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Entrevista: Wellington Srbek
Por Eloyr Pacheco
17/08/2007

O mineiro Wellington Srbek é um quadrinhista prolífero. Depois de publicar muitos títulos de forma independente, acertou com a Conrad o lançamento de um de seus álbuns: Estórias Gerais. Srbek fez muitas parcerias. Teve histórias suas ilustradas por Júlio Shimamoto, Klévisson Viana, Laz Muniz e Eduardo Pansica, entre outros. Mas sua parceria mais famosa foi com um dos maiores quadrinhistas do Brasil: Flavio Colin. Nesta entrevista, concedida por e-mail, Srbek comenta, entre muitos outros assuntos, sobre esta parceria, sua carreira no meio independente de Quadrinhos e sua expectativa em publicar por uma grande editora.

Como surgiu seu interesse pelos Quadrinhos?

Quando eu era criança, havia algumas revistas em Quadrinhos de super-heróis por aqui, coisas como Superalmanaque do Homem-Aranha ou Spectromen. Mas o que eu gostava mesmo era de seriados de tevê e desenhos animados, coisas como Jornada nas Estrelas e Superamigos. O interesse específico pelos Quadrinhos só veio aos 12 anos, quando comprei a revista Heróis da TV #91, com a qual iniciei minha coleção.

Qual foi a sua primeira HQ e onde foi publicada?

Eu desenhei minha primeira HQ em 1986, antes mesmo de começar a colecionar e ler Quadrinhos. O nome era X – A Batalha Final e foi feita por pura diversão, sem nenhuma pretensão autoral.

X – A Batalha Final (risos), isto me lembra alguma coisa...

Pois é (risos), na época eu não era muito sutil acerca de minhas fontes de referência. Eu gostava bastante daquela minissérie de tevê com os lagartos alienígenas canibais, V: A Batalha Final. Acho que hoje ela não me agradaria tanto!

Em 1986 você tinha quantos anos?

Até 7 de novembro, eu tinha 11 anos. No ano seguinte, eu fiz uma HQ mais séria, sobre a história da escravidão no Brasil, que foi reproduzida em mimeógrafo e vendida para alunos de minha escola. Agora, meus primeiros Quadrinhos autorais foram feitos no início dos anos 90, e saíram nos fanzines Replicantes e Ideário.

Sua formação acadêmica qual é? Isso ajudou você a fazer Histórias em Quadrinhos?

Sou formado em História, com mestrado e doutorado em Educação pela UFMG. Acredito que a formação acadêmica me deu os instrumentos para fundamentar as histórias que eu quero contar, ao mesmo tempo em que ampliou o escopo de meus Quadrinhos. Um álbum como Estórias Gerais surgiu depois de muita pesquisa contextual, que me levou inclusive a ler jornais da década de 20, pois um dos personagens que conduzem a trama é um jornalista e eu precisava conhecer como eram os jornais da época. Na verdade, minha trajetória acadêmica e minha trajetória quadrinística se complementam, pois eu faço muita pesquisa para meus Quadrinhos e sempre tento contar uma história em meus trabalhos acadêmicos.

Como surgiu sua parceria com o Mestre Flavio Colin?

Entre 1996 e 1998, eu produzi as revistas Solar e Caliban. Quando estava nas primeiras edições da Caliban, consegui o endereço do Colin e enviei as revistas para ele. Para minha surpresa, ele respondeu prontamente e elogiou muito o trabalho. Acabei publicando sua carta numa edição seguinte e iniciamos uma correspondência bastante regular, que foi se tornando uma amizade. Já tínhamos falado sobre a possibilidade de trabalharmos juntos e quando tive a idéia para o álbum Estórias Gerais eu soube imediatamente que não haveria outro desenhista para o trabalho. Na época, pude fazer uma boa proposta financeira e Colin aceitou desenhar o álbum, para minha honra e felicidade dos Quadrinhos brasileiros.

Ah..., eu tenho alguns números da Solar... Como foi produzir e a aceitação deste projeto?

Solar e Caliban foram meus laboratórios de ensaio. É aquele negócio, você nunca editou nem escreveu uma revista em Quadrinhos, mas conseguiu de alguma forma o financiamento para ela. O que você faz? Rala para descobrir e descobre no dia a dia como se faz uma revista! Aprendi muito e errei bastante com essas revistas, e no fim elas têm alguns momentos muito interessantes. Embora não tenham sido um grande sucesso comercial, por questões que começam na precária distribuição e limitada divulgação que tínhamos, elas deixaram sua marca no cenário dos Quadrinhos em BH nos anos 90. Também pude dar espaço e trabalho remunerado a desenhistas que jamais haviam publicado antes. Além disso, vez ou outra alguém me diz que o Solar é um dos melhores heróis brasileiros que ele já leu, sem falar que a forma como construí o personagem influenciou a forma como outros quadrinhistas criaram heróis brasileiros nos anos seguintes. Enfim, muito trabalho, aprendizagem e lições valiosas para o futuro!

Voltando ao Mestre: Como foi trabalhar com o Colin?

Antes de mais nada, era muito prazeroso pois o Colin era um ótimo papo e trocamos vários telefonemas e cartas. Foi também uma realização pessoal indescritível; afinal, eu estava trabalhando com um dos maiores artistas da história dos Quadrinhos, o único brasileiro que pode ser colocado lado a lado com Jack Kirby, Hugo Pratt e Osamu Tezuka. Havia também a satisfação de poder propiciar ao grande mestre a oportunidade de trabalhar com a arte que ele amava, recebendo um pagamento digno por seu talento. Vou guardar tudo isso para sempre comigo, junto com a carta em que ele escreveu: “você é o roteirista que sempre me faltou”.

É mesmo, o Colin sabia contar uma história. Eu tive o privilégio de papear e tomar café com ele numa das minhas idas ao Rio de Janeiro... Que elogio ele fez a você, hein?!

Eu infelizmente não tive o prazer de encontrá-lo pessoalmente. Mas, cara, eu mal pude acreditar quando li aquelas palavras! Essa carta é um dos troféus mais importantes que tenho aqui.

Em Muiraquitã você faz uma homenagem a ele...

Sim, Muiraquitã nasceu de uma idéia antiga de trabalhar com os mitos brasileiros, e a morte do Colin me comoveu tanto que aquele álbum de quase 120 páginas foi uma espécie de resposta, foi meu “trabalho de luto” pela perda de um amigo muito querido.

Quais os títulos que você já editou e qual deles fez mais sucesso comercial?

São tantos! Nos anos 90, fora os fanzines Replicantes, Ideário e Ágape, que incluíam trabalhos de outros autores, fiz as séries Solar e Caliban. Depois, a partir de 2000, vieram as revistas e álbuns: Estórias Gerais, Quantum, Fantasmagoriana, Mirabilia, Mystérion, Monstros, Muiraquitã, Apócripha, e ALIENZ. A gente tem uma seção no site maisquadrinhos, intitulada “+ de 10 anos em revista”, que tem as capas de todos os meus álbuns e revistas independentes. Posso dizer que o melhor resultado de vendas foi o álbum Estórias Gerais, pois foi minha edição que esgotou mais rápido.

E infelizmente, mesmo com toda essa bagagem, você ainda não vive da produção de Histórias em Quadrinhos, não é?

Não, nem de longe! Como costumo dizer, minha produção de Quadrinhos hoje se sustenta, mas ela ainda não me sustenta. Felizmente, tenho conseguido me manter trabalhando com atividades ligadas aos Quadrinhos: fui crítico de Quadrinhos para jornais mineiros, depois trabalhei nas pesquisas de mestrado e doutorado e, nos últimos anos, tenho dado aulas de Quadrinhos. Claro que meu sonho é viver exclusivamente da produção de HQs, mas no Brasil não há realmente um mercado de Quadrinhos voltado aos autores brasileiros. Se alguém te disser o contrário, de duas uma: ou essa pessoa está enganada, ou está querendo enganar alguém.

Estórias Gerais será relançado pela Conrad, não é?

Sim, será relançado ainda este mês, numa “Edição Especial” com papel diferente. Além do material da primeira edição, a versão da Conrad vai trazer ainda a HQ em cores Estória de Onça, que ficou de fora da edição original por questões de custo, e um depoimento inédito que o Colin havia escrito a meu pedido para uma coletânea de Quadrinhos que acabou não saindo. Vai ficar um livro bem bacana!

E agora com uma distribuição mais abrangente qual a sua expectativa com a republicação do álbum?

A grande vantagem de se publicar por uma editora é exatamente ter uma distribuição e uma divulgação verdadeiramente abrangentes. Quando fazíamos fanzines aqui no início dos anos 90, todos achávamos que a solução era lançar uma revista. Aí, quando lancei minha primeira revista, descobri que o verdadeiro problema dos Quadrinhos brasileiros não é conseguir publicar, mas sim como distribuir e divulgar as edições. Claro que a Internet ajuda muito, pois, com as matérias de sites como o Bigorna.net e a venda das edições pelo maisquadrinhos, tenho conseguido chegar a mais leitores. Mas nada disso se compara ao alcance de uma editora como a Conrad, que vai levar o Estórias Gerais a bancas e livrarias de todo o país. Com isso, mais leitores poderão ter acesso ao álbum, e chegar aos leitores é a razão principal de nosso trabalho.

Para finalizar: uma dica sua para quem quer trabalhar com Quadrinhos no Brasil.

Para começar, eu diria que é importante conhecer bem a arte com a qual você quer trabalhar. Assim, pesquise bastante, procure ler os mais diversos Quadrinhos, conhecer mestres como Will Eisner e Moebius, e não apenas a última super-saga-mutante-mangá da Marvel. Mas também é fundamental não ler e conhecer apenas Quadrinhos. História, literatura, filosofia, ciência e as artes em geral são campos de conhecimento que fundamentam os trabalhos dos principais autores de Quadrinhos, do Alan Moore ao Ziraldo. Essas são coisas que dizem respeito à formação pessoal do quadrinhista. Para além delas, é necessário muito trabalho e muita persistência! Não fique esperando ser descoberto por um editor, faça Quadrinhos e publique seus trabalhos da forma mais profissional que puder. Se não vender nada na primeira tentativa, não desista! Siga em frente, tente aprender com a experiência e enfrente a indiferença do mercado e da maioria dos leitores, que tem preconceito contra o Quadrinho brasileiro sem jamais ter lido uma revista brasileira sequer. No final, você pode não ganhar muito dinheiro, mas terá vivido a aventura de sua vida!

Valeu, Wellington. Muito obrigado pela entrevista.

Eu que agradeço, Eloyr, pela oportunidade de expor minhas idéias e divulgar meu trabalho. Até a próxima!

O Bigorna.net agradece a Wellington Srbek pela entrevista concedida no dia 07/08/2007

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