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Crítica: Anjos e Demônios
Por Ruy Jobim Neto
18/05/2009

Sobre Anjos e Demônios, livro e filme

Robert Langdon (Tom Hanks) e Vittoria Vetra (Ayelet Zurer) em cena de
Anjos e Demônios

Stellan Skarsgård meteu bronca, com alguma razão. O ator sueco de Sombras de Goya e que interpreta o comandante Richter, da Guarda Suíça no filme Anjos e Demônios dirigido por Ron Howard e estrelado por Tom Hanks adaptado do livro homônimo do autor best seller Dan Brown, tinha criado uma saia justa quando afirmou que o filme é muito melhor que o livro. Skarsgård dissera que o livro era uma imensa bobagem, que Brown escreve de forma que o leitor, sem dúvida, não desgrude da história, tem lá o seu jeito de criar suspense (que significa, no fio da palavra justamente isso, deixar em suspenso) e que o roteiro do filme é muito melhor resolvido. Que Dan Brown é um autor sofrível.

Discussões à parte como essa, ou sobre a questão crucial Ciência versus Igreja, realmente perpassam o momento em que os roteiristas Akiva Goldsman (de O Código da Vinci) e o experiente David Koepp - o sobrenome dele se pronuncia “Kep” – (de filmes como Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal e O Parque dos Dinossauros) resolveram mergulhar seus olhos sobre o livro de Dan Brown, que por sua vez autorizou as mudanças (bem drásticas, deve-se dizer) para o resultado ficar razoável na tela. E funcionou. O leitor vai sentir falta de alguns personagens do livro, mas depois vai elogiar o trabalho no filme. E o espectador segue o filme frenético como uma montanha russa, se diverte e come pipoca assistindo a uma pura aventura nos confins da Igreja. A bem da verdade, com a entrada de Koepp na equipe de roteiristas, Anjos e Demônios ganha ritmo de O Parque dos Dinossauros, a corrida contra o tempo se tornou decisiva – contra a explosão de uma bomba de anti-matéria nas imediações da Cidade do Vaticano e a ameaça de matar quatro cardeais preferiti ao cargo, um a cada hora. No livro também é, embora Dan Brown escreva também o fluxo de pensamento dos personagens, que ora ajuda, ora não. O livro tem lá seus exageros e machismos (a doutora Vittoria Vetra vira quase uma bond girl andando de shortinho pelo Vaticano, enquanto no filme a realidade mais coerente veio à tona – a atriz israelense Ayelet Zurer anda sempre de preto, tudo muito bem contido e elegante).

O filme segue o livro (quase) à risca, não fossem as fusões de personagens, e outros que foram simplesmente suprimidos. Melhor não contar o que houve para o leitor e espectador se manterem na expectativa. Mas os exageros cinematográficos ficam mais críveis, é impressionante. O livro de Brown é detalhista, obviamente, e o filme encontra um outro desfecho mais interessante, até. A entrada no elenco do ator Ewan McGregor (de Moulin Rouge e Guerra nas Estrelas) foi decisiva para dar mais ênfase ainda ao personagem que ele interpreta, il camerlengo, o homem que comanda o Vaticano durante os quinze dias entre a morte do Papa e o conclave na Capela Sistina, onde os 165 cardeais escolherão o novo sucessor ao trono de São Pedro. Basta dizer que livro e filme vão às raias do Vaticano, da Cristandade. Ambos chegam aos pilares do poder da Igreja Católica, são ousados, o que os torna divertidos e irônicos como ficção e transformam o simbologista de Harvard, Robert Langdon (personagem de Tom Hanks), em algo próximo de épico. Se a discussão entre a validade da Ciência para explicar a origem da vida e a maneira como a Igreja a explica a partir dos seus dogmas vale alguma coisa, o filme praticamente deixa isso pra lá quando a correria começa. No livro, há um dos melhores momentos escritos, quando o camerlengo (no livro ele se chama Carlo Ventresca, no filme é Patrick McKenna) entra na Capela Sistina mesmo depois de fechada para o conclave.

Tom Hanks, Ayelet Zurer e Armin Mueller-Stahl em cena do filme

No livro há um exagero midiático que começa a enjoar, mas até esse momento ainda vale. No filme há mais contenção, e a cena fica perdida no meio da correria toda. Os roteiristas bem que tentaram. Aí quem leu o livro ganha mais. O texto do camerlengo é um primor dentro dessa discussão. Claro que tem ali as implicações do personagem, que não se pode revelar. Mas não tem como negar duas coisas: esse é o momento por onde Dan Brown fala diretamente com seus leitores, é o comentário dele, do autor, e é bem escrito.É o momento do livro que faz o leitor pensar nessas implicações entre Ciência versus Religião, e do porque Copérnico, Galileu e Giordano Bruno tanto sofreram com a Igreja de Roma. E agora são os Illuminati, uma organização secreta que está por trás de acontecimentos dos últimos quatrocentos anos de História e Política, que viram o vilão da vez. Em Código era a Opus Dei, perigoso braço fundamentalista e infiltrador da Igreja de Roma. Na criação da anti-matéria, ficou esta a cargo do pai de Vittoria, o padre Leonardo Vetra, assassinado bem no início do filme (e do livro). Ambos, pai e filha, fazem parte da equipe de cientistas dos laboratórios da CERN, em Genebra, na Suíça. Vê-se que o autor pesquisou (e muito) para criar sua ficção.

O que se pode dizer sobre Anjos e Demônios, o filme, é que ele é muito bom. Há diversos momentos em que o filme é melhor, sim, que o livro, ele resolve melhor algumas coisas, resume cenas, tira coisas fora dentro da própria ação, e dá lugar ao thriller absoluto e puro. Tom Hanks mesmo tinha certa vez brincado que fazer Robert Langdon é como se fosse um Indiana Jones sem armas e com cérebro. É quase um Sherlock Holmes moderno resolvendo coisas por meio da dedução. Críticos da Imprensa se dividem, alguns gostam do filme, e dizem pra gente cair na folia do filme e se divertir comendo pipoca, outros falam que o filme tem um enredo sem pé nem cabeça. Uma coisa é certa. O filme é de grudar nos olhos, não se consegue quase piscar enquanto Anjos e Demônios rola na tela. Impossível terminar este artigo sem comentar mais duas ou três coisas. O desenho de produção do filme é aquela coisa primorosa que todos já imaginamos que saia dos artistas de computação gráfica de Hollywood. Se a equipe de Ron Howard teve alguns entraves para rodar cenas em Roma, e o diretor nisso acusa setores do Vaticano por causa da celeuma já criada anteriormente com O Código Da Vinci, boa parte dos cenários foram reconstituídos com precisão de detalhes nos estúdios na California. O livro The Art of Angels & Demons mostra o trabalho magistral não só dos figurinos do filme, mas dos cenários a partir das artes conceituais de Allan Cameron.

O diretor Ron Howard instrui a cena para a atriz Ayelet Zurer no set do
laboratório do CERN

Para dar mostra da complexidade da coisa, a colunata da Praça de São Pedro foi recriada em Hollywood Park, com direito ao obelisco egípcio que Calígula mandou trazer e tudo o mais. Tapumes gigantescos de chromakey verde ladeavam umas réplicas em tamanho natural da colunata, pelo menos um setor com três ou quatro delas. O resto seria aplicado por computador. As pessoas na Praça de São Pedro, muitas foram clonadas por computador e mesmo criadas. Muitas freiras estão ali, mas são modeladas em 3D. A música de Hans Zimmer pontua o filme mas não é melhor que a de O Código Da Vinci, que ele mesmo musicou (os temas são bonitos e tal, mas se perdem na barulheira e na correria do filme) e a direção de fotografia (de Salvatore Totino) usa e abusa das câmeras com haste para comando remoto. É um deslumbre de filme, se for analisar. A corrida é frenética. A charmosa e belíssima atriz Ayelet Zurer (de Munich) se preparou como atriz (e como atleta, pois ela corre muito com Tom Hanks) e finalmente o cabelo de Robert Langdon está, sim, mais aprazível aos olhos. Ron Howard conseguiu fazer um filme mais envolvente que o primeiro, sem dúvida. O livro foi escrito antes de O Código Da Vinci, mas no filme a história de Langdon com o Vaticano por causa de Cristo e Maria Madalena já aconteceu.

Agora, anti-católico nem o livro nem o filme são. Também não são a favor. O leitor e espectador que decida por si próprio. E os setores da Igreja que desceram a lenha no filme sem tê-lo visto, embora convidados, realmente não leram o livro. Ou são daqueles que criticam sem ver. Aí é fácil. E como diz Umberto Eco, quando perguntado sobre a versão cinematográfica de seu livro homônimo O Nome da Rosa: não dá pra comparar. Filme é uma coisa, livro é outra, são dois meios diferentes. Num você detalha, o outro precisa de ação. Umberto Eco sabe o que diz.

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