NewsLetter:
 
Pesquisa:

Os dez melhores gibis de Edgar Franco
Por Marcio Baraldi
16/05/2010

Tirem a poeira dos cérebros, caros leitores, é hora de usar mais que os dez por cento de nossa cabeça animal! Porque esta semana quem está na área e o mais intelectual dos quadrinhistas do Brasil. Ele mesmo, Edgar Franco! E naturalmente sua lista dos dez gibis mais importantes não podia ser como a da maioria dos mortais. Edgar tem um paladar tão complexo, sofisticado e anacrônico (sim, porque Edgar vive no ano de 3010 e não em 2010) que realmente não é qualquer gibi que vai satisfazer seu gosto apurado. Duvidam? Pois vejam a seguir que loucura a lista dos gibis que fizeram a cabeça futurista de Edgar, o incrível quadrinhista do século 30!

Os Dez Melhores Gibis de Todos os Tempos

Por Edgar Franco

1 – Os Olhos do Gato (1978)Jodorowsky & Moebius
Quando li essa HQ em uma livraria da cidade de Bauru, interior de São Paulo, tinha 18 anos e desenhava quadrinhos há 6. Meu trabalho já caminhava para uma linguagem poética, experimental. No entanto, o impacto de vislumbrar aqueles quadrinhos soberbos de página única, os ângulos de câmera inusitados, a fluidez do traço de Moebius e a poeticidade pungente de Jodorowsky marcou de maneira indelével a minha formação como artista e ser humano. Ao terminar de ler o álbum meu coração estava disparado e eu tinha lágrimas nos olhos. A história escrita por Jodorowsky misturava dor profunda, visceralidade, miséria humana e glória. Trata-se de um trabalho único, que jamais poderia ser traduzido para outra linguagem artística com o mesmo impacto. O chileno Jodorowsky é um dos maiores criadores do século XX, um visionário, delirante como devem ser os gênios, pai da psicomagia que vislumbra a arte como forma de cura! Moebius, grande artista, em minha opinião jamais conseguiu superar o impacto dos desenhos dessa obra em seus trabalhos posteriores.

2 – Homo Eternus (1993)Gazy Andraus
Da vasta e seminal obra do quadrinhista poético-filosófico, ou fantástico-filosófico – como prefere Andraus – selecionei esse álbum que compila a primeira fase de sua produção, incluindo alguns de seus trabalhos mais emblemáticos como as HQs Hurizen, Retorno Evolutivo e Pedra Bruta. Andraus é um dos principais representantes desse gênero único de quadrinhos no panorama das HQs mundiais, as HQs poético-filosóficas, caracterizadas por serem curtas, experimentarem com a linguagem dos quadrinhos e também incluírem intencionalidade filosófica. Gazy é influenciado por visionários como William Blake e Khrishnamurti, seus quadrinhos, muitas vezes desenhados diretamente à tinta sem prévio rascunho, buscam referência também na arte taoísta e nos koans. Nos conhecemos em 1993, devido à semelhanças que percebemos em nossos quadrinhos, depois descobrimos que nascemos na mesma cidade, Ituiutaba, MG. Essas semelhanças levaram-nos a lançarmos o fanzine “Irmãos Siameses” (1993). E desde então considero Gazy meu irmão na arte e nunca deixei de ter grande respeito e admiração por sua obra impactuante e única.


3 – L’âge d’Ombre (1997) Caza
Numa tradução para o português, que infelizmente nunca aconteceu, esse álbum teria um nome como “Os Tempos Ominosos”. Gazy Andraus e Flávio Calazans ao lerem uma de minhas HQs em 1993 comentaram que ela lembrou-lhes os trabalhos do quadrinhista francês Caza, pseudônimo de Philippe Cazamayou. Gazy Andraus que já havia me apresentado à obra soberba do quadrinhista francês Druillet, mostrou-me também trabalhos de Caza. Fiquei muito entusiasmado com a linguagem poética de suas HQs, trabalhos curtos, com ambientação de ficção científica e fantasia  que buscavam na mitologia, nos contos de fadas e em imagens arquetípicas do inconsciente coletivo a base para estruturação dos roteiros. A identificação foi imediata, pois meus quadrinhos costumavam ter como base as mesmas fontes. O desenho de Caza é delirante, soberbo, onírico, e esse álbum em especial compila a série de HQs curtas dedicadas aos personagens “Oms” - seres alienados, egoístas, individualistas - uma metáfora do homem de classe média urbano. Em cidades fantásticas situadas num mundo imaginário, Caza reconfigura histórias míticas como a do Cavalo de Tróia, a lenda da Mandrágora, o Flautista de Hamelin, entre outras.  Até hoje os artistas com os quais mais me identifiquei como criador foram Gazy Andraus e Caza.

4 – Guerra das Idéias (1987)Flávio Calazans
Dono de uma mente brilhante e de uma capacidade singular de conectar informações e recontextualizar conteúdos na forma de narrativas quadrinhizadas, Calazans criou um grande impacto sobre minha percepção do potencial comunicativo das HQs. Guerra das Idéias é um passeio brilhante e revelador pela história do ideário humano desde os primitivos Neandertais até a era dos cyborgs. Com HQs curtas com um poder de síntese singular, o autor - com bom humor e lirismo – interpreta as grandes lições de filosofia da história humana. O trabalho já teve múltiplas reedições pela editora Marca de Fantasia. Não só esse álbum como toda a obra quadrinhística de Calazans merece ser conhecida por aqueles que ainda não tiveram o prazer e privilégio de lerem seus quadrinhos.

5 – A Febre de Urbicanda (1985)François Schuiten & Benoît Peeters
Obra de ficção científica de contornos steampunk, esse álbum compõe a série As Cidades Obscuras. O trabalho de arte do belga Shuiten - com seu desenho anguloso, detalhado, preciso, cenas que parecem filmadas por grande angulares e as referências visuais que são ao mesmo retrô e modernistas - cria a atmosfera perfeita para o roteiro intrigante e rico do francês Peeters. Ele narra a história de uma cidade projetada nos moldes modernistas que é assolada por um fenômeno inexplicável que irá modificar completamente a percepção espacial e as relações interpessoais entre seus habitantes. Um conto com profundas raízes críticas ao urbanismo modernismo que mereceu um estudo detalhado em meu livro “Histórias em Quadrinhos e Arquitetura” (Editora Marca de Fantasia, 2004).

6 – New York A Grande Cidade (1981)Will Eisner
O norte americano Eisner talvez seja tão importante para os quadrinhos quanto o russo Eisenstein foi para o cinema. Nesse álbum sua poeticidade e a doce fragilidade do espírito humano são retratadas com maestria em histórias curtas, quase hai-kais em quadrinhos. Os experimentos narrativos de fusão ou abandono de requadros, interconexões inusitadas entre os desenhos, fluxo narrativo construído sobre efeitos de luz e sombra, entre outras inovações geniais pautam todo o trabalho, demonstrando que o potencial narrativo das HQs tem muito ainda a ser explorado. Ao sintetizar suas visões sobre a existência humana no contexto de uma grande urbe, em flashes sobre a vida de seus habitantes, Eisner conseguiu elevar ao máximo o potencial de sua arte, por isso considero esse álbum sua obra mais relevante.

7 – Hipocampo 4ª Ocorrência (2010) – Antônio Amaral
O piauiense Amaral é o maior iconoclasta das HQs brasileiras, seu trabalho singular, vanguardista, visceral, alucinado, delirante e soberbo não é palatável para qualquer um. Para compreender a dinâmica e força de sua obra é necessário que o leitor esteja disposto a desvencilhar-se de todos os preconceitos e de uma visão de quadrinhos baseada na narrativa seqüencial tradicional. O universo poético e filosófico de Amaral trafega por uma cosmogonia singular, na qual o traço de contornos surreais e expressionistas integra-se a um texto aparentemente automático – repleto de referências que vão da física de partículas ao regionalismo piauiense criando uma cosmogonia única. Sua obra merece ser conhecida, apreciada e estudada. A série de álbuns Hipocampo reúne seus trabalhos mais importantes e o artista continua ativo, pois lançou em 2010 o número 4.

8 – Gen – Pés Descalços (1973) Keiji Nakazama
Que me perdoe Art Spielgeman e seu fabuloso Maus, mas nenhuma história em quadrinhos sobre a tragicidade da guerra conseguiu tocar-me tão profundamente como Gen. A narrativa tradicional dos quadrinhos é usada com maestria e eficácia pelo grande quadrinhista japonês Nakazama. A construção das personagens é soberba, é impossível não nos identificarmos com sua dor e sofrimento. O lirismo do autor chega ao paroxismo e eu confesso que me derramei em lágrimas em vários momentos da leitura da HQ. O desenho é eficaz e só, mas isso não impede a história de manter seu impacto. Um exemplo brilhante de como as HQs têm um potencial narrativo singular.

9 – Revistas Mestres do Terror & Calafrio (Editora D-arte – década de 1980)
Estes dois títulos de terror fizeram parte de minha juventude, foi por causa deles que eu comecei a acreditar na possibilidade de criar histórias em quadrinhos. Ali estão os primeiros grandes artistas dos quadrinhos que admirei. Nunca gostei de HQs de super-heróis e as primeiras revistas que comecei a colecionar foram esses títulos gerenciados pelo quadrinhista Rodolfo Zalla. Em suas páginas conheci e passei a admirar profundamente a arte de mestres como Mozart Couto, Shimamoto, Flávio Colin, Rodval Matias e Flávio Colin. Deslumbrei-me com o desenho soberbo - uma de minhas grandes influências até hoje - do genial Jayme Cortez. Ao ver uma de suas HQs estampadas na revista senti um estranhamento inicial que transformou-se em admiração, entendi o poder expressivo do traço autoral e nunca mais me esqueci dessa lição.

10 – Revista Mandala (Editora Marca de Fantasia – de 1995 a 2001)
Esse título, uma iniciativa pioneira da Editora Marca de Fantasia no panorama brasileiro, até o momento foi a única revista em quadrinhos dedicada ao gênero poético-filosófico. Em seus 13 números, Mandala - inicialmente chamada Tyli-Tyli - apresentou trabalhos inéditos de importantes nomes da HQ poético filosófica. Tendo como base os quadrinhistas Flávio Calazans, Gazy Andraus e eu, a revista abriu também espaço para HQs de artistas seminais como Joacy Jamys, Luciano Irrthum, Rosemário, Al Greco, Nuno Nisa, entre outros. Infelizmente a maioria dos números está esgotada e seria importante e interessante se a editora lançasse um álbum compilando as edições para que outras pessoas tenham contato com esse rico material.

Clique aqui para ler os textos de Edgar Franco publicados no Bigorna.

Quem Somos | Publicidade | Fale Conosco
Copyright © 2005-2020 - Bigorna.net - Todos os direitos reservados
CMS por Projetos Web