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O maravilhoso mundo dos quadrinhos filipinos (parte I)
Por Otacílio d'Assunção
17/05/2010

Se não fossem alguns artistas importados pelos EUA nos anos 70 (como Alfredo Alcala, Nestor Redondo e Alex Nino, entre outros) provavelmente o mundo jamais ficaria sabendo da existência dos quadrinhos filipinos. E, nada verdade, não sabe até hoje. O que chegou para nós é a minúscula ponta de um iceberg. Na verdade, ao que consta, nenhum quadrinho filipino legítmo foi publicado aqui: o que saiu foram as histórias feitas por esses artistas que emigraram para os EUA e passaram a trabalhar para editoras americanas desenhando títulos como Conan, Monstro do Pântano e outros personagens consagrados.

Entretanto, a história dos quadrinhos (e da cultura filipina de modo geral) é muitíssimo mais rica do que aparenta. Como em outros países, eles surgiram em fins do século 19. O mais curioso é que o herói e mártir nacional, o Dr. José Rizal (uma espécie de Tiradentes de lá), foi além de símbolo e ídolo do povo filipino, o autor da primeira HQ criada nesse país.
Para entendermos melhor tudo, uma rápida explicação sobre essa exótica nação. As Filipinas são um arquipélago composto de mais de 7 mil ilhas no Sudeste asiático. Seus habitantes são de etnia oriental mas têm todos nomes hispânicos porque as ilhas foram descobertas no século 16 pelo navegador português Fernão Magalhães a serviço do rei Filipe II (que acumulava na época os tronos de Portugal e Espanha), daí as ilhas terem ganho esse nome. Magalhães foi morto por um local, mas sua primeira expedição montou a base para que os espanhóis conquistassem o país e ditassem as cartas por mais de trezentos anos. Rizal foi o principal articulador de uma reforma que culminou com a independência do país. Foi preso e executado, mas isso só serviu ainda mais de estímulo para o povo filipino lutar por sua independência, proclamando a República em 1896. Entretanto, ainda duraria mais meio século para que o país conquistasse sua independência total. Paralelamente à revolução os Estados Unidos haviam adquirido (por vinte milhões de dólares) as terras da Espanha, através do Tratado de Paris e foram tomar posse. Seguiu-se uma guerra EUA-Filipinas que terminou com a vitória dos Estados Unidos em 1898 e o país ficou sob o jugo norte-americano por mais 48 anos, com exceçãode um período de três anos em que ficou sob o domínio dos japoneses, durante a II Guerra Mundial. Com o fim da guerra foi retomado pelos americanos, que concederam a independência em 1946.

No meio desse cenário se desenvolveu a vigorosa indústria dos quadrinhos filipinos. Dos espanhóis eles herdaram os nomes e o catolicismo; dos EUA a imprensa e o gosto pela liberdade de expressão. Inicialmente não eram quadrinhos, mas charges satíricas e cartuns publicados nas revistas e jornais locais, que evoluíram para os quadrinhos propriamente ditos em 1926, quando o pioneiro Antonio Velasquez (então com apenas 16 anos) criou o personagem Kenkoy para a revista Liwayway. Kenkoy caiu no gosto do público e continuou a ser publicado mesmo durante a ocupação japonesa, com traduções em todos os dialetos filipinos além do Tagalo, a língua principal.

Outros desenhistas foram surgindo, e quadrinhos, hã, komiks, eram atrações na imprensa local. Finalmente, em 1946 surge a primeira revista de HQ exclusivamente filipina: a satírica Halakhak Komiks, que enfrentou sérios problemas de distribuição e durou apenas dez números, levando a editora à falência.

Mas a chama dos quadrinhos não morreu, graças a Don Ramon Roces, o grande magnata da imprensa filipina, dono da Liwayway, que chamou Tony Velasquez para uma reunião com uma interessante proposta: criar uma editora de quadrinhos. Don Ramon entraria com o capital, gráfica e distribuição, e Tony com o trabalho e talento.
Assim, foi fundada a Ace Publications, cuja primeira publicação foi Pilipino Komiks (junho de 1947).
Inspirada nos comics americanos trazidos pelos soldados americanos durante o período da guerra, tinha o mesmo formato, com a diferença que a impressão era em preto e branco ou no máximo uma segunda cor em algumas páginas. E o texto vinha em tagalo, a língua nativa principal dos filipinos, que incorporou algumas palavras de espanhol e inglês. O preço era convidativo: 25 centavos do peso filipino, o correspondente a um refrigerante. Foi um sucesso absoluto. A tímida tiragem inicial de 10 mil exemplares logo se multiplicou (no seu pico, chegou a vender 120 mil cópias quinzenais). E foi aí que a indústria dos Komiks realmente deslanchou.

O sucesso de Pilipino Komiks estimulou a concorrência. Bituin Komiks surgiu em 1949, mesmo ano em que a Ace lançava sua segunda revista: Tagalog Klasiks. Esta inicialmente era apenas uma tradução da americana Classics Illustrated (que no Brasil serviu de base para a Edição Maravilhosa, da Ebal), mas logo dispensou o conteúdo importado e começou a publicar material filipino. E a Ace não parou, lançando em 1950 Hiwaga Komiks ,que se concentrava mais em histórias de mistério (tradução literal de higawa), horror e fantasia. A quarta publicação da Ace, Espesyal Komiks (1952), tinha muitas histórias épicas em seu mix. Os anos 50 foram a época de ouro do quadrinho filipino, com a Ace sempre mantendo a liderança no mercado, e se podia contar cerca de vinte títulos nas bancas nos mais variados gêneros, até mesmo ficção-científica: Marte Komiks (1952), da Marte Publications, foi a primeira do gênero.


Quadrinhos filipinos nos anos 50: as revistas da ACE Comics (acima) e algumas publicações concorrentes (abaixo)

Tony foi o pioneiro, mas o maior autor de komiks flilipino é Mars Ravelo, também desenhista mas principalmente roterista e criador de personagens que marcaram época e sobrevivem até hoje em outras midias. Ravelo se tornou rapidamente o autor mais respeitado e mais bem pago da indústria. Sua criação máxima é Darna, que este mes acabou de completar 60 anos de existência.

Darna estreou em 1950,mas na verdade tinha nascido três anos antes, em 1947, mas com outro nome: Varga. Surgiu nas páginas da concorrente Bulaklak Magazine, e era uma menina que engolia uma pedra mágica e se transformava numa bela heroína adulta e voadora, que ganhou logo popularidade. Era escrita e desenhada por Ravelo, mas este se desentendeu dois anos depois com a direção da Bulaklak, mudando-se com armas e bagagens para a Ace. Como não podia levar a personagem, cujo nome pertencia à revista, simplesmente fez um remake alterando pequenas coisinhas e principalmente o nome da heroína. Continuava sendo na vida real uma menininha chamada Narda, que era órfã e vivia com um irmãozinho e a avó numa zona pobre do país. Certa noite, a menina vê um meteorito cair do céu, o apanha e o engole. À maneira do Capitão Marvel, quando pronuncia a palavra “DARNA!” se transforma imediatamente numa poderosa heroína oriunda do planeta Marte, que além de um capacete vermelho tem uma sensual tanga, que tem a missão de proteger o povo filipino das ameaças, encabeçadas pela maléfica Valentina, uma espécie de mulher-cobra igualmente bonita mas com cabelos à la Medusa. O sucesso foi ainda mais retumbante. Ravelo teve a feclicidade de convocar o quase estreante Nestor Redondo para desenhar a série e este deu um tom mais realista aos desenhos, anteriormente mais para o cômico. Não só Redondo ajudou a melhorar Darna, como Darna também ajudou Redondo a se firmar como artista. Ele seria, nas décadas seguintes, um dos maiores e melhores artistas do país.

Darna fez tanto sucesso que em 1951 virou filme live-action, estrondoso sucesso de bilheteria, seguido no ano seguinte por outro, estrelado pela famosa atriz Rosa del Rosario, a primeira de muitas que interpretariam Darna em inumeras encarnações na tela grande e pequena. Atualmente, na TV filipina, o seriado Darna é campeão de audiência, e ela é interpretada pela linda Marian Rivera, que já tinha interpretado anos antes outra criação de Ravelo, Dyesebel. Redondo foi o desenhista apenas do primeiro remake, mas vários outros artistas desenharam a personagem, que em suas encarnações sucessivas tanto nos quadrinhos como cinema e TV foi tendo sua origem e mitologia ligeiramente alteradas. Hoje Narda não é mais uma menininha de sete anos e sim uma mulher na casa dos vinte, mas ainda se transforma na heroína engolindo a pedra alienígena e exclamando a palavra mágica. A trupe de vilões criados por Ravelo, composta principalmente de vilãs (e bonitas) como Valentina continua infernizando a vida de Darna, que agora tem até uma nemesis inimiga, a Black Darna, uma Darna do Mal. O seriado, que lembra um pouco o estilo dos Powers Rangers, pode ser visto dando-se uma busca no Youtube, não apenas essa encarnação atual como praticamente todas as anteriores, inclusives os toscos filmes em preto e branco dos anos 50 interpretados por Rosa del Rosario.

Mars Ravelo não ficou só em Darna. Seus personagens mais famosos são da linha super, como Captain Barbell (Capitão Halteres), um fracote que vira o musculoso herói. Esse também migrou para o cinema e até fez cross-over com Darna.
Flash Bomba é um homem com pés e mãos avantajados que usa uma camisa parecida com a do time Flamengo. Lastik Man é uma mistura do Homem de Borracha com o Sr. Fantástico do Quarteto Fantástico. E ainda tem Dyesebell, a mulher-sereia. Há quem diga que todos são inspirados em personagens americanos (não faltam acusações de que Darna é um clone da Mulher-Maravilha), mas ele teve um jeito todo especial de montar as origens de todos esses personagens, na maior parte pobres e excluídos que superam as deficiências e adquirem superpoderes. Um alento de esperança que fez o sofrido povo filipino se identificar com eles.

Foram ao todo mais de cem personagens, incluindo até a bizarra égua falante Silveria, que também virou filme. Mars Ravelo faleceu aos 71 anos de idade, em 1988, e até hoje suas criações continuam sendo adaptadas para filmes e séries de TV. É o mais famoso autor de quadrinhos filipino mas, ao contrário de seus colegas que migraram para os EUA nos anos 70, praticamente não é conhecido fora de seu país natal.

Silveria, criada por Ravelo em 1957, teve belíssimos desenhos de Alfredo Alcala.

Na proxima semana, conheca os principais desenhistas que consolidaram a indústria nos anos 50 e 60.

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