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Entrevista: Spacca
Por Matheus Moura
04/09/2009

Não faz muito tempo que Spacca ingressou no mundo mágico dos Quadrinhos. Seu primeiro trabalho foi com o álbum Santô e os Pais da Aviação, publicado em 2005. De lá para cá só teve mais três outros livros lançados, todos pela mesma editora, Cia das Letras, e com algo em comum: versão sobre a vida ou obra de personalidades tupiniquins, ou daqueles que fizeram história no Brasil. Os referidos trabalhos são: Debret em Viagem Histórica e Quadrinhesca ao Brasil (2007); Dom João Carioca - a Corte no Brasil (2007) e, o mais recente lançamento, Jubiabá, de Jorge Amado (2009). No bate-papo a seguir, você irá conhecer um pouco mais sobre o artista, suas motivações, método de pesquisa e próximos trabalhos.

Quem é Spacca?

Spacca sou eu, cartunista e ilustrador, e é meu segundo nome (João Spacca), nome que vem de minha mãe, Veronica Spacca. Spacca vem do italiano “spaccare” que quer dizer “cortar”, “separar”. “Eu te quebro a cara” em italiano fica “te spacco la testa”. Mania de cartunista brasileiro, assinar com um nome só. Mas hoje o que sou, o que quero ser cada vez mais, é quadrinhista.

Hmm!! Interessante. Você mencionou em cada vez mais ser quadrinhista. Antes dos seu álbum Santô (Companhia das Letras), eu pelo menos não ouvia falar de você. Conte um pouco do que fazia antes e como foi o começo com esses trabalhos em álbum...

Eu fazia charges na Folha de São Paulo (1986 - 1995), e também fiz histórias curtas em HQ na revista Niquel Náusea. E também trabalhava bastante fazendo storyboards para publicidade, que foi o meu primeiro emprego. O trabalho com álbuns começou em 2004, quando ofereci o Santô para a Cia das Letras. Eu já ilustrava livros infantis para eles, já tinha um contato bom. Mas além disso, achava que o Santô era a cara da editora, porque tinha tema histórico, era biografia. Meu modelo de biografia e pesquisa eram os livros do Ruy Castro e do Fernando Morais, que recontam os fatos com um sabor dramático e humorístico, sem perder o nexo com a realidade. Esse álbum exigiu de mim conhecimentos que eu não tinha. Quadrinhos são uma arte múltipla e exigente, a gente tem que desenvolver vários lados, ir atrás do que não tem. Ao me dar conta de como a historia do Santô podia ser complexa, percebi que os instrumentos de cartum eram muito limitadores. Tive que “voltar no tempo”, de quando eu adolescente estudava anatomia, copiava os mestres. Foi assim. Já com 40 anos, aprender como se desenha arquitetura para os Quadrinhos, melhorar o traço, treinar com pena e pincel. E a cada álbum os desafios aumentam, mas acho também que houve progressos.

Bacana! Falando do seu processo de criação, especificamente, para o Jubiabá você passou uma temporada na Bahia para conhecer melhor o local onde se passa a história. E para os outros trabalhos, como o Debret e o D. João Carioca?

Também, para me aprofundar no D. João, eu passei uma semana no Rio andando pelo centro, especialmente a praça XV (Largo do Paço), visitando museus e palácios. Para o Debret eu não tive tempo. Essas visitas em geral eu faço depois de estudar o lugar usando fotos, mapas e livros antigos. Primeiro eu estudo “teoricamente”. Estudo e faço sínteses, simplificações, decoro os pontos mais importantes e faço um roteiro. Aí eu procuro viajar para colher impressões mais vivas do local, o que sempre muda e enriquece as informações iniciais. É importante, tanto pela geografia, pela arquitetura, como para sentir as pessoas andando e falando ali. Reparo no jeito que elas se encostam às portas, como conversam e fazem trabalhos comuns. Depois, essas lembranças entram em ação na hora de desenhar, especialmente quando faço figurantes. Os personagens de D. João eu desenhei, ouvindo na minha mente o sotaque português ou carioca... Nesta minha viagem para lançar Jubiabá em Salvador, amigos baianos me disseram que acharam Gilberto Gil discutindo num candomblé, com o dedo em riste (página 78). Não era, mas reconheço que ficou parecido. Eu fiz as pessoas discutindo como eu vi na Bahia mesmo, com gestos largos, inflamados. Para o D. João eu planejava viajar também para Portugal, mas foi aquele ano de confusão nos aeroportos, então eu decidi fazer só usando as referências. No Santô eu pude ir a Paris, refiz o percurso que Santos Dumont fez da Torre Eifell ao parque de onde ele ascendeu. A pé, claro. Para as viagens para o Rio e Salvador, contei com um apoio da Companhia das Letras para passagens e hotel.

Na minha opinião, essa sua forma é a verdadeira maneira de se criar HQs com cunho histórico! Acredita que se não fizesse assim, conseguiria transpor com tantos detalhes as vidas desses personagens? Ao que parece, para o Santô, foi um investimento particular sua viagem...

Há duas coisas que busco conquistar: como fazer quadrinhos e quadrinho histórico especialmente. Na primeira, sinto um déficit muito grande, pela falta de prática, por não ter sido discípulo ou artefinalista de alguém no começo de carreira. Seja por não haver produção continuada, ou por que os desenhistas nacionais são mesmo meio solitários, o fato é que precisei descobrir as coisas sozinho. Os meus processos são ditados pelas necessidades, pelas lacunas e imperfeições que vou descobrindo no meu trabalho. E no caso de quadrinho histórico especialmente, os desafios são: a) contar sobre fatos reais, mas construindo um roteiro com ritmo de ficção  (e ainda com conteúdo verdadeiro); b) recriar o passado, utilizando documentos e imagens antigas, mas insuflando vida por meio da observação e da experiência vivida (para não ficar com cara de museu). Nos dois casos, aquilo que dá vida (o ritmo com emoção e a observação de pessoas reais) dá também unidade. É graças a esses elementos que todos os detalhes conseguem se integrar numa coisa só. Tentando explicar melhor: uma coleção de detalhes é só uma coleção de dados soltos. A experiência real é que dá sentido a eles, que os agrupa em personagens e histórias coesas. (Sim, a viagem a Paris foi investimento meu, embora facilitado pelo fato de uma amiga nossa nos hospedar por três semanas - foi uma viagem apertada...).

O que considera ser fundamental (fora os pontos já abordados) para se criar uma HQ documental como as que realiza?

a) possuir, ou buscar adquirir, habilidades básicas de desenho, tem que estar apto para desenhar um pouco de tudo.
b) precisa aprender linguagem de cinema, planos, enquadramentos, ou conhecimentos semelhantes de outras artes. Conhecer e pesquisar a linguagem dos Quadrinhos.
c) precisa se familiarizar com a História do Mundo, com as eras e épocas, e com as roupas e tecnologia de cada período.
d) tem que conhecer História da Arte, ter noções dos estilos artísticos e arquitetônicos.
e) num nível mais avançado: é bom desconfiar dos estereótipos da História, das versões simplistas ou maniqueístas. A não ser que sua proposta seja algo menos sério, uma boa abordagem histórica desafia as unanimidades. Nunca é o “Império do Bem” versus o “Império do Mal”, ou “povo oprimido” versus “vilão opressor”.
Sempre existem muitas matizes na realidade. O filme “Cruz de Ferro” de Sam Peckimpah é uma história só com personagens do exército nazista, tem vilões, heróis, covardes...
f) cuidado com os anacronismos. Precisa pesquisar a fala e o modo de pensar de cada época. Fica inverossímil, por exemplo, um cientista do século XIX defender a natureza como um ecologista do século XXI.

Recentemente teve encontros em Salvador abordado o seu trabalho e o de Jorge Amado. Quais foram as principais críticas levantadas a cerca de Jubiabá, por Spacca?

Ainda não fui criticado... apenas sentiram falta de algumas partes do livro, como o capítulo do vagão (em que Baldo conversa com três passageiros clandestinos). É um capítulo com ritmo lento, depressivo e que para colocar na HQ necessitaria umas 4 páginas, e omiti por razões de espaço, custo, produção... Por enquanto só elogiaram as escolhas que fiz, o resultado, a capa. Vamos ver, com mais pessoas lendo...

E com suas outras obras?

Críticas? No Santô, um colega ficou indignado porque eu tinha aceitado a versão dos Irmãos Wright. Tentei explicar como está no livro, que tem todo um jogo de influências e que ninguém é realmente “pai” exclusivo da aviação, embora Santos Dummond tenha feito de fato o primeiro vôo com decolagem. Não teve conversa... Em seguida pediu desculpas, disse que “surtou” :) O Debret, que veio logo em seguida do Santô, decepcionou um pouco o Paulo Ramos. Disse que esperava mais do que apenas 18 páginas. É verdade. O que aconteceu é que era uma história curta que foi “promovida"” a álbum, e enriquecida com imagens de Debret escolhidas por mim, algumas ainda inéditas no Brasil, e mais algumas páginas de making of. Mas no geral, ninguém recebeu mal meus álbuns. Só uma garota que precisou ler na escola para fazer um trabalho e achou muito grande e pediu ajuda no Yahoo Perguntas :) A “melhor resposta” foi de um cara que colou ali uma resenha de livraria :) :) Mas ela está certa... Santô é um catatau mesmo, a leitura não flui pra todo mundo. Em certos trechos eu fui enciclopédico demais, talvez.

Sei que parece ser cedo, mas já há planos para o próximo álbum? A intensão é continuar com a Cia das Letras?

Não é cedo não. O próximo é a adaptação de As Barbas do Imperador, da Lília Schwarcz, sobre D. Pedro II. Sim, pretendo continuar na Cia das Letras, tenho vários projetos possíveis lá.

Poderia adiantar, aproximadamente, para quando seria As Barbas do Imperador? E esses “vários projetos”, pode dizer por alto sobre o que seriam?

Barbas está previsto para 2011. Os outros projetos, é difícil adiantar, porque nada garante qual será o seguinte. Mas tem várias idéias que eu mostrei e elas foram bem aceitas, a princípio. Tudo depende de eu conseguir criar um roteiro bom com elas. Um famoso que entra e sai da gaveta é minha biografia do Lobato. Achei que ia fazer agora, mas como os direitos estão com a editora Globo, pode ficar desvantajoso negociar (porque o projeto envolve algumas aparições dos personagens do Sítio, e eu prefiro fazer com design meu, evocando os personagens desenhados por Belmonte e Le Blanc). Por isso Lobato voltou para a gaveta.

A sua pegada, pelo que parece, vai continuar sendo a biografia e/ou adaptações. Pensa e talvez partir para a ficção? Se não, hipoteticamente, se fosse trabalhar com ficção, com que gênero trabalharia?

Sim, vou continuar nessa levada de histórico-biográfica e adaptações. Como eu sempre procuro dar um tratamento ficcional, não sinto falta de trabalhar com histórias totalmente inventadas. Se eu fizesse uma narrativa ficcional, provavelmente ela seria ambientada no passado e eu utilizaria premissas reais, estruturas sociais existentes naquele período... (como Jubiabá, que é uma obra de ficção, mas é baseada em condições de vida reais do povo baiano).

Como mencionou anteriormente, seu ingresso na produção de álbuns foi rápida e certeira. Para aqueles que há muito buscam seguir por esse mesmo caminho, há algo a se levar em conta antes de procurar uma grande editora? O que sugere aos novos quadrinhistas?

Eu sugiro que procure uma editora com um projeto que combine com a linha editorial dela. Precisa ver o que eles já publicam, qual a tendência deles. Quando levei o Santô à Cia, além de já ter trabalhado com eles, meu projeto era biográfico. E além disso, eles haviam publicado alguns anos antes o Meu Chamigo Brasileiro do Toral, sobre a Guerra do Paraguai. E mais, minha história não era ufanista, eu tracei uma panorama mais complexo, o que também achei que agradaria a editora. Enfim, era a cara deles. Se o meu projeto fosse de, digamos, “marketing esotérico”, eu teria que procurar outra editora... Eu também levei o meu projeto sem finalizar. Isso foi fundamental para que a editora pudesse sugerir algumas mudanças - que não interferiram na idéia básica do projeto, mas melhoraram o produto final.

Ainda nessa veia de trabalhos com editoras. Pode parecer intrometido demais, mas compensa?

Estou tentando fazer com que compense, que vire uma profissão rentável. Sem isso, não posso fazer os álbuns, não posso aprender e melhorar. No início é investimento. É que nem abrir um boteco e passar dois anos no vermelho. Aí, conforme mais livros são feitos, os acertos trimestrais começam a compensar com as reedições. Isso, pelo menos no meu caso, que faço livros que talvez envelheçam menos (pois já nascem velhos...). É o meu principal trabalho hoje, embora não seja o mais rentável, é o que fica.

O que acha que falta, se acha que falta alguma coisa, para o Quadrinho nacional?

Falta. Falta muito. Ainda falta pegar na veia do público. Tem que ter muito mais produção, mais gente fazendo com várias tendências. A situação está boa para a HQ nacional, mas está longe de ser estável. Faz só 5 anos que a maré está boa. Talvez precisemos de mais algumas décadas de produção continuada, para aumentar a galeria dos publicados e criar patamares de qualidade. Quando começar a aparecer criadores estimulados pelas HQs que a gente está fazendo agora, e fazendo num grau superior, aí eu vou achar que a HQ veio para ficar. Enquanto isso vou tentando dar solidez à minha carreira, que nesse ramo é novíssima...

Seu traço é bastante estilizado e característico. Para mim ele evoca o cartum. Quais seriam suas principais influências no traço?

Sim, o cartum é minha escola básica. Ou melhor: minha inclinação natural ou mais antiga é o desenho de humor. Mas minha formação passa pela escola de desenho de humor clássica dos desenhos animados Disney, e de Asterix. Eu estudei bastante desenho de anatomia e movimentos na adolescência. Quando descobri o cartum (especialmente político de Ziraldo, Henfil e cia), dei uma simplificada no traço. Mas a base é o desenho caricato Disney, com toques de realismo.

Bacana! Spacca, encerramos por aqui. Agradeço imensamente o tempo e a paciência em responder essas questões. Caso queira acrescentar algo que julgue importante, fique a vontade! Abraço e obrigado!

Valeu! agradeço muitíssimo o seu interesse. Me avise quando sair!

O Bigorna.net agradece a Spacca pela entrevista, finalizada em 31 de agosto de 2009

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