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Dez considerações para professores que desejam trabalhar com as histórias em quadrinhos (Parte I)
Por Elydio dos Santos Neto
09/08/2010

Legenda: Como sugere Scott McCloud as possibilidades das histórias em quadrinhos são ilimitadas, o que abre um vasto campo para quem queira trabalhar com elas em sala de aula. (Ilustração de McCloud, do livro “Desvendando os quadrinhos”, Editora M. Books, p.212)

Neste artigo, que irei publicar em duas partes, apresento algumas considerações para os professores que desejam trabalhar com histórias em quadrinhos em sala de aula. O leitor irá perceber que são perspectivas gerais, à moda muito mais de alguns princípios do que de passos metodológicos. Isso é assim porque não acredito que exista uma metodologia única que possa dar conta das diferentes realidades educativas nas quais os diferentes professores, com diferentes histórias e motivações, atuam. Acredito que cada um constrói o seu próprio caminho metodológico a partir das experimentações práticas que faz e da reflexão crítica que desenvolve sobre elas. Professores, penso, devem ser criadores. É assim também para aqueles que querem trabalhar com as histórias em quadrinhos. Com base nisso trago a estes algumas considerações que se apresentam a seguir:

1.  As histórias em quadrinhos são narrativas imagético-textuais que podem contribuir, na educação básica e superior, tanto no desenvolvimento da razão sensível como da razão simbólica.

A grande maioria dos professores foi formada dentro de uma tradição escolar racionalista: o acento era colocado nos conteúdos conceituais e a valorização maior era dada ao trabalho intelectual, como se fôssemos apenas cérebros ou, dizendo de outra forma, dava-se pouca atenção a outros atributos muito importantes para nós humanos, como por exemplo, o corpo e as emoções. E vou ficar apenas nestes dois exemplos, mas poderia destacar outros aspectos. Alguns estudiosos denominam esta maneira racionalista de compreender a educação como concepção cartesiana da educação ou então concepção newtoniano-cartesiana da educação. Nos dois casos as referências são claras: o filósofo René Descartes, que é considerado por muitos o “pai da filosofia moderna” no mundo ocidental; e o físico Isaac Newton, que realizou uma leitura matemática dos eventos do mundo físico com extrema competência. Pessoalmente não tenho nada contra estes dois pensadores e pesquisadores. Deram contribuições fantásticas para a construção da cultura humana. O problema é que muitos daqueles que vieram depois tomaram seus escritos e foram elaborando concepções cada vez mais restritivas do ser humano e do conhecimento. O resultado é que nos fechamos, também nas escolas, numa perspectiva racionalista em detrimento de outros aspectos humanos, o que é, a meu ver, um limite grave e que tem sérias implicações para o tipo de sociedade que estamos construindo e para o nosso futuro a médio e longo prazo.

As histórias em quadrinhos são narrativas imagético-textuais que auxiliam a desenvolver a razão sensível e a razão simbólica e, portanto, auxiliam a superação da limitação imposta pelas abordagens racionalistas. A razão sensível é fruto da experiência de nosso corpo, de nossos sentidos, de nossas diversas sensibilidades, de nossa percepção intuitiva. Falo em razão sensível porque estas percepções dos sentidos são sensações que favorecem, também elas, uma maneira de ver e dizer o mundo, ou seja, elas têm direção e sentido. A razão simbólica é fruto de nossa capacidade de verbalizar e interpretar o mundo usando palavras. Nós, humanos, precisamos da razão sensível e da razão simbólica.

Um professor – na educação infantil, no ensino fundamental, no ensino médio, no ensino superior e mesmo nos cursos de pós-graduação – , tendo presente as especificidades dos alunos com os quais trabalha, pode se utilizar da linguagem dos quadrinhos para ajudá-los a reconhecerem e desenvolverem estes dois aspectos da razão humana: a razão sensível e a razão simbólica.

2. De um ponto de vista mais genérico é preciso dizer que o trabalho com as histórias em quadrinhos favorece o desenvolvimento de uma maneira diferente de olhar e pensar a realidade.

Se o trabalho com as histórias em quadrinhos permite o desenvolvimento das capacidades sensíveis e simbólicas, então, elas ajudam também a elaborar outro jeito de olhar e pensar a realidade. Não mais apenas com a razão científica, instrumental e fria, mas também com uma razão sensível, que olha para a complexidade do mundo, da vida e do ser humano de maneira sensorial, afetiva, intuitiva e termina por perceber aspectos da realidade não detectáveis apenas pela perspectiva científica.

Muitos dos nossos atuais administradores, por exemplo, só conseguem olhar para o mundo desde a perspectiva da ciência na qual foram formados. Falta-lhes sensibilidade para perceber a vida, manifesta em diferentes níveis da realidade, de uma forma mais holística e integrada. Resultado: a vida ameaçada nas cidades e no planeta.

Claro que apenas as histórias em quadrinhos não vão resolver esta situação, mas elas podem, se bem trabalhadas, dar uma contribuição substancial para desenvolver outras formas de olhar, pensar e intervir na realidade. Óbvio que se pensa aqui num processo que deve se desenrolar ao longo de anos de formação e num diálogo permanente que envolva diferentes áreas do conhecimento, isto é, é um esforço também interdisciplinar. E não posso deixar de notar que se a interdisciplinaridade é tão falada e tão desejada por um lado, por outro ela não é tão simples de ser efetivada. Ainda precisamos, na prática, aprender muito sobre como construí-la, pois nem tudo que se apresenta como interdisciplinar de fato o é. As histórias em quadrinhos podem favorecer muitos trabalhos interdisciplinares na realidade escolar.

3.  Trabalhar com histórias em quadrinhos exige uma experiência com as mesmas, familiaridade com a sua linguagem, percepção de suas possibilidades comunicativas.

As histórias em quadrinhos possuem uma linguagem própria. Esta linguagem tem uma história, desenvolveu-se ao longo dos tempos, modificou-se, aperfeiçoou-se, continua a evoluir. É rica de possibilidades e tem um enorme potencial de comunicação e, por isso tudo, os professores que pretendem trabalhar com tal linguagem precisam conhecê-la bem, ter familiaridade com ela, ter uma noção clara de até onde é possível ir com a mesma num trabalho pedagógico. Em síntese, quem quer trabalhar com histórias em quadrinhos em sala de aula precisa ter uma experiência com as histórias em quadrinhos. Experiência no sentido que tenho trazido em meus textos, inspirado no filósofo Jorge Larrosa: é preciso ter se deixado “atravessar” pelas histórias em quadrinhos e ter consciência daquilo que ela provocou em você como ser imagético. E se a percepção da experiência for positiva, então conhecer com mais detalhes as possibilidades de sua linguagem: os sinais gráficos, os requadros, os ângulos, a formas de paginação, as onomatopéias, as possibilidades de movimento, as representações do tempo, as calhas, as cores, as expressões, a forma de produção, etc.

Este tipo de familiaridade e de conhecimento desenvolve-se ao longo de certo tempo, freqüentando e conhecendo as diferentes características desta arte e desta linguagem. Isso não se faz de um momento para o outro, da noite para o dia. É processo. Alguns terão começado este processo em sua infância e simplesmente não pararam mais. Outros pararam e depois retomaram. Há outros ainda que, talvez, não tenham tido esta experiência em sua infância e juventude, mas podem fazê-la agora. Sempre é tempo. O importante é que se conheça aquele artefato com o qual se quer trabalhar. E só há um jeito de conhecer as histórias em quadrinhos: lendo as histórias em quadrinhos. Procurar ler diversos gêneros, autores diferentes, criações diferentes. Criadores diferentes permitem explorar universos e possibilidades variados. Isso é fundamental para ajudar a criar uma proposta pedagógica que se disponha a trabalhar com histórias em quadrinhos.

Cursos sobre aspectos técnicos das histórias em quadrinhos podem vir depois. Primeiro é mergulhar no universo da linguagem e fazer a própria experiência com elas.

4. É preciso ser criterioso na escolha de histórias em quadrinhos que serão trabalhadas em sala de aula, assim como se deve ser criterioso com a escolha de qualquer artefato cultural produzido pela complexidade humana.

Existem histórias em quadrinhos de diversos gêneros e de diversas qualidades. Como ocorre com toda e qualquer produção humana é possível encontrar obras com excelentes qualidades de roteiro e desenho, mas também se encontram trabalhos sofríveis, onde nem texto e nem desenho servem como incentivo à leitura. Claro que estas avaliações são relativas. E é exatamente por isso que um professor que vá trabalhar com histórias em quadrinhos na sala de aula precisará de critérios muito bem definidos e claros, de acordo com os objetivos educacionais que escolheu, para selecionar o material com o qual irá trabalhar. Como o objetivo em sala de aula não é apenas o entretenimento, mas uma direção educativa a cumprir, então o material terá que ser condizente com direção definida. Como existem muitas possibilidades esta tarefa de selecionar e organizar uma prática docente, a partir dos quadrinhos, pode ser uma tarefa que tome um razoável tempo de planejamento por parte do professor.

5.  O educador precisará estar muito consciente da concepção pedagógica que defende, dos valores que norteiam o seu trabalho, do projeto pedagógico da escola na qual trabalha, pois a partir daí a escolha/criação com os quadrinhos poderá ser feita com maior pertinência.

A prática docente exige, sempre, que o professor tenha plena consciência do projeto pedagógico que ele mesmo defende, dos valores que quer ajudar seus alunos a desenvolver e também conhecimento do projeto pedagógico da escola na qual trabalha.

Ter consciência do próprio projeto pedagógico implica em que o professor tenha clara a concepção de ser humano que norteia a sua ação e, consequentemente, que concepções de conhecimento e de sociedade estão na base de seu fazer pedagógico em sala de aula.

Os valores que este professor defende dependem basicamente da maneira como ele compreende o ser humano e a sociedade. Suas práticas com seus alunos são expressão daquilo em que acredita.

Também a escola tem um projeto pedagógico no qual está expressa sua maneira de compreender o ser humano, o conhecimento e a sociedade, bem como os valores que quer trabalhar juntamente aos alunos que ali estudam. Ora é preciso haver um mínimo de sintonia entre o projeto pedagógico individual de um professor e o projeto pedagógico coletivo de uma escola para que o trabalho educativo transcorra de forma adequada.

Trabalhar com as histórias em quadrinhos supõe conhecer bem cada um destes elementos norteadores do trabalho pedagógico. Os temas a serem escolhidos, os personagens a serem definidos, os exercícios a serem desenvolvidos, a reflexão ser feita e as conclusões que serão construídas poderão acontecer dentro de um processo mais adequado quando o professor tem clareza de todos estes elementos citados. Ter clareza do horizonte para o qual se deseja caminhar permitirá ao professor escolher com maior pertinência com qual material de histórias em quadrinhos trabalhar. Claro que isso não garante o sucesso do trabalho, que está sempre envolto em risco, mas oferece uma boa base para que o resultado seja bom.

Leia a segunda parte deste artigo na próxima semana.

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