a São Paulo várias vezes. Tudo “paitrocinado”, com a grana de pagar o ônibus, ter uma grana pro albergue, para comer e pagar ônibus, tudo assim contado. Às vezes andava até dez quilômetros para não pagar ônibus.

Mas o Guerra dos Gibis você lançou já faz três anos, né?

Três anos. Mas eu fiquei muito tempo procurando editor, mexendo nele, pesquisando, procurando, viajando. Pra montar aquela ascensão dos Quadrinhos, eu consultei mais de 200 páginas da biblioteca, eu fiquei olhando página por página da revista Cruzeiro, de 1933 até 1964, eu li todos os números da Seleções e da Manchete que tinham matérias sobre Quadrinhos. Eu ia anotando, pesquisando, era tudo falando contra os Quadrinhos! Aí eu entrevistei mais de 100 pessoas. Po%%@, tive que ler 500 livros pra pegar uma frasezinha aqui e outra ali, e aí vem o cara, pega e resume isso tudo e lança um livro como se tivesse sido obra dele..

Você já conversou com o Ezequiel?

Não, não conversei. Ele botou no site lá que eu tenho o contato dele, e eu procuro ele se eu quiser conversar. Eu vou conversar o quê? Eu vou xingar a mãe dele? Não vou xingar a mãe dele. Eu não quero tirar dinheiro de ninguém, não quero processar ninguém, eu só quero que ele faça uma retratação e admita, que talvez sem querer ou não imaginava que fosse dar esse tipo de confusão, pegou as informações, se apropriou dessas informações, resumiu meu livro e botou lá. Eu não vou falar pra você que ele reproduziu páginas inteiras do meu livro até porque o meu tem 450 páginas e o dele tem 45. Mas ele pegou a essência, os fatos mais importantes que tão ali, e mais uma cronologia de Aizen que ele pegou uma coisinha ou outra. Quando eu li aquele livro eu falei: “po%%@, não é possível que o cara tenha feito um negócio desses!!!”. E eu dei entrevista pra ele, custava ele colocar assim “segundo fulano, no livro tal”, me bastava isso, ele podia usar à vontade.

Entendi. Faltou isso...

É faltou, ele enfiou o livro lá no meio da bibliografia, e aí que vem a questão, tem várias pessoas se manifestando favoravelmente a ele dizendo que ele citou o livro na bibliografia. Citou, mas tem 20 títulos lá, nenhum tem as informações, eu acho que tem um lá, do Diamantino da Silva, que fala um pouco da época dos suplementos, que ele era leitor e tal. Mas 90% do que ta lá, não fala nada. Aí no Gibi House teve um pesquisador que falou que teve a mesma impressão quando leu o primeiro capítulo, eu pensei muito nisso, os riscos que eu corria de estar sendo leviano, de estar difamando uma pessoa, mas o que eu vi lá e apontei no texto, me dá segurança e tranqüilidade pra eu ter feito a denúncia, porque aquilo ali é uma coluna, eu usei minha coluna pra denúncia, eu não quis procurar jornal nenhum pra fazer barulho, é minha opinião e eu vou dá-la aqui.

Eu não vi o livro dele ainda (Nota do entrevistador: Na ocasião da entrevista eu ainda não tinha o livro. Agora já o possuo).

Então, não fala nada do assunto, aí o cara pega, vai lá e resume e depois vem me dizer que os filhos dele que passaram as informações pra ele. Pra fazer aquele meu desabafo na coluna do Bigorna, Baraldi, eu fiquei três noites sem dormir, aquilo tava me asfixiando. O dia que eu fui pagar os colaboradores da revista Mais Rock, que eu editei, cheguei no Banco do Brasil, o guarda me convidou a sair da fila porque ali só depositavam quem tinha mais de 3 mil reais. Quer dizer, o Banco do Brasil é o banco mais elitista, que mais discrimina as pessoas no Brasil. Eu falei que tinha que depositar cem reais, eu preciso pagar o cara lá. Ele falou “vai lá no caixa eletrônico”. Eu falei “não, eu vou aqui, o Banco do Brasil tem a obrigação de manter um caixa pras pessoas”. Ele falou “não, você tem que usar o outro”, aí eu fui falar pro gerente e ele viu eu reclamando. Eu falei “posso falar com o senhor?”. Ele falou “se você não for tomar meu tempo”. Aí eu saí da agência e pensei “po%%@, você só deixa neguinho passar a mão na sua bunda se você quiser”. Aí eu pensei comigo: se eu sair daqui dessa agência e for pra casa ou for depositar em outro lugar eu vou ter um infarto à noite, porque eu não posso engolir esse sapo. Chamei a polícia. Vieram seis viaturas, ameaçaram de levar o gerente preso. Pô, o cara é barraqueiro! Não é barraqueiro, é uma questão de direito. Você fica na sua e vive sua vida e vem um cara sacanear com você, tem que reagir rapaz! Eu principio do direito que toda a lei ocidental do mundo inteiro parte do pressuposto dessa frase: viver honestamente, dar a cada um o que é seu e a ninguém ofender. O cara chega, se apropria de uma coisa que você fez, suou, ralou. E o que eu gastei no Guerra dos Gibis, o que recebi de direito autoral não cobre 10% do que eu gastei!

O livro vendeu bem, véio?

Vendeu uns 3 mil. Ainda não esgotou a tiragem.

Pô, 3 mil no Brasil tá bom demais, cara! Ainda mais de um assunto tão hermético. Quem é o público-alvo do seu livro? É somente a galera que curte Quadrinhos mesmo, né?

Pesquisadores principalmente. Pessoal de Comunicação e tal, pessoal que estuda essa área, porque os Quadrinhos são muito discriminados, né? Eu não sei se você como autor sente isso, mas as pessoas não levam muito a sério. “Ah, você escreveu um livro? Sobre o quê?”, ”Sobre Quadrinhos!”, “Quadrinhos? Ah,tá!”. E morre aí e não pergunta mais nada: por que Quadrinhos? Como? Por que você se interessou? Se é uma arte?

Mas se fosse um livro sobre Cinema, por exemplo, talvez fosse a mesma reação das pessoas.

Talvez não porque Cinema é uma arte que tem ainda mais público, mais interesse, aparece mais na televisão.

Mas não é pro povão também. Um livro sobre Quadrinhos não é pro povão e um livro sobre Cinema também não é.

De fato, Cinema também não é mais pro povão, né? Hoje Cinema é pra elite, pra shopping. Se o povão for entrar no cinema hoje é capaz de ser barrado pelo segurança. E depois se queixam da pirataria.

Esse teu livro (A Guerra dos Gibis) é um projeto sem precedentes, ninguém tinha feito uma parada assim antes. É um livro que esclareceu um monte de coisas, é algo que ninguém tinha nem sonhado em fazer. Se você não fizesse essa pesquisa doida toda que você fez, provavelmente essa história da EBAL, do Adolfo Aizen e do Roberto Marinho teria morrido soterrada pelo tempo. As pessoas ficariam eternamente sem certeza de nada, só trabalhando com boatos.

Sabe o que eu fiz ali? Eu levei Quadrinhos a sério! Pensei: vou contar essa história como se fosse uma reportagem. Eu conto a história da EBAL e do Roberto Marinho, principalmente da EBAL, aí o cara vem, copia e copia errado, o pior é isso. Ele troca o nome da mãe do cara, o nome da mãe de Aizen era Sônia, que tá correto, lá adiante ele começa a chamar a mulher de Sara.

Putz, véio! Eu tenho tanto desses livros sobre Quadrinhos, cheios de erros. Nome de autor errado, personagem errado...

Deixa eu aproveitar e te perguntar uma coisa: você não se sente extremamente chateado ou decepcionado quando você vê um silêncio em relação ao seu trabalho? Quando você manda seu livro pra um crítico e ele finge que nem recebeu?

Olha, véio, tem um ou outro crítico que não se interessa, mas eu não culpo o cara, mano, porque é uma democracia, o cara tem todo o direito de não se interessar. Tem uns caras que eu nem mando mais porque eu sei que ele não vai falar nada mesmo, ele vai ignorar, saca? Mas a maioria fala e sempre fala bem. Inclusive tem uma parada no seu texto no Bigorna que você compara a crítica brasileira de quadrinhos com um compadrio. Você acha que a crítica não é séria?

Eu acho que a crítica é responsável por esse episódio de Ezequiel. A crítica é totalmente responsável por esse episódio e é irresponsável pelo papel que desempenha. Várias pessoas viram os erros no livro de Ezequiel, mas só o Universo HQ que falou! O resto, todo mundo recebeu o livro e só reproduziu o release. Se as pessoas tivessem discutido, e pensassem: "o livro de Ezequiel tá errado, é oportunista, o do Tico Tico é oportunista, é superficial”, enfim, se tivessem criticado honestamente o livro do Tico-Tico, o Ezequiel poderia ter se aprimorado e feito uma coisa melhor e mais cuidadosa nesse novo.

Aquele livro do Tico-Tico da Opera Graphica é um milhão de vezes melhor que o do Ezequiel, óbvio. Mas em compensação é tão caro que poucas pessoas podem comprá-lo. O do Ezequiel eu tenho e de fato é superficial mesmo, é pouca informação e muita imagem. Mas pelo menos dá pra comprar (risos)!... Mas eu lembro que na época todo mundo falou isso, que o livro era muito superficial, quase um livro pra criança, saca?

Não foi todo mundo. Que eu me lembre foi só o Universo HQ. As pessoas comentaram mais no boca-a-boca. Eu posso estar sendo injusto aqui, mas foi só o Universo que publicou a crítica contando, mas todo mundo ficou comentando. Esse é o problema dos Quadrinhos no Brasil, as pessoas comentam, mas não falam abertamente, não criticam honestamente e a coisa não se profissionaliza, não melhora. Então eu culpo panelinhas! Quando eu lancei os livros pela Ópera Gráfica na Comix, que eu fazia autógrafos lá, as pessoas não iam porque boicotavam a Comix e a Ópera Gráfica, principalmente porque boicotavam o Carlos Mann.

Que pessoas que não iam?

Ah, várias pessoas, tem vários grupinhos que se boicotam. Eu não gostaria de citar nomes, mas tem vários grupinhos que sempre organizam palestras no mesmo lugar e sempre com as mesmas pessoas.

Eles não gostam de você?

Não, não é por isso, muitos são meus amigos inclusive, mas eles não se dão bem, por exemplo, com o pessoal da Ópera.

Da Ópera ou com o Carlos?

Principalmente do Carlos.

O Carlos tem lá um temperamento difícil mas eu gosto muito dele, sempre me dei muito bem com ele. Ele nunca fez absolutamente nada anti-ético comigo, muito pelo contrário, sempre teve um coração de mãe comigo. E ele fez coisas pelo coletivo dos Quadrinhos brasileiros que muita gente não faria por ele e muita gente não reconhece o heroísmo dele por pura picuinha pessoal. Aliás, com certeza o Adolfo Aizen também devia ter pessoas que não reconheciam tudo que ele fez pelo Quadrinho brasileiro. O Carlos tem muito do espírito do Aizen!

Eu também sempre fui muito amigo dele, e é aquela velha história, se você não gosta do cara, o seu amigo também não pode gostar, não é assim? Eu acho que você pode ser amigo de uma pessoa que não é amigo da outra. Sempre acontece isso das pessoas fazerem as mesmas coisas, você monta uma exposição, alguém monta uma exposição, o outro não vai. São as coisas assim meio estranhas, que acontecem que você percebe, mas ninguém discute, fica uma coisa velada. No caso da crítica, essa falta de postura crítica que eu acho que tem que ter, porque os sites acabam tendo um caráter mais de fã do que jornalístico. Então eu acho que você pode se perguntar se eu me arrependi de ter falado toda essa história. Eu acho que não, não me arrependi, tô levantando a discussão, estou com a minha consciência tranqüila, me achei injustiçado e todas as vezes na minha vida que eu me senti injustiçado eu reagi, eu dou uma carreta pra não entrar numa briga e dou cem carretas pra não sair dela quando a coisa é injusta. E foi muito disso que me levou pro jornalismo. Acho que as pessoas têm que ter o senso crítico para ler jornal, acompanhar a imprensa, e saber distinguir o que é imprensa independente e correta, ou o que é imprensa golpista que nem no ano passado que a grande imprensa tentou impedir que Lula concorresse e tomasse posse, foram mil coisas, foi imprensa golpista e irresponsável e que continua até hoje. A gente tem que ser crítico,rapaz, tudo no Brasil hoje é tolerável e hipócrita! É só você ver esse filme, o Tropa de Elite, que nos últimos vinte anos é o único filme que propõe uma discussão sobre as drogas, sobre a corrupção na polícia, sobre traficantes, sobre a violência da polícia, sobre o papel da classe média, que é a mesma vítima. É ela que vai levar um tiro na esquina porque o cara quer consumir droga. Então vamos discutir isso, vamos discutir e assumir essa coisa toda, mas não. Eu me enchi o saco, desde 2004 eu me canso de ver neguinho reproduzindo fragmentos do livro sem cerimônias na Internet. A mesma história da Guerra dos Gibis sendo contada. Eu não sou o dono da história. Mas foi uma história que eu levantei e eu pesquisei, então por que não citar a fonte? Então que fale coisas que não estão no livro, o cara foi lá, pesquisou, aí tudo bem, é um direito que ele tem. Agora ficar reproduzindo. Às vezes eu vejo texto falando do conteúdo do livro, e ele não é citado, parece que o cara descobriu a roda.

Você tá fazendo uma crítica à critica brasileira. Costuma se brincar que crítico geralmente é um músico frustrado, um artista frustrado. Você já foi um cara que tentou ser quadrinhista, tentou desenhar e não rolou. Você acha que você é um “crítico-quadrinhista frustrado”?

Não,porque eu continuo sendo roteirista,continuo produzindo pros Quadrinhos. Quando eu fiz o livro Claustrofobia e depois fiz O Messias, com o Flavio Luis, as pessoas não sabiam que eu era roteirista antes, que eu tinha publicado histórias pornôs com o Franco de Rosa, por exemplo. Na época do meu personagem Baiano eu fiquei os primeiros cinco anos do personagem escrevendo e desenhando, depois fiquei só no roteiro e o meu amigo Sidney passou a desenhá-lo. Depois eu fui escrever roteiros pra Cedraz, e paralelamente, escrevia HQs pornôs, que era um mercado forte na época. Aí eu vim pra São Paulo...

Você veio sozinho?

Não, vim com a minha então esposa que veio trabalhar na Folha de São Paulo e eu me transferi pra Gazeta Mercantil. Trabalhei lá com o chargista Novaes por muito tempo.

Novaes é meu brother!

Tinha o Novaes, a Conceição Cahu. Ela merece um capítulo na história do Brasil porque foi ela que criou aqueles retratos de políticos a bico de pena, ela fez mais de cinco mil daqueles retratos. Alguém podia juntar esses cinco mil bicos de pena... Se você pega esses cinco mil desenhos dela, uns 25 em cada página, você vai ter um livraço de 200 páginas. Alguém devia fazer isso, não é uma boa idéia?

Talvez você, né?

Eu acho que é possível resgatar o trabalho dela lá na Gazeta.

O jeito é você mesmo. Meu, você lançou livro pra carvalho, né? Quantos você lançou e quais são esses livros?

Tenho 10 livros e tem dois pro ano que vem. Um livro é da Ediouro chamado Livro dos Monstros, que sai em fevereiro e em maio sai o outro que é o Guerra dos Gibis 2. Nesse segundo volume eu conto a história do Quadrinho brasileiro de 1964 até 1985, eu conto a história de Minami Keizi, que fundou as editoras Edrel e Minami e Cunha. Que revelou, entre outros, o Cláudio Seto, o Fernando Ikoma e o Paulo Fukue.

O Cláudio Seto tinha um trabalho maravilhoso. Que fim levou esse caboclo, cara?

Tá em forma, tá morando em Curitiba. Ele é um dos maiores artistas plásticos do Paraná. Ele trabalha na prefeitura e ilustra o jornal Correio do Paraná ou o Correio de Notícias há mais de 25 anos.

E o Fernando Ikoma? Você conhece ele pessoalmente?

Não, não o conheço. Ele mora lá no Paraná também. De toda a turma da Edrel ele foi o único que não consegui entrevistar.

Você tem o livro dele?

Tenho, Técnica Universal da História em Quadrinhos. É o primeiro livro teórico de Quadrinhos do Brasil!

E o Fikon? Adoro o Fikon, super-herói dele, dos anos 60!!! O desenho era trash, mas a história é genial!

Eu não tenho receio de afirmar: a Edrel foi uma editora revolucionária!

Você tá falando disso no teu novo livro? E da Grafipar, que fazia material erótico, você tá falando também?

Metade do livro é Edrel e metade é Grafipar. Então eu mostro como esses caras lutaram contra a Ditadura por causa da censura. Esses caras foram presos; o Paulo Fukue, pra você ter uma idéia, foi torturado, espancado, e é o único caso que eu tenho registro e pesquisei, de um preso que espancou, bateu no torturador, porque ele era faixa preta em artes marciais e quando o policial foi bater nele ele se defendeu do cara, aí caiu todo mundo em cima dele, quebraram gaveta na cabeça dele, detonaram o braço dele, ele ficou mofando todo linchado na cela durante três dias. Quase mataram ele. Eu levei quinze anos tentando falar com ele, só consegui porque um amigo meu convenceu ele a me dar um depoimento. Ele ficou completamente neurótico, com medo da ditadura voltar. Eu conto a história desses caras assim. Encontrei vários velhinhos na boca do lixo, fui lá e entrevistei eles sobre os livros pornôs da Edrel e Grafipar que foram perseguidos e censurados. Eu conto essa história também. Conto como a ditadura criou leis, perseguiu as revistas de sexo, fechou várias, todo mundo, tá tudo lá, então é um mapeamento que eu faço desses caras. É a história dos Quadrinhos na ditadura e também a história da pornografia e da censura no Brasil!

Pô, que trampo, hein?!...

Eu fiz vários outros livros. Um sobre televisão (O País da TV), que saiu pela Conrad em 2001, fiz o do Benício, que pintava os cartazes do cinema nacional. Depois fiz o Tentação Italiana, Guerra dos Gibis, Biblioteca dos Quadrinhos, O Homem Abril...

Putz, esse é genial!!! Vamos falar um pouco desse livro. Deixa só eu fazer um comentário: eu fui criança nos anos 70, e eu adorava o gibi Diversões Juvenis, que cada número trazia um personagem diferente, que se “pegasse” virava título mensal.E depois teve o lance da Idéia Editorial, que ele fundou. Eu adorava a Idéia Editorial, eu tenho a coleção completa do Capitão BigBom, que é o personagem Vira-Lata. Eu tenho tudo! E guardo como se fosse um tesouro! Tem aquele gibi, saiu um número só, que era uma bruxa, uma cabeça de abóbora, um monstro ridículo, voavam numa vassoura motorizada. Era quadrinização de um seriado que passava na TV na época.

Cara, você guardou isso?

Guardei, véio! Eu tenho cada gibi maravilhoso em casa, você não tem noção. Mas nunca na vida que eu ia associar uma coisa com a outra. Como que eu ia saber que foi o Cláudio de Souza o responsável por tanta coisa legal? Foi você que mostrou que era um cara só por trás de tanta coisa assim: os super-heróis da Hanna-Barbera, Perdidos no Espaço, Magnus, o caçador de robôs, Faísca e Fumaça, Os Monstrinhos, Alceu e Dentinho, Satanésio, Saca-rolha, eu adorava todos esses gibis!!!

E de material nacional muito bom da Disney, né? E você é o primeiro cara que me fala que tem todas essas revistas da Idéia. Eu tenho, eu me matei pra completar tudo porque eu precisava pro livro.

Eu tenho o Manual do Super-Herói!!! Tá novinho! Aquilo na época vendeu muito bem, né? Eu adoro aquilo, tenho até hoje, cara. Com ilustrações do Mishio Iamashita, lindíssimo! Mas esse livro do Homem Abril vendeu bem? As pessoas se interessaram por esse livro?

Esse livro acho que teve 1000 exemplares e não deve ter vendido nem cem. Sabe por quê? A Ópera mandou pra imprensa 94 exemplares em sedex pros jornalistas, só o Universo HQ, um jornal de Recife, um jornal de Campinas e a Gazeta Mercantil deram, porque a editora do caderno de cultura era muito minha amiga, nós trabalhamos juntos e em consideração ela deu uma resenha minha. Ninguém mais, não saiu uma linha na imprensa escrita, nada. Ou seja, na própria Abril não saiu nada! E eu não fiz o livro pra ser sensacionalista, eu simplesmente conto a história dos Quadrinhos na Abril. Porque eu conto a história dos Quadrinhos na Abril? Porque foi a coisa mais importante que a Abril fez nos primeiros 25 anos de existência!

Nos anos 70 aquilo foi genial! Espetacular!

Os anos 70 foram o auge da editora, auge criativo, de vendas, econômico. Tio Patinhas vendia 500 mil, hoje deve vender 15, sei lá 20, e não é saudosismo meu nem seu não, aquele foi realmente o grande momento dos Quadrinhos no Brasil!

Aquela equipe maravilhosa que a Abril tinha na época: Canini, Primaggio, César Sandoval, Herrero, Napoleão, Michio, Perotty... Só feras!!!
 
Então, talvez no Homem Abril tenha coisas lá que não interessa a editora Abril divulgar. Por exemplo, a demissão do Mino Carta, que foi uma pressão da Ditadura Militar, eu peguei uns documentos no DOPS sobre isso, tem essa história. Tem várias coisas que deixo pista pros caras, tá nas entrelinhas. Eu não tive a intenção de fazer um livro desmascarando a Abril, mas eu contei tudo o que eu queria. Eu não fiz o livro pra conseguir um emprego na editora, eu não fiz como o Mário Sérgio Conti, que escreveu um livro escroto chamado Notícias do Planalto, puxando saco de dono de editora e patrão pra poder conseguir emprego, porque aquele livro dele é uma irresponsabilidade, é uma escrotidão e muitas faculdades adotam aquela porcaria, e ele fez pra puxar saco de editora e se deu bem depois. Eu não fiz isso pra pedir emprego na Editora Abril, mas quis contar a história dos Quadrinhos, né? E sei lá, Civita ficou dez anos sem ninguém saber que ele tava por trás da Abril, né? Ele não podia aparecer porque ele era estrangeiro, então ele botou aquele Giordano Rossi como testa de ferro. Só quando ele se naturalizou em 1960 ele começou a assinar os editoriais, aí que virou o Victor Civita e o grande lance da Abril foi quando ele começou a lançar os fascículos, aí deu muita grana, ele começou a fazer a Realidade, depois a Veja e aí veio a grande fase dos Qquadrinhos, aquela coisa maravilhosa que foi os anos 70. Não adianta a gente ser preconceituoso e radical e dizer assim: “po%%@, Quadrinhos”... mas era uma coisa que você leu e eu li, era bom aquilo rapaz, aquelas histórias eram boas e criança não tinha noção do que era ideológico.

Você também foi o único cara que deu valor pro Benício, que era um gênio, né? Você foi o único cara que teve a idéia de fazer um livro do Benício. Porque ele é um cara do porte do Frank Frazetta, é um Frazetta brasileiro!

E eu fiz um de Alceu Pena também, que é outro fera do mesmo nível de Benício.

O Benício curtiu o livro?

Muito! Ele adorou! Eu acho que pelo menos o livro dele deu uma repercussão da imprensa, foi parar no programa do Jô Soares...

Você foi lá?

Não, o Benício foi. A tiragem foi só 500 cópias mas foi impressionante a repercussão. Todas as revistas customizadas, chiques, que tem tiragem, todas deram coisa do Benício.

Qual você acha que é o seu melhor livro até agora? Que você tem mais orgulho, que você acha que se superou?

Acho que A Guerra dos Gibis. Às vezes a gente é pretensioso. Eu acho que entra naquela de resistência, porque eu não fiz mestrado e doutorado. Eu chamo meu livro de reportagem porque foi uma história que eu quis contar. E foi uma coisa insana porque não havia nada sobre isso, então eu ia pra biblioteca, saía de Salvador, pegava 30 horas de ônibus, ia pro albergue, ficava ali no Botafogo, depois eu pegava um ônibus, depois peguei metrô e ficava caçando uma notícia sobre Quadrinhos, aí eu achava e ela me levava a outra, aí eu li uma notícia de 1948 da briga de Roberto Marinho com Orlando Dantas do Diário de Notícias que começou na verdade em 1943, lá ia eu pra 1943 atrás desse material. Então fui montando essa historinha toda, peça por peça, e aí e acho que você entende a minha indignação quando um cara que não teve esse trabalho todo vai lá, pega minha pesquisa, resume e coloca no livro dele!

Agora com toda essa experiência que você acumulou, com tudo isso que você já viu e já escreveu sobre Quadrinhos brasileiros, se você fosse falar o nome de uma única pessoa, qual a pessoa mais importante em toda história do Quadrinho brasileiro?

É o Adolfo Aizen mesmo! Ele foi o cara que criou toda a indústria. E além disso Quadrinho era a paixão dele!Agora tem uma coisa curiosa, você me pediu um nome, mas quatro empresários da imprensa brasileira no século 20 foram editores de Quadrinhos. E foram caras empreendedores, que abriram o mercado e lutaram contra o preconceito, a censura. E de 1944 a 1964 foram mais de 20 tentativas. Assis Chateubriand, que lançou o Guri em 1940, Adolfo Aizen que trouxe os super-heróis, que criou a indústria, não vou discutir se ele foi o primeiro porque tinha o Tico-Tico que publicava Quadrinhos mas era uma revista isolada e publicava de tudo, inclusive Quadrinhos. Já o Adolfo Aizen não, ele criou essa coisa toda, ele abriu o mercado, depois veio Roberto Marinho e Victor Civita. Se você quiser mais tem Alfredo Machado que montou a distribuidora de Quadrinhos, ele era funcionário de Aizen e hoje é esse império editorial que é a Editora Record, dona de não sei quantas editoras. Então é de considerar que esses 4 caras apostaram nos Quadrinhos porque a garotada lia muito, né? E eles enfrentaram o preconceito e censura!

Você faz palestra?

Eu vou em qualquer buraco no chão! As vezes eu fico nervoso quando a platéia é grande, mas é assim que você domina.

Como é que faz pra avaliar uma crítica, porque eu já vi você rasgando a seda pra coisas que eu acho uma bo*$#@ completa. Quem é que tem razão nesse caso, eu ou você? Quando é que a gente deve levar a sério uma crítica?

(surpreso) Jura?!?O que eu elogiei que você acha uma bo*$#@?!?

Aqui quem faz as perguntas sou eu. Você só responde! Não güenta pede pra sair (gargalhadas)!...

Você percebe quando a crítica é séria, é bem intencionada e fundamentada. São três coisas que você tem que considerar quando vai avaliar um negócio. Às vezes você percebe que o cara tá escrevendo as coisas pra elogiar um amigo ou até pra detonar um inimigo, mas existe uma coisa chamada metodologia da crítica, mas é uma coisa muito subjetiva porque depende muito do seu olhar. Por exemplo, todo mundo odiou aquele filme Inteligência Artificial do Steven Spielberg, eu adorei. Todo mundo detestou esse novo filme do Super-Homem, a maioria detonou, eu adorei, achei ótimo o filme. E muitos outros filmes. Eu gostaria de saber o que você achou uma bo*$#@ e eu adorei. Mas não foi só pra agradar alguém.

Será que no fundo, no fundo, a crítica não é apenas a opinião pessoal de um jornalista? Que às vezes nem é jornalista...

Não é, porque você não pode misturar resenha com crítica. Resenha é uma coisa mais superficial, mais rápida, mais opinativa do tipo “eu acho isso, eu acho aquilo”. A crítica ela segue uma metodologia, cheia de elementos. A crítica séria mesmo vai analisar o seu roteiro, o seu traço, a sua abordagem, até mesmo a impressão do material, o caráter psicológico e psicanalítico dos seus Quadrinhos...

E você acha que qualquer um tem competência pra fazer isso?

Não. É por isso que a crítica no Brasil vive uma grande crise! Você não tem metodologia, a pessoa não estuda pra fazer o negócio.

Qual a formação que um crítico deve ter?

Não precisa ser formado, ele tem que ser simplesmente sério, honesto com o leitor e com ele mesmo. Esse que é o grande problema, o problema das panelinhas. O Cinema é um exemplo disso. Tem muita gente que escreve sobre Cinema e tem uma relação promíscua com as produtoras dos filmes, é o cara que aceita viajar com a produção, que não fala mal pra poder ser convidado pra ir a Gramado, Brasília, nos festivais, então ele nunca vai falar mal dos filmes.

Mas isso não é só na crítica, isso é na imprensa como um todo, no planeta inteiro! Se você tem um jornal, você não vai falar mal de uma pessoa que anuncia no teu jornal.

Mas é diferente, você tá trabalhando com denúncia. Primeiro o crítico tem que viver da reputação, do respeito, você não nasce da noite pro dia como crítico. Por isso eu não concordo de pegar essa garotada de 18, 19 anos para colocar no jornal e ficar falando mal de música,de banda de rock, pra dizer que Strokes é a coisa mais maravilhosa do mundo se ela nunca ouviu Lou Reed em 1980, nunca ouviu o disco New York dele, pra dizer que o disco do Strokes é uma maravilha. Se o cara tem experiência, se tem referência musical ampla, ele vai dizer que Strokes é uma reciclagem de uma coisa que já aconteceu. Então a crítica vem muito de experiência, ele se forma crítico, se ele tiver honestidade e cuidado ele vai estudar pra ser crítico. Tem livros brilhantes, livros espanhóis, por exemplo, que você acha muito fácil na Martins Fontes, tem um livro brilhante Como Ver um Filme que serve pra Quadrinhos. Ele explica que pra ver um filme, você precisa observar uma série de elementos. Quadrinho é a mesma coisa. Em resumo, o crítico tem que tentar convencer você de que a crítica dele tem fundamento, de que ele tá sendo honesto. Eu não concordo, mas o cara fundamentou, ele não tá querendo humilhar ninguém. É isso que ele tem que fazer. Não necessariamente você tem que concordar com ele, mas ele tem que se fazer respeitar.

Eu trabalho em revista de rock a vida inteira, faço entrevista, faço resenha de disco, de show, faço tudo o que um crítico normal faz e além de tudo isso também faço Histórias em Quadrinhos. Aí eu tô cansado de ver isso, por exemplo, a crítica de um mesmo disco: numa revista um crítico dá nota 5 e na outra o cara dá 10!Em quem eu vou acreditar?!?

No seu bom senso, no seu conhecimento.

Eu já comprei disco que crítico falou maravilhas, comprei e achei uma me#%@ e joguei no lixo. Fiquei com raiva e vontade de pedir pro crítico reembolsar o meu dinheiro (risos)! É possível processar um crítico por propaganda enganosa (risos)?!?

Aconteceu isso comigo quando me convenceram a comprar o disco de uma certa banda aí na mídia. Uma bo*$#@! Tão ruim que eu quebrei!

Quando você vai lançar um livro, você fica mais preocupado com a opinião da crítica ou do público?

Do público, porque a crítica tende a reproduzir o release. Você vê até que ponto eu cheguei nessa última coluna que eu escrevi no Bigorna, eu desafiei os críticos a dissecarem o meu livro A Guerra dos Gibis. Tem quinze erros nele, tem erros de ortografia, revisão, que eu botei que o cara chegou no Brasil em 1910 e tem legenda lá na frente que o cara chegou em 1912, o crítico poderia ter apontado isso. Eu botei lá que a editora que publicava o Tocha Humana era a National (atual DC Comics), mas na verdade era a Timely (atual Marvel). Aí um carinha lá, um leitor, um cara de fanzine, descobriu isso e ficou me pentelhando, eu já tinha mandado pra ele dizendo que quando saísse a segunda edição eu ia corrigir essa po%%@ e o cara continuava insistindo. Então eu não me preocupo com o que a crítica vai dizer, porque você tem que ter auto-crítica e tem que ir preparado pra enfrentar a coisa. Pode parecer pretensioso dizer que não me preocupo com a crítica, na verdade eu me preocupo, mas acabo sempre me decepcionando.

Você acha que criticaram pouco ou criticaram muito os seus livros?

Eu acho que não criticaram, eu acho que divulgaram. Foram bastante generosos comigo, eu não tenho do que me queixar. Só o Homem Abril que não saiu em lugar nenhum. Mas no resto eu só tenho a agradecer porque houve uma grande divulgação. Mas acho que teriam me ajudado mais se tivessem me apontado erros, falhas e equívocos. Acho que falta crítica ao meu trabalho e ao de todos, de um modo geral. Porque você percebe quando o cara lê. Eu não tô nem falando de fanzine ou de site, mas de jornal e revista. No meu  livro País da TV, eu fiz uma entrevista com o secretário particular de Roberto Marinho, chamado Walter Goiás, esse cara foi assessor pessoal do Roberto Marinho durante 51 anos. Ele tem 90 e tantos anos agora. Esse cara foi estrategista da Ditadura Militar, ele que montou aquela campanha do milagre brasileiro. Sabe o que saiu na imprensa sobre isso? NADA!!! Ninguém escreveu NADA sobre isso!!!

Apesar de não fazerem tanta crítica do teu trabalho como você gostaria, você é um cara que já conseguiu fazer seu nome no mercado, tá consagrado e tal. Essa consagração também não foi um serviço que a crítica prestou pra você? Divulgaram seu nome, lhe deram a credibilidade que você tem hoje, não foi?

Eu luto pra isso, pra que as pessoas me respeitem! Um dos retornos que eu tenho disso é quando as pessoas me chamam pra fazer palestras.

Ninguém duvida de você, do Sidney Gusman, do Eloyr, do Worney, Ota, Franco, Roberto Guedes, Álvaro de Moya, Paulo Ramos... Então quando sai um livro de vocês, eu compro de olho fechado. Agora, na real, hoje em dia pra eu ler um livro pra valer mesmo tá difícil. Então será que não é isso que acontece com todo mundo? O cara pega um livro, já vai direto no release e taca lá no site, porque acho que ninguém hoje em dia tem tempo de ler um livro de 400 páginas pra fazer uma resenha.

Concordo com você e aí é que está o problema da distorção da função da crítica! Existe uma cultura de obituário, se você não avisar no dia seguinte que o cara morreu ninguém se interessa mais. Se um site anuncia, o outro quer anunciar também! São movidos pela competição! Você tem que fazer uma crítica séria e não ser movido por esse tipo de coisa.

Fala o nome dos melhores críticos de Quadrinhos do Brasil, os que você mais respeita.
 
O Naranjo, Codespoti, o Nobu, que faz parte do Núcleo de Quadrinhos da USP, o Paulo Ramos, o Sidney Gusman...

E do nosso chefe Eloyr, você gosta (risos)?

Gosto (risos)! Eloyr é gente boa (risos)!.

Cê acha que ele escreve bem? Quero só ver o que tu vai falar do chefe. Tá vendo como crítico é tudo bundão, rabo-preso (gargalhadas)?!?..

Posso falar um pouco do nosso chefe, na real mesmo?

Vai começar a “Sessão puxa-saco”!

O Bigorna é um site ultra-democrático! Eloyr é um anti-herói dos Quadrinhos, é um cara que fez editora, publicou um monte de coisas, inclusive nacionais, e causou polêmica. Mas eu acho que a paixão dele pelos quadrinhos tava acima de qualquer propósito financeiro de grana, ele fez a editora dele (Brainstore) com o maior tesão, quem quiser pensar o contrário que pense. A editora do Eloyr deu errado, neguinho caiu em cima dele como se fosse urubu na carniça. Agora vamos falar sério aqui: quem é sério, quem é honesto, quem é profissional no mercado editorial de Quadrinhos no Brasil? Historicamente falando, desde os primórdios da década de 30, se você for olhar a história dos Quadrinhos no Brasil é uma história de neguinho passando rasteira no outro, pegando o outro na trairagem e tudo mais. E não tô querendo entrar em discussão em relação a Eloyr e nem jogá-lo no centro das discussões, mas achei desonesto terem caído de pau em cima dele, terem feito comentários cruéis. Ele tem bons argumentos pra justificar o que deu errado na editora dele. Acho que certas pessoas no meio dos Quadrinhos foram extremamente perversas com ele. Então eu sou um mero expectador, quem quiser me odiar que me odeie, mas eu faço as coisas pra que me respeitem, eu procuro ser o mais correto possível, eu sou chato pra editar livro porque eu fico revisando o tempo todo, pra não dar brecha pra essas pessoas me atacarem. Então falem o que quiserem, podem botar meu nome em site nazista como eu já vi, podem fazer referências preconceituosas em relação à minha origem de baiano, façam o que quiserem. Quer questionar meu trabalho? Argumente, entre no ringue pra lutar, se você quer lutar vamos pro ringue! Mas venha com bons argumentos, se fundamente e venha pro combate. Vamos deixar a hipocrisia de lado, a sacanagem que a Internet ajuda muito a proliferar, vamos acabar com isso e vamos profissionalizar os Quadrinhos no Brasil que essa sim é a coisa mais importante dessa discussão toda.

Você acha que já tem bastante profissionais no Quadrinho brasileiro?

Acho que tem mais profissional entre os artistas do que entre os editores. A cabeça do editor no Brasil é atrasada, amadora, anti-profissional, anti-ética e algumas vezes é desonesta mesmo!

O que um editor típico não faz que deveria fazer?

Respeitar o artista, pagar direito autoral, chamar o cara pra assinar um contrato, e não tratar o cara como se tivesse fazendo um favor. Eu canso de ir lá no Prêmio HQ Mix e ver editor subindo no palco parecendo o Super-Homem, o Homem-Aranha, dizendo lá explicitamente que tá fazendo um favor pro artista. Não tá fazendo favor nenhum, rapaz! Tá ganhando dinheiro com aquilo, ele não vai botar grana no álbum do cara se ele não recuperar o que ele gastou! A não ser as maluquices que Carlos Mann fez, de publicar uma coisa ou outra porque ele gosta. Agora os caras chegam e vêem um artista brasileiro como coitadinho, não dão atenção, não respeitam, eu vejo nesses eventos um garoto com as pastas de desenho debaixo do braço e o cara nem pára pra olhar o trabalho do moleque, é falta de profissionalismo! Tem dois problemas: os editores - tô falando de forma genérica, mas tem exceções - de Quadrinhos que precisam se profissionalizar, respeitar as pessoas, lembrar que as pessoas pagam condomínio, pagam aluguel, tem que comer, não vão ficar a vida inteira na casa da mãe e do pai, fazendo Quadrinho pra se divertir. O segundo problema é a mentalidade de profissionalização do mercado, você tem que chegar e fazer, ir tentando, desenhando. Publicando insistentemente você se estabelece, mesmo com fanzines, mas você tem que se impor, e não vir com aquele papo de “sou vítima do imperialismo dos Quadrinhos americanos”, isso não existe mais! Isso é discurso da época das tiras de jornal, quando tinha uma velha discussão que o jornal tal publicava 10 tiras americanas e nenhuma brasileira. São dois pontos que tem que discutir: o lado dos desenhistas e mudar a cabeça desses editores. Quer publicar, publica, mas respeite o cara, pague os direitos, chame o cara pra fazer contrato.

Sabe qual a impressão que eu tenho? Que as editoras tão ganhando dinheiro com Quadrinho estrangeiro, com mangá, aí eles pegam a grana e enfiam num livro brasileiro. Mas não sei se brasileiro vende bem. Você acha que um livro do Marcatti, por exemplo, vende bem?

Eu acho que vende o suficiente pra editora não perder dinheiro pelo menos. Esse altruísmo não existe em editor brasileiro, meu caro! Acho que Carlos Mann fez algumas coisas no início da Opera, que tinha esse propósito de resgatar desenhistas antigos. Eram álbuns-tributos. Eles não vão perder dinheiro não, eles não são bonzinhos nesse meio não! Eu acho que ninguém é bonzinho, os caras publicam o que acham que vai dar retorno. E os próprios artistas andam com suas pernas pra divulgar material, Marcatti rala, Mutarelli vende, e vai vender cada vez mais, ele tá abrindo um novo caminho. O Diomedes, o detetive dele, acho que vai pro Cinema e ele tá sendo respeitado como escritor, ele tá abrindo um caminho ainda, então vai vender muito Quadrinho ainda.

Você não acha que a crítica consagrou os caras certos? Por exemplo, nos anos 80, a crítica consagrou o Watson, Mozart Couto, Rodval Matias, que de fato eram os melhores daquela geração, não eram? Nos anos 90 ela consagrou Marcelo Campos, Luke Ross, Rogério Cruz, Deodato, etc. Agora nos anos 2000 é a vez dos Gêmeos, a crítica bomba os Gêmeos, você não percebe isso? O Renato Guedes também. Então, apesar de suas decepções com a crítica, você não acha que ela até que foi coerente e consagrou o supra-sumo de cada geração?

Não. Porque a crítica é tendenciosa! Você pega a obra dos Gêmeos, que estão evoluindo cada vez mais, buscando um caminho próprio, que não estão afins de fazer material pra Marvel e pra DC, eles buscam fazer o autoral, e essas críticas só ficam elogiando sem parar, inflando o ego. Mas no dia que eles lerem uma crítica bem fundamentada, em que os críticos não querem detonar nem alisar eles e sim apontar onde eles podem melhorar, aí eles vão agradecer, o Marcatti vai agradecer. Tudo depende de como você constrói sua reputação e respeitabilidade como crítico! O problema no Brasil é que, por ter panelinhas, as pessoas acham que um tá detonando o outro porque são editoras concorrentes. É prejudicial pra todo mundo existir uma crítica assim. A grande imprensa, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, praticamente nem falam mais de Quadrinhos, inclusive muitos jornalistas desses jornais migraram pra editoras. É uma coisa muito tendenciosa! Elogia muito o cara, só dá elogio e não aponta, por exemplo, uma evolução no trabalho do cara, nem detalhes técnicos que você percebe que são observados no sentido de contribuir, de melhorar, de aprimorar e de chamar a atenção do leitor. Isso seria muito favorável pro artista.

Você estava falando da promiscuidade com o Cinema, que a crítica tem com as produtoras. Você acha que tem essa mesma, digamos, ”brodagem” entre os quadrinhistas e a crítica? Porque a maioria dos caras que falam de Quadrinhos também desenham ou editam, como é o caso do Ota, o Franco, o Rogério Campos, que foi editor da Animal, o Worney e tal. Então talvez lhe dê essa impressão de compadrio, porque essa galera que já fez Quadrinho sabe das dificuldades de se fazer e então acaba sendo sempre compreensível com o trabalho de todo mundo. Você acha que essa galera é muito benevolente com o Quadrinho nacional?

Eu acho que tem como separar as coisas. Se o cara vai virar editor, é uma questão de honestidade com ele próprio, ele não pode ficar escrevendo sobre Quadrinhos criticamente ou opinativamente. Até mesmo dos próprios Quadrinhos que ele edita. Ele pode fazer a apresentação de um livro ou a orelha de um livro, mas se ele se posicionar no mercado como editor e ser tendencioso com os Quadrinhos dele, ele vai ser mal recebido, porque não é possível que fique tentando formar opinião de uma coisa que interessa exclusivamente a ele economicamente falando. Os caras que trabalham ou trabalhavam com Quadrinhos como o Ota, que é um cara que gosta de polemizar, mas que coloca muitas coisas ponderadas, se ele se posiciona ele pode usar muitas coisas do passado dele pra fazer crítica, mas é preciso separar, como Arnaldo Jabor, que era cineasta, parou e virou crítico, e muita gente gosta dele.

E qual dos dois Jabors você prefere, o cineasta ou o crítico?

Nenhum (risos). Acho Jabor sem sabor. Diogo Mainardi é muito perigoso, que é próximo da banda podre reacionária da classe média, então eles falam pra essas pessoas. Essas pessoas que esperam uma frase preconceituosa, racista, mesmo que disfarçada do nosso racismo cordial. São Paulo, por exemplo, é o estado que vê 9 estados como uma única região, não como estados próprios, com culturas próprias, identidades próprias. Pra São Paulo você não é um baiano, um pernambucano, um paraibano, alagoano, potiguar, cearense, maranhense nem piauiense, você é nordestino e acabou! Você já viu alguém falar “sulista”? Eu sou baiano com cultura própria, então tem que ser mais combativo, discutir isso. Em resumo, tudo o que conversamos hoje é uma proposta de discussão de melhorar, pra respeitar as coisas, não é moralizar no sentido moralista, reacionário, é melhorar o Quadrinho, nossa pesquisa. Os pesquisadores não querem pesquisar, querem juntar 5 livros pra escrever o sexto. Isso não é mal dos Quadrinhos não, é mal de história, economia, todos os cursos na academia. Eu peguei uma situação, abri a boca, desabafei e tô propondo um debate, uma discussão, então eu ponho meus livros à disposição pra quem quiser debater, apontar erros, mas que façam a gentileza de fundamentar.

Como você acha que tá o mercado de Quadrinhos hoje, a produção brasileira? Você que já estudou todas as fases...

De toda sua história de 74 anos é o melhor momento do Quadrinho no Brasil. Bons autores, mão-de-obra sendo absorvida lá fora, isso pode ser visto como aspecto positivo, mas acho que eles não podem simplesmente se acomodar e passar a vida inteira desenhando Marvel, acho que eles podem fazer o que o Marcelo Campos faz, que é abrir um mercado. Então Marcelo Campos agora lançou um livro com as tirinhas dele, ele faz Quadrinhos de super-heróis mas ele tem a produção pessoal dele que ele tá mostrando agora. Se você se acomodar, vai ser que nem alguns profissionais da Abril que passaram 30 anos desenhando Disney até se aposentar, eram pessoas talentosíssimas mas que não expuseram sua obra autoral pessoal. Vejo o mercado com preocupação, porque tem que pensar na criançada, a molecada,e o gibis tão muito em livrarias, são caros. Mas mesmo assim, nunca os Quadrinhos brasileiros foram tão valorizados e respeitados e é uma questão de ajustar e estabelecer respeito com os editores. Meu bode é com os editores!

O artista é o herói, o editor é o vilão e a crítica é o cavalo do mocinho que ajuda a enfrentar o vilão?

Mas o artista também tem a responsabilidade dele de se melhorar, se aprimorar e de se fazer respeitar. Se você chega pra um editor desses aí, ele tem que aprender a te respeitar. E como o artista faz isso? Fazendo um trabalho cada vez melhor! O papel da crítica é ajudá-lo a fazer um trabalho cada vez melhor e assim ter mais moral pra peitar o editor.

Beleza, velho, chegamos no final! Quer falar um tchau pra galera aí?

Foi um prazer enorme conversar com você porque você puxou assuntos que estavam lá no buraco da memória, outros entalados na garganta, e sem puxar seu saco você fez perguntas muito pertinentes. E eu acho que tudo o que eu tô pregando nesse texto da minha coluna você sacou e possibilitou um desenvolvimento disso quando você trouxe questões sobre o papel da crítica, do editor e do artista. Enfim, a ficha caiu pra você, você sacou o espírito da coisa! A minha proposta de discussão foi bem esclarecida e desenvolvida pela sua entrevista. Obrigado a você e ao Bigorna pelo espaço e oportunidade!

Obrigado o carvalho!!! Pode escrever um livro sobre mim aí!!! A Guerra dos Cartuns: História e glória de Capitão Baraldão Nascimento!. E por hoje chega! Pede pra sair, pede pra sair (risos)!...

O Bigorna.net agradece a Gonçalo Junior pela entrevista, realizada em 01/11/2007 (transcrição das fitas: Juliana Negri)

(foto: Marcio Baraldi)

 Veja também:

A Guerra dos Livros

A Guerra dos Gibis e Ebal - Fábrica de Quadrinhos: a polêmica

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