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História em Quadrinhos: Bebendo da Maldita fonte*
Por Marcio Rogério Ferreira de Souza**
27/04/2007

Poderíamos, e para alguns até deveríamos, iniciar reclamando um lugar para a História em Quadrinhos na categoria de Arte. E na busca de um fundamento, iniciaríamos fazendo um percurso histórico e temporal partindo das figuras rupestres e acrescentando que estes desenhos em cavernas supriam plasticamente uma ou outra necessidade espiritual do homem pré-histórico; apresentando estas figuras como um meio que este homem encontrou para aprimorar sua relação com o seu mundo ou como um presente a ser oferecido aos seres divinos na busca de um equilíbrio espiritual que encontrou no fazer a figura o seu fim. Poderíamos afirmar também que dominar estas formas significava para o homem pré-histórico dominar parte da realidade relacionada àquela forma. Figuras servindo ao desenvolvimento da percepção daquele ser. Poderíamos como comumente se faz. Da mesma forma que poderíamos iniciar assim se pretendêssemos falar da pintura a óleo, da aquarela, das iluminuras, dos estudos e esboços dos renascentistas, dos vasos gregos, dos tapetes persas, das singulares pinturas dos biombos japoneses, dos projetos arquitetônicos da Bauhaus, das estatuetas, máscaras e vasos da arte pré-colombiana e de qualquer outro tipo de produção que se utilize do desenho. No entanto, não se faz necessário percorrer tão longo caminho, caminho tortuoso e traiçoeiro, no qual ficaria à mercê da tentação de cometer o erro tão comum: Afirmar que nestas cavernas, cavernas como a de Lascaux, nasceu a História em Quadrinhos.

A diferença entre uma forma encontrada no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu em Minas Gerais feitas por mão de homem mediada por um objeto pontiagudo ou por uma substância colorante e a forma digital, acessível em quase todo o mundo, desenhada por mão de homem através de um objeto eletrônico tornou-se o eixo de discussões calorosas. E entre a remota figura rupestre e o universo digital está a História em Quadrinhos fazendo parte deste desenvolvimento inevitável dos suportes artísticos. Inevitável tal qual é inevitável e irreversível o desenvolvimento da sociedade humana, mais que isso, a arte se transforma, se refuncionaliza, e acompanha estas mudanças, exigindo uma nova percepção da sociedade ao mesmo tempo que é impactada por esta nova percepção. Walter Benjamin escreveu no tempo em que o Cinema ainda não fora totalmente absorvido pela sociedade e as Histórias em Quadrinhos se fortaleciam, ambas favorecidas pelo desenvolvimento dos sistemas de distribuição e que décadas depois se transformariam na eficiente máquina chamada de Industrial Cultural: "no momento em que o critério de autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política".

Esta autenticidade, que Benjamim denomina “aura” caracteriza uma arte que tinha como objetivo o culto, seja o do homem pré-histórico à suas divindades, seja o culto ao belo da Grécia Helenística ou o culto ao homem do Renascimento Italiano e esta “autenticidade” existe somente para uma arte do “ritual”, para uma arte do culto. Com o desenvolvimento das tecnologias de reprodução a autenticidade deixou de ser importante para uma arte que passa a ter uma função política. O próprio Benjamin cita a Xilogravura, afirmando que a partir dela “o desenho tornou-se pela primeira vez tecnicamente reprodutível”, e o impacto causado pela possibilidade de alcançar um grande número de pessoas através da reprodução trouxe novas concepções sobre a função da própria arte. Se de um lado Benjamin desenvolve um conceito em torno da “aura” para afirmar a refuncionalização da arte em virtude da reprodutibilidade, por outro, Croce pensa a arte como “pura intuição” destituída de funções políticas e de qualquer outra pretensão.

Entretanto, não nos ateremos a esta discussão, deixá-la-emos para os estetas, sob o risco de fugir do assunto proposto para esta palestra que tem por tema Bebendo da maldita fonte, um tema que sintetiza o que tem significado, injustamente, as Histórias em Quadrinhos desde que passaram a ser produzidas. A História em Quadrinhos, tal como a conhecemos hoje, tem maior proximidade com os gravadores do século XIX, estes artistas aliaram imagem e literatura ilustrando livros e jornais. Séculos antes, as iluminuras produzidas por monges copistas já tinham esta característica, mas é o processo de reprodução, iniciado com o advento da imprensa e de tecnologias como a xilografia, calcografia e litografia que proporcionaram uma nova possibilidade: Alcançar um grande número de pessoas a partir de uma única matriz.

Artistas como Honoré Daumier e Charles Philipon perceberam o potencial político que a arte estava adquirindo com sua reprodutibilidade. Honoré Daumier passou meses na prisão por satirizar o Rei Louis-Philippe na Charge litográfica Gargantua. Outros como Gustave Doré ilustrou contos e fábulas, dentre elas as Fabulas de La Fontaine. E estes dois ingredientes, política e fantasia, permanecem nas Histórias em Quadrinhos na produção atual. No final do século XIX, surge, pela primeira vez, o balão, como elemento típico das Histórias em Quadrinhos. Em Yellow Kid, criação de Richard Outcaut, publicada nos Estados Unidos, fica evidente o caráter político: O personagem principal é um garoto de rua que vive entre seres do submundo nova-iorquino. Há quem afirme que Yellow Kid foi a primeira História em Quadrinhos, no entanto, sem o balão, as Histórias em Quadrinhos já eram publicadas em algumas partes do mundo, inclusive no Brasil, onde o ítalo brasileiro Angelo Agostini, com objetivo de alcançar o povo analfabeto, produziu As aventuras de Zé Caipora em 1969, num formato próximo do produzido durante o século XX. Angelo Agostini tinha um trabalho provocador, sem poupar a Igreja e os políticos da época.

Sendo um potencial meio para divulgação de ideologias, os Quadrinhos passaram a sofrer acirrada perseguição por parte dos dominantes. O controle passou a ser o instrumento do poder contra esta mídia, subversiva desde seu nascimento. Mas esta tendência nunca foi exclusividade das Histórias em Quadrinhos, está presente no Cinema, e em todos os meios de comunicação de massa. Esta perseguição se tornou mais evidente no Macarthismo, iniciado em 1951 pelo Senador norte-americano Joseph McCarthy, a chamada “caça as bruxas” teve como alvo intelectuais e artistas. Este controle não atingiu somente a produção norte-americana, muitos países que recebiam os Quadrinhos americanos através da já estruturada distribuição pelos Syndicates também viveram os reflexos, dentre eles o Brasil.

Mas, se por um lado, o governo americano perseguia as Histórias em Quadrinhos, por outro lado um livro do psicólogo alemão, radicalizado norte-americano Frederic Wertham veio endossar o movimento de censura; A sedução dos inocentes, lançado em 1953, onde Wertham culpava os Quadrinhos pela delinqüência juvenil foi amplamente difundido entre educadores, políticos e religiosos.

Sexo, drogas, rock’in roll e História em Quadrinhos

O fato é que a produção de História em Quadrinhos continuava e até como Projeto de Estado em muitos países, os departamentos de censura retiravam aquilo que consideravam nocivo dos Quadrinhos e as editoras produziam Quadrinhos que não “seduzissem os inocentes” com idéias políticas, comunistas, fascistas, marxistas, anarquistas, contra o poder vigente e outras tantas. Mas a aparência de produto inofensivo tinha objetivos implícitos: cada vez mais se tornou fixa a idéia de que “Quadrinhos são pra criança” e assim censuravam-se conteúdos por serem eróticos ou violentos. No entanto, as Histórias em Quadrinhos, juntamente com toda a Indústria Cultural aliada à educação aplicada, colaboravam na construção de um cidadão inocente, não seduzido por idéias subversivas, incapaz de reagir diante das ações do Estado, treinado pra obedecer sem questionar, obedecer ao patrão, deixar-se levar pela propaganda, trabalhar, comprar e obedecer.

Dos EUA para o mundo, os “comics”, como são conhecidos os Quadrinhos ianques, vendem o sonho americano (American way of life), sonho este que o “ter” é o que faz “ser”; e através dos “super-heróis” pregam a “boa vontade” norte-americana para o resto do mundo que, eventualmente, está a mercê dos tiranos, principalmente os não-capitalistas. Apesar das Histórias em Quadrinhos ocuparem a pior das posições entre as mídias, acusadas de “emburrecer”, “alienar” e transformar mocinhos em bandidos, desta “maldita fonte” muitos têm bebido. Os Quadrinhos têm servido de referência na produção da arte contemporânea e têm estabelecido um diálogo intermídiático intenso. Nas universidades teses e dissertações sobre os Quadrinhos têm sido defendidas e nas escolas, professores estão descobrindo agora que novas possibilidades pedagógicas podem ser construídas a partir desta mídia.

A forma com que os artistas abordam os Quadrinhos nos processos de pesquisa, criação e produção de suas obras são as mais variadas. Enquanto alguns artistas dialogam com a estética dos Quadrinhos explorando seu universo imagético apenas, outros se interessam por esta estética como linguagem da indústria cultural. Outros se apropriam de seu potencial político; de sua linguagem literária; do processo de produção e etc. A Pop Art, movimento artístico que começou a se estruturar por volta de 1950 nos Estados Unidos e Europa, teve como característica principal o uso dos símbolos e signos da industria cultural por artistas que com ironia criticavam a forma como a industria cultural inseria no cotidiano das pessoas a necessidade de consumir e viver em função deste consumo. No entanto, por ter feito uso da cultura de massa, aproximou a arte erudita do grande público para o qual esta linguagem era destinada. Os ícones do Cinema, da Televisão, da Fotografia, da Propaganda e dos Quadrinhos eram utilizados por estes artistas. Entre os artistas do Pop Art, Roy  Lichtenstein foi um dos que exploraram a imagética dos Quadrinhos, seus trabalhos eram compostos, por elementos típicos dos Quadrinhos como as onomatopéias, as linhas de ação, figuras delineadas por traços fortes e preenchidas com retículas. As obras de Lichtenstein tinham grande proporção e de cores vivas e definidas. Segundo Juliana Monachesi em artigo publicado na revista Bien’Art #13: “Suas pinturas feitas com base na apropriação de elementos da cultura de massa tornaram-se emblemáticas da proposta pop: aproximar a arte da vida e fazer o museu “dialogar” com as páginas publicitárias das revistas populares”.

No Brasil, na década de 1960, um grupo de artistas aproximam-se do Pop Art utilizando imagens da indústria cultural e promovendo o retorno do figurativo, no entanto, estes artistas produziram suas obras com uma proposta de enfrentamento direto ao militarismo, concebendo a arte como um instrumento de transformação social. Carlos Vergara e Antonio Dias produziram obras que contém em sua composição elementos das Histórias em Quadrinhos. A obra Sem Legenda produzida em 1967 por Carlos Vergara é composta por quadros dispostos como são diagramados os quadros em uma página de Quadrinhos. Esta composição em quadros também é encontrada em uma parte da obra de Antonio Dias que se utilizava também das onomatopéias e dos balões, por exemplo: Um pouco de prata para você de 1965 e Na escuridão de 1967.

As Histórias em Quadrinhos são construídas a partir da junção da literatura e do desenho e se aproximam do Cinema por conterem elementos como ritmo e movimento. Os autores de Quadrinhos, inúmeras vezes, têm se alimentado das angulações e experiências estéticas do Cinema e, por outro lado, os Quadrinhos têm servido de referência na produção cinematográfica. A diferença dos Quadrinhos para o Cinema é que este dita o ritmo ao expectador que se torna passivo diante da projeção, ao passo que aquele sugere o ritmo e movimento para o leitor que deve interagir ligando um quadro ao outro e criando subjetivamente a cena. Segundo Will Eisner em seu livro Narrativas Gráficas: “assistir a um filme estabelece um ritmo de aquisição. Isto é um desafio direto para uma folha impressa estática. Acostumado ao ritmo dos filmes, o leitor fica impaciente com as longas passagens do texto porque se acostumou a absorver histórias, idéias e informações rapidamente, e com pouco esforço. Como sabemos, os conceitos complexos tornam-se mais facilmente digeríveis quando são reduzidos a imagens. A comunicação impressa, como uma fonte portátil de idéias, continua sendo um meio viável e necessário. De fato, isso responde ao desafio de uma fusão com a mídia eletrônica. Uma parceria das palavras com as imagens torna-se uma permuta lógica. A configuração resultante é a história em quadrinhos e ela preenche o espaço existente entre o conteúdo impresso e os filmes”.

Will Eisner está entre os autores de Quadrinhos que lutaram para que esta mídia fosse reconhecida como arte. Eisner passou a denominar sua produção de Quadrinhos como “Arte seqüencial”, onde abordou assuntos considerados complexos como o Holocausto e a Grande Depressão. Recentemente a Sutil Companhia de Teatro apresentou o espetáculo dirigido por Felipe Hirsch, Avenida Dropsie. A peça, baseada nas Graphic Novels Um contrato com Deus, Avenida Dropsie, Pessoas Invisíveis e No coração da tempestade esteve em cartaz em 2005 no Teatro Popular do Sesi. Em Avenida Dropsie, Eisner explora as relações entre as pessoas nos espaços da metrópole, sua obra tem um caráter expressionista e as personagens vítimas das agruras da vida, da miséria, da pobreza e do preconceito estão sempre presentes. “Pensei no Will que sempre carreguei comigo: cinza e preto-e-branco e dark, sombrio, expressionista, mas intensamente realista. Pensei no que parece mais tocar hoje a quem assiste ao espetáculo: a solidão coletiva de uma grande cidade”. (Felipe Hirsch na Revista Bravo! - abril de 2005)

Os comics, forma como são chamados os Quadrinhos norte-americanos tem sido o modelo para produção em quase todos os países do mundo, a força com que se estabelece no mercado mundial, auxiliado pelos dólares de mega-editoras como a DC Comics e Marvel provocou e continua provocando uma descaracterização das experiências nacionais. Atualmente no Brasil, com a entrada dos mangás, quadrinhos japoneses, está ocorrendo um choque de estilos, tem-se a impressão que produzir mangá é fazer Quadrinhos “de fora”, alheio ao estilo nacional, estilo este que se confunde com o comics. O processo de dependência cultural norte-americana, pelo qual o Brasil passa, faz com que o costume do colonizador seja tomado como natural.

Os Quadrinhos, no Japão, fazem parte de uma indústria do consumo extremamente desenvolvida. Há Quadrinhos para todas as idades e sexos. O consumismo no Japão tem sido abordado de forma divergente por dois artistas contemporâneos a partir dos mangás. Aida Makoto faz parte de um grupo de artistas “1963” iniciado em 1993, quando todos eles completaram 30 anos. Com um forte teor crítico e político Aida Makoto utilizou a estética dos mangás para falar da alienação dos jovens e adolescentes japoneses. A série Dog de 1989 e Blender de 2000/01 são exemplos da arte de Aida Makoto que se utiliza das imagens dos Quadrinhos japoneses. Outro artista que se utilizou desta estética foi Murakami, no entanto, faz parte de um grupo de artistas interessados apenas na estética da indústria cultural. Há uma relação entre o trabalho de Murakami e o da Pop Art dos anos 1960. Murakami não se utiliza apenas das imagens, utiliza-se também da própria indústria cultural, suas obras são expostas em museus, galerias e bienais e baseada nelas Murakami produz uma série de produtos que são comercializados. My Lonesome Cawboy e Hiropon, ambas de 1997 são exemplos da utilização da estética dos mangás por Murakami em sua arte New Pop. Murakami tem alcançado grande repercussão mundial e grupos têm se alimentado de suas experiências na produção artística, atualmente no Brasil há um grupo de artistas, o Kakofonia, que realiza intervenções urbanas, colando stickers em espaços públicos. O mascote do grupo é o Mon Petit Monsuteru que é comercializado em botons, cartazes e camisetas.
 
Não são poucos os artistas contemporâneos que se utilizam das personagens dos Quadrinhos norte-americanos levantando questões sobre a dominação cultural e imperialismo ianque, personagens de Disney, como Mickey e super-heróis como o Capitão América são significantes desta questão. O provocador artista inglês Banksy em 2003 produziu uma ilustração para o álbum do Blur. Nesta ilustração, Think Tank, Banksy colocou de mãos dadas o Ronald McDonald, a menina sobrevivente ao ataque atômico ao Japão na II Guerra e o camundongo Mickey. Há exemplos também desta apropriação de personagens dos comics por artistas brasileiros em sua produção: o artista Clécio Penedo produziu, para o Museu histórico Nacional no Rio de Janeiro, o painel Colonização e dependência, onde entre figuras importantes da história nacional está o Tio Patinhas e o Capitão América. Neste caso o artista utilizou-se destas personagens como símbolos da colonização cultural pela qual o Brasil passa. E tratando do mesmo assunto, a artista mexicana Minerva Cuevas também fez uso de personagens de Mickey em obra exposta na 27ª Bienal de São Paulo que está acontecendo no prédio da Bienal em São Paulo.

Outro artista, o jovem Malta Tavares, foi selecionado para o prêmio Projeteis Funart de Arte Contemporânea 2005/2006 com a escultura Hulk, com a qual provoca reflexões a respeito da força das imagens da indústria cultural, no catálogo da exposição encontra-se uma crítica escrita por Rafael Campos Rocha a respeito da obra de Malta Tavares: “todas as direções lançadas pelos cortes na couraça parecem opostas ao centro luminoso da peça, como se quisesse distrair-nos. O que talvez seja uma interpretação maravilhosamente eficiente do tipo de interesse por trás da fatura das imagens da cultura de massa superficial e espetacular a que sua obra se refere”.

Fato é que, em mais de cem anos de vasta produção, em quase todos os países do mundo, as Histórias em Quadrinhos não pediram licença para invadir os espaços, não se limitaram a utilizar informações geradas em todas as áreas, da artística à científica, do popular ao erudito, do mito ao fato. Mal a ciência desvendava o genoma humano e os quadrinhistas já criavam mundos cheios de seres oníricos, fantásticos e humanóides híbridos, exploravam fantasiosamente as possibilidades da ciência genética e quando a engenharia mecatrônica deu seus primeiros passos, robôs com alma e sentimento ganhavam a vida nas páginas das Histórias em Quadrinhos. Lendas e seres folclóricos de todas as culturas. Sonhos e pesadelos passam a se concretizar nos traços de nanquim. As Histórias em Quadrinhos não se limitaram na exploração dos assuntos, da psicanálise ao holocausto e enquanto a filosofia debatia o universo, seu inicio e seu fim através da razão, nos Quadrinhos a imaginação foi mais longe, algumas vezes, dando uma resposta definitiva para a questão.
 
E de alguns anos para cá, os Quadrinhos tem retribuído com um universo incalculável, basta um pedaço de papel e um lápis que mais uma nova História em Quadrinhos pode vir a existir. O Cinema tem se utilizado bastante das Histórias em Quadrinhos, do Japão aos EUA: O Mangá, como é denominado o Quadrinho no Japão, Ring ganha movimento no filme de terror O chamado; nos EUA personagens como V da HQ alternativa V de vingança do inglês Alan Moore ganham vida na tela do Cinema e no Brasil o Menino Maluquinho passa dos pincéis de Ziraldo para a TV. Em pleno século XXI, quando se prevêem o fim das Histórias em Quadrinhos e dos livros impressos devido às facilidades proporcionadas pelo mundo digital, elas têm insistido em existir, nas tiras dos jornais, nas propagandas de todo tipo, da política a comercial, nas charges, nas revistas e luxuosos livros, e até mesmo em formato digital.
 
No entanto, não há garantia de que existirão para sempre; as Histórias em Quadrinhos fazem parte do desenvolvimento dos suportes artísticos, tem a reprodução como sua grande característica, e a cada vez que a sociedade avança novos suportes aparecem substituindo os antigos e ultrapassados. O universo digital é uma destas novas mídias, constantemente, tem-se falado dela como a “revolução digital”, esta é a revolução que as Histórias em Quadrinhos foram impedidas de realizar, a revolução das opiniões, das boas e das ruins, daqueles que apóiam e que subvertem, de todos que agora, com suas máscaras de anonimato, como a máscara de V, personagem de Alan Moore, fazem a revolução dos mascarados, onde todos podem ser apenas V, independente da raça, da religião, da posição social e política e da localização, os limites espaciais não são um problema neste universo, é o universo da liberdade de opinião. A resposta de Evey Hammond, personagem do filme V de Vingança ao policial que lhe pergunta qual a identidade de V é interessante e pertinente: “V é meu pai, é minha mãe, é meu irmão. V sou eu. V é você!”.
 
Para finalizar, esperamos que todos vocês passem a olhar as Histórias em Quadrinhos com outros olhos, com olhos de quem quer descobrir um grande leque de possibilidades. Que os futuros arte/educadores aqui presentes percebam que uma mídia tão presente e importante no cotidiano do homem moderno e pós-moderno não pode ser ignorada e que, no mínimo, há a responsabilidade de propor aos educandos uma leitura crítica ao invés de tentar impedi-los de ler, uma vez que isto não é possível, como a história já tem demonstrado. E que os artistas e outros aqui façam dos Quadrinhos mais uma ferramenta em seu trabalho ou mais um meio de diversão.

Pode parecer que a HQ é uma mídia de sonhadores para sonhadores, que as idéias de seus autores pareçam utópicas, mas, como disse Oswaldo de Andrade: “No fundo de cada utopia, não há somente um sonho, há também um protesto”.

Bibliografia:

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EISNER, Will. Narrativas gráficas de Will Eisner, São Paulo: Devir. 2005
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LANNONE, Leila Rentroia & Lannone, Roberto Antonio. O Mundo das histórias em Quadrinhos, São Paulo: Moderna, 1994

LUYTEN, Sonia Bibe. Mangá: O poder dos quadrinhos japoneses, São Paulo: Hedra, 2000

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GREINER, Christine. Curso: Arte contemporânea japonesa do pós 90, São Paulo: Japan Foundation. 2006. (Vídeos disponíveis na Biblioteca da Fundação Japão de São Paulo)

História da Arte dia 22/10/2006 às 14:00 horas

Kakofonia dia 02/11/2006 às 19:20 horas

* Palestra realizada na Universidade Braz Cubas (UBC) em Mogi das Cruzes – SP no dia 17 de Novembro de 2006 às 19h horas, como parte dos eventos da VI Semana de Artes, por Márcio Rogério Ferreira de Souza

** Marcio Rogério Ferreira de Souza é graduando do curso Licenciatura em Educação Artística e Bacharelado em Artes Plásticas da UBC

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