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Os Dez Melhores Gibis de Gazy Andraus
Por Marcio Baraldi
28/06/2010

O convocado desta semana para revelar seus dez gibis preferidos não é um qualquer não! Trata-se de Gazy Andraus, Doutor em Ciências da Informação pela ECA-USP, e diga-se de passagem o Doutor mais louco desde Jackyll And Hyde! Gazy é um dos principais autores de histórias em quadrinhos adultas de temática fantástico-filosófica do Brasil, aquelas capazes de eletrocutar os filamentos dos cérebros menos capacitados, como o meu. O gosto de Gazy para HQs, no entanto, mostrou-se bem eclético, centrando-se nas HQs mais intelectualizadas como era de esperar, mas passando por outras praias como o humor e pela, ao meu ver, melhor fase de Batman de todos os tempos. Outra grata surpresa em sua lista foi citar Kripta (Creepy/Eerie), a mais inteligente, moderna e impactante revista de Terror já produzida nesse planeta. Enfim, mais que uma simples lista, é uma verdadeira receita de saúde mental que o Dr. prescreveu! Obrigado, Doutor!

Os Dez Melhores Gibis de Todos os Tempos

por Gazy Andraus

1 - A Small Killing - Alan Moore e Oscar Zarate
Todo mundo valoriza a maioria das obras de Alan Moore, e não é por menos. Porém, apesar de eu classificar “Do inferno” como a melhor obra dele, quero ressaltar o não menos importante trabalho em que ele fez com arte de Oscar Zarate, chamado “A Small Killing”, e que incrivelmente nenhum editor brasileiro pareceu perceber sua importância qualitativa como obra! Este álbum possui um roteiro ficcional retratando a ascensão profissional de um publicitário inglês de aproximadamente 40 anos, Timothy Hole, bem sucedido e trabalhando em New York, que entra em crise ao ter sua coleção de ovos de várias espécies de pássaros arruinada, causando uma ruptura no seu processo criativo. A partir de então, Timothy resolve tirar um período de férias, retornando à Inglaterra e à sua pequena cidade natal, revivendo, ao mesmo tempo, as memórias de eventos mais marcantes de seu passado, enquanto se envolve com um garoto que o coloca, muitas vezes, em situação de perigo mortal. O roteiro, em forma de flash-back, trabalha lapsos de memória na mente do protagonista, demonstrando momentos-chave que contribuíram de forma decisiva para a construção psíquica de sua personalidade, revelando traumas subjacentes, indecisões, chistes e elementos da psicologia freudiana (e até de Jung) que podem ser apontados por leitores familiarizados com tais estudos. As questões do ego, super-ego e id estão colocadas de forma exemplar na figura do personagem, ainda que Moore não faça menção explícita de nenhum elemento freudiano, o que permite aos estudantes e profissionais de psicologia um envolvimento mais atento com a obra.

Outras informações podem se somar à complexidade da obra, no que se refere a um desvendamento hermenêutico de seu título, bem como ao nome dado ao protagonista pelo autor. Em inglês contemporâneo coloquial, “killing” pode significar uma rápida ascensão financeira profissional, tal como parece ter sucedido a Timothy Hole, cujo primeiro nome remete a um tipo de grama (capim) denso usado como alimento para animais de grande porte em fazendas, e Hole (buraco) exemplifica o vazio imenso em sua vida. Timothy também é conhecido por amigos de infância como Tim ou Timmo, podendo relacionar-se tal designação ao timo, glândula localizada perto do coração, cujas funções ainda não foram definitivamente estabelecidas, que cresce nos primeiros meses de vida e reduz-se a partir do segundo ano, até quase desaparecer. Assim, o protagonista e a criança que lhe surge a todo instante podem, simbolicamente, remeter a estas questões, permitindo estudos de ordem psicológica profunda.

A arte de Oscar Zarate utiliza pintura com traços de contorno e figuras estilizadas na proporção real, com desenhos similares aos esboços comumente utilizados em rafes publicitários, provavelmente remetendo à profissão do protagonista. Para narrar os flash-backs de Tim foi utilizada uma técnica em que, quanto mais longínqua a lembrança, mais as cores se tornam desbotadas, opacas, simulando um enevoar que acometeria as pessoas ao tentarem se lembrar de fatos passados. Assim, a função dos desenhos e da cor em A Small Killing também é de ordem informacional, como em “Do Inferno”, não apenas gratuita, mas elaborada com funções específicas. Uma obra-prima, enfim, como um dos melhores trabalhos de Moore (e como disse, incrivelmente inédito ainda no Brasil), a obra oferece muitos temas relacionados, que podem servir especialmente em várias áreas do conhecimento humano, como Psicologia, Sociologia, Publicidade, Arte, Letras e Semiótica aplicada.

2 - Batman - Bob Haney, Neal Adams e Jim Aparo
Nos final dos anos de 1960 e início de 70 apareceu Neal Adams para salvar as HQ de Batman, resgatando sua sobriedade original e transformando suas HQ no que realmente gostaríamos de ver, com desenhos realistas e arte criativa! Após Adams reformular o personagem outros desenhistas seguiram sua cartilha muito bem, destacando Jim Aparo! A editora EBAL lançava no Brasil  essa fase toda em vários títulos. E desses títulos o que mais me marcou foi o "Batman em Cores", formato americano, geralmente com histórias extraídas do título americano Brave and Bold, em que o herói aparecia ao lado de outro herói, desenhado pelo Aparo! As histórias, geralmente de Bob Haney, eram sérias e detetivescas, além de muito inteligentes, tendo me incentivado muito na leitura e no gosto por desenhos!

3 - Passageiros do Vento - François Bourgeon
Quando comecei a ler esta série francesa de Bourgeon, eu a percebi como algo mais épico do que um filme! Eu li a série com a tradução de Portugal, portanto, com um dicionário do lado, já que muitas vezes eram utilizados termos referentes a objetos da época da escravatura e navios negreiros. Fiquei fascinado com a série, como também a obra do mesmo autor, Valérian ,que trazia uma ficção científica de estilo europeu, bem diferente da FC americana!

4 – Iznogud - Goscinny e Tabary
Asterix é o campeão de qualidade na linha humor histórico, mas os trocadilhos ganharam mais contorno e reforço em Iznogud (trocadilho com It's No Good), essa hilária série de humor sobre o califado árabe! Até hoje me deleito com a inteligência de suas gags e dos trocadilhos inigualáveis!

5 – Inumanos - Paul Jenkins e Jae Lee
Super-Herói e um gênero que fez minha cabeça mais pelos desenhos do que pelas histórias mal narradas. Excetuando-se a fluidez de Stan Lee e alguns outros como Bob Haney, e a seriedade mais madura de Jim Starlin, especialmente na saga do Capitão Marvel. Porém, passaram-se os anos, e vieram Frank Miller, Alan Moore e Grant Morrison. Mas esta série dos Inumanos me deixou abismado! Tal como quando li os Passageiros do Vento ou Cavaleiro das Trevas, parecia que eu estava vendo um filme muito bem dirigido, em que a carga psicológica dos heróis misturadas a conceitos de geopolítica me fascinaram! Uma das melhores HQ de super-heróis que já li e reli (umas 4 vezes, empatando com Watchmen)!

6 - Kactus Kid - Canini
A minha infância foi rica de HQ. Além, de gostar muito das criações de Ruy Perrotti como Anjoca e Satanésio, também adorava o Kactus Kid de Canini! Sua leitura me deixava feliz, tanto quanto ler os espanhóis Mortadelo e Salaminho! Pena que foram poucas as histórias que Canini produziu com o personagem. Mas acabei encontrando uma certa “continuidade” do Kactus Kid no Zé Carioca de Canini, onde o mestre usava uma arte similar a do Kactus Kid e roteiros idem!

7 – Vento - Caza
Moebius foi- me um marco com o álbum “O Homem é bom?”, mostrando-me a diferença entre o quadrinho americano e europeu, em que ambos têm qualidades distintas, enriquecendo-me ao fazer- me tomar maior contato com os europeus. Porém, foi com Caza e sua fase de HQ cósmicas (vide o álbum Arkhè) que mais tive afinidade. Especialmente com a HQ “Vento”, que conheci pela primeira vez nos idos de 1980, publicada em um fanzine que o Calazans me mostrou. Assim que a vi, fiquei maravilhado com essa HQ poética! Ela provavelmente me influenciou em meu estilo para continuar o que então, eu já estava vislumbrando: HQ de reflexão filosófica misturadas com ficção “viajante” e metafórica profunda.

8 – Yeshuah - Laudo Ferreira
Este trabalho de Laudo, publicado recentemente, junto as HQ de Calazans (Guerra das Ideias), Edgar Franco (BiocyberDrama) e Antonio Amaral (Hipocampo), me confirmou mais uma vez que nós brasileiros somos tão capazes quanto quaisquer autores do mundo!!! Só faltava termos uma chance para prová-lo! Esta obra de Laudo me transporta à época bíblica de Cristo da mesma maneira como me senti quando li “Operação Cavalo de Tróia” de J.J.Benitez! Com a vantagem que a história de Laudo tem desenhos que criam um“clima”,reforçando os sentimentos e as sensações daquele período!

9 – Loki - Robert Rodi e Esad Ribic
Mais uma de Super-herói quase recente: em que Loki, o Deus do mal, prende Thor, e este sequer aparece, exceto ao final. Mas no decorrer da HQ a psicologia freudiana transparece com as causas dos descaminhos do Deus do mal, em meio às suas inquirições ao destino, sobre a fatalidade e o “maktub” (o destino, aquilo que “está escrito). Este “Loki” tem pinturas de Esad Ribic e roteiro extremamente inteligente de Robert Rodi e não deve deixar de ser lido. Especialmente pelos estudantes e pesquisadores da área de psicologia em geral.

10 - Kripta - vários autores
Por fim, esta coleção de terror/ficção científica que aportou no Brasil até o numero 60, além de alguns almanaques especiais, exibiu os melhores roteiristas e artistas do quadrinho preto e branco já vistos! As artes em tons de aguada eram maravilhosas, e muitas HQs tinham também a peculiaridade de remeter à reflexão instigante filosófica e crítica, e não meramente a ficção científica e/ou o terror.

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