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Entrevista: Mauricio Morini
Por Marcio Baraldi
26/02/2010

“Os Quadrinhos podem tornar as crianças melhores!”

Mauricio Morini é um dos profissionais mais experientes e escaldados do cartum brasileiro. Começou nos anos 70 nas editoras populares da família Fittipaldi (Saber, Fittipaldi, Paladino, etc), que davam muito espaço pra cartunistas e empregaram muita gente boa naquela década, depois ficou dez anos no Diário Popular (atual Diário de São Paulo),onde aprendeu a fazer de tudo (charges, tiras, ilustrações, caricaturas e retratos a bico de pena) se tornando um profissional completo. Depois migrou para a Gazeta Mercantil onde ficou por mais treze anos, até o fechamento desta. Agora, livre, leve e solto, o cartunista resolveu se dedicar ao seu proprio gibi, o Tataribú, com o qual quer conquistar a garotada brasileira! Nas bancas de todo o Brasil pela Editora As Américas, Tataribú traz as HQs da “Turma da Aventura”, seus personagens infantis, capitaneados pelo menino Malagueta. Além do Tataribú, Morini ainda investe em Gilzinho, versão infantil do escritor Gil Lucio Almeida, autor do best seller O Engraxate e o PHD. Enfim, muitos projetos rolando pela cabeça e prancheta do talentoso Morini! E pra falar desses projetos todos e dar uma geral em sua vasta carreira, nada como um bom bate papo com o inquieto autor. Com vocês, Mauricio Morini! Que soem as trombetas: ”TATARIBÚUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!!!!”.

Vamos comecar do início.Voce foi como 99% dos cartunistas e começou a desenhar desde pirralho? Teve mais artistas na sua família ou você foi o único?

Sempre desenhei desde pirralho!!! Eu usava um toco de lápis, o papel que embrulhava o pão (a bengala), que de um lado era liso e do outro áspero e era ótimo para desenhar, e usava o miolo do pão como borracha para apagar. Era muito nutritivo desenhar naquele tempo (risos)! Nunca tive noticias de outro artista em minha familia, a grande maioria trabalhava em tecelagem.

E você também aprendeu a ler com os gibis que nem a maioria da categoria? Você lembra qual foi o primeiro gibi que você leu?

Na verdade eu tinha mais contato com os desenhos animados da TV e gostava demais dos desenhos da Disney! Já os gibis apareciam de vez em quando na minha vida e, é claro, eu preferia os gibis da Disney: Pato Donald, Mickey, Tio Patinhas, Zé Carioca, esses caras. Sempre fui apaixonado pela obra de Walt Disney!

Você passou por aquelas fases típicas que a maioria dos moleques passam: começar a ler com os infantis, depois passar pros super-heróis e depois de adolescente, cair no Humor?

Não, continuei nos infantis e depois pulei para o humor! Nessa época minha mãe comprava a revista Recreio (uma famosa revista de atividades infantis da editora Abril) e como éramos em três irmãos, disputávamos  a revista e o encarte para recortar e montar o que vinha dentro dela. Fazíamos um revezamento para ler e brincar com a revista, como éramos em três um sempre sobrava. A minha mãe vendia roupas e eu pegava as cartolinas que vinham dentro das camisas para desenhar e recortar, aproveitava para criar meus próprios “recorte e monte”, fazia maquetes, etc. Eu fazia muita coisa, foi uma época maravilhosa e criativa para mim!Nessa época eu morava na Vila Maria (zona norte de São Paulo), um bairro cheio de lagoas, e um político irresponsável resolveu aterrar as lagoas do bairro com lixo e eu passei a morar exatamente no meio do lixão, o que para uma criança é o paraíso (risos)! No lixão eu achava muitos brinquedos e gibis, empinava pipa, jogava bola, mas tambem tinha que ficar esperto pois tinha doenças e muita gente ruim. Todos tiravam o que podiam do lixo e respeitavam o espaço de cada um. Às vezes eu achava um brinquedo muito legal no lixo e tinha que disputá-lo a tapa com outro menino. Foi nessa época que tive contato com os super-heróis e não caíram no meu gosto! As histórias nunca terminavam, sempre continuava em outro número e quando eu achava outro número do gibi já era outra história. Não tinha tempo de gostar desses caras em roupas estranhas, fazendo coisas estranhas e nunca terminando essas coisas. Preferia os gibis da Disney porque sempre começavam e acabavam as histórias na mesma revista.

O garoto Malagueta, da Turma da Aventura

Eu olho pro seu desenho e sinto uma afinidade com o Peyo (Smurfs), o Uderzo (Asterix, Humpa-Pa, Iznogud) e toda aquela galera francesa dos anos 60 e 70. É por aí mesmo? Você tem influência dessa escola? Quais seus autores preferidos?

Pois é! Isso já tem a ver uma outra fase da minha vida, a adolescência. Nessa época eu trabalhava como offce boy em uma metalúrgica na rua da Corôa, na Vila Guilherme (zona norte de São Paulo). Eu havia feito um curso de desenho na Vila Maria e meu pai queria que eu fizesse outro, que ele daria um jeito de pagar. Mas nessa época meus amigos já trabalhavam e eu, ao invés de fazer o curso, preferi ir trabalhar também. Não achava justo dar essa despesa pro meu pai, que trabalhava na tecelagem o dia inteiro e ainda era taxista depois do expediente. Mas era difícil pra mim encontrar emprego, pois quando descobriam de onde eu era não me contratavam. Uma vez eu estava fazendo entrevista no departamento pessoal de uma empresa e alguém gritou do outro canto da sala: "Ahhhhhhhhhh!!!!!!! É do lixão!!!!!!!!". Parecia que estava vendo um monstro ou o diabo na frente! Sofri muito preconceito e intolerância, mas não era só comigo, era com todos do bairro, ainda hoje isso existe. Ate que finalmente consegui emprego de office boy! Eu e os outros boys nos encontrávamos numa esquina e trocávamos serviço, um fazia o do outro, otimizávamos nosso tempo e a produtividade, depois em um horário marcado destrocávamos o serviço. Terminávamos cedo o trabalho, juntavamos um dinheirinho e íamos todos para o fliperama e cinema. Eu ia para os sebos (conhecia todos no centro da cidade) e bancas de revista. Andava pela cidade e via as coisas maravilhosas que existiam nos sebos, tomei contato com Lucky Lucke e me identifiquei de cara com o traço e as histórias. Comecei a percorrer os sebos à procura dessas revistas, encontrei Asterix, Smurfs (na época chamava Strunfs), Iznogudi, Timtim, Humpa-pa e muitos outros. Enlouqueci!!! Queria mais e tomei contato com o Spirit, Pasquim, MAD, Quino e o Henfil e aprendi a fazer caricaturas e cartuns. E adorava também os gibis de terror com Jayme Cortez, Nico Rosso, Flavio Colin e outros tantos caras talentosos! Uma vez li uma entrevista do Henfil na revista Grillo em que ele dizia que o cartunista tinha que ter cultura geral, e o Jô Soares no Jornal da Tarde (que tinha as caricaturas da dupla Gepp e Maia) quando perguntado sobre o que ele estava lendo de bom, ele respondeu que via e lia de tudo para saber se era bom ou ruim. Então passei a ler de tudo: revistas, livros, jornais, bula de remédio... Estudava à noite e quando voltava passava a madrugada lendo e no outro dia levantava cedo com sono e ia trabalhar, acordava pra valer mesmo com o barulho do relógio de ponto quando picava o cartão (risos). Uma vez vi numa livraria o livro do Jayme Cortez Manual do Ilustrador, lindo!!! Meus olhos brilharam, o coração bateu mais forte, mas era muito caro para eu comprar. Até que um dia tive que levar vinte quilos de tubo de cobre eletrolitico (era enrolado) no bairro do Socorro, no outro extremo da cidade, e tinha que ir de táxi. Não tive dúvidas: joguei o tubo de cobre nas costas, tomei metrô e dois ônibus e andei um quilômetro até a metalurgica a pé num sol de rachar. Na volta passei direto na livraria e comprei o livro com o dinheiro do táxi! Que dia feliz para mim!!! Eu tinha um livro do Jayme Cortez ensinando a fazer ilustrações e Quadrinhos!!! Uma outra ocasião voltei da Pompéia até a Praça do Correio a pé andando de sebo em sebo. Assim completei minha coleção de Asterix, Umpa-Pá, Lucky Lucke e a MAD que colecionei do numero 1 até o 103, último a ser publicado pela Editora Vecchi (a primeira editora da revista no Brasil).

Como foi o início da sua carreira? Você começou aonde?

Foi graças ao curso de desenho que eu fiz na Vila Maria! O professor era um cartunista chamado Fabiano Dias, mostrei alguns trabalhos meus pra ele e ele publicou uma idéia minha na revista do Praça Atrapalhado (personagem bem popular nos anos 70, uma espécie de versão nacional do Recruta Zero), da Editora Fitipaldi. Depois eu acabei o curso e não vi mais o professor Fabiano. Alguns anos depois eu estava desempregado, fazendo um "bico", quando chegou um amigo esbaforido, o Gilmar, me avisando que um outro amigo dele estava precisando de um cartunista e ele convenceu o cara a me contratar. Então ele me levou até esse amigo e por coincidência era o proprio Fabiano! Fui trabalhar na editora Criarte, do Crispin e Oswaldo. Fazia cartuns para o Bocage, uma revista de humor da editora Saber, outra editora da familia Fittipaldi. Os Fittipaldis eram muito conhecidos no ramo editorial na época e tinham várias editoras. Nessa época conheci a censura e a ditadura! Nessa editora eles fechavam um jornal, se não me engano era o Opinião; eu ainda era um moleque. Via aquela correria para fechar rápido senão a policia chegava, era tudo muito rápido. Entrava um cartunista e fazia as ilustrações e saía correndo, não tenho certeza mas acho que era o Henfil, e eu ficava olhando admirando o cartunista desenhar. Foi um desses jornalistas do Opinião que me aconselhou a assinar como Morini. Lembro que um dia, na correria deixaram uma revista Heavy Metal, que tinha desenhos lindos e muito diferentes do Alan Voss, Rich Corben, Moebius, Philip Druillet, Sérgio Macedo... Foi um choque para mim!!! Depois que eu li e vivenciei tudo aquilo passei a ter uma nova visão de mundo, da realidade. Passei a ler ainda mais, qualquer coisa e a prestar atenção especial nas entrelinhas! Depois fui para a Editora Saber onde fiquei por tres anos ilustrando as revistas Eletrônica Saber, Atividades Infantis e o Bocage outra vez. Sai de lá pra me arriscar no mercado de trabalho, queria trabalhar em jornal. Nessa época eu estava na faculdade, fazia Licenciatura em Educação Artistica, na FEBASP. Assim que terminei a faculdade consegui emprego no Diário Popular. Nessa época sugiram os  personagens da Turma da Aventura. Meu editor queria uma tira sobre o cotidiano, eu disse que fazia e ofereci meu personagem Malagueta ,que era uma idéia que eu tinha há muito tempo. Essa turminha surgiu nessa época, com o Malagueta surgiu também o Peteleco, seu inseparável amigo. Depois vieram os outros naturalmente. A tira foi um sucesso! Eu recebia cartas e visitas de leitores na redação. No Diário eu fazia caricaturas, charges, bicos de pena, cartuns, ilustrações e era responsável pela página de diversão com as tiras (todas nacionais), horóscopo, cruzadas e caça palavras. Nas tiras tínhamos uma turma de grande qualidade: além de mim, Mauricio Pestana, Maringoni, Fausto, Cláudia Levay. Eu tinha muito orgulho dessa turma e para mim foi uma honra trabalhar com eles. Eles e toda a redação do Diário Popular!

Realmente foi uma fase muito boa para aquele jornal, pena que acabaram com a seção de tiras nacionais. Depois de lá voce foi para a Gazeta Mercantil, né? Você ficou no jornal até ele fechar?

Aconteceu o seguinte: a Conceição Cahú (uma das grandes ilustradoras brasileiras, já falecida) foi fazer um freelancer lá no Diário e ficamos amigos. Ela gostou do meu trabalho e me convidou para ir trabalhar com ela na Gazeta Mercantil. Aceitei e trabalhei por treze anos lá na Gazeta! Fazia de tudo: charges, ilustrações e retratos em bico de pena. Nessa época eu aprendi muito sobre jornalismo, participava de reuniões de pautas com outros grandes profissionais da imprensa brasileira. Foi uma grande escola! Saí da Gazeta e voltei alguns anos depois, aí fiquei até ela fechar.

Grande Conceição Cahú!!! Que lembranças você tem dela?!?

Tenho grandes lembranças dela e do pessoal da arte e da redação. Aprimorei muito minha técnica em ilustrações, charges, caricaturas, o traço, e principalmente o bico de pena com a Cahú. Ela era uma mulher forte, batalhadora e com um grande talento. Muito versátil, ela fazia de tudo, caricaturas, charges, ilustrações, cartuns e bico de pena. Sua especialidade era o retrato, ninguém fazia retratos como ela, em pontilhismo. Era impressionante, perfeito! Muitas vezes eu a via fazendo os retratos em bico de pena e falando ao telefone ao mesmo tempo, ela nem olhava para o papel. Eu ficava impressionado, ela nem precisava olhar para o desenho e mesmo assim ele saia perfeito (risos)! E era muito rápida tambem! Foi uma grande amiga, uma grande mulher, um grande talento.

A Turma da Aventura, personagens do gibi Tataribú

Você lançou o gibi Tataribú no ano passado. Como surgiu a idéia de fazer um gibi infantil? Você sempre quis fazer um trabalho voltado pra criançada?

Na verdade eu sempre fiz gibis infantis, mas nunca com personagens meus e sim com personagens que eu criava para empresas e parcerias. Dessa vez dei preferência para algo pessoal, bem autoral, um trabalho com objetivo e foco definidos. Dessa vez meus personagens ganharam o primeiro plano, onde sempre deveriam estar, e por uma causa acima de mim e deles: uma busca pela educação e cultura! Tudo com muita criatividade!

Ótimo! Então fale um pouco dos personagens do Tataribú. Quem é a Turma da Aventura?

Os personagens tem a liderança do Malagueta, que por sua vez tem uma certa rivalidade com a Tatah, como é comum em crianças dessa idade. Mas nunca com violência, não desenho ninguém batendo ou roubando ninguém, e sim resolvendo as coisas com inteligência sempre. O cotidiano deles é a escola, o futebol, que faz parte da cultura brasileira, e, é claro, as traquinagens do dia a dia. Mas sempre com foco na educação, em estimular as crianças a aprenderem, a terem curiosidade de saber. Os Quadrinhos podem tornar as crianças melhores, e tornando-as melhores teremos uma sociedade melhor. Sem revolução, e sim com EVOLUÇÃO! O Quadrinho é uma arte de massas, está próximo ao povo. Então podemos levar algo mais, além de diversao, para esse povo.

E como tem sido a repercussão dele?

A repercussão do gibi Tataribú é enorme! Tenho recebido muito apoio de professores. Agora estou quadrinizando a biografia do Dr. Gil Lucio Almeida, autor do best-seller O Engraxate e o PHD, através do gibi  do personagem Gilzinho, caçula da família Tataribú. No gibi eu conto como ele enfrentou a vida desde menino no interior de Minas Gerais, começando a vida como engraxate até virar um Doutor com PHD. Com o Gilzinho eu mostro pras crianças que é possível vencer na vida mesmo sem ter recursos financeiros, enfrentando seus problemas de frente com coragem e criatividade. 

Não é muito fácil lancar um gibi no Brasil sem uma grande editora por trás bancando tudo, divulgando e distribuindo, né? Quais as dificuldades que você tem sentido nessa empreitada?

A divulgação do gibi foi, em sua maior parte, feita por mim, mesmo com todo o esforço da Editora “As Américas” apoiando o Tataribú. Depois de muitos anos de  imprensa diária aprendi muita coisa e fiz minha própria assessoria de imprensa, conseguindo espaço na mídia com o apoio de muitos amigos. O que importa é que o Tataribú já ganhou vida própria. Confiram no site da revista.

Jim Quinca, outro personagem de Mauricio Morini

Você conhece o projeto de lei do Quadrinho Nacional, do deputado Simplício Mario (PT), né? Você acha que uma lei como essa e viável? Poderia ser a solução para essa dureza toda que é o mercado de Quadrinhos nacional?

Já tinha tomado conhecimento de outro projeto nesse sentido, do Deputado Vicentinho (PT). Acredito que seria sim a solução para o Quadrinho Nacional e seria otimo para o Brasil, afinal trata-se da cultura de massas nacional  assim como o cinema, teatro, música ,que sempre foram incentivados pelos governos.Entao por que o Quadrinho não pode tambem?  Mas acho que só a lei não resolve,e preciso tambem uma postura profissional dos quadrinhistas brasileiros.Essa lei e muito importante mas precisa ser votada, enquanto estiver parada na gaveta do Congresso não serve de nada.

Se você fosse o Ministro da Cultura, ou mesmo o Presidente da República, o que voce faria pelo Quadrinho Nacional?

Começaria comprando o Gibi Tataribú todos os meses e fazendo propaganda dele (risos)! E quem sabe implementaria ele em todo o território nacional, pois ele é educativo, e como Quadrinhos, chega onde outras mídias não chegam. Isso serve para todo o Quadrinho Brasileiro. Eu agiria no sentido de isenção de impostos e incentivos para a produção e publicação do Quadrinho Nacional de boa qualidade, aqueles que tenham algo a acrescentar, é claro! Podemos divulgar nossa cultura pelo mundo inteiro, através da força dos Quadrinhos.

Se voce ganhasse um milhão de reais como você investiria essa grana no seu gibi?

Faria um bom planejamento. E nem é preciso toda essa grana. Com bons parceiros comprometidos e afinados com o objetivo e foco no negócio, podemos fazer todos ganharem muito. E pode-se fazer um cidadão melhor com os Quadrinhos também! Assim todos saem ganhando. Mas, é claro que se alguém aí tiver um milhão eu aceito (risos)!...

Quais seus planos para 2010?

Meus planos são implementar o Gibi Tataribú ainda mais e o do Gilzinho também.

Deixe um poderoso recado final para o povo brasileiro.

Ok. Deixo a  frase do Stan Lee: ”Uma pessoa pode fazer a diferença!”. Tataribúuuuuuuuu!!!!

O Bigorna.net agradece a Mauricio Morini pela entrevista, concedida em 10 de fevereiro de 2010

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