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Entrevista: Daniel Brandão
Por Eloyr Pacheco
19/12/2008

Daniel Brandão foi um dos desenhistas que encabeçou o premiado projeto Manicomics. Ele estudou na Escola Kubert, nos EUA; montou um estúdio onde produz e dá aulas, e atualmente também trabalha para o mercado americano. Depois de muito batalhar, Daniel estabeleceu-se no concorrido mercado de Quadrinhos e de ilustração editorial, mas não deixou de lado seus planos para lançar seu próprio personagem: Cariawara. (que, acredite, já se chamou Pantherman!) Nesta entrevista, Daniel Brandão fala sobre seu trabalho, seus gostos pessoais, o mercado independente brasileiro e seus sonhos. O papo virtual estava tão legal que não queríamos encerrá-lo, mas a matéria tinha de ir para o ar. Confira.

A de praxe: como surgiu seu interesse por Quadrinhos?

Eu comecei a “ler” Quadrinhos muito cedo. Gostava de Turma da Mônica, mas, principalmente, de Trapalhões. Porém um fato marcante para mim foi quando eu tinha nove anos e um grande amigo de infância me apresentou a Superaventuras Marvel. Aquilo mudou minha vida. Já gostava de desenhar e pintar quadros, mas foi ali que me tornei colecionador e que eu comecei a querer fazer as minhas próprias histórias. Também foi nessa época que conheci minhas principais influências. Eu queria desenhar igual ao John Byrne, por exemplo.

John Byrne é um “monstro”!! Gosto demais dele. Você comentou que nessa época queria fazer suas próprias histórias, você criou algum personagem que se lembre ou ficou até hoje?

Sim. Criei o Pantherman e uma dupla chamada Os Lutadores. Na época fiz gibis desses personagens. Bem toscos, com BIC, desenhando em um A4 dobrado, frente e verso. Eu me divertia muito. Hoje estou desenvolvendo uma HQ baseada na minha primeira criação – o Pantherman. Mudei todo o conceito e o personagem passou a se chamar Cariawara. É uma história de 42 páginas. O roteiro já está todo escrito e algumas páginas foram desenhadas.

Sei bem como é isso de mudar totalmente o conceito do personagem, a gente vai envelhecendo, os personagens vão ficando na gaveta... Como era o Pantherman e como ficou agora?

Era muito engraçado, vendo pelos olhos de hoje... A história dele era absurda! Um cientista, do nada, resolve criar uma máquina que transforma panteras em homens! (risos) Para quê eu não sei! O fato é que quando ele vai testar, uma pantera o ataca e a arma dispara acidentalmente unindo os dois. Resultado: ele continua com corpo de homem, mas com a força e as agilidades de uma pantera. Na sua primeira aventura, ele enfrenta o Homem Selvagem! (risos) Bem, eu tinha cerca de dez anos. Hoje o Cariawara (homem-onça em tupi) é completamente diferente. A história dele é construída em um futuro próximo e cujo contexto é o seguinte: a Amazônia não é mais do Brasil e sim da ONU. E a ONU é politicamente dominada pelos EUA. Portanto muitos laboratórios a aparatos bélicos americanos povoam e exploram a última grande floresta da Terra. Os americanos usam algum know-how brasileiro, como o do cientista Wagner Sampaio, que para proteger uma fórmula, ingere um soro desenvolvido a partir do DNA de uma onça e isso muda a sua vida para sempre. Bem, acontecem muitas coisas depois disso. Tomara que eu consiga produzir essa HQ, assim será possível ler toda a saga.

Lembra qual foi seu primeiro gibi, ou HQ que leu?

Não lembro. Deve ter sido uma Turma da Mônica ou Os Trapalhões. Mas isso faz muito tempo...
 
Qual fase dos Trapalhões você se refere? É a fase que tem histórias do Marcelo Cassaro e do Gustavo Machado?

Lembro que não era a fase do Cassaro que depois até acompanhei também. Mas eu me refiro a uma fase mais antiga em que eles eram desenhados mais caricaturais e mais velhos. Talvez seja a fase do Gustavo Machado. Se eu não me engano, o Bira Dantas trabalhou nesses gibis.

Essa fase é a anterior à da Abril, é a de criação do Estúdio Ely Barbosa. O Gustavo também fez parte da equipe da Abril.

Sinceramente não sabia disso. Obrigado por essa informação, porque lembro desses Quadrinhos com muito carinho. Eles foram marcantes na minha infância.

Quais seus quadrinhistas preferidos?

Bem, a lista é longa. O Will Eisner, o Ivo Milazzo, o Berardi, o Mignola, e o Alan Moore estão entre os melhores para mim. Além deles, sou muito fã do John Byrne (anos 80!), José Luis Garcia Lopez, Manara, Moebius, JJ Marreiro, Eduardo Risso, Flavio Colin, Geraldo Borges, Gabriel Bá, Fábio Lyra, Frazetta, Jean Okada, Frank Cho, Bill Watterson, John Buscema, Stwart Immonen, Laerte, Ivan Reis, Marcelo Campos, Octavio e Sérgio Cariello, Al Rio, Allan Goldman, Denílson Albano, Cristiano Lopes, Mauro Souza, Kasuo Koike, Ryoichi Ikegami... dentre outros. Não necessariamente nesta ordem.

Que lista, hein, Daniel?! Cite uma HQ ou álbum que é seu preferido, ou, pelo menos, que vier à memória agora.

A Tex Gigante do Joe Kubert é uma bíblia para mim. Watchmen é a melhor História em Quadrinhos que li. Fiz uma monografia sobre a obra, inclusive. Um Contrato com Deus e New York do Will Eisner, o maior nome dos Quadrinhos de todos os tempos. Batman Ano Um, do Miller e Mazzuchelli. Tom's Bar de Berardi e Milazzo. A obra do Bill Waterson. Maus. São muitos Quadrinhos bons. Difícil eleger apenas um, Eloyr. Com certeza deixei de citar muitos espetaculares...

Você fez aulas com Al Rio. Mantém contato com ele ainda hoje?

Que bom poder falar do Álvaro Rio aqui. Sim, fui aluno dele e me considero seu amigo, com muita alegria. Sou muito grato a ele, assim como ao Mino e ao Geraldo Jesuíno. Essas três pessoas foram fundamentais no início da minha carreira. Adoro o desenho do Álvaro, mas sou fã mesmo é dele como pessoa. Ele é muito generoso. Falo com ele até hoje sim, de vez em quando e sempre é uma satisfação.

Você viveu nos EUA? Como foi estudar na Escola Kubert de Desenho?

Eu morei nos EUA entre 2000 e 2001. Fui para estudar na Joe Kubert School. Esta experiência foi um divisor de águas na minha carreira e na minha vida. Foi lá que eu aprendi realmente a desenhar e foi onde encontrei o meu estilo de traço. Desenhava cerca de 12 horas por dia. Eram seis horas de aula, tinham as tarefas e eu ainda trabalhei como desenhista assistente do Sérgio Cariello em Azrael. Ajudei a fazer 8 edições. Além disso, trabalhei de assistente de garçom, de garçom e de faxineiro. Minha esposa foi garçonete e baby siter. Passamos por muitas situações boas – recebi prêmio por lá – e por muitas situações difíceis – eu estava lá quando derrubaram as Torres Gêmeas. Estas experiências dão uma ótima Novela Gráfica. Quem sabe um dia eu não faça...

Você chegou a ter aulas com o Joe Kubert? Eu o conheci num evento em São Paulo, gosto muito do trabalho dele, especialmente Sargento Rock!

Sou um grande fã do Joe Kubert. Adoro Sargento Rock, Ás Inimigo, Tex, Fax from Sarajevo... Eu não fui aluno dele, infelizmente, mas o conheci pessoalmente e Andy Kubert foi um dos meus professores. Também conheci o Neal Adams, John Romita e Dave Cockrun...

Você fez parte da equipe do Manicomics, um zine que até hoje, depois de cancelado, ainda é muito comentado. Como foi sua experiência com o Manicomics?

Maravilhosa. Até hoje sinto muitas saudades. A história começou como uma necessidade de válvula de escape. Criamos (JJ, Geraldo e eu) o Manicomics para termos um veículo para publicar as nossas próprias HQs. Fiquei no Manicomics por quase dez anos. O zine evoluiu muito e tivemos muitos colaboradores talentosos. Ganhamos três prêmios HQ Mix e um DB Artes. Foi um período muito bom. Um laboratório onde aprendi muito, muitas amizades foram feitas e muitas portas foram abertas.

Há alguma chance do Manicomics voltar a ser publicado?

Eu não nutro expectativas quanto a isso, mas acredito ser possível sim. Acho que uma edição especial pode ser produzida ou algo do tipo.

Você tem acompanhado o movimento do Quadrinho Independente que está acontecendo?

Sim e estou muito feliz com que estou vendo. O Quarto Mundo me parece ser uma bela iniciativa. Eu continuo colaborando com o mercado independente sempre que posso. Fiz uma capa para o Sobrancelha, uma pin-up para o Penitente, outra da Valkiria, escrevi um roteiro do Billy the Kid que o Laudo desenhou... sempre que sobra um tempinho eu tento dar a minha colaboração. Além de continuar lendo e acompanhando. Quero destacar o trabalho do Lorde Lobo, do Samicler, do Sérgio Chaves (Café Espacial), do José Salles que edita Raio Negro, da Anita Costa Prado e Ronaldo Mendes com a Katita, além dos webcomics. Adoro os Exploradores do Desconhecido, do Gian Danton e Jean Okada, por exemplo.

Quais títulos você já desenhou para o exterior?

Não muitos. Participei de Azrael da DC, fiz Yellow Jacket para a Dark Horse, Aya, Rakan e Jalila para a AK Comics, uma HQ curta que se passava na I Guerra Mundial, além de algumas arte-finais e capas. Participei também de duas HQs religiosas: Ann e Methodius. Fiz uma coleção de Cards para a DC, outra para a Marvel e diversas comissions.

Fazer cards deve ser muito legal! É como fazer capas?!

Nesse caso não, pois as coleções que participei eram de sketch cards, por isso eu tive que desenhar cada um dos cards no tamanho deles. Foram mais de 300 para a DC, com seus principais heróis e vilões, e 200 para a Marvel, com o universo do Quarteto Fantástico. Todos foram desenhados, arte-finalizados e coloridos a mão. Desenhar capas requer um outro raciocínio de composição e acabamento devido ao espaço e a proposta serem diferentes.

Os pedidos de comissions são constantes? Qual personagem é o mais pedido para você fazer?

Graças a Deus trabalho não falta. Não tem um personagem em especial. Mas geralmente são personagens femininas e sensuais.

Você já ganhou vários prêmios. O que eles significam para você?

Prêmio é sempre um reconhecimento, uma resposta positiva sobre um trabalho. Eu amo o que faço, por isso sou um privilegiado. Minha profissão tem muitos problemas, mas viver trabalhando no que gosta não é para todo mundo. Acho que por isso faço meu trabalho com afinco, com capricho. Algumas pessoas gostam e isso gera essa resposta positiva. Cada prêmio tem o mesmo valor para mim. Não vivo em função deles, mas eles são registros especiais da minha trajetória.

Atualmente você tem seu próprio estúdio de produção. Fale um pouco de como ele funciona e como é sua rotina.

Não poderia dizer que tenho uma rotina. Até gostaria, mas não consigo. Todos os dias, quando chego, atualizo o calendário, escrevo minha lista de afazeres, leio um pouco do livro do Steven Pressfield, A Guerra da Arte – um livro que ajuda a vencer a resistência e a auto sabotagem -, checo meus e-mails e notícias e vou trabalhar. No meu estúdio funciona um curso de Desenho, um de Quadrinhos, um de Mangá e um de Desenho para Crianças. Também têm as aulas particulares. Quando não estou ministrando aulas, estou preparando aulas, corrigindo exercícios, atualizando site e fotolog, fazendo trabalhos de ilustração, comissions, Quadrinhos e, quando dá tempo, minhas criações autorais. Também tenho que ter tempo para resolver assuntos administrativos como pagar contas, divulgar cursos, atender telefones, planejar cronogramas, comprar material de escritório, etc. Se você pensar que sou casado, tenho uma filha de 5 anos e ainda faço especialização em Arte e Educação... meu dia tem que ter 40 horas! Além de mim trabalham no meu estúdio Allan Goldman e Eduardo Ferreira.

Qual o projeto que está na prancheta agora pedindo para sair! (risos)

Estou tentando me dedicar mais a trabalhos autorais no momento. Não é fácil, já que tenho que pagar muitas contas... (risos) Mas estou buscando organização para isso. Não posso falar muito sobre eles agora, mas tenho uma HQ erótica quase pronta (falta apenas uma revisão geral e o letreiramento); estou envolvido em um grande projeto como roteirista junto com uma equipe supercompetente; tem o Cariawara que já citei... fora outras idéias que estão esperando a sua vez. Espero lançar algo bacana em 2009.

Você faz trabalhos de ilustração para a Abril (revista Mundo Estranho), por exemplo. Como é trabalhar na área de ilustração editorial num mercado tão concorrido?

Eu adoro trabalhar com ilustração editorial. É um mercado bem pago e com uma enorme visibilidade. Sempre fui muito bem tratado por todos os editores e designers que me encomendaram trabalhos. O pessoal da Abril é ótimo. Atrapalha muito o fato de eu morar em Fortaleza e não em São Paulo. Já perdi trabalhos por isso. Mas a Internet está aí para encurtar distâncias. A minha postura para sempre ter trabalho nesta área é a mesma desde sempre: fazer o meu melhor e cumprir o prazo.

Que dica você dá para um desenhista/ilustrador que deseja atuar na área?

Bem, estude muito. Seja disciplinado. Tente dominar as técnicas de desenho acadêmico, procure ser versátil e ter um estilo próprio. Procure entender de todas as etapas de produção do trabalho de desenhista/ ilustrador. Tenha uma postura profissional, se valorize, trabalhe sempre sob contrato. Procure estar sempre atualizado. Divulgue-se e tente fazer uma grande rede de contatos. Seja honesto, tenha uma boa comunicação e cumpra prazos. Como Will Eisner disse uma vez, “é importante que o que você faça hoje seja melhor do que o que você fez ontem”.
 
Obrigado pela entrevista, Daniel. E, parabéns pelo seu trabalho, que acompanho há muito tempo e gosto bastante.

Eu que agradeço, Eloyr. O papo foi muito bom. É uma honra ter a oportunidade de falar um pouco sobre minha carreira e minhas idéias aqui. O Bigorna está de parabéns por apoiar tanto os quadrinhos nacionais. Um grande abraço.

O Bigorna.net agradece a Daniel Brandão pela entrevista concedida por e-mail e finalizada no dia 12 de dezembro de 2008

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