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Entrevista: Ulisses Azeredo (A Odisséia de Ulisses nos mares do Sobrenatural)
Por Marcio Baraldi
08/06/2007

Ulisses Azeredo e algumas raridades da HQ de Terror brasileira


Ainda bem que existem pessoas como o baiano Ulisses Azeredo! Afinal, num país com tanta riqueza cultural e tão pouca memória é preciso mesmo que surjam sujeitos como esse caboclo viciado em Quadrinhos de Terror que resolveu criar um site para resgatar a memória e a história da HQ de terror brasileira! Afinal, como entender o presente e como conceber o futuro sem conhecer (e aprender com) o passado? Foi assim que nasceu o Nostalgia do Terror, onde, com  paciência soteropolitana, Ulisses vem minuciosa e incansavelmente garimpando revistas e mais revistas do gênero produzidas no Brasil desde a década de 30. Um verdadeiro arqueólogo de páginas, capas, personagens, autores e histórias, montando com muita competência o quebra-cabeças da HQ de Terror brasileira. Uma verdadeira Odisséia (para fazer jus ao seu nome) por mares escuros e esquecidos, porém fascinantes, de nossa cultura pop! No Nostalgia do Terror você vai poder se reencontrar ou travar contato pela primeira vez com obras e autores de uma época em que os Quadrinhos de terror eram uma verdadeira febre em nosso país. Conhecer editoras que se ergueram sobre uma onda de gibis arrepiantes e desapareceram quando a mesma se esvaneceu anos depois. Uma fase astrológica, um ciclo kármico, um encadeamento planetário, uma brincadeira dos anjos e santos, enfim, um período único e muito intenso da nossa cultura! Uma época em que um garoto como eu e você, que amava os Beatles e os Rolling Stones, entrava numa banca de jornal qualquer e tropeçava em zilhões de revistas de terror. E, acredite se quiser: TODAS NACIONAIS!!! Enfim... um verdadeiro SONHO! Que acabou!... Mas, como diz a Ciência: “na natureza nada se acaba, tudo se transforma”! Acompanhemos, pois, Ulisses nesta ciência poderosa de transformar velhos e amarelados gibis em páginas eletrônicas, coloridas, vibrantes, rápidas, e o que é melhor, eternamente novas! Esparramem-se todos nas praias,que a nau cibernética de Ulisses está singrando os Mares da Nostalgia, trazendo ouro e prata de um mundo distante no tempo e na geografia. Um mundo... SOBRENATURAL!

Você sempre foi fã de Terror? Porque você acha que o Terror exerce tanto fascínio em algumas pessoas? As pessoas não gostam de ver alguém ser esquartejado na vida real, mas de ver a mesma cena no cinema elas gostam. Por quê? Freud explica (risos)?
 
Sim, Marcio, de fato sou apaixonado por Quadrinhos de Terror desde a infância. Aprendi a ler com as revistas do gênero editadas no começo da década de 70. Nesta época, a Bloch, RGE e outras editoras, ressuscitaram as HQs de terror no Brasil, pois o gênero decaiu na década de 60. Agora, a curiosidade sobre o mistério, o sobrenatural e o desconhecido pós-morte, faz parte do ser humano e o lado cruel e sádico também. Há uma necessidade nas pessoas de extravasarem esses sentimentos e o Cinema e os Quadrinhos podem ser uma válvula de escape para isso. Não sou o Freud, mas na minha concepção é isso (risos!)
 
O personagem Monstro de Frankenstein foi criado pela escritora inglesa Mary Shelley, há mais de 100 anos, e logo se tornou um mito mundial: o do ser vivo criado pelo próprio homem. Com o avanço da engenharia genética nós estamos chegando perto de criar seres humanos em laboratórios. Você acha que finalmente o que era ficção se tornará realidade? Como você acha que será o futuro pós-clonagem humana?
 
 
Muito dos livros de ficção, e até dos Quadrinhos, tornaram-se um elo para com a realidade, pois o ser humano é evolutivo. O processo de clonagem ainda está começando, mas pessoalmente, acredito em avanços fantásticos. Ainda vamos chegar a um processo de criação parecido ao do Monstro de Shelley e não vai demorar muito, sem falar também, na união das tecnologias à vida do ser humano, como a telemática, robótica e genética, como mostra a revista Biocyberdrama, de Edgard Franco e desenhada por Mozart Couto, dois dos mais inteligentes quadrinhistas nacionais.
 
O mito do vampiro sempre fascinou as pessoas. Qual a primeiríssima citação a um vampiro na história da cultura humana? Foi realmente o romance Drácula, do escritor inglês Bram Stocker, ou você conhece alguma referência anterior?
 
Bem, as lendas sobre o vampirismo são citadas desde os primórdios: Babilônia, Egito, Grécia e China, até passar pela Romênia, onde se estabeleceram várias lendas e crenças pelos camponeses daquele país.Uma delas é que neste país teria existido de fato um conde de nome Drácula que tinha o hábito de beber sangue humano, além de outras aberrações. Bram Stocker se baseou nessas lendas e outros fatos históricos para lançar o seu livro, que acabou se tornando a principal referência quando o assunto é vampiros.
 
Tem escritor por aí que ganhou muita grana jurando que sabe fazer chover e que vampiros existem de verdade. O que você acha disso? Onde termina a fantasia e onde começa a picaretagem?
 
Será que tudo é mesmo fantasia ou realmente existe o Sobrenatural (risos)?!? Não devemos é confundir o “Fantástico-imaginário” com a realidade. Enquanto existirem também os fanáticos que transcendem a essa realidade, aparecerão junto, infelizmente, os oportunistas de plantão.
 
Durante as décadas de 60 e 70 os Quadrinhos de Terror foram muito bem acolhidos no Brasil. Muitos artistas brasileiros produziram zilhões de revistas do gênero. Hoje, porém, o Terror parece já não ter tantos fãs, ao mesmo tempo em que a violência real cresceu assustadoramente nas últimas décadas. Você concorda com isso? O Terror real teria tomado o lugar do fictício?
 
Os Quadrinhos de terror sempre terão fãs em qualquer lugar. No Brasil não será diferente, o público sempre se renovará, pois o terror ainda é um gênero muito cultuado. Quanto ao “Terror da Violência”, com o qual convivemos no dia-a-dia, infelizmente é uma questão social provocada por muito fatores, como a pobreza e a miséria, que infelizmente são mais difíceis de resolver do que os problemas nos gibis.
 
Se você fosse comparar o Bush com um monstro clássico dos filmes de terror, qual seria? O Bushzilla (risos)?!?
 
O Bush, sem dúvida, é um vampiro... imperialista (risos)! Que mantém as vítimas vivas para sorvê-las constantemente. É isso que ele tem feito com o mundo. O que tem que se fazer, é combater esse vampirismo que está impregnado na cultura daquele país. Lá todos foram infectados por esse mal.
 
Você acha que aquela geração de autores que fizeram HQs de Terror nos anos 60/70 (Zalla, Colonnese, Nico Rosso, etc), conseguiram criar um "Terror caboclo"? Um Terror com ginga e folclore brasileiro? Ou você acha que Terror é tudo igual, independente do país onde e feito?

Sem dúvida muito da nossa identidade cultural influenciou os Quadrinhos e isso enriqueceu a nossa HQ. O próprio Edmundo Rodrigues desenhou muitas HQs de Lobisomens, Almas penadas, Boto e outras lendas da nossa terra. Nossa arte é própria e particular, sem necessariamente estar presa a culturas e costumes alheios. Há temas muito ricos e variados no nosso Folclore, mistura de índio, afro e europeu, e isso é um grande diferencial para nossa cultura.
 
Você não acha que as HQs de terror produzidas por Flávio Colin e Júlio Shimamoto eram algo extremamente pessoal? Eles não tinham uma estética inclassificável e fora dos padrões americanos de Terror? E o mais engraçado é que o Shimamoto, apesar de nissei, também nunca teve influência de mangá no traço dele, criando um traço que só pode ser chamado de "estilo Shimamoto". Você concorda?
 
Concordo sim. São estilos próprios, singulares, que muitas vezes foram mal compreendidos, mas que valorizaram em muito a nossa HQ. Hoje Colin e Shimamoto são venerados, mas por muito tempo foram criticados de forma ridícula e sem noção. Esses artistas buscaram a inovação criativa, livre e sem medo. Não se preocuparam em se espelhar em alguém ou algo e fugiram das interferências alienadas, das estéticas estrangeiras, o que infelizmente acontece muito hoje em dia.
 
Na sua opinião, quem foram os cinco maiores mestres da HQ de Terror nacional, de todos os tempos?
 
Vários artistas de talento se destacaram em nossos Quadrinhos. No Brasil existiram e ainda existem excelentes desenhistas. Entre muitos, cito Jayme Cortez, Júlio Shimamoto, Flávio Colin, Edmundo Rodrigues e Mozart Couto.
 
Você, como um estudioso da HQ de Terror, confirma que a Mirza, vampira do Colonnese, surgiu antes que a americana Vampirella? E que o Morto do Pântano surgiu antes que o Homem-Coisa e o Monstro do Pântano, da Marvel e DC respectivamente? O Brasil é vanguarda no gênero Terror?
 
Exatamente! Mirza, criada por Luís Meri e Eugênio Colonnese, surgiu em 1967 e pelo que sei Vampirella surgiu em 1969. O Morto do Pântano também é de 1967, uns cinco anos antes do Monstro do Pântano e do famigerado Homem-Coisa. É por essas coisas e outras que o Terror fez tanto sucesso em nosso país. Nós saímos na frente em várias ocasiões!
 
A Vampirella parece uma top-model européia: alta, esguia e magérrima. Enquanto a Mirza é a vampira-cabocla: baixinha, morenona, com peitão e bundão. Sem falar na bocona carnuda típica do Colonnese. Ou seja, tudo que o brasileiro gosta (risos)! Você não acha que isso foi uma sacada ótima do Mestre Colonnese, aquele pervertido sangue-bom (risos)?!?
 
(risos) Com certeza!!! A Mirza é fiel ao biotipo da mulher brasileira, que por sinal é muito conhecido e apreciado lá fora. Não é a toa que o Paolo Serpieri baseou-se numa brasileira para criar a espetacular Druuna. O visual clássico dessas mulheres-vampiro, sempre fizeram sucesso em livros e posteriormente no Cinema. Colonnese, sabiamente, mesclou esses características visuais clássicas ao biótipo brasileiro e trouxe isso para os Quadrinhos, o que não era comum na época, e o resultado foi muito bom! Mirza é a vampira 100% brasileira!
 
Já a Naiara, do Nico Rosso, era uma loirinha bem "patricinha". Parecia uma vampira jovem guarda (risos)! Acho que ele se baseou na cantora Wanderlea, na época. Era uma "vampira papo-firme" (risos)!
 
A Naiara foi uma criação fantástica do Nico Rosso!!! Era uma vampira sensualíssima e cheia de provocação explícita. Em algumas revistas ela chega a aparecer completamente despida para conquistar as suas vítimas. Naiara tinha o perfil de uma jovem meiga, mas que tinha métodos cruéis: após matar, perfurava partes do corpo, inclusive o pescoço das vítimas e bebia o sangue em taças. Era uma vampira muito chic (risos)!
  
Você acha que esses personagens de Terror modernos, dos anos 80 pra cá, como Alien e Predador, tomaram o lugar dos Dráculas, Lobisomens e Frankeisteins? Ainda há emprego no mercado para esses velhos monstros ou eles foram aposentados de vez?
 
A velha guarda dos monstros está enraizada na nossa cultura. Vire e mexe, estão aos montes em revistas, filmes e desenhos animados. Lendas não morrem! Quanto a esses enlatados mais recentes do Cinema, eu acho que não terão vida longa. São personagens passageiros e que foram até criados com fins meramente comerciais.
 
Qual a importância de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, para o gênero terror mundial? Ele é vanguarda global?
 
O Zé do Caixão é mais um caso de perversão cultural em nosso país. Cultuado no resto do mundo, ainda é tratado com indiferença por críticos que não entendem nada! Foi preciso ser reconhecido na Europa e Estados Unidos para começar a ser valorizado aqui no próprio país. Não resta dúvida que ele é um gênio de idéias incomuns e foi ousado para a época, tornando-se um dos precursores no gênero Terror. Essa ousadia com certeza deu um impulso ao gênero, influenciando muitos outros autores e conquistando muito fãs na área.
 
Na sua opinião, quais os gibis de Terror nacionais mais importantes de toda história da HQB?

 
A Garra Cinzenta, que saía no jornal A Gazetinha na década de 30, iniciou todo o processo da HQ de Terror brasileira. O Terror Negro da editora La Selva na década de 40/50, solidificou o gênero. Depois vieram revistas importantes da GEP, como a Múmia e Lobisomem. Já da editora Outubro, que foi sucedida pela Taika, a revista mais importante era a Seleções de Terror. Da RGE, têm-se a fantástica Kripta, e da mesma época, na editora Vecchi, a estupenda Spektro. Já chegando no final do ciclo, o derradeiro suspiro: Calafrio da D-Arte.
 
Pra encerrar, vou te confessar que eu tenho uma coleção completa da revista Kripta. Eu acho aquilo espetacular! Você acha que aquela é a melhor revista de Terror de todos os tempos? Se sim, por que?
 
Sim, é possível que aqui no Brasil ela tenha sido a melhor revista do gênero! A revista Kripta, trazia histórias magistralmente desenhadas, com visual cinematográfico e possuía os maiores artistas mundiais daquele momento, tais como Neal Adams, Esteban Maroto, José Ortiz, Paul Neary, Bernie Wrightson, Luiz Bermejo e tantos outros. Nos textos trazia Budd Lewis, Doug Moench, Archie Goodwin. Seus roteiros eram realmente "inesperados" e o conjunto da obra influenciou muita gente boa por aqui. Esse material e essa geração deixaram saudade!
 
Pra encerrar de vez, deixe um recado nada aterrorizante para o público do Bigorna.
 
Faço o convite aqui, para que visitem o site Nostalgia do Terror. A nossa página visa valorizar os Quadrinhos e artistas de diferentes épocas, em nosso país. Aos novos desenhistas peço, humildemente, que observem a vasta variedade de extraordinários estilos dos artistas brasileiros que se encontram por lá. Acho conveniente e mais apropriado, conhecer a nossa cultura antes da alheia. Para finalizar, lamento que sites e blogs norte-americanos se interessem mais pelo Nostalgia do Terror, salvo algumas honrosas exceções como o Bigorna por exemplo, do que propriamente os sites nacionais. Vamos ter mais respeito e dar mais valor a nossa própria e maravilhosa cultura! Obrigado ao Bigorna pelo espaço e a você, Marcio, pela boa vontade de sempre!

Obrigado. Que o Sobrenatural nos abençoe!
   
Amém.

Visitem o site Nostalgia do Terror.

O Bigorna.net agradece a Ulisses Azeredo pela entrevista, concedida em 05/06/2007

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