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Entrevista: Lourenço Mutarelli como você nunca viu (ou leu) antes!
Por Marcio Baraldi e Hamilton Tadeu (NFL Zine)
28/08/2007

Hamilton, Baraldão e Lourenço seguram as revistas mais geniais da Historia

Desnecessário apresentar este sujeito. Desnecessário dizer que Lourenço Mutarelli é um dos quadrinhistas mais autênticos, legítimos e originais do planeta, dono de um trabalho 1000% (mil mesmo) autobiográfico. Lourenço desenha direto com a alma, seu trabalho é um diálogo profundo e conturbado dele com ele mesmo. O mundo exterior apenas assiste... e aplaude! Desnecessário dizer também que Lourenço é fechado, monossilábico, caboclo de poucas palavras e menos sorrisos ainda. Mas também quando fala, é sem frescura, direto, na lata! Caboclo “true”mesmo! Pois nesta entrevista, provavelmente a mais longa que o artista já concedeu, você vai se surpreender com Mutarelli. Atacado por pizzas e muitas palhaçadas por parte dos entrevistadores, Lourenço não resistiu e se descontraiu. Resultado: falou muito, contou causos inéditos e interessantíssimos e, pasmem, riu à beça! Enfim, um Lourenço como você NUNCA viu ou leu antes! Hipócritas e falsos de plantão, saiam da frente, pois Lourenço Mutarelli não tem dó e atira mesmo mesmo! E não é no sentido figurado, não! Confira! Pou... Pou....                                     

Baraldi – Eu trouxe cerveja pra vocês aí, ó! Pega aí!
Hamilton – Não bebo. E mesmo se bebesse não poderia tomar, pois estou tomando remédio pra controlar a agressividade.
Baraldi – Tá bom. Que dia é hoje, seu *&@~*!?
Hamilton – Hum... hoje é domingo, dia 5 de...
Baraldi – Domingo, 5 de agosto de 2007 e tamos na Vila Mariana, na casa do Lourenço Mutarelli, uma figura dos Quadrinhos. Se você se acha uma figura dos Quadrinhos é porque você não conhece o Lourenço Mutarelli, esse sim é a mó figura dos Quadrinhos brasileiros, tá ligado? Vamos começar um bate-papo informalzão, bem legal, aqui na mesa de rango da casa do Lourenço. Tamos comendo uma pizza e conversando com ele. Você não bebe cerveja?
Mutarelli – Não bebo. Já bebi, mas não bebo mais.
Baraldi – Você parou, velho?
Mutarelli – Parei sim, parei!
Baraldi – E como foi essa parada na bebida, pois você tinha aquele lance dos remédios que você tomava e você ficou meio conhecido por causa disso. Parou com os remédios?
Mutarelli – Ainda tenho que tomar, continua firme e forte.
Baraldi – Tem que tomar uns tarja preta?
Mutarelli – Tenho sim (risos)
Baraldi – Mas isso é pra toda a vida?
Mutarelli – Depende, mas eu vou tomar a vida inteira.
Baraldi – É mesmo?! É pra controlar a agressividade como faz o rapaz aqui?
Mutarelli (sorrindo) – Também! É pra controlar a agressividade.
Baraldi (que se aproxima do gravador) – Então eu tô *&@~*! aqui hoje, porque estou jantando com dois caboclos que tem problema com excesso de agressividade. Se acontecer alguma coisa comigo, vocês chamem a polícia, pelo amor de Deus, tá ligado?! (Mutarelli começa a rir)... São três arianos nessa porra aqui?
Hamilton – Se acontecer algo a matéria não será publicada, porque ia incriminar a gente. Você acha que ia ser publicada (Mutarelli começa a rir)?
Baraldi (rindo muito) – Ariano, ariano... três arianos nessa porra. Isso não vai prestar, maluco!... Eu tenho uma pá de pergunta pra você, velho. Olha as coisas que eu trouxe aqui...
Hamilton – Você trouxe câmera, né?
Baraldi – É! Você lembra disso aqui, velho (Baraldi mostra as revistas antigas Solúvel e Tralha)? Quando eu te conheci?

Mutarelli – Lembro que fui na tua casa em Santo André quando o Marcatti queria publicar a Tralha. Eu já tinha visto alguma coisa do teu trabalho e fui com ele te convidar pra revista.
Baraldi – Eu já conhecia o Marcatti nessa época, conheci ele em 1986. Conheço aquela praga há 21 anos.
Mutarelli – Eu o conheci em 1988, quando publiquei a Over-12. Quando surgiu a Tralha ele pensou em chamar você, o Bira e o Glauco Matoso, que era um dos editores. Aí eu tava na casa dele e ele falou pra dar um pulo na tua casa. Eu conhecia teu trabalho e tinha uma história que você fez que eu quase morri de rir (risos).
Baraldi (rindo muito) – É mesmo!? Você lembra o que era?
Mutarelli – Era aquela O psicólogo, padre e velho bicha.
Baraldi – É essa daqui, olha. Você não tem muito saco pra guardar as coisas?
Mutarelli – Eu não tenho. Minha mulher tem coisas minhas, eu não tenho nada. O pessoal me pede os originais e vou passando pra frente. Ela tem um arquivo legal com os meus trabalhos.
Baraldi – Vão pegando à vontade as pizzas aí. Eu te conheci nessa época aqui, velho. Você estava lançando a revista Solúvel. Eu lembro que vocês foram na minha casa comer bolo que a minha mãe fez e pá, pá, pá, lembra?
Mutarelli – Acho que foi nessa vez mesmo.
Baraldi – Você lembra que a gente saía pra uns rangos e depois o Marcatti dava uns “arroto mortal”, velho?
Mutarelli – Putz, sempre, né?!
Baraldi – A gente passava uns vexames do *&@~*!.
Mutarelli – Meu... que puta vergonha!
Baraldi (gargalhando) – O Marcatti devia tomar uns remédios pra controlar a agressividade arrotiva dele. Ele que devia tomar, velho (risos)!
Mutarelli – Na estação da Sé, ele deu um puta arroto num vagão lotado. Estava eu e ele, e ele ficou normal e eu fiquei sem graça e todo mundo pensando que era eu.
Baraldi (rindo demais) – Ele era muito cara-de-pau!
Hamilton – Ele deu um arroto dentro do vagão ou na plataforma?
Mutarelli – Dentro, dentro... e muito alto. Na hora que a gente tava saindo, com o vagão lotado, ele vem e dá aquele puta arroto.
Baraldi – Às vezes a gente saía pra comer umas pizzas, umas vezes com o Bira junto, saca, e ele dava uns arrotos punks naquelas pizzarias família, saca?! O Marcatti era muito punk, né cara!?
Mutarelli – Teve um lançamento da Tralha em Campinas num restaurante e ele também fez dessas.
Baraldi – Era o estilão dele. Mas ele parou, né? Nunca mais deu esses arrotos.
Mutarelli – Não sei. Faz tempo que eu não o vejo, mas acho que ele não parou de arrotar.
Baraldi – Nunca mais eu vi ele fazer. Acho que ele tomou jeito, pra dar bom exemplo pros filhos.
Mutarelli – Pode ser.
Baraldi – Legal, velho! Eu lembro dessa sua primeira história na Solúvel, do Capitão Capitae. Você sabe que essa revista, a Solúvel, é a que tem os teus trabalhos que eu mais gosto. É o meu gibi preferido seu! Pode se chamar isso de tua primeira fase, não é?
Mutarelli – Sim.
Baraldi – Você já tinha se encontrado, pois teu trabalho está bem característico, né, velho!? Tem umas histórias que você dá uma variada, como essa história do Pequeno Príncipe, mas dá pra se ver que já tá o Lourenço pronto ali, não tá?
Mutarelli – Tá, acho que tá.
Baraldi – A revista é de 1989. Você já tinha se achado aí...
Mutarelli – Eu ainda estava buscando o traço. Ainda era meio inconstante. Eu variava muito o traço.
Baraldi – Mas sempre essa coisa do traço muito preto, muito escuro e distorcido. Você nunca fez uma coisa mais ligth, não combinava com a tua personalidade.
Mutarelli – Eu não consigo. Eu sempre taco preto.
Baraldi – É sempre uma coisa turbulenta, mesmo.
Hamilton – Eu li numa entrevista tua, que você disse que o pessoal começou a criticar teu desenho dizendo que eram todos deformados, e você disse que teu estilo de desenhar era esse e você não consegue fazer melhor. Teu desenho era daquele jeito.
Mutarelli – Esse é meu estilo. Eu não desenho como eu quero, eu desenho como eu consigo.
Baraldi – Isso é bom. Você nunca aceitou imposição de ninguém, não é? Você foi sempre um cara 100% independente...
Mutarelli – Eu publiquei com o Marcatti, pois tentei durante dois anos publicar em outras revistas e não conseguia. Tinha um monte de revista. Tinha a Circo, as da  Press, aquelas do Gilberto Firmino...
Baraldi – Mas você não publicou na Porrada?
Mutarelli – Publiquei, mas antes eu não tinha ido lá.
Baraldi – O Gilberto publicou material teu pra caramba. Eu lembro de uma conversa com o Gilberto e ele te defendia pra *&@~*!. A Animal não te publicou, né?
Mutarelli – Ela me publicou no suplemento Mau. Foi a Cãozinho sem pernas e uma outra história. E eu também defendia muito o Gilberto, pois tinha gente que falava mal dele e eu nunca tinha problema com ele. Tinha aquelas coisas de não poder pagar às vezes, mas não tinha maldade.
Baraldi – Ele era pobrinho. Um dia eu fui na casa dele. O Cãozinho sem pernas é um clássico! Ele foi um dos primeiros personagens teus, velho?
Mutarelli – Foi.
Baraldi – E qual foi o barato desse Cãozinho sem pernas? É uma coisa meio abstrata. O que você queria dizer?
Mutarelli (rindo) – Eu nunca sei o que quero dizer.
Hamilton – Vocês estão falando do lance de pagar do Gilberto Firmino e era isso que ouvia falar dele, que o pessoal reclamava que ele não pagava e vira-e-mexe ele mudava a editora pra outra cidade. Daí não dava pra processar o cara, e coisas assim. Mas se não podia pagar, pra que vai publicar, então?
Baraldi – Meu, esse papo de falar que o cara é cruel, que nunca pagou... isso é ridículo. Quadrinho nunca deu grana no Brasil.
Mutarelli – Se você ia falar com ele, ele jogava limpo e falava: “Eu não tenho agora, mas vou tentar arrumar” e arrumava. Falavam que ele pagava pouco, mas ele pagava o que tinha combinado.
Baraldi – A Tralha acabou porque o Marcatti se desentendeu com ele, não foi?
Mutarelli – Exatamente! Por ninguém a Tralha acabaria. Só que como o Marcatti teve a idéia, todo mundo achou melhor desistir. Mas ninguém achava que tinha tido problema. Ele falou que o cara não tava cumprindo, que o cara não sei o que, mas acho que não...
Baraldi – O Marcatti foi muito radical.
Mutarelli – O Marcatti é muito radical.
Baraldi – Ele devia ter tomado remédio pra controlar a agressividade dele (Mutarelli começa a rir). Esse gibi aqui (a Solúvel) eu acho genial. Tem uns personagens aqui que você nunca mais retomou. O Capitão Capitae eu acho genial, cara!
Mutarelli – Eu acho ele legal. Fiz duas histórias dele apenas.
Baraldi – Você acha que esgotou o tema pro Capitão Capitae?
Mutarelli – Sei lá eu! Eu tava fazendo outras coisas e fui fazendo outras coisas...
Baraldi – Não desceu mais o espírito do Capitão...
Hamilton – Já que você falou de descer espírito, que papo é esse de receber espíritos por trás?
Baraldi (surpreso) – Ei! Isso aí é com vocês?
Mutarelli (rindo) – É comigo. Isso ocorre mais quando eu escrevo.
Hamilton – Tem aquelas histórias que você desenhou no estilo do Hal Foster, com os personagens humanos com bico de pato, coisas assim...
Baraldi – Você está desenhando no estilo clássico, assim também?
Mutarelli – Eu fiz umas brincadeiras com o Pato Camaleão. Ficou legal, eu gostei do resultado.
Baraldi – Era "academicão", assim bonito?!
Mutarelli – Eu imitava o traço, mas colocava um bico de pato nos personagens e era isso mesmo. Eu falava que era uma entidade que eu recebia por trás.
Baraldi – Era o espírito do Hal Foster dando uma chegadinha.
Mutarelli – Eram vários que chegavam assim, sem aviso.
Baraldi – Já que você tá falando nisso você acredita em Deus ou sempre foi ateu?
Mutarelli – Eu não sei se acreditei em Deus algum dia, mas eu sou ateu há muito tempo.
Baraldi – Você é ateu, mas nasceu numa família católica como 99% das pessoas...
Mutarelli – Meu avô paterno era ateu.
Baraldi – E tua mulher?
Mutarelli – Minha mulher acredita por medo. Ela tem medo.
Baraldi – Ela tem alguma religião?
Mutarelli – Acho que ela é meio católica.
Baraldi – E teu filho, como vocês estão educando?
Mutarelli – Ah, eu falei que Deus não existe, mas se ele quiser acreditar, tudo bem.
Baraldi – Ele prefere acreditar?
Mutarelli – Não, acho que ele prefere não acreditar.
Baraldi – E como é a tua família? Tem contato com eles?
Mutarelli – Tenho muito pouco.
Baraldi – Mas rompeu ruim ou se afastou deles naturalmente?
Mutarelli – Foi tudo na boa. Eu me afastei naturalmente, mas tinha mais contato com o meu pai e depois que ele morreu eu perdi o contato com os demais. Minha mãe ainda é viva.
Baraldi – E você tem um irmão que eu estou ligado, pois você fez uma história com o teu irmão uma vez (a HQ Objeto de Prazer,publicada na Solúvel).
Mutarelli – Fiz sim. É algo de que eu gosto bastante. E tem uma outra que publiquei na Over-12 também.
Baraldi – Você tem amizade com ele?
Mutarelli – Tenho sim, mas ele tem muitos problemas. Ele tá preso e tem umas recaídas às vezes, mas eu gosto pra caramba dele. Espero que eu volte a escrever alguma coisa com ele quando ele sair da cadeia.
Baraldi – Você sempre foi o cara que trabalhou pra *&@~*! na tua família? Eu sou aquele cara que sempre trabalhou feito um condenado, saca!? Era o responsa da família. Você também era assim?
Mutarelli – Eu tentava trabalhar desse jeito, mas mesmo trabalhando muito eu não tinha muita grana e assim sendo não tinha muita moral em casa.
Baraldi – E você tem mais irmãos?
Mutarelli – Tenho uma irmã mais velha.
Baraldi – Então ela é a responsa da família.
Mutarelli – Ela é. É a certa, a versão Disneylândia.
Baraldi – Tem contato com ela?
Mutarelli – Raramente, sabe...
Baraldi – Tá casadona? Tem filho?
Mutarelli – Ninguém quis ter filhos na minha família, só eu. O meu filho Francisco é o último herdeiro dos Mutarelli.
Baraldi (rindo) – Não. Ele vai ter uma pá de filho também. Ele tem cara de esperto, sapeca. Legal!... mas você acha que essas angústias que você teve, originaram-se nesses papos de família ou não? Ou foi parada tua? Você sempre teve umas histórias muito angustiadas. Por exemplo, olha... uma história que você fez foi a do Gaetano Sun (publicada na Solúvel). É uma história de pura angústia e o Gaetano não consegue parar de correr porque está na neura total. Eu me identifico bastante com essa história. Na época que você publicou eu me identificava uns 200% e hoje em dia me identifico uns 90%, já não tanto. É a minha história preferida de toda a sua carreira, até hoje! Por isso que gosto dessa revista. Quantas pessoas têm essa revista hoje em dia?
Mutarelli – Poucas, eu acho!
Baraldi – Pouquíssimas. E é por isso que é legal falar e mostrar essas revistas hoje em dia pra molecada saber. Onde eles vão arrumar uma Over-12 ou uma Solúvel?
Mutarelli – Não tem como achar...
Baraldi – Qual é a parada do Gaetano? Você tava pilhado mesmo quando escreveu a história?
Mutarelli – Eu não sei. Às vezes eu acho que não estou falando de mim, estou falando de um personagem, mas depois eu percebo que tem muito a ver, mas na hora eu não achava isso.
Baraldi – Não era uma coisa tão auto-biográfica assim?
Mutarelli – Sim, mas sem perceber. Tem muita história minha que não tem nada a ver, mas eu descubro um tempo depois que tem algo a ver com algum episódio de minha vida. Essa fase tem muito a ver com esse João aqui (da HQ A história de João, publicada na Solúvel), pois nessa época eu me sentia como se fosse duas pessoas, me sentia muito dividido. Um fraco e um forte, um violento e um medroso.
Hamilton - Esse tipo de estilo do teu traço você acha que tem a ver com a tua alma, por tudo que você está falando, já que você tinha um certa dificuldade de se relacionar com algumas pessoas?
Mutarelli – Acho que tem a ver! Eu melhorei muito nessa coisa de relacionamento, mas acho que tem muito a ver. Na minha infância eu tive uma visão muito negra das coisas e acho que isso me moldou.
Baraldi – Mas por quê?
Mutarelli – Porque eu tive algum problema. Meu pai era muito violento, ele não bebia, mas era viciado em apostar em corridas de cavalos.
Baraldi – E aquela tua avó? Você não fez uma história com a tua avó (publicada na revista Cyber Comics e depois no livro Mundo Pet)? Aquela tua avó era real?
Mutarelli – Eu lembro dessa história e ela era real sim. Ela era a mãe de minha mãe e morava aqui na vizinhança, por isso que eu gosto desse bairro, que era o meu refúgio. Eu ia na casa dela e era muito bom.
Baraldi – Quando a barra tava pesada você ia na casa dela.
Mutarelli – Eu morava lá as vezes. Outras vezes era meu irmão que morava lá. Minha avó era muito legal!
Baraldi – Ahhhh, então os melhores momentos de sua vida você passou lá (risos). Você nunca fugiu de casa?
Mutarelli – Meu pai me mandou embora de casa quando eu tinha uns 10 ou 11 anos.
Hamilton – E daí você foi morar com a tua avó?
Mutarelli – Não, eu saí andando e não sabia para onde ir. Depois a minha mãe me alcançou de carro. Eu estava perdido, andando. Ela mandou entrar no carro e brigou comigo porque eu saí e fui andando. Eu falei pra ela que ele tinha me mandado embora e saí, fui andando. Mas não levei nada de casa comigo, apenas saí e fui embora.
Baraldi – Eu fiz isso umas dez vezes na minha infância também.
Hamilton – Mas era porque você brigou com o teu pai?
Baraldi – Ah, eu não me dava bem com ninguém da minha família, maluco. Tanto é que eu não falo com mais ninguém hoje em dia, só com a minha irmã.
Mutarelli – Mas eu não fugi de casa, saí andando. A minha família é a minha esposa, meu filho e meus gatos.
Hamilton – Você é formado pela faculdade de Belas artes, aqui da Vila Mariana mesmo...
Mutarelli – Na época era no bairro da Luz...
Hamilton – Isso te ajudou nos Quadrinhos ou a paixão pela arte já estava a ponto de fluir sem que o curso despertasse isso em você?
Mutarelli – O curso me ajudou muito em técnica, já que eu não tinha técnica nenhuma. Me ajudou muito em técnica que eu acabei usando nos meus trabalhos...
Baraldi – Você gosta de aquarela, não gosta? Olhas esses desenhos aqui (Baraldi começa a mostrar varas capas pintadas por Mutarelli)... aquarela... aquarela... isso também é aquarela ou ecoline?
Mutarelli – É aquarela. Tem um pouco de ecoline, mas a base é de aquarela.
Baraldi – Você está pintando digitalmente, ou não?
Mutarelli – Eu fiz uma ou outra coisa pra experimentar...
Baraldi – Lembra daquela história dos soldadinhos que você fez, no teu livro Mundo Pet? Aquilo foi uma experiência bem legal. É quase uma fotonovela.
Mutarelli – É porque todo mundo me enchia o saco porque eu não mexia no computador e daí eu fiz aquilo só pra mostrar que eu sei mexer, mas eu não gosto. Acho que é o mesmo trabalho que desenhar à mão. É uma fotonovela só com os soldadinhos da Gulliver.
Hamilton – Qual é o nome da história?
Mutarelli – É Toy Store.
Hamilton – A gente tinha falando do Gilberto Firmino, mas e o Carlos da editora Dealer que lançou Transubstanciação e sumiu. Ele sumiu porque deu calote?
Mutarelli – Não, ele foi super gente boa. Ele publicava a Mil Perigos também, não sei se vocês se lembram.
Baraldi – Ah, sim. E que fim levou aquele caboclo?
Mutarelli – Não sei te dizer. Ele foi num lançamento meu há três anos mais ou menos.
Baraldi – A Mil Perigos foi uma mão na roda pra você. Quem editava não era o Rogério de Campos?
Mutarelli – Foi ótimo esse período na revista e o Rogério que editava. Ele entrou depois. No começo era o Carlos que editava e tinha um outro cara lá e depois chegou o Rogério.
Baraldi – Eles publicavam praticamente todo mundo. Eles gostavam muito do teu trabalho.
Mutarelli – Publicavam todo mundo e pagavam à vista, pagavam uma grana legal...
Hamilton – A revista Transubstanciação vendeu 13.000 cópias num mês, mas você sabe o quanto mais foi vendido nos meses seguintes?
Mutarelli – Depois disso teve um problema. A revista voltou pras bancas quando teve o prêmio da Bienal e depois foi vendido como apara, que é o que eles vendem pra destruir o papel e reaproveitar, como sucata. Mas ele me deu os fotolitos para eu usar quando quisesse, e acho que isso não foi pra apara porque vira-e-mexe aparecia na banca, mas não por parte dele e sim de quem tinha comprado...
Baraldi – Isso quer dizer que Transubstanciação está valendo uma fortuna hoje, tá ligado?
Hamilton – E qual a média de venda dos teus outros álbuns nos anos 90? Umas 5.000 cópias de um, 6.000 de outro?
Mutarelli – As tiragens eram em média de 3.000 exemplares e aí vendia isso em muitos anos. Desgraçados está esgotado.
Baraldi (falando com a boca cheia e raspando o garfo no prato como um verdadeiro bóia-fria) – Eu comprava um monte dessas revistas do Lourenço, comprei até dentro do trem, por um real (risos).
Mutarelli (rindo) – O Marcio comprava, sim...
Baraldi – Eu ajudei esse cara a ganhar dinheiro.
Mutarelli (rindo) – Mas era difícil, vendia muito pouco. Eu só comecei a vender bem depois que fiz o Diomedes, aquela trilogia do detetive.
Baraldi – O Transubstanciação não foi um marco na tua carreira, o antes e o depois?
Mutarelli – Foi. Totalmente.
Baraldi – Eu acho que o teu trabalho começou aqui nas revistas independentes (Over-12, Solúvel e Impublicáveis), depois você ficou publicando pingado na Tralha, na Porrada, na Mil Perigos, na Animal, tudo pingadinho, né? Se juntar todas essas HQs pingadas pode se dizer que é a segunda fase do Lourenço, ou fase intermediária, e a primeira seria isso daqui (Baraldi mostra três revistas, Over-12, Solúvel e Impublicáveis).
Mutarelli – Nossa! A Impublicáveis!.
Baraldi – Tá vendo como eu tenho, maluco!? Acho que essas três é a tua primeira fase. Daí tem tua segunda fase e pra mim na Transubstanciação você pegou um outro pique com aqueles romances longos, coisa que você não fazia, né? Foi o começo da tua terceira fase...
Mutarelli – É porque eu não queria depender de revista e eu queria tentar viver de Quadrinhos, então eu comecei a me dedicar aos álbuns mesmo. Não pensava em graphic novel e sim em álbuns de padrão europeu. E aí comecei a fazer isso. Foi na época em que eu fiquei doente, meio mal. Transubstanciação foi nessa época.
Baraldi – Você teve essas fases, mas sabe o que eu achava? Você tinha seus trabalhos publicados pingado aqui e ali. Eu sempre ia na banca e comprava o teus trabalhos e quando me deparei com aquele álbum do Transubstanciação, com aquela grossura, na banca eu pensei “Opa, o Lourenção agora tá num outro nível!” Eu claramente tive essa idéia. Você teve essa sensação também?... (Mutarelli concorda acenando com a cabeça) A crítica sempre te tratou bem, não te tratou?
Mutarelli – Muito. Demais até.
Hamilton – Mas no começo o pessoal falava de você de forma negativa...
Baraldi – No começo o pessoal te chutava que nem cachorro, né, meu? Hoje eles querem te beijar na boca.
Mutarelli – O pessoal de Quadrinhos falava mal, mas o pessoal que trabalhava em jornal, que curtiam Quadrinhos, falavam sempre muito bem. Tinham matérias sempre muito boas a meu respeito.
Baraldi – E você nunca tretou com a crítica?
Mutarelli – Não!
Baraldi – Também nem tinha motivo, né?!
Mutarelli – Eu sempre falava pra minha mulher: “Agora deve sair uma crítica falando mal, metendo o pau”, mas não. Uma hora acontece.
Baraldi – Agora todo mundo te chama de gênio, né, cara?
Hamilton (de boca cheia e deixando escorrer azeite pela boca) – É que nem o Sepultura, que teve que fazer sucesso lá fora pro pessoal daqui dar atenção pros caras, falar que são gênios e tal.
Baraldi – É. Você teve a sua primeira fase de rejeitado e depois foi amplamente aceito. E como é o público contigo? A molecada te escreve, como é que é?
Mutarelli – Escrevem, mas é a Lu, minha esposa que responde; eu nem leio.
Baraldi – Chega cartinha aqui?
Mutarelli – Chegava muito antes, quando era outro endereço, neste aqui não. Agora chegam muitos e-mails, mas a Lu responde pra mim.
Baraldi – Então mandam muito e-mail pra você. Agora deixa eu te contar um segredo dessas cartas aqui (Baraldi mostra algumas cartas amareladas)...
Mutarelli (alegra-se ao ver os envelopes) – Ahhhh... você falou dessas cartas.
Baraldi – Olha o que eu tenho aqui, velho. Uma cartinha dessa Cibele Straukyn... olha a data dessa carta, velho. Essa Cibele Straukyn escreveu essa cartinha pra mim pra falar da Tralha. Ela teve uma outra carta publicada na sessão de cartas da Tralha #2.
Hamilton – Em que ano foi isso?
Mutarelli – Foi em março de 1990.
Baraldi – Cibele Straukyn, tá vendo (mostra a sessão de cartas da revista)?! E olha quem tá aqui, a Simone Cristiane.
Mutarelli – Eu tenho contato com a Simone até hoje.
Baraldi – Sabe o que a gente descobriu anos depois sobre essa Cibele? Sabe quem é essa Cibele? A Tata, esposa do Marcatti!.
Mutarelli (surpreso) – É mesmo!?!?
Baraldi – A Tata usou esse pseudônimo pra incentivar a gente! Olha que boazinha ela é. Essa mulher vale ouro. Não é muito legal isso?
Mutarelli – Muito bom.
Baraldi – E tem a cartinha da Simone, e eu conheci ela através da revista. Tem a cartinha dela aqui publicada na Tralha #2 também.
Mutarelli – Eu vi. Na época ela queria comprar a Over-12 e mandou uma carta e abri...
Baraldi – E vocês se tornaram grandes amigos...
Mutarelli – Somos ainda muito amigos.
Baraldi – Essa é a primeira cartinha que ela me mandou. Aí eu conheci ela através da cartinha e na época ela tava meio largada na vida, tinha acabado o colégio e gostava de desenhar. E eu fiz a cabeça dela pra estudar na mesma faculdade que eu estudei, que é lá de Santo André também. E ela fez a faculdade comigo.
Mutarelli – É verdade!
Baraldi – Faz tempo que eu não vejo a Simone. Vamos mandar uma beijoca coletiva pra ela. Beijokas, Simoneeeeee (risos)!!!
Hamilton – Eu não conheço, mas vou beijar também.
Baraldi – Ela é bonitona. Tem uma carta que eu não achei...
Hamilton – Ela é solteira?
Baraldi – Não sei se tá. Bom, tem o seguinte, velho... em 1991, você tava numa fase meio deprê e te mandei uma carta falando que adorava o teu trabalho, pá, pá, pá e que você me lembrava muito o Hieronymous Bosch, aquele pintor maravilhoso. Porque teu trabalho aqui ó (mostra a capa da Solúvel), lembra muito essa profusão de loucuras do Bosch...
Hamilton – Nota do editor aqui: O autor do quadro O grito!
Baraldi – Não, velho! Aquele lá é o Munch... mas é tão vacilão, meu. Apaga tudo aí.
Hamilton – Putz! É mesmo, errei.
Baraldi – O Hieronymous Bosch é da primeira fase da renascença, antes do Leonardo da Vinci. Quem vê o Salvador Dali fica fascinado, mas não conheceu o Hieronymous Bosch, tá ligado? Séculos antes do Dali ele já fazia um surrealismo incrível! O cara desenhava pra caralho, distorcia que nem você distorce e fazia aquela visão pessimista da realidade, que tinha muito a ver com você.
Mutarelli – Meu pai tinha uns livros que tinham imagens dele, do Gruegel e do Escher.
Baraldi – Você conheceu bem então, não é?
Mutarelli – Conheci, mas não sabia quem era na verdade.
Baraldi – Bom, e aí eu mandei uma carta pra você falando que eu te comparava com o Hieronymous Bosch e que você era a reencarnação dele (risos). E pra não ficar claro que era eu, senão você ia falar “Ei Baraldi, *&@~*!! Deixa de ser ridículo” eu mandei com o nome da minha namorada da época, Elaine, e você respondeu.
Mutarelli – No começo eu respondia todas.
Baraldi – Isso foi em 1991. Você mandou a carta pra ela e pá, pá, pá, foi muito legal. E na carta você disse que era como que você tivesse jogado uma garrafa com uma mensagem no mar e alguém tivesse encontrado essa garrafa e tal.
Mutarelli –(surpreso) Ahhhh... é mesmo! Eu lembro, eu lembro! Lembro que você ligava de vez em quando também pra ver se eu tava bem, se tava me alimentado direito, me agasalhando (risos).
Baraldi - Sério?!? Putz, como eu sou legal (risos)!!! Daí você mandou essa carta pra ela, que morava em São Bernardo. Tenho tanta parada em casa que não consegui achar essa carta. Interessante, né?
Hamilton – Você costuma guardar cartas de leitores, Baraldi?
Baraldi – Eu guardo cartas, desenhos. Tenho todos os meus desenhos, até desenhos de quando eu tinha 4 anos de idade.
Hamilton – Eu lembro. Quando te entrevistei você me arrumou desenho da época que tinha 14 anos.
Baraldi – Eu tenho tudo arquivado. Você não arquiva tudo, velho?
Mutarelli – Não muito. Da época de infância eu tenho dois desenhos...
Baraldi – Você era daqueles garotos que era o desenhista da classe?
Mutarelli – Era sim. Eu não tinha muitos amigos,mas era o que desenhava!
Baraldi – Você não chegou a usar aqueles óculos de 500 graus, né?
Mutarelli – Não, não usava... e tinha cabelo também.
Baraldi (rindo muito) – Ah! Ah! Ah! Incrível!
Hamilton – E na época no estúdio do Mauricio de Sousa, como foi?
Baraldi (rindo) – É mesmo, você trabalhou lá, velho!
Mutarelli – Eu fui com um amigo que queria trabalhar lá e eu tava precisando de trabalho e eu entrei pra trabalhar na parte de animação. Levei o portfólio e fiquei na animação. Isso foi de 1983 à 1986.
Baraldi – Então ficou 3 anos lá. Que idade você tinha?
Mutarelli – Eu tinha uns 23 ou 24 anos. Eu saí e depois de um tempo voltei. Voltei como cenarista e antes fazia intercalação.
Hamilton – O estilo dos desenhos do portfólio era no estilo da Turma da Mônica?
Mutarelli – Nada a ver, mas como era intercalação, que é o desenho intermediário, passa rápido e ninguém vê, eu entrei e fui tentando. Meu desenho era ruim.
Baraldi – Você desenhou muita Mônica e Cebolinha?
Mutarelli – Desenhei muito e meu desenho era ruim. Eu era um péssimo desenhista e era o pior desenhista lá do meu setor, pra esse padrão. Isso era legal pra mim. Aprendi muito.
Baraldi – Será que o Mauricio lembra de você ainda, cara? Se ele ver uma foto tua vai falar “Seu desgraçado, você era o cara que esculachava com a minha Mônica!” (risos)
Mutarelli – Acho que não. Mas na época ele ficou muito puto comigo e com o Pavaneli. Uma menina que trabalhava conosco e que eu tinha contato falou pra ele que...
Baraldi – Você já falou isso em alguma entrevista?
Mutarelli – Não.
Baraldi – Isso é uma coisa raríssima. O Mauricio de Sousa ficou puto com o Lourenço, mas hoje deve adorar o teu trabalho...
Mutarelli – Não adora. Eu pedi pra ele fazer um desenho pra galeria do Diomédes e ele mandou uma carta dizendo que não era a praia dele e me desejando sorte e tal.
Baraldi – Pelo menos ele foi educado, respondendo ao pedido.
Mutarelli – Sim, ele é muito educado.
Baraldi – Se ele realmente tivesse bode de você, ele não respondia.
Hamilton – Mas ele é um cara que você admira.
Mutarelli – Sim, e desde que meu filho nasceu passei a admirar mais ainda, porque o meu filho se alfabetizou lendo Mauricio...
Baraldi (de boca cheia) – Eu também. Você não foi?
Mutarelli – Não. Eu não lia. Nunca li Mauricio e nem Disney, pois meu pai tinha Quadrinhos legais em casa como Dick Tracy, Tin-tin, Flash Gordon e eu gostava mais.
Hamilton – Antes do Marcio “adoro interromper” Baraldi falar, você estava comentando sobre uma moça do estúdio que estava falando do teu desenho e o do Pavaneli.
Mutarelli – Ah, ela avisou que o Mauricio tava puto e que ia tomar alguma medida se a gente continuasse fazendo os personagens dele detonados.
Baraldi – Saía muito torto?
Mutarelli – Era tudo junkie, sabe. A gente não fazia isso lá nos estúdios e sim fora de lá. Eu fiz uma história que tinha o Cebolinha, o Cascão...
Hamilton – Eu lembro disso. Tinha o Cebolinha com espinha na cara...
Baraldi – Ahhhhhh... olha... tá aqui, xarope! Ó o Cascão aqui (mostra uma Tralha com um Cascão e uma Mônica esculachados). Ele via essas coisas e ficava puto?!
Mutarelli – Ficou puto, sim. E aí, quando teve a primeira bienal, também teve a primeira mostra paulista aqui em São Paulo e isso aqui que vou falar, nunca falei... nessa mostra paulista eles me convidaram pra fazer o cartaz e eu desenhei o Spirit abrindo a capa e mostrando o pintinho dele bem pequinininho...
Baraldi – Ah, eu lembro!
Mutarelli – Aí o Moya pegou essa imagem e mandou pro Will Eisner pra tentar brecar, porque o Mauricio viu o cartaz e disse que se fosse esse o desenho da exposição ele não ia participar. E os caras da bienal bancaram, falaram: “Tá bom, então você não participa!” e o espaço que o Mauricio ia ter eles deram pra mim, então foi gigante a minha exposição. Aí o Mauricio voltou atrás e botou um desenho e aquela Marisa, que faz os documentários do Rio...
Baraldi – Não é a ilustradora né?! É a outra... eu sei quem é.
Mutarelli – Ela me mostrou a carta que o Eisner respondeu pro Moya e ele disse que o único que tinha que reclamar do desenho era o próprio Spirit, pois o pau tava muito pequeno (risos). Ele entendeu a brincadeira.
Baraldi - (gargalhando demais, tossindo e aplaudindo) – Ah, ah! Que resposta genial!!! O Will Eisner não era um gênio?
Mutarelli – Era sim.
Hamilton (surpreso) – O Baraldi tosse e voa pedaço de pizza da boca dele em mim, putz...
Baraldi – Na tua opinião quais os três maiores gênios dos Quadrinhos de todos os tempos?
Mutarelli – Will Eisner sem dúvida. Hal Foster e talvez... sei lá.
Baraldi – Você não curte Stan Lee e Jack Kirby?
Mutarelli – Eu gosto, mas não gosto tanto como o Hergé, por identidade. Acho que esses caras como Stan Lee são muito bons, mas eu nunca gostei de super-heróis. Fico com o Eisner, Hal Foster e Hergé, embora tenha muita gente boa, mas esses daí...
Baraldi – Você leu muito esses três caras?
Mutarelli – Li, li muito sim.
Hamilton – Mas teve aquele lance com o Will Eisner, que fez você se desfazer de tua coleção. Você sentiu mágoa depois que se desfez do material, já que o que ele disse no dia te decepcionou?
Mutarelli – Foi muito ruim essa experiência...
Baraldi (surpreso) – O que aconteceu? Eu não estou sabendo dessa história.
Mutarelli – Isso saiu até na Folha de São Paulo. Ele fez uma palestra em Belo Horizonte falando que o papel ia acabar e propondo uma nova solução que era alguma coisa entre Animação e Quadrinhos.
Baraldi – Que vai acabar isso vai. Cedo ou tarde vai acabar.
Mutarelli – Mas nunca teve tanto papel como hoje em dia com essas coisas de impressoras em casa e tal...
Baraldi – Mas com o aquecimento global o papel vai acabar...
Hamilton – Tem empresas de celulose que fazem reflorestamento das áreas derrubadas.
Mutarelli – E os caras inventam coisas sintéticas. O que eu falei pra ele é que eu achava que ele sendo quem era, pela importância que ele tinha, se ele não achava que não valia a pena lutar mais. Ele foi muito estúpido comigo, falou que eu ia ser atropelado... e daí eu cheguei em casa e vendi tudo que eu tinha dele e era tudo autografado.
Hamilton – Você ficou curioso pra ler os lançamentos dele depois disso?
Mutarelli – Li algumas coisas depois e até recentemente li...
Baraldi – Isso foi antes ou depois do lance do pinto pequeno?
Mutarelli – Foi depois, bem depois. Mas eu achei muito mal a atitude dele ainda mais quando eu fiquei sabendo que depois ele teve uma briga igual com um quadrinhista grande como o Frank Miller, alguma coisa assim e por isso ele tava de cabeça quente...
Hamilton – Mas o Frank Miller é amigo dele, então deve ser outro cara.
Mutarelli – Era alguém assim, desse quilate na época.
Hamilton – Briga por causa de opiniões?
Mutarelli – Sim, pelo mesmo tipo de opinião como a minha.
Baraldi – Mas isso não é uma briga feia, né velho!? É algo chato só.
Mutarelli – É, mas eu fiquei chateado e vendi tudo, mas não deixo de reconhecer que ele tem seu valor. Ele é monstruoso.
Baraldi – Que isso fique claro: não posso brigar com o Lourenço senão ele vai vender todos os meus gibis. Que ninguém brigue com o Lourenço!
Mutarelli – Vendo no sebo ali ao lado.
Baraldi (falando e raspando o garfo no fundo do prato – aliás, prato de sopa, pois cabe mais pizza) – Se você vender as coisas do Roko-Loko não vai conseguir nem um centavo.
Mutarelli (rindo) - Esse menino do sebo, não sei não... acho que só faz troca agora (risos).
Hamilton – Já que você mencionou isso que ocorreu com o Will Eisner, teve um evento de Quadrinhos no SENAC da Lapa em 2005, você falou que não ia em encontros de Quadrinhos como os que estavam ali e deveriam ficar em casa. Perguntaram a tua opinião para ser um bom quadrinista: “O que a gente deve fazer?” e você falou que deviam ficar praticando e não perder tempo daquela forma. Do mesmo jeito que você se decepcionou com o Will Eisner, acha que alguma pessoa poderia ter se decepcionado contigo naquele dia pelo que você disse?
Mutarelli – Eu falei isso, porque a pergunta que ele fez era: “O que eu faço pra estar no teu lugar?”, sabe?! Eu senti que a pergunta era essa, como se eu estivesse numa posição muito favorável. Mas muito mais favorável que a posição dele eu estava mesmo e eu falei isso: “No meu tempo eu não ficava enchendo o saco dos outros, eu estava em casa trabalhando”. Obviamente o cara deve ter ficado puto, mas é um conselho de verdade...
Baraldi (ainda de boca cheia) – Vamos encontrar esse cara hoje e ver se ele vendeu toda a coleção dele de Quadrinhos do Mutarelli (Mutarelli ri).
Hamilton – Quando eu saí de lá fui de carona com um amigo que estava na palestra e nos encontramos com outro amigo. Eu comentei o assunto pro cara que não estava presente na palestra e ele disse: “Eu gosto do Mutarelli porque ele fala as coisas na lata mesmo!”. Hoje em dia eu fico pensando mais nisso que você falou e eu já fui a dezenas de palestras e eventos de Quadrinhos e te conheço há mais de 13 anos. Então chega uma hora que você muda de opinião e objetivos e é melhor ficar em casa desenhando do que ouvir papo furado dos outros, elogios vazios. É bom ser franco e sincero.
Mutarelli – Eu nunca fui de levar pastinha e coisas assim porque não adianta. Eu vejo o pessoal que me leva desenho, e o cara é bom pra caramba e você não pode fazer nada. Cansei de levar trabalho dos outros pra Devir e falam que o cara não tem nome, ou que o cara é isso, ou o cara é aquilo. Então, você não tem muito o que fazer. O caminho é esse, sabe... tem que trabalhar... e ter sorte.
Hamilton – Estou vendo aqui na sua parede um desenho do David Mazzuchelli e assim como você, eu também me encontrei com ele na segunda Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro e ele até me fez um desenho. Ele falou que não queria desenhar mais super-heróis e queria fazer coisas sérias, dando a entender que desenhar super-heróis não é algo sério, é algo comum, de produção grande, essas coisas. Para muitos, não sei pra você, esse comentário que ele fez, faz com que pareça que ele está cuspindo no prato que comeu e desprezando seu passado que lhe rendeu uma boa grana, não parece?
Mutarelli – É, tem sempre esses papos. Tem gente que fala que eu não quero fazer mais Quadrinhos, pois estou escrevendo e tal. Tem gente que acha que estou cuspindo no prato, mas não é. Eu estou tendo uma vida melhor, eu estou trabalhando menos e tenho muita mágoa no meio dos Quadrinhos. Tenho mágoas com muitas coisas. E o Mazzuchelli vendeu mais de um milhão de exemplares, sei lá quanto, com o Batman ano um e ele tentou fazer os Quadrinhos dele e não vendeu, né?
Hamilton – Mas tem artistas como o brasileiro Roger Cruz que tem um estilo como o do Angeli, mas conseguiu imitar o estilo norte-americano e dominar esse estilo e foi trabalhar na Marvel. E tem gente falando que o quadrinhista se vendeu. Pô, mas o cara tem que trabalhar. É como ficar falando que o João Gordo é traidor do movimento punk, sabe. Esses papos já encheram o saco. Se tem que trabalhar, trabalhe. O pessoal sabe que fazer Quadrinhos no Brasil não dá grana...
Baraldi – Isso é papo de moleque adolescente que não tem conta pra pagar, que vive da mesada dos pais.
Mutarelli – É, tem isso. Não dá pra levar assim, não dá. Você tem que ser meio burro ou gostar de sofrer muito pra pensar assim.
Baraldi – Você lembra da revista Ervilha, velho? Você publicou a historinha do João (não confundir com o outro João, da Solúvel), que a sua esposa desenhou e você fez a arte-final pra ela.
Mutarelli – Lembro sim, era a história O menino e a sombra.
Baraldi – Era de um menino que ficava brincando com os carrinhos, e era autista, coisa assim. Não sei qual era a parada com o moleque. Foi a única vez que você e a Lucimar trabalharam juntos ou não?
Mutarelli – Foi. A gente teve idéias juntos, a gente começou mas não foi pra frente.
Baraldi – Vocês tem o original guardado, né? É uma coisa que vocês devem guardar com o maior carinho e ter o maior cuidado. É filha única!
Mutarelli – Sim, a gente guardou muito bem essa história.
Baraldi – Eu jurava que aquele moleque era filho de vocês.
Mutarelli – Era um sobrinho nosso, chamado John. Ele é inglês e veio pro Brasil.
Hamilton – Que estilo de música, literatura, pintura e filmes te agradam? Qual tua bagagem como formação? Que coisas inspiram você?
Mutarelli – Atualmente eu ouço muito minimalismo, que é música com estrutura repetitiva, que chamam de erudito contemporâneo.
Baraldi – Phillip Glass.
Mutarelli – Phillip Glass é um dos que eu mais ouço. Tem o Arvo Pati...
BaraldiKoyaanisqatsi e Powaqqatsi você também gosta?
Mutarelli – Gosto sim e tem mais uns outros.
Baraldi – Tem o Nicolas Cage... desculpa, é John Cage.
Mutarelli – É John Cage.
Hamilton – E Literatura e Cinema, por exemplo?
Mutarelli – De Literatura eu tenho lido muito uns livros teóricos, mas não como inspiração. Mas o que mais me impulsionou mesmo foi o underground de Quadrinhos norte-americano.
Baraldi – Você leu Bukowski? Você gostava desse cachaceiro?
Mutarelli – Li Bukowski. Era uma coisa que eu gostava. A Conrad lançou um livro da biografia dele e eu acho mais interessante a vida dele do que a obra.
Baraldi – Ele era o maior escroto.
Mutarelli – A vida dele eu acho mais curiosa. Mas eu gostava muito de Kafka, Dostoievski e desses Quadrinhos undergrounds...
Baraldi – Você era existencialista mesmo,hein?! Desde adolescente.
Mutarelli – Eu me identifiquei muito com esse material. Mas eu já li de tudo e ouvi de tudo. Ultimamente tenho escutado mais isso.
Baraldi – Você não era daqueles moleques que jogava bola e tal. Você era cabeça mesmo!
Mutarelli – Não, não. Eu era isolado e não sei se era cabeça também. Acho que não, pois eu não era um nerd, era o pior aluno da classe. Tinha dificuldades no aprendizado.
Baraldi – É mesmo!? Mas você chegou a terminar a faculdade.
Mutarelli – Fiz, mas no colegial eu fui estudar no colégio Objetivo, mas antes disso era foda. Eu estudei no Cristo Rei aí ao lado e era péssimo aluno.
Baraldi – Mas em educação artística você ia bem...
Mutarelli – Ia nada. Era desenho geométrico. Tinha que desenhar rosáceas. Enchia o saco. Tinha que pintar de guache.
Baraldi – Rosáceas!? Que coisa boiola. Isso não pode ser matéria. Isso é matéria pra curso de boiolice.
Mutarelli (rindo) – Era regime militar e tinha que fazer rosáceas. Tinha que dividir a circunferência e fazer as rosáceas.
Baraldi – Hum... Que gay! (Mutarelli começa a rir). É por isso que ele ficou revoltado e começou a fazer uns desenhos bem trash, bem punk mesmo.
Hamilton – Você disse que admirava o Laerte no começo da carreira e depois ele foi fazendo algo fácil demais deixando de respeitar os Quadrinhos. O que foi isso, afinal?
Mutarelli – É que eu tive problema com o Laerte, tivemos uns mal-entendidos e eu achava que o trabalho dele em Quadrinhos era muito bom, depois... sei lá, acho que ele força essas tiras.
Baraldi – Mas ele tá numa fase difícil.
Mutarelli – Sim, mas eu acho que agora ele deu uma amadurecida em muitas coisas.
Baraldi – Mas já passou os mal-entendidos?
Mutarelli – Já. Eu sempre perdôo, só não esqueço.
Hamilton – Você está se referindo às tiras dele como Piratas do Tietê?
Mutarelli – Não, mas umas tiras mais recentes. Ele tá numa fase existencialista.
Baraldi – É por causa do que ele passou com a morte do filho. Esses personagens que você criou na tua primeira fase têm mais humor, você não acha? Tinha o Karaokê Kid, o Pintagol, você lembra dessas coisas? Não era mais divertido, com um humor mais forte?
Mutarelli – Tinha, mas acho que recuperei isso no Diomédes, por exemplo. Acho que essa fase mais negra já passou.
Baraldi – É que Transubstanciação foi sua fase mais Nelson Rodrigues, né? Só tragédia.
Mutarelli – É! E depois disso só piorou. Daí vem o Desgraçados.
Baraldi – Tinha a mão podre de um cara dentro de uma caixa e quando eu li isso eu falei “Nossa, que fundo do poço,véio!” (risos). Não foi sua fase mais dark?
Mutarelli – Foi.
Baraldi – Você deve ser cultuado pelos góticos. Você não recebe carta dos góticos?
Mutarelli – Não sei. De góticos não sei, mas sempre tem uns xaropes.
Hamilton – E o pessoal da ala psiquiátrica não te escreve?
Mutarelli – Eles queriam me entrevistar por causa do Cheiro do ralo, que teve um alcance muito grande por causa do filme e queriam conversar porque acharam interessante, mas eu não fui.
Hamilton – Mas você fala em ir ao hospital? É dos doentes que você fala?
Mutarelli – Não, queriam que eu desse uma palestra pros psiquiatras e psicólogos. Eu tenho um psiquiatra e a gente se entende bem.
Hamilton – Esses nomes como Diomédes você pega de onde, ao invés de chamar os personagens de “Carlos”, “Antonio”, “Alberto”...?
Mutarelli – Esse daí eu peguei do tarô, pois eu estava pesquisando sobre tarô, histórias do tarô e paralelas ao tarô e acabava caindo na mitologia grega e eu peguei daí.
Baraldi – Você não vai voltar a fazer o Karaokê Kid e o Pintagol? Não tem mais chance?
Mutarelli – Eu estou sem fazer quadrinhos, mas se eu voltasse à fazer Quadrinhos ia ser alguma coisa mais por esse caminho do que por qualquer outro. Ia ser umas coisas mais non-sense, com mais humor.
Baraldi – Esses personagens era tão engraçados, tinha um bom humor. Essas “Histórias da família” tem umas sacadas tão legais. Entrou o Cascãããão (Mutarelli ri)... era uma visão bem cruel da sociedade mas tem humor. Não é só aquela choradeira, tristeza e nego sacaneando todo mundo. Tem um esculacho pesado, mas é esculacho. Nessa época você não acha que teu trabalho tinha uma sintonia forte com o trabalho do Marcatti?
Mutarelli – Tinha, tinha sim!
Baraldi – O Marcatti é exatamente isso: a vida suburbana retratada de uma maneira bem pesada, mas com humor!
Mutarelli – Acho que eu tive muita influência dele. Trabalhar com o Marcatti sempre foi muito bom. Estar perto dele, acompanhar o trabalho dele e eu via as referências que ele via. Ele tinha muita coisa do underground norte-americano que eu não conhecia. Como Basil Voverton, que era incrível... muita gente boa dessa época.
Baraldi – Quanto tempo vocês conviveram juntos mesmo? De ficar bem próximo.
Mutarelli – Foi de 1988 até 1990 e pouco...
Baraldi – Depois vocês ficaram brigados numa época e isso passou.
Mutarelli – Passou, agora tá tudo bem.
Hamilton – Você comentou sobre fazer Quadrinhos novamente, citou o teu livro e tal. E a adaptação de contos do Machado de Assis vai ficar engavetada?
Mutarelli – Eu até desisti. O engraçado é que quando o meu nome começou a ter uma projeção por causa do livro, o Itaú cultural entrou em contato comigo, pois eu tinha enviado esse projeto pro Itaú cultural. Aliás, quem redigiu e imprimiu o projeto foi o Marcatti, pois eu não tinha computador na época. Bem, eu encaminhei pro Itaú cultural na época e depois mandaram uma resposta dizendo que não tinham interesse. E agora há pouco eles me ligaram perguntando se eu queria fazer ainda, pois eles estavam dispostos à fazer. Eu disse que agora não me interessava mais. Agora estou com outros planos, isso já passou.
Hamilton – Mas mencionaram algo sobre dinheiro?
Mutarelli – Não mencionaram.
Hamilton – Eu li quando o jornalista Marcelo de Andrada queria fazer uma adaptação de contos do Machado de Assis também, e o quanto ele ia gastar porque na época eu queria encaminhar um projeto...
Mutarelli – Mas o meu projeto foi antes do dele e depois de alguns anos ele apresentou esse projeto. E aí tinham umas histórias meio esquisitas...
Hamilton – Eu soube que você pulou fora...
Mutarelli – Pulei por isso mesmo, porque o cara tava querendo captar uma puta grana pra pagar uma merreca e eu achei que era má fé.
Baraldi – (folheando a revista) Espera aí! Olha os personagens que você tinha: o Jumbo Elétrico, lembra dele? Não é genial isso? É o inimigo do Karaokê Kid...
Mutarelli (rindo) – Não. Não lembrava... Jumbo Elétrico!
Baraldi (rindo) – Era um elefante que solta raios elétricos. Não é legal essas coisas? Você tem um patrimônio aí que você nem lembra mais, velho! Ele não quer fazer esses Quadrinhos e eu vou pegar todos os personagens pra mim e vou ficar rico.
Mutarelli – Pode ficar à vontade pra pegar.
Hamilton – Eu lembro que conversei com esse Marcelo sobre o projeto, mas o cara não queria muito papo. Parece que esse povo que tem projetos aprovados pelas leis de incentivo à cultura, esconde o jogo. Eu já conversei com 3 pessoas sobre isso e não falam nada. Fica meio estranho.
Mutarelli – É meio esquisito. Quando eu achei que o projeto começou a ficar muito esquisito eu pulei fora.
Hamilton – Estava você, o Newton Foot e mais uns três caras, né?
Mutarelli – Não sei se o Spacca também estava.
Hamilton – Eu lembro direito de como ia ser o projeto dele. Ia ter 32 páginas em preto e branco, com capa colorida e apenas 10.000 exemplares, mas tudo isso custava mais de R$ 80.000,00.
Baraldi (surpreso) – Nossa!!!
Mutarelli – Mas isso não havia sido conversado e quando eu vi esse orçamento eu falei “Pô, assim não...”, e R$ 80.000,00 era dinheiro pra caramba na época.
Hamilton – É, e no orçamento incluía gasto com ligação telefônica, vale-refeição, vale-transporte e mais coisas assim.
Mutarelli – Na época o dólar era um pra um ainda. Era muita grana, um absurdo.
Hamilton – No filme Nina você fez uma participação por tabela; foi mais como consultor? Como ocorreu sua participação já que você fez os desenhos da personagem, que é uma desenhista?
Mutarelli – Eu fiz os desenhos e me pediram uma leitura crítica do roteiro. E aí o diretor pedir pra ir no set de filmagem que eu dava sorte (risos). O set era muito tenso.
Baraldi – Foi legal o filme?
Mutarelli – O filme não é bom. O resultado não é bom!
Hamilton – E o que você achou do resultado do filme do teu livro?
Mutarelli – Achei divertido.
Hamilton – Foi a primeira vez na vida que você pegou numa arma?
Mutarelli – Não. Eu já atirei muito na vida.
Baraldi – Você fez curso pra porte de arma?
Mutarelli – Não. Eu era xarope mesmo. Quando eu conheci o Marcatti eu andava armado. Atirei muito na rua.
Baraldi – Mas sem grandes problemas, né?
Mutarelli – Tudo foi contornado. O meu pai era policial e prenderam um cara que jurou a minha família de morte e me deram a arma e o porte.
Baraldi – Tá certo! Se fosse comigo eu também andaria armado; sou solidário!
Hamilton – Tá vendo como a gente não pode beber, Lourenço!?
Mutarelli – É, não dá!
Hamilton – E como foi desenhar na estação da Luz e o segurança aparecer dizendo que não podia fotografar?
Mutarelli – Putz... mas foi na estação do Brás isso daí. Foi ridículo.
Hamilton – Achei que fosse na Luz. Ontem eu estava na Pinacoteca e comentei sobre isso com uma cara que estava na rua fotografando a estação da Luz.
Mutarelli – Outro dia tinha um cara desenhando ali no espaço cultural Unibanco e foram dois seguranças dizer pro cara que não podia desenhar ali. O espaço é de cultura, Cinema, e o cara ali desenhando e não podia desenhar desenho de observação. Os seguranças não deixaram ele fazer e pra mim foi no Brás. Os seguranças chegaram e disseram que não podia fotografar. Eu disse pra eles que tava desenhando e eles falaram “se você continuar fotografando...
Baraldi – Vai ver que ele tava desenhando a Mônica e o Mauricio de Sousa pediu pra ele não deixar (Mutarelli ri).
Hamilton – Hoje eu estava pensando nisso e se acontecer algo assim comigo um dia eu vou desenhar uma máquina fotográfica e dar pro segurança. Vou ter que fazer isso.
Mutarelli (rindo) – Essa é boa!
Hamilton – Você foi num evento de HQ em Portugal com o Mauro da Devir e ocorreu algo na alfândega quando você disse pro alfandegário que era cartunista. O que foi? Parece que ele te olhou de cima a baixo...
Mutarelli – Foi incrível. Mas ele me olhou desse jeito porque meu passaporte estava em branco, já que eu nunca tinha viajado pro exterior. Ele perguntou o que eu ia fazer lá e ele eu disse que era quadrinhista e ia pra um evento. Daí ele falou que estava tudo bem, mas quando eu fosse embora era pra levar um álbum pra ele. Eu falei que tinha um álbum comigo e dei o álbum pra ele. Ele saiu e chamou a guarda, pediu autógrafo, me deu o telefone da casa dele caso eu precisasse de alguma coisa...
Baraldi – Ó que legal! O cara é super-fã de Quadrinhos...
Mutarelli – É o respeito que se tem por Quadrinhos na Europa.
Hamilton – Se você tá Bélgica desenhando o Tin-tin na rua te dão a maior atenção.
Baraldi – Se eu estivesse morando em Portugal ia tá milionário.
Mutarelli – Tem muita gente lá que tá bem de vida. O povo tá ruim de grana, Quadrinho não vende muito, mas tem caras muito bons por lá. Eu voltei lá e foi muito bom.
Baraldi – O pessoal te trata como se você fosse um super-cineasta.
Mutarelli – Imagina um português chegando num aeroporto do Brasil e falando que é desenhista. Ia tomar um tapa na orelha (risos).
Baraldi – Deixa eu te perguntar uma coisa mais família, velho! Pelo que te conheço, do teu antes e depois de ter conhecido a Lucimar, ela caiu do céu pra você, não foi?
Mutarelli – Ela foi fundamental.
Baraldi – Ela mudou a tua vida completamente depois que vocês se conheceram.
Mutarelli – Totalmente!
Baraldi – Como você conheceu ela?
Mutarelli – Numa palestra na gibiteca Henfil com o Marcatti, o Glauco Matoso e o Angeli, mas como o Angeli não foi eu fui no lugar dele e ela começou a fazer umas perguntas desaforadas e daí pintou um clima. Ela não conhecia o meu trabalho e passou a conhecer depois disso. Isso foi em 1991.
Hamilton – Glauco Matoso é um anagrama pra glaucoma, né?
Mutarelli – Glauco Matoso é o que sofre de glaucoma. Ele fez essa brincadeira com o nome.
Baraldi – Vocês estão juntos há 16 anos, então. Ela foi fundamental assim pra você.
Mutarelli – Ela ainda é fundamental. Ainda é.
Baraldi – Eu lembro de uma palestra que o Gilberto Firmino deu no SESC Pompéia, nos anos 90, falando que Quadrinho não era arte e sim pra ganhar dinheiro. Ela tava na platéia, ficou puta, levantou e foi lá te defender.
Mutarelli – Ela foi lá me defender e eu peço pra ela não falar e ela ficava p da vida.
Baraldi – Ela tem um gênio forte, né? Só uma mulher de gênio forte pra botar ordem nesses vagabundos (Mutarelli começa a rir). É que nem a Tata, esposa do Marcatti. Ela é toda delicadinha, mas coloca o Marcatti nos eixos, né?! Porque o Marcatti era um largado, não era?
Mutarelli – Era sim.
Baraldi – Quando eu conheci o Marcatti ele não tinha nem documento, cara!
Mutarelli – O Marcatti ainda não tem quase nada dessas coisas.
Baraldi – Ele não tinha um R.G., cara. Acho que ele parou de arrotar porque a Tata deu uns tapas nele(risos).
Hamilton – Você falou da gibiteca e em palestra, e me comentaram de uma palestra em que você foi convidado pra falar de Quadrinhos independentes. Eu não fui nessa palestra, mas daí começaram a falar da Image Comics e ficaram nesse assunto um tempão. Disseram que você falou que se ficasse nesse assunto você iría embora dali. Cortaram o assunto e a palestra prosseguiu. Um tempo depois teve outra palestra e o mediador disse que não iria se falar da Image, pois a estratégia dos caras é diferente da nossa, o que eles fazem é outra coisa, etc.
Mutarelli – Nessa época eu tomava menos remédio e ficava mais nervoso.
Baraldi – Mas a Image não é independente. Você gosta daquilo?
Mutarelli – Eu nem conheço...
Hamilton – Mas é por isso, Baraldi. O pessoal da platéia começou a tocar no assunto e foi ficando.
Baraldi – Você fez muito bem, Lourenço. Aquilo lá é um lixo e você não tem que perder o teu tempo conversando sobre a Image. Aquilo é muito ruim, velho (risos)! Pára com isso!
Hamilton – Você tem uma relação com o Lorax,né?
Baraldi – Qual é a parada do Lorax?
Mutarelli – Tenho uma relação profunda. O Lorax é um santo, tomo com receita médica.
Baraldi – Você inventou o Lorax?
Mutarelli – Não, ele existe. É o nome do remédio.
Baraldi – Ah, é o nome da porra do remédio! Então virou Lorax Mutarax! Você colocou Mutarax pra mudar. Ah, lembra disso aqui (Baraldi mostra a série Roxana, publicada na revista Tralha #2)? Isso não é um sarro, também?
Mutarelli – Eu lembro, sim. É legal esse trabalho!
Baraldi – Essa série você fez com o Glauco Matoso e assinava Tadeu Sztein. Quantas tiras você fez? Só essas seis?
Mutarelli – Não, a gente fez mais. Acho que umas trinta tiras.
Hamilton – O Lorax virou Mutarax? Te ajuda na inspiração?
Mutarelli – Virou Mutarax e ele ajuda em tudo, é um tranqüilizante. Ajuda inclusive na inspiração. E tem a Cetralina que eu estou tomando há quatro anos, desde que me mudei pra cá. O Torpedo, meu novo psiquiatra que receitou...
Baraldi – Esse é a Maracujina, tá ligado (Mutarelli começa a rir)? Você tem que tomar Maracujina que é o avô de todos os tranqüilizantes. Eu tenho Maracujina em casa e de vez em quando eu tomo. Eu tenho muitos credores das casas Bahia no meu pé e tomo Maracujina e desapareço. Tomou Maracujina, ó (Baraldi estala os dedos)... sumiu!
Hamilton – Toma Doril!...
Baraldi – Isso aqui (a série Roxana) você não acha que foi uma sacada inédita? Você já viu alguma vez uma tira que aparecesse apenas os pés dos personagens?
Mutarelli – Nunca vi. E o Tadeu Sztein resolveu criar um pseudônimo que não era nem eu nem o Glauco. E daí uns caras de uma revista de arte bacana, vendo que o sobrenome do Tadeu era judaico, quiseram entrevistar o cara. Ligaram pro Glauco perguntando se ele tinha contato com o cara e o Glauco falou “Mandem as perguntas que eu passo pra ele”. Eu e o Glauco respondemos a entrevista juntos (risos). Ele começou a criar um lance assim...
Baraldi – Foi a única entrevista que o Tadeu Sztein deu na vida. Raríssima!
Mutarelli – E ela saiu numa revista de arte. A tira é legal.
Baraldi – Você e o Glauco nunca mais trabalharam juntos?
Mutarelli – Não. Eu tenho contato com ele até hoje, somos vizinhos, mas não rolou nada.
Hamilton – Você falou de teus três quadrinhistas preferidos, mas o que você pensa sobre o Charles Schulz, criador do Snoopy?
Mutarelli – Adoro também.
Baraldi – Você curte essas coisas mais levinhas, assim?
Mutarelli – Eu gosto. Achava ele incrível.
Hamilton – Ele tem uma história de vida legal também. A mina que ele gostava, acabou ficando com outro...
Baraldi – Quem, o autor ou algum personagem dele?
Hamilton – O Schulz! A garota que ele gostava o rejeitou, ele vivia sendo rejeitado pelos editores até que se achou na vida com as tiras dos Peanuts, Charlie Brown e compania. E você gosta do Quino também?
Mutarelli – Sim, fantástico! Tem muita gente boa, eu adoro o Munhoz...
Hamilton – Eu estou vendo a foto do Pato Donald ali no quadro e lembrei da Disneylândia. Como seria a Mutarellilândia?
Baraldi (animado) – É... faz um parque temático... pra judiar das crianças!
Mutarelli (rindo) – Eu já disse que não precisa disso. O parque é a praça da Sé...
Baraldi – Muita criança fumando crack. Muito cróqui na cabeça das crianças. O churrasco-grego pra molecada (rindo muito)... essa é a praça de alimentação da Mutarellilândia (risos). Lembra daquela história do Roko-Loko em que eu te desenhei? Apareceu você, os gêmeos, o Álvaro de Moya, o Zalla, o Guedes, o Sidney Gusman, o Mario Latino, todo mundo na festa do Roko-Loko. Tem muita gente que desenhou você?
Mutarelli – Não, até que foram poucas pessoas que me desenharam.
Baraldi – Foi uma homenagem que eu fiz pra você. Você tem aquilo lá guardado?
Mutarelli – Sem dúvida. Claro que tenho!
Hamilton – Tem algum sonho incomum que você tem sempre? Uma vez entrevistei o Fernando Gonsales e ele disse que raramente sonha em desenho animado e num estilo que não é o dele.
Mutarelli – Eu tenho muita dificuldade de lembrar dos meus sonhos por causa da minha medicação. Eu lembro de algum fragmento mas é difícil de lembrar. Às vezes eu não lembro nada. Eu sei que sonho, mas não lembro com o que.
Baraldi – E o teu filho tem talento pra desenho?
Mutarelli – Ele tem muito talento, mas não desenha mais. O negócio dele agora é jogar videogame. Ele tá com 11 anos.
Baraldi – Ele joga videogame, é? Então vai gostar do game do Roko-Loko que eu dei pra ele (Baraldi se vira na direção do quarto do Francisco). Aí, Francisquinho, você tem que virar fera no jogo do Roko-Loko, maluco!
Hamilton – Você quer deixar alguma mensagem, dizer alguma coisa que não te perguntaram, desabafar?
Mutarelli – Eu quero dizer que não estou cuspindo do prato que comi, e eu gosto muito de Quadrinhos...
Baraldi – Esse papo de que você não vai desenhar mais é velho. O Marcatti já falou isso umas 40 vezes, velho! Uma vez ele disse que ia pegar os originais dele e ia jogar fora, levar embora pra não sei aonde e eu fui lá correndo e peguei umas coisas pra mim, na maior cara dura. Achei originais da Tralha na casa dele, lá naquele galpão dos fundos, sabe!? Eu fui lá, revirei tudo e achei tudo. Peguei originais meus, dele, do Bira.
Hamilton – Vocês estão falando que o Marcatti é largado e tal, mas como ele conseguiu editar as revistas dele da Pro-C então? Ele deve ser dedicado.
Mutarelli – Ele é dedicado sim. Ele devia tá largado por algum problema, porque ele é incrível. Ele é obsessivo nas coisas. Ele é muito metódico. Quando ele decide, faz. Que nem fazer guitarra.
Baraldi – É mesmo! E ele tem muito talento. Se dá a louca nele ele vai lá e faz. Ele tem múltiplos talentos e ser luthier não é pra qualquer um. As coisas que ele faz são muito artesanais. As histórias dele são muito artesanais.
Mutarelli – As revistinhas que ele fazia provam isso. Ninguém imprimia a cores em off-set, dobrava e grampeava como ele.
Baraldi – Ele esculpe a madeira das guitarras, faz a parte elétrica e tudo sozinho, cara!!!
Mutarelli – Quando ele falou que ia fazer guitarras eu achei que ia comprar uns kits, mas não, ele faz a tarracha, faz tudo. É uma coisa doentia, impressionante!
Baraldi – O Marcatti é genial, velho! Ele é meio xaropão, mas é genial (risos). E ele tem essa coisa em comum com você. Tanto um quanto o outro tem seu estilo próprio de desenhar, muito pessoal, inclassificável, tá ligado? Vocês não têm similar. Não tem genérico do Lourenço. Depois que você morrer, acaba. Você é o único representante do “lourencismo”, não é isso (Mutarelli ri)? Não veio ninguém antes de você, sua praia é só tua...
Hamilton – Você já conheceu algum artista que disse ter sido influenciado pelos teus trabalhos e tenha características do teu desenho?
Mutarelli – Eventualmente aparece um ou outro que tem alguma coisa, mas é muito pouco. Tem alguma coisa ali no traço que foi inspirado pelos meus desenhos, mas tem diferenças.
Hamilton – Você falou que desenha como consegue mas não como gostaria. Como você gostaria de desenhar?
Mutarelli – como o Munhoz, um argentino que fez uma obra incrível chamada Um jogo de luz e sombras junto com o Sampaio.
Hamilton – Tem gente que vem com gracinha perguntando porque você colocou o nome do álbum de O dobro de cinco ao invés de colocar apenas Dez?
Mutarelli (rindo) – Teve muita pergunta desse tipo quando o álbum foi lançado.
Baraldi – Aquela tua terceira fase é Transubstanciação, a fase bem dark. Depois vem a fase com o Diomédes, é a tua quarta fase onde você está retomando um pouco de humor...
Mutarelli – E aí eu comecei a escrever os livros.
Baraldi – E tá vendendo bem os livros, como Jesus Kid e tal...?
Mutarelli – Não vende nada, mas eu vendi dois livros pro Cinema.
Hamilton – E a grana do Cinema é boa?
Mutarelli – Não é boa, mas pra quem vive de Quadrinhos é uma maravilha.
Hamilton – Você disse numa palestra que com o livro você ganhou mais do que em 13 anos de trabalho com quadrinhos.
Mutarelli – Com Quadrinhos você ganha muito pouco...
Baraldi – É o dobro de nada (muitos risos)!
Mutarelli – Você ganha uma merreca lá, mas é uma grana legal. Sinceramente, com o que ganhei com o Dobro de cinco eu levaria mais de dois anos pra ganhar fazendo Quadrinhos.
Hamilton – E como tá sendo a Devir com você?
Baraldi – A Devir é uma mãe pra você, não é?
Mutarelli – A Devir sempre foi uma mãe, mas a gente começa a ter algumas diferenças naturais, o que não é bom, mas estamos lá. Estamos trabalhando.
Baraldi – Você tem contrato pra lançar um livro por ano, por exemplo?
Mutarelli – Tenho, mas já tenho um livro pra ser lançado em Outubro que são cinco peças de Teatro...
Baraldi – É só texto, né? Eles aceitaram na boa?
Mutarelli – Aceitaram porque vendeu pra caramba, né?! Vendeu mais do que os Quadrinhos e dos livros só de texto o Cheiro do ralo foi o que vendeu mais. Não sei quanto que vendeu, mas sei que em abril e maio, foi o terceiro título que mais vendeu, incluindo RPG e outras coisas.
Baraldi – E você sabe de quanto foi a tiragem?
Mutarelli – Fizeram 3.000 na primeira edição e agora está na segunda. Pode ser que tenha a terceira...
Baraldi – Quantos você tem só de texto?
Mutarelli – Tenho o Jesus Kid, o Natimorto que saiu por outra editora e agora o Cheiro do ralo. Eu estou terminando mais um e até o começo do ano tenho que terminar mais três livros.
Baraldi (surpreso) – Três!!!! Agora você tem seis meses pra fazer três livros. Tudo pra Devir?
Mutarelli – Eu tenho um livro da viagem que tenho que fazer, mas um deles é pra Companhia da letras e outro é um projeto do aniversário de Machado de Assis.
Baraldi – Então você está na tua quinta fase, a de escritor! Total mesmo!
Hamilton – Vai ter a fase pintor?
Mutarelli – Eu nunca tive espaço em casa pra isso. Eu gostaria de pintar por pintar, mas trabalho num quartinho...
Hamilton – E você costuma ir no MASP, Pinacoteca, ver exposições?
Mutarelli – Não muito. Prefiro ver as obras nos livros do que ir em museus.
Hamilton – Que tipo de escola da arte você gosta? Que estilo?
Mutarelli – Eu gosto muito dos expressionistas, de impressionismo...
Baraldi – Lembra daquela história tua, acho que foi no Transubstanciação, em que um cara é assassinado em frente ao quadro O grito, do Munch? Aquela é uma da suas melhores cenas, né, cara?! É de página inteira.
Mutarelli – Não sei se é uma das melhores, mas é uma cena legal. Não sei se é uma das que eu mais gosto...
Baraldi – Aquela cena é espetacular!
Hamilton – Tem uma cena de uma história que acontece em Portugal em que você desenhou um pórtico, mas você desenhou ao vivo ou pegou referência?
Mutarelli – Eu peguei referência. Podia desenhar lá, mas como não tinha muito tempo pra ficar desenhando, já que eu estava vendo muitas coisas, eu olhei muito e tirei foto. Quando eu voltei pro Brasil fiz o desenho com essas referências.
Hamilton – Mesmo tirando fotos, você tentou passar pro desenho o que você estava sentindo ali e o que combinava com a história.
Mutarelli – Exatamente.
Hamilton – E como foi chegar na tua exposição em Portugal e ver tudo aquilo lá exposto. Você disse numa entrevista que tinha que ser muito macho pra ficar ali encarando aquilo.
Baraldi (distraído) – O que foi isso?
Mutarelli – Eu perdi o fôlego. Era a sala Mutarelli com ampliações de meus desenhos do tamanho da parede feitos com retro-projetor.
Baraldi – Nossa, que trampo!
Mutarelli – As meninas ampliaram na parede, redesenharam. Eu fiquei muito emocionado. Eu achei que não ia ter nada assim.
Baraldi – Olha que legal. Que chic isso! Você tem bastante fãs legais lá em Portugal?
Mutarelli – Eu conheci um pessoal muito legal que organiza um outro salão que são meus fãs e são pessoas muito legais, mesmo.
Baraldi – Troca idéia com eles por e-mail?
Mutarelli – Não troco porque eu não gosto de e-mail.
Baraldi – Você não gosta de computador?! Você escreve teu texto onde?
Mutarelli – Escrevo num computador sem Internet. Eu joguei isso fora.
Baraldi – Você não gosta de Internet?
Mutarelli – Só pra comprar livro e pra ver pornografia.
Baraldi – Você curte pornografia, mas e tua mulher?
Mutarelli – Eu curto desde pequeno. Ela não curte, mas ela gosta que eu veja porque fico mais calmo (risos).
Baraldi (rindo) – Eu não sei onde eu vi, mas tinha uma historinha em que você fala de um card de mulher pelada que você ganhou na infância. Foi o seu primeiro card de mulher pelada.
Mutarelli – Foi uma carta de baralho. Foi meu primeiro amor (risos).
Baraldi (rindo muito) – Ah, ah, ah, que legal! Você teve aquela fase de curtir Carlos Zéfiro?
Mutarelli – Tive sim, mas eu tinhas uns canais mais quentes com aquelas revistas suecas e filmes de Super-8. Eu tinha um amigo que tinha um projetor e fazia umas sessões.
Baraldi – Nossa!!! Quanto onanismo, né, maluco!?
Mutarelli – Muito.
Hamilton – O que você acha dos salões de humor no Brasil?
Mutarelli – Eu acho que tem coisas muito boas, muito legais.
Baraldi – Você já participou de algum?
Mutarelli – Eu nunca participei porque eu acho que isso é pra quem não é profissional, pra dar espaço aos que estão por aí. Eu acho que devia premiar brasileiro como fazem em qualquer país e também premiar algum internacional. Deveria ter um critério pra premiar pessoas que nunca publicaram, pra aparecer gente nova.
Baraldi – Se você fosse organizador de algum salão você faria assim então, né!? Você já foi jurado, alguma vez?
Mutarelli – Não. Eu me recusei porque eu não tenho capacidade de julgar isso.
Baraldi – Você não aceita ser julgado também, né?
Mutarelli – Eu não ligo em ser julgado, mas não sei como julgar. O que é bom pra mim não quer dizer que é realmente bom.
Hamilton – Você falou que não gosta muito de Internet e hoje em dia tem muitos fanzines virtuais e impressos, sendo assim queria saber tua opinião dos fanzines impressões de uns dez anos pra cá. Quais fanzines você destaca?
Mutarelli – Eu tenho visto alguns legais, porque quando tem alguma convenção ou palestra sempre aparecem...
Baraldi – Mas você começou nos fanzines.
Mutarelli – Sim, claro e eu acho que o fanzine no papel hoje em dia é algo muito bom. Tem aquele Mosh que nem sei se é fanzine ou revista...
Baraldi – O Tarja Preta é legal.
Mutarelli – O Tarja Preta é legal também, e como barateou-se os custos das gráficas e tem mais recursos pra se imprimir, tem muitas coisas legais.
Baraldi (mostrando a Solúvel, que era um fanzine) – Você está vendo como isso aqui está bem cuidado?
Mutarelli – Sim, e isso tem quase 20 anos.
Hamilton – Mais algum comentário?
Mutarelli – Não! É isso aí, eu queria agradecer as pizzas...
Hamilton – Gostou da entrevista?
Mutarelli – Foi ótima, uma das melhores que eu já dei.
Hamilton – Há alguns minutos o sino da igreja estava tocando. O sino é teu despertador?
Mutarelli (sorrindo) – Não, não! O sino toca apenas ao meio-dia e às seis da tarde e eu já estou acordado há um bom tempo.
Baraldi – E o filme O Cheiro do ralo, ficou legal? O texto ficou bem transposto?
Mutarelli – Achei legal, ficou fiel ao livro.
Baraldi – É que fazer Cinema no Brasil é tão ingrato, velho. Será que o filme se pagou?
Mutarelli – Se pagou sim. O filme foi muito bem de bilheteria.
Hamilton – Teve gente que trabalhou de graça, não foi?
Mutarelli – Todo mundo trabalhou de graça.
Baraldi – Você pega os brother e faz o filme. Fazer Cinema no Brasil é aventura, maluco!
Hamilton – Eu vi a Renata Sorrah e a Suzana Alves no lançamento do teu livro a Caixa de areia na FNAC. O Ferréz também estava por lá...
Baraldi (surpreso, sorrindo e quase babando) – Elas foram no lançamento do teu livro!? A Renata Sorrah tava lá? Ela é tua fã?
Mutarelli – Ela gosta do meu trabalho...
Baraldi (distraído pela baba) – A Suzana Vieira também curte teu trabalho?
Hamilton – Não, cara! É a Suzana Alves, a antiga “Tiazinha”.
Mutarelli – Elas duas trabalharam no filme. A Suzana fez uma ponta...
Hamilton – É isso aí então.
Baraldi (sorrindo e feliz)- Aeeeeeee!!!!!
Hamilton – Mais alguma coisa, Baraldi?
Baraldi – Viva a Suzana Alves, aquela gostosa! Apresenta ela pra mim, Lourenço, seu *&@~*!!!!!! (risos finais).

O Bigorna.net agradece a Lourenço Mutarelli pela entrevista concedida em 05/08/2007

N. do E.: Os *&@~*! são palavrões que foram (hipocritamente) censurados por Eloyr Pacheco
N. do Eloyr: Os "pá pá pá", os "putos", os "pinto pequeno" e outras coisinhas ficaram! (rá, rá, rá!) 

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