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Dia do Quadrinho Nacional - Vamos comemorar o quê?
Por Alexandre Nagado
30/01/2007

Uma pequena reflexão sobre essa categoria tão pouco valorizada

30 de janeiro é o Dia do Quadrinho Nacional, uma data não-oficial, mas que é registrada em vários calendários. Não se trata de valorizar as Histórias em Quadrinhos como um todo, mas celebrar especificamente a produção brasileira dessa arte. Mas é difícil falar de um mercado de Quadrinhos profissional se poucas pessoas que produzem Quadrinhos aqui no Brasil fazem disso sua principal fonte de renda.

Fora os que trabalham para o Mauricio de Sousa ou o Ziraldo, por exemplo, há os poucos que produzem HQ para o exterior, normalmente desenhando, arte-finalizando ou colorindo trabalhos sob encomenda. Com raríssimas exceções, é um trabalho de produção industrial, sem nada de autoral, e normalmente focado em super-heróis. Nada contra, pois é uma aplicação formidável de técnica e profissionalismo em um mercado realmente bem estruturado como é o mercado estadunidense. Mas uma HQ do Superman escrita e desenhada por brasileiros para o exterior não pode ser considerada exatamente Quadrinho nacional. Ou até pode, se olharmos o referencial geográfico, mas não é o objetivo aqui se exaltar o Quadrinho nacionalista ou com ambientação ou royalties locais. Afinal, acredito que mesmo um mangá com título em inglês e ambientação externa (como Holy Avenger), mas criado e feito aqui por brasileiros, é sem dúvida HQ nacional.

Não quero aqui levantar bandeiras e discutir o que é ou não Quadrinho nacional ou suas variantes. Acredito que, no fundo, o que deve importar é se o Quadrinho é bom ou não, mas também não é isso o que proponho discutir. A motivo desta explanação é refletir se há motivos para celebrar o Quadrinho nacional atualmente.

Fazendo HQ no Brasil

Mais do que valorizar a HQ nacional (pois essa classificação divide as pessoas e gera discussões acaloradas), prefiro valorizar o quadrinhista nacional, aquele que faz Quadrinhos neste país e aqui tenta sobreviver, seja qual for seu estilo.

Aos que conseguem, por seu estilo e modo de trabalho, se inserir no competitivo mercado dos EUA, meus parabéns, pois estão trabalhando dignamente. Mas e os que não se enquadram nisso, que não querem ficar desenhando seres superpoderosos ou que simplesmente não conseguem moldar seu trabalho às exigências específicas de títulos estabelecidos? Não pode haver um único modo de se trabalhar (entenda-se ganhar dinheiro para seu sustento) e ser reconhecido como quadrinhista neste nosso país, somente produzindo para o exterior. E mesmo com essa atividade visando o mercado exterior, quantos profissionais vivem disso, além de algumas dezenas? Se fossem 100 pessoas (um exagero), ainda assim a coletividade desses artistas não formaria o que se pode chamar de mercado de trabalho sadio.

E como também não tem espaço pra todo mundo no mercado que paga melhor, o jeito é se diversificar para tentar ganhar dinheiro por aqui mesmo. O Quadrinho é uma arte que exige muita técnica e disciplina, e isso pode capacitar desenhistas a trabalharem em outras áreas. Como alternativa para se viver do desenho, há a opção de se fazer caricatura em eventos, ilustrar para jornais e revistas informativas, lecionar ou entrar no fechado e competitivo mercado publicitário. Em termos de HQ, produzir material institucional é uma opção de se ganhar bem fazendo Quadrinhos no Brasil. É comum ganhar 300 reais ou mais para fazer uma página de gibi promocional ou didático pra uma grande empresa, mas essas produções são esporádicas e cheias de limitações criativas, pois são subordinadas às propostas de marketing do cliente.

Mas para uma editora de Quadrinhos, ou pagam uma miséria em torno de 50 reais por página (só exemplificando, uns pagam menos) escrita e desenhada de gibi ou não pagam nada pela produção da revista, oferecendo o duvidoso, inconstante e incerto (aqui no Brasil) pagamento por royalties. Daí o autor se ilude, pede pra todo mundo divulgar, batalha feito um condenado e fica esperando os resultados de vendas, já trabalhando no número seguinte. Então, a editora, que não investiu em divulgação e nem na produção, cancela o título dizendo que vendeu pouco, não paga nada ao autor e fica revendendo o encalhe do gibi para distribuidoras menores até esgotar todo o papel e girar seu capital. Dá pra imaginar um empresário que queira investir numa pequena confecção, contratando três pessoas e falando pra elas trabalharem com afinco, mas que só vão receber salário se ele tiver lucro? Bom, isso acontece aqui no Brasil toda hora quando a relação comercial envolve editores e quadrinhistas. Mas gráfica nenhuma imprime nada sem pagamento certo acordado em contrato.

Com álbuns, a coisa geralmente funciona melhor e mais organizadamente, mas o dinheiro que se ganha com direitos de vendas de álbuns é pífio e não dá sustento mensal pra ninguém. Novamente, voltamos à questão do mercado, que já li e ouvi muita gente dizer que está bom. O que me leva a perguntar:

O mercado está bom para quem?

Mangás têm sido lançados aos montes, assim como gibis de super-heróis. Álbuns europeus também têm saído e encontrado leitores especializados em livrarias, que estão se tornando o último reduto desse produto caro que tem se tornado a HQ. Bom para as empresas japonesas, européias e estadunidenses que aqui desembocam suas produções e bom também para os brasileiros que vivem dessas relações comerciais, como editores e tradutores. Há muita diversidade hoje em dia, mas tiragens cada vez menores e caras. As leituras têm se tornado cada vez mais privilégio de grupos pequenos, de centenas ou poucos milhares. Preços proibitivos para compensar tiragens cada vez menores e um público progressivamente mais elitizado e fechado em si próprio não ajudam a manter um mercado forte. E desses nichos, o menor é o do Quadrinho nacional. Claro que Turma da Mônica é Quadrinho nacional e vende bem, mas uma exceção boa não salva um mercado ruim.

Para o leitor comum, não interessa a nacionalidade ou procedência do material. Interessa se o material é bom e se o preço está dentro de suas possibilidades. Se ele fica sabendo, gosta e acha que vale, compra. Para o Quadrinho nacional conquistar seu espaço, não basta união entre autores e produzir material bom. Sem a divulgação, o planejamento e a valorização dada pelos editores, não adianta nada.

Não basta incentivar a produção e a valorização de material nacional. Muitas coisas, especialmente revistas independentes, acabam sendo produzidas e consumidas quase que só por gente da área. Um autor divulga o outro e um compra o trabalho do outro. Um acessa o site do outro e divulga e por aí vai. Uma campanha de valorização da HQ nacional tende a atingir apenas quem já freqüenta esse meio e está catequizada sobre o tema. Fica tudo meio autofágico, egocêntrico e auto-indulgente. Alguém imagina uma Panini ou uma JBC encampando tal tipo de iniciativa? Empresário quer ter lucro, claro, e nessa relação ele sempre vai buscar o lucro mais certo. Produções que deram certo em outros países e têm infra-estrutura de merchandising e presença em outras mídias (como TV e games) já chegam na frente, sem chance de concorrência pra autores que saem do zero e não têm apoio nenhum dos editores que lhes "fazem o favor de publicar só pra dar uma força".

O mercado está se fechando em guetos de fãs hardcore e afastando o leitor comum. Com isso, HQ no Brasil já deixou de ser meio de comunicação de massa e virou nicho dos fãs com dinheiro pra comprar tudo o que querem. Mas não foi sempre assim.

Um passado não tão distante

Se o mercado de Quadrinhos como um todo estivesse bom de verdade, certamente haveria algo para que nacionais também publicassem, ainda que com ganhos menores. Entre o final dos anos 1980 e início dos 1990, revistas de material nacional como a Circo, Porrada Special, Mil Perigos, Piratas do Tietê e outras sobreviviam em meio a mutantes e justiceiros de capa. E muitos profissionais viviam de produzir páginas de Chaves, Chapolim, Heróis da TV, Street Fighter, Xuxa, Faustão, Sergio Mallandro, Os Trapalhões e tantos outros. Eram revistas baseadas em astros populares ou em personagens estrangeiros, mas eram produzidas inteiramente aqui para consumo interno, gerando trabalho digno para muitos se dizerem quadrinhistas brasileiros profissionais. Você pode até discutir se um Disney feito aqui é nacional, mas não discutir a nacionalidade do artista.

O Street Fighter nacional da Editora Escala vendia mais de 25 mil exemplares em 1993. Quando foi cancelada, ainda vendia cerca de 10 mil. Atualmente, qualquer coisa que venda mais de 2 mil exemplares é considerada um sucesso. Hoje, para revistas feitas em esquema de estúdio de produção, pouca coisa restou.

Em eventos, vejo muita gente exaltar a produção nacional, mencionando álbuns, revistas independentes, fanzines e sites ditos famosos, ainda que somente entre seus pares. Tudo isso é ilusão, pois os fatos mostram que não existe mercado para se comemorar. Desculpem a sinceridade, sei que estou indo contra muita gente que tem visão mais otimista mas, em minha opinião, não há motivos para comemorar o Dia do Quadrinho Nacional. Exceto, talvez, pelo fato de que lembrar esta data permite que se discuta algo tão esquecido e maquiado como o mercado de trabalho. Não tenho as respostas para essa crise, mas acredito que apontar problemas seja um modo saudável de incentivar para que discussões produtivas apareçam nos eventos e não apenas risos e tapinhas nas costas. Aí, quem sabe, poderemos comemorar um dia um mercado digno e com bastante trabalho.

Site pessoal do autor
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