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Mestres do Quadrinho Nacional: Monteiro Filho
05/10/2005

Monteiro Filho*

Alcibiades Monteiro Júnior
, ou Monteiro Filho, nasceu em Lisboa (Portugal), em 8 de janeiro de 1909. Chegou ao Brasil com 11 anos de idade, em 16 de janeiro de 1920, com seus pais Alcibiades Monteiro (ator e cenógrafo) e Adelaide Conceição Monteiro (atriz e cantora).

Seu aprendizado passou pelo Liceu de Artes e Ofícios (Sociedade Propagadora de Belas Artes). Ele teve, como companheiros de estudo, grandes nomes como Cândido Portinari, Manoel Faria, Rui Campelo (pintores), Calmon Barreto (gravador), e Antonio Nássara (arquiteto). Em 1927 começa sua vida profissional publicando ilustrações na revista Portugal, da colônia portuguesa. Em 1932 projeta o desfile das grandes sociedades, o encerramento do carnaval. Foi escolhido como campeão por unanimidade pelo júri, com a decoração para o Clube dos Fenianos. Ele havia usado somente motivos brasileiros: samba no morro, jangadas, araras e baianas. Ainda em 1932 desenha para as revistas Para Todos, O Malho, Tico-Tico (a primeira e mais importante revista infantil do País), e a famosa Cinearte, entre outras.

Em 1933 inicia outra atividade importante: cenógrafo, no teatro Recreio, com os cenários da peça A Canção Brasileira. Depois foi a vez do teatro João Caetano com A Marquesa de Santos e Margarida Max. No ano seguinte realiza, no teatro Carlos Gomes, o primeiro cenário em cenoplastia (relevo) do Rio, para a peça Mulheres de Todo Mundo.

Ainda em 1934, dentre várias atividades, destaca-se o monumento em homenagem ao programa de Getúlio Vargas: Sanear-Povoar-Habitar. Também nesse ano desenha para as revistas O Cruzeiro, Beira'Mar e Arlequim. De 1934 até 1944, Monteiro Filho trabalha na empresa A Noite, colaborando para as revistas semanais A Noite Ilustrada, Carioca e Vamos Ler. Projetou os estúdios da Rádio Nacional, desenhou os figurinos para o Rei Momo Moraes Cardoso, projetou e construiu todas as agências do jornal da Sino S/A. Continuou colaborando com A Noite até o final da década de 1950. Ainda na década de 1930 colabora para os jornais Correio da Manhã (suplemento em fotogravura), A Nação, Vanguarda, Notícia, Jornal do Brasil e Diário Carioca.

As Aventuras de Roberto Sorocaba

É desse período sua única História em Quadrinhos: Os exploradores da Atlântida, ou As Aventuras de Roberto Sorocaba, publicada em capítulos na última página das edições do Suplemento Infantil, de Adolfo Aizen (10/06/1907 - 10/05/1991). Essa história é considerada a primeira HQ brasileira criada com a técnica do suspense no último quadro de cada página, nítida influência dos filmes seriados de cinema, a sensação das crianças e adolescentes da época.

Monteiro Filho sempre teve uma preocupação obsessiva por assuntos brasileiros, e nessa série - juntamente com a esposa Maria e o escritor paulista Oswaldo da Silveira - queria que os personagens principais viajassem por todo o Brasil, mostrando-o por inteiro, com seus costumes, tradições, folclore, linguagem, etc. No trecho da história referente aos índios, eles se valeram dos conhecimentos de Maria obtidos durante viagens que ela fez por todo o interior do Brasil. Mas, terminada a parte indígena, eles precisariam de muito tempo para novas pesquisas, e isso era impossível por causa do envolvimento deles com outros suplementos - além do Infantil - do jornal A Nação.

Último quadro de Os exploradores da Atlântida (notar o "G.D." na parte de baixo)

No nº 14 do Suplemento Infantil (13/06/1934, o último número da fase em que era encartado no jornal - depois ele se tornou independente, passando a se chamar Suplemento Juvenil) a história chega rápida e heroicamente ao fim. No último quadro dessa 13ª e última página estão as letras G.D. Indagado, anos mais tarde, sobre o significado da abreviatura, Monteiro explicaria: "G.D. de Graças a Deus. Graças a Deus a história tinha chegado ao fim!".

Entre 1944 e 1950, morando em Petrópolis (RJ), desenvolve seu trabalho como arquiteto construindo o edifício Minas Gerais, sede do Banco do Comércio e Indústria de Minas Gerais e das Lojas Americanas. Projeta o edifício Imperador, com escritórios e residências e uma galeria comercial no térreo. Monteiro Filho foi responsável ainda pelas obras do Hotel Quitandinha, que tinha piscina flutuante artificial e, na parte interna, teatro mecanizado (grill-room), pista de patinação no gelo, boate, piscina aquecida e outras luxuosidades.

Na década de 1950 centrou sua atividade em cenários de filmes. A lista é grande e representativa: Bonequinha de Seda, Alegria, Moleque Tião, Agulha no Palheiro, Rua Sem Sol, Teus Olhos Castanhos? (único prêmio recebido no cinema) e muitos outros mais, além de todos os musicais de Watson Macedo e de Herbert Richers.

Caricatura de Catulo da Paixão Cearense, feita por Monteiro Filho

Monteiro Filho também entrou no campo da caricatura, realizando um único trabalho, que lhe rendeu consideração de obra-prima: a caricatura Catulo da Paixão Cearense. A partir de março de 1964, passou a trabalhar como funcionário efetivo da Editora Brasil-América (EBAL), fazendo capas de revistas, almanaques e livros, destacando os trabalhos para a coleção nostalgia. Todos os volumes de Flash Gordon, Jim das Selvas e o Agente Secreto X-9. Destaque ainda para a arte de alguns volumes da coleção de Príncipe Valente (sobre ilustrações de Hal Foster) e para o livro Poesia, de Luis Peixoto.

Faleceu no dia 16 de agosto de 1992, um domingo, de parada cardíaca, aos 83 anos. Uma vida dedicada a expressar, no traço, no cenário e na arquitetura, em formas perfeitas, o mundo à sua volta.

(Agradecimentos a Naumin Aizen, da Editora Brasil-América Ltda.)

* Na foto, Monteiro Filho aparece ao lado da placa de bronze que a EBAL dedicou a ele, na comemoração de seus 70 anos de idade. Os dizeres da placa: "Ao Monteiro Filho - desenhista, cenógrafo, arquiteto, figurinista, pintor, carpinteiro, eletricista - amigo dos seus amigos, feliz companheiro de Maria, desprendido do vil metal, galanteador e galanteado, o maior artista de sua geração - a homenagem de Adolfo Aizen e de seus companheiros da Editora Brasil-América, ao se completarem 70 anos de toda essa trajetória. Janeiro de 1979".

Por Worney Almeida de Souza
Artigo publicado originalmente na revista Pau Brasil #2 (1992) e transcrito com autorização do autor.

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