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Entrevista: Gilberto Maringoni
Por Paulo Ramos*
16/08/2006

Angelo Agostini se dizia abolicionista. Mas não vivia esses ideais. Era um homem da elite, que não tinha um necessário compromisso com os negros. As três frases sintetizam o doutorado de Gilberto Maringoni, defendido no mês de julho no Departamento de História da USP - Universidade de São Paulo. A pesquisa durou cinco anos. O interesse por Agostini, no entanto, vem de longe. Começou nos anos 1980, quando conheceu parte do trabalho dele. Planejou uma biografia. Adiou o projeto. Adaptou a idéia no doutorado.

Agostini (1843-1910) é um italiano que desenhou em vários jornais cariocas e paulistas da segunda metade do século 19 e início do 20. É tido como um dos pioneiros dos quadrinhos. Seus trabalhos têm sido lembrados de um ano para cá. Além da tese, há uma compilação de um dos tablóides onde atuou, o Diabo Coxo (Edusp), obra premiada com um HQ Mix. Maringoni, 47 anos, é um colecionador de títulos profissionais. O Maringoni autor faz plano de publicar a tese. Quer também editar um álbum, mostrando a visão que Agostini tinha do Rio de Janeiro. O Maringoni jornalista mantém uma coluna no site Carta Maior. Possui cinco livros publicados, como A Venezuela que se inventa - Poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Editora Perseu Abramo). O Maringoni chargista faz dois desenhos, toda semana, no mesmo site onde escreve o jornalista Maringoni. Faz ilustrações há um bom tempo, aqui e no exterior. Seus trabalhos já viajaram à França, Itália, Espanha, Portugal, Chile, Venezuela. E há também o arquiteto Maringoni. Veio de Bauru para fazer o curso na USP. "Me formei, mas nunca arquitetei nada". Todos os Maringonis falam na entrevista a seguir, feita por e-mail. Ele comenta a pesquisa, fala de Agostini, do papel e da liberdade artística na imprensa.

Há um movimento, sutil ainda, de ilustradores que realizam pesquisas nas universidades (lembro-me, de cabeça, do Guazzelli e do Bar, na USP). O que o levou a este doutorado?

Achei que por impulso próprio não faria esta pesquisa. Eu comprei em sebos grande parte das coleções dos jornais editados pelo Agostini. Tinha o material na mão e achei que seria um desperdício não me aprofundar no assunto. Além do mais, ele viveu numa das épocas de maiores transformações da história do Brasil. São os anos situados entre o fim da Guerra do Paraguai e o início da República Velha. O Brasil deixava para trás os restos da economia colonial, baseada no escravismo, recebeu um montante considerável de capitais externos e construía as bases de uma sociedade de classes profundamente desigual e injusta, mas moderna.

O que você procurou mostrar?

Fundamentalmente duas coisas. A primeira é que Agostini, embora seja um dos mais destacados ativistas pelo abolicionismo, acompanhou o projeto que a minoria branca - na feliz expressão cunhada pelo governador Cláudio Lembo - tinha para o país: uma sociedade baseada no liberalismo, no trabalho assalariado, que relegou os negros à própria sorte. Secundariamente, mostro a passagem de um tempo em que a imprensa era uma atividade artesanal, de poucas pessoas, para um empreendimento capitalista de grande porte, a exigir pesados investimentos em maquinário, pessoal e matérias primas. Os marcos dessa passagem são a fundação do Jornal do Brasil (1892) e da casa publicadora O Malho (1902), o primeiro conglomerado de imprensa da América do Sul.

Qual a conclusão do estudo?

Que embora Agostini fosse um abolicionista, isso não implicava um compromisso maior com os negros ou com as classes populares. Era um homem da elite ilustrada, com seus parâmetros e visões de mundo. Era genial, mas elitista, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e outros.

Qual o papel de Angelo Agostini: 1) na história da imprensa nacional; 2) na história da História em Quadrinhos?

Agostini atuou por 44 anos na imprensa. É uma das carreiras mais longas de nossa história. Sua importância é decisiva na implantação de uma imprensa ilustrada e de agitação em nosso país. Além disso, seus painéis sobre a escravidão são o melhor retrato visual da barbárie social dos anos 1880. Na história das Histórias em Quadrinhos, ele deve ser apontado como um dos principais precursores, ao lado do suíço Rudolph Topffer e do alemão Willheim Busch. Ele fez aqui algo que não existia em parte alguma: um romance seriado totalmente ilustrado, com duração de 24 anos, recheado de interrupções.

Agostini é mesmo o primeiro quadrinhista brasileiro?

Há outros desenhistas que fizeram imagens em seqüência antes dele. Ele pode ser classificado como um dos primeiros.

Você vê a charge como um tipo de História em Quadrinhos? Ou é um produto à parte?

Quadrinhos feitos em cima de fatos imediatos podem ser classificados como charge. Quando eu era chargista do Estadão (1989-1996), fiz Quadrinhos de meia página sobre a crise do governo Collor. Era uma espécie de "charge seqüencial" para usar um termo bacana.

Você tem uma longa trajetória na arte visual brasileira. Hoje, há liberdade na imprensa brasileira para a produção de charges?

Eu acho que existe em alguns jornais. Não acho que estejamos na melhor fase da produção de humor político na imprensa. Passada a fase da ditadura, quando todos os chargistas eram de oposição e a fase da queda do Collor, há uma diversificação grande da produção. Mas não sinto que estejamos - tirando honrosas exceções, como o Angeli e outros - numa fase muito criativa. Não sei bem o motivo, mas me espanta ver charges abertamente preconceituosas e repetidoras da desinformação que a grande imprensa tenta disseminar contra alguns temas muito polêmicos, como os sem-terra, a nacionalização do gás boliviano, Cuba, Venezuela, etc.

*Paulo Ramos é editor do Blog dos Quadrinhos, onde esta entrevista foi originalmente publicada.

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