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Entrevista: Andrea de Araújo Nogueira
Por Paulo Ramos*
26/07/2006

Uma conversa com Andrea de Araújo Nogueira, a autora de O Humor de Nelo Lorenzon, a tese vencedora do HQ Mix 2006, é contagiante. A empolgação parte dela mesma. Fala da pesquisa sobre as charges de Nelo Lorenzon (1909-1963) como se fosse um filho querido. O doutorado, orientado por Antonio Luis Cagnin, demorou quatro anos para ficar pronto. A defesa foi em abril do ano passado, na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo).
 
A maior dificuldade foi encontrar os desenhos. "Como partes de um quebra-cabeça, a busca é sempre complicada, comendo um tanto do pó dos arquivos da cidade. Era uma festa quando unia os fragmentos das charges", diz. O ilustrador atuava desde a década de 1930. Ganhou destaque em publicações da empresa Folha da Manhã, antiga Folha de S.Paulo. É desse período a pesquisa (1948-1960). "Muitas das reproduções de sua primeira fase estão no acervo de Obras Raras da Biblioteca da Faculdade de Direito (em São Paulo), no acervo da Folha de S.Paulo e, felizmente preservadas pela família Lorenzon".
 
Andrea é formada em história pela USP e estudou charges também no mestrado, feito no Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Hoje, trabalha na programação do Sesc Pompéia, em São Paulo, mesmo local onde recebeu no dia 11 de julho, o troféu de Melhor Tese de 2005. O papo começou pelo telefone. Terminou por e-mail. Em comum, a mesma empolgação, como mostram as respostas a seguir.
 
Por que Nelo Lorenzon?

Na verdade foi uma continuação. Comecei a pesquisar a produção de charges na imprensa na década de 20, tratando de seu contexto, aspecto formal e as relações intertextuais que a linguagem da charge realiza, aliando humor ao processo histórico. A sugestão de trabalhar com o material do Nelo foi do JAL (José Alberto Lovetro, um dos criadores e organizadores do HQ Mix), pesquisador e cartunista, que eu rapidamente acolhi.
 
Qual a conclusão do seu estudo?

O trabalho analisou o significado da charge, enquanto fonte histórica fundamental do debate político. Nelo Lorenzon, em seu desafio diário, pretendeu atender aos propósitos da empresa Folha da Manhã S.A. em ampliar seu alcance nas camadas populares. Contudo, por meio da sátira e da ironia de Zé Marmiteiro, seu principal interlocutor, expôs a ambigüidade do discurso político, num período marcado pelas falcatruas e corrupção no poder. A pesquisa evidencia sua atitude educativa em relação aos problemas e anseios das camadas populares no processo do desenvolvimento econômico, na década de 50 do século XX.
 
Para você, charge é história em quadrinhos?

A linguagem da HQ não exclui a charge. Essa, porém, é uma longa polêmica. Podemos incluir a charge na história em quadrinhos por suas características quanto aos recursos formais ou verbais, legendas ou balões. Contudo, o termo charge, adotado do conceito francês, enquanto manifestação comunicativa condensadora, relaciona-se na intertextualidade das notícias diárias (manchetes, fotos, editoriais), dispensável no caso das tiras, que possui um repertório temático muito mais amplo.
                 
A charge é vista com bons olhos. Quadrinhos, nem sempre. Não soa contraditório?

A charge por sua direta relação com a política e seu destaque na apresentação gráfica do jornal, possui um aspecto mais editorial, avalizado pela publicação. Contudo, os quadrinhos - embora ainda vistos como entretenimento pelos críticos - consolidam sua importância e potencial nos estudos dos aspectos culturais, históricos, educacionais e formais. É contraditório, mas estamos aos poucos alterando esses critérios e julgamentos.
 
Com relação a outros países, existe algo que torna peculiar a charge brasileira?

Como estou mais familiarizada com os da “velha guarda”, falo um pouco mais da minha praia. No Brasil, a charge tem um alcance impensável. Tivemos os incríveis J. Carlos e Nássara, formamos uma escola única, estabelecendo um diálogo na América Latina com grandes artistas, como Guevara e Divito, que trabalharam na década de 50 aqui. A charge hoje (mesmo com as ameaças de irritação por parte dos fundamentalistas) provoca ainda a sensação de deslocamento e no Brasil ganha mais visibilidade, como se pudéssemos nos aliviar de todas as contradições e problemas neste tão pequeno espaço do humor.
  
Aumentam os estudos sobre a área de artes gráficas no Brasil. Diminuiu o tradicional preconceito acadêmico sobre o tema?

Na História, creditamos esse interesse ao amadurecimento da linha metodológica da História Cultural, que incentiva a interdisciplinaridade como objeto de pesquisa. Os trabalhos (há muito publicados) de Anna Maria Belluzzo sobre Voltolino e de Mônica Peixoto, sobre os Turunas e Quixotes do Rio de Janeiro, aliados ao trabalho do Prof. Elias Saliba (docente da USP), contribuem para ampliar essa procura.
  
Seu mestrado também foi sobre artes gráficas, não? Fale um pouco sobre o estudo.

Antes de Nelo o desenhista das Folhas era o Benedito Bastos Barreto, o Belmonte, que era muito conhecido no período por retratar a figura ‘heróica’ do bandeirante e por uma vasta produção enquanto ilustrador de partituras e de livros. Trabalhei com a produção de suas charges, as primeiras da Folha da Manhã em 1925, com seu personagem famoso, o Juca Pato. Foi muito gostoso descobrir um lado diferente da política do café e suas irracionais taxas de câmbio que corroboraram para a queda de Washington Luis e a posse de Getúlio Vargas, por meio do Juca, um pequeno flâneur apaixonado por São Paulo.
  
Você pretende dar continuidade às pesquisas? Um pós-doutorado, talvez?

Pretendo sim. Gostaria muito de continuar a pesquisa sobre os anos 50, tratando de Augusto Rodrigues e Hilde Weber. Vamos ver. Há muito material ainda a ser pesquisado na produção tão efêmera, que, contando com a ajuda de todos os desenhistas, há de se tornar perene.

*Paulo Ramos é editor do Blog dos Quadrinhos, onde esta entrevista foi originalmente publicada.

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