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Entrevista: Edvanio Pontes
Por Eloyr Pacheco
13/02/2009

Há quinze anos ele publica fanzines, entre eles o Arena, e agora lançou o selo Quatro Folhas, que identificará suas publicações. Seus personagens são bastante conhecidos, o mais divertido e comentado é o Coelho Puto. Neste bate-papo, entre outros assuntos, Edvânio comenta sobre suas influências, seus gostos, atividades no meio independente e projetos.

Vamos começar do começo: como surgiu seu interesse por Histórias em Quadrinhos?

Na verdade meu negócio sempre foi cinema. Adorava e ainda gosto. Mas os Quadrinhos também sempre estiveram comigo. Eu comprava Turma da Mônica e eventualmente aqui e ali saia uma SuperAmigos e SuperPowers (DC/Editora Abril) isso na década de 80. Eu gostava, mas num era assíduo. Apenas com 17 anos é que fui tomar gosto por colecionar Quadrinhos. Mas eu sempre gostei de criar e eu conhecia muitos personagens, principalmente da DC. Então, eu dobrava aquele papel branco A4 ao meio e desenhava minhas HQs com BIC e coloria com lápis de cor ainda entre o final dos anos de 1980 e começo dos de 90. Mas minha “chama” de produtor independente e fanzineiro só veio mesmo depois dos 17 anos. Meio tarde, admito.  

Falando em cinema: o que você acha das recentes adaptações de Quadrinhos para o cinema?

Hollywood cresceu bastante os olhos para as adaptações baseadas em Quadrinhos nesses últimos anos. Tem muita coisa ainda por vir e o mais interessante é que muita disso não está relacionada com as grandes (DC/Marvel) e sim de editoras e HQs “menores”. Eu acompanho tudo e assisto também, claro. As adaptações são isso mesmo. Adaptações. Leituras feitas para a mídia prima que é o cinema. Filmes como Homem de Ferro, Cavaleiro das Trevas e Procurado ditam a tendência daqui pra frente. São boas adaptações e não espero leituras literais de suas fontes. Muito fã fica enfezado por uma coisa ou outra, mas tem de entender que tudo ali são negócios no final das contas. Tem de gerar grana pra muita gente. Uma bolada disso. Esses novos filmes tentam alcançar tantos os fãs quanto os leigos e é aí que os mais xiitas entram com as tochas. Mas gostei bastante de tudo que foi feitos nos últimos cincos anos (menos Mulher “argggh” Gato e Elektra - aí já é sacanagem).

Quais os desenhistas e roteiristas que o influenciaram?

Ca#$%! Gosto de muita gente. Não chegam a me influenciar diretamente, mas admiro muito os trabalhos de roteiristas como Alan Moore, Grant Morrison, Marcos Gratão, Brian Bendis, Darwin Cooke, Geof Johns, Mark Millar, Vagner Francisco, Garth Ennis, Will Eisner, Katsuhiro Otomo, Eric Powel, Rafael Tavares e outra pancada aí. Já os artistas que mais gosto são caras como Leiniu Francis Yu, Gary Frank, Ivan Reis, Mike Mignola, Tony Moore, David Loyd, Nel Angeiras, Michael Lark, Travis Charest, Gabriel Gomes, Terry Moore, Brian Bolland e a lista é enorme, mas num chegam a ser mesmo uma influência. São mais criadores que costumo acompanhar.

Cara, aí só tem fera! Mas não gosto nem um pouco do Leiniu Francis Yu. Pra mim parece que ele não acabou o desenho que estava fazendo! (risos)

Hahahaha! Ele quando começou, ainda lembro, ali no Wolverine seu traço era bem mais “fechadinho” e com um sombreamento mais dentro do compasso. Agora que é fodão na Marvel ficou relaxado e deixa tudo no lápis. Não gosto muito desse tipo de trabalho, onde as cores fazem a parte do nanquim. Fica assim como você falou, com cara de que o cidadão não terminou o traço. Pra mim desenho tem de ter arte-final no nanquim. Se num tiver nanquim fura o dedo e usa sangue com café (nunca fiz... hahaha).  

Qual a sua formação? Você trabalha com o quê?

Fiz língua espanhola por dois anos na UECE e depois sai pra poder trabalhar turnos mais esticados. Foi um período fo#@. Estava trabalhado até pouco tempo com informática. Agora estou no olho da rua. Deve ser a crise ou uma bos#@ assim.

E você está se virando como?

Tô quase achando um comprador pro meu rim esquerdo na Tailândia (risos cadavéricos). Tô zuando. Por hora a família dá uma força, mas num pra ficar assim sempre. Tô correndo atrás. Mundo cão esse.

Qual o primeiro personagem que você criou?

Vixe! Mas o melhor é que eu lembro. Em 1989 criei o Capitão Vingador. Uma espécie de Batman com apetrechos funcionais para o mundo real. Era na BIC, papel dobrado e lápis de cor. Cara, que época boa do cacete!

Faz aí uma lista dos personagens criados por você...

Uia! Cara, são tantos. MESMO! Hã... basta dizer que divido tudo em “fases”. No começo era tudo uma cópia cara de pau da DC e Marvel (alguém pigarreou “Rob Lifield”?) e os personagens eram bem assim. Depois tive vontade de criar mais coisas minhas com pano de fundo bem nacional. Sempre tentando enxergar uma ótica diferente. Não dá pra criar nada muiiiito original hoje em dia, mas dá pra mudar o foco. Fazer ficar interessante, mesmo que a fórmula seja batida. Questão de perspectiva, acho. Mas dá pra citar assim os que mais gosto como o Coelho Puto, Rosa (do zine Invasora do Espaço) e o Ron (do zine Caçadores de Aventuras). Mas eu curto todos. É sempre uma visão diferente de se trabalhar.  

Gosto muito do Coelho Puto! Como ele surgiu?

Eita, pau Pereira! Ele foi criado porque a porcaria do meu dente tava doendo. Dente filha da mãe! Era final do Curso de Quadrinhos (ministrado por Daniel Brandão do Manicomics, ainda quando tinha a Graph It em 1999) e a “prova” final era criar uma HQ de quatro malditas páginas. Eu tinha bolado algo meio dramático sobre um personagem meio Preacher, mas que me exigiria tempo e disposição pra fazer e era algo que eu não tinha lascadamente. Então acabei criando “nas carreiras” o Mundo Escroto, onde nele tinha o Coelho Puto e mais uns personagens bizarros. O Daniel gostou de cara e o resto é história. A coisa foi bem até demais.  

Você publica fanzines há mais de 15 anos... Qual foi o primeiro fanzine que você publicou?

É. Eu produzo faz mó cara. Muita coisa eu nunca divulguei. Alguns foram pro QI do Edgard Guimarães (grande cara). Mas o primeiro zine que editei... tem de puxar láááááááááááá do fundo do baú. Mas desde que comecei a fazer zines com possibilidade de xerox, que é onde eu preciso meu começo mais tátil, veio do personagem War. Fiz muitos zines antes, mesmo quando eu nem sabia que tinha esse nome, mas já eram no lápis e ainda no papel dobrado. Isso já veio depois da BIC. Com xerox mesmo foi o War.

Como surgiu o zine Arena?

Foi uma boa proposta que me deu certa dor de cabeça dos infernos. Eu e uns amigos resolvemos criar um zine mix. Essa é a história de todo mundo que cria algo assim. A idéia é que fosse um painel muito mais pros artistas. Reuni um time muito bom e em menos de um mês eu já tinha mais de 30 roteiros prontos e isso fazendo no trampo, já que eu não tinha PC em casa. Fazia tudo entre uma coisa e outra. Procurava colaboradores, corria atrás de gente pra isso e aquilo e acabou que a equipe de dentro atrasou vergonhosamente todo o material que eu tinha escrito e que seria a base do Arena (até hoje nunca vi isso). A primeira edição saiu 1 ano e meio depois da primeira reunião e com ajuda de outros amigos de fora, principalmente gente dos flogs, que conseguiram suprir as pessoas que deveriam ter feito o Arena. No final, foi um samba do crioulo doido, que não saiu como eu planejara no começo, mas também num foi um desastre total. A segunda edição sofreu do mesmo mal, mas com um efeito menos negativo em relação a conteúdo que a primeira que foi uma concha de retalhos e eu precisei refazer textos pra poder encaixar um monte de coisa. Foi escroto.

E como anda a continuidade do projeto?

Padecendo do mesmo mal. Já planejei e escrevi roteiros para a terceira edição. Mas a partir do momento que distribuo os textos já não tá mais em minhas mãos. O que posso fazer é perguntar como anda as coisas, afinal, não vou pagar ninguém, porque se eu pagasse ia ter muita gente chupando o dedo. Só acho chato isso porque se um grupo se arquiteta pra fazer algo e por conta de um ou de dois (no meu caso mais de cinco) não correm com suas partes, tudo para. É como eu digo: se dá pra fazer, faça. Se você acha que não dá, pare tudo e simplesmente pule fora. Assim a fila anda.  

O que você acha do atual momento do movimento independente de Quadrinhos no Brasil?

Melhor do que era há um ano. E um ano atrás foi melhor do que o ano anterior. Quer dizer, cada ano que passa, damos um salto. Eu acompanho de perto sites, blogs e flogs que mostram o que os criadores independentes têm feito e tem muita gente se mexendo. Isso é muito positivo. Com a facilidade que temos hoje como ferramenta, no caso um computador e a Internet, ficou relativamente mais fácil produzir e editar. E isso acaba surtindo efeito na produção de material independente. E espero que continue crescendo. Temos um mercado alternativo muito sortido e forte.

Você lançou o selo independente Quatro Folhas. Quais são seus planos de lançamento e atuação no mercado?

Foi mais uma “necessidade”. Eu tenho muito material parado com mer#@ de mosca em cima aqui e não posso ficar esperado pelo Arena ou qualquer outra produção. Já esperei demais! A maior dificuldade que terei para lançar algo será de cunho monetário. Tem muita coisa feita, mas grana de menos. Estou planejando com cuidado e dá pra fazer. Tenho bons planos. Espero poder realizá-los.

Valeu, Edvanio. Obrigado pela entrevista e parabéns pelo trabalho, torço para que o selo Quatro Folhas vingue e nos brinde com muitas HQs.

Eu é que agradeço a força e a oportunidade, meu amigo. Sucessos ao Bigorna, a você, seus projetos, enfim. Grande abraço.

O Bigorna.net agradece a Edvânio Pontes pela entrevista concedida por e-mail e finalizada no dia 9 de fevereiro de 2009.

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