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Artigo: Lua Cheia e Luz Vermelha movimentam a HQMIX Livraria
Por Ruy Jobim Neto
26/03/2009

Gualberto Costa, o proprietário da HQMIX Livraria


Ao chegar em plena segunda-feira (9 de março) à noite na Praça Roosevelt (Centro de São Paulo), no dia mais conhecidamente atípico daquele rincão de seis teatros (que  em breve se tornarão sete), algo se avizinha no ar. Teremos mais uma filmagem, desta vez nas dependências da HQ Mix Livraria, de Gualberto Costa e Daniela Baptista. Carros da CET estão a postos, vans chegam e se vão, cordões e cones de isolamento deixam a livraria livre de algum automóvel estacionado na frente. O longa-metragem em questão é a continuação da história do bandido João Acácio Pereira da Costa (1942 - 1998), que se celebrizou no filme O Bandido da Luz Vermelha, dirigido em 1968 pelo falecido cineasta Rogério Sganzerla (1946 -2004). O roteiro deste novo filme é da lavra do próprio Sganzerla. No primeiro e clássico filme, o diretor contava com apenas 22 anos.
 
Acontece que essa continuação, que se chama Luz nas Trevas – A Revolta de Luz Vermelha já ganhou ares mais modernos. Uma das diferenças - ele começa por ser a cores, o primeiro era em preto-e-branco. Quem agora cuida da direção de fotografia é o experiente José Roberto Eliezer, chamado “Zé Bob”, e a direção é dividida entre a estrela do filme original -  viúva de Sganzerla e musa do Cinema Marginal paulista (o famoso “udigrudi”) - , a simpática atriz baiana Helena Ignez, e o cineasta Ícaro Martins (de O Olho Mágico do Amor e A Estrela Nua, ambos com Carla Camuratti no elenco). De acordo com Helena, o filme novo tem linguagem pop, dialoga com os anos 60 e utiliza flashbacks. Será criativo, um filme de invenção, de caos, assegura a diretora, também atriz do elenco deste e do primeiro longa. Cenas como a da livraria são rodadas em 16mm, algumas tomadas aéreas e panorâmicas são feitas em 35mm.
 

O cartaz do filme original

Era noite de lua cheia no céu paulistano. Os dois caminhões da Loc-All estavam a postos para quando a equipe viesse do hotel (onde estavam rodando uma cena) para a Praça Roosevelt. Todos os detalhes e cuidados eram necessários. Isso já ia passando da meia-noite, para um horário previamente combinado de filmagem que seria, segundo os cronogramas originais, no finzinho da tarde, e que foi realocado para “da meia-noite às quatro”, segundo Daniela Baptista. Tudo pelo Cinema Nacional - até o cafezinho, com mesinha de frutas e biscoitos, muito bem anunciado pela atenta Paula, produtora de set. A espera em Cinema é o ofício do ator, como uma vez disse Maitê Proença nas filmagens de A Dama do Cine Shanghai (aliás, um detalhe: este filme dirigido por Guilherme de Almeida Prado, com Maitê Proença e Antonio Fagundes, também teve a foto de José Roberto Eliezer, doravante Zé Bob).  E dá-lhe espera. À medida que a diretora ia chegando e parte da equipe estava se alimentando num bar-restaurante da Roosevelt, entre os poucos locais abertos na Praça, a equipe de iluminação já dava os últimos retoques colocando gelatinas vermelhas e âmbar nas luzes originais no teto da livraria. Estavam por ali dois holofotes acesos, cada um de um lado da porta, além de um HMI que entraria em cena quando a equipe principal chegasse. Havia ainda um terceiro refletor de luz no platô da Praça Roosevelt, no alto, do outro lado da rua, protegido por um guarda-chuvas. 
 
O diretor de arte do filme, Fábio, estava dando os últimos retoques na vitrine da loja, dispondo livros e mais livros do lançamento fictício bem na frente. Um Elvis Presley todo iluminado foi conseguido do restaurante próximo, o conhecido PPP (Pinga, Papo & Petisco), graças ao dono da casa, o Doca (“o homem que parou a Rede Tupi”).  A produtora Paula estava preocupada se nós poderíamos fazer alguma entrevista com os cineastas antes dos trabalhos ou depois, mas este colunista a tranqüilizou, dizendo que tem noção de como a coisa se procede, e de que o filme é a prioridade. A coisa já estava muito atrasada, segundo a produtora, por causa do atraso de uma atriz à cena do hotel. Então, o fotógrafo André Bogdan foi clicando o que era possível. Não tivemos fotos da filmagem acontecendo. 
 
Todos os comentários e perguntas para quem esperava diante da livraria, era se Ney Matogrosso estaria ali, naquela noite. Explica-se: Ney está emprestando seus dotes de ator ao filme (como já fez algumas vezes no Cinema Brasileiro, em curtas e longas), para desta vez encarnar exatamente João Acácio, o Bandido da Luz Vermelha. Segundo consta ou, melhor, o que relataram membros da equipe, as cenas com Ney se restringem à prisão, até onde sabemos. Além de Ney, estão no elenco Sandra Corveloni (Palma de Ouro em Cannes 2008 por Linha de Passe), Maria Luisa Mendonça, Sérgio Mamberti, Simone Spoladore, Bruna Lombardi e Arrigo Barnabé. Aliás, o dramaturgo Mário Bortolotto mais uma vez aparecerá diante das câmeras, desta vez compondo uma dupla de detetives, exatamente com Arrigo Barnabé, interpretando dois pesos-pesados que arrebentam tudo o que encontram pela frente, à base da mais pura pancadaria. Outros nomes do elenco são Ariclenes Barroso, André Guerreiro Lopes, Guilherme Marback e Raissa Peniche.
 

O interior da HQMIX Livraria


Gualberto e Daniela, a bordo de suas filhas Morena e Gaia, estavam esperando chegar o contingente de extras e figurantes, o que parecia impossível reunir numa noite de segunda, costumeiro dia de descanso para atores e com o Parlapatões, típico local de encontro da Roosevelt, em dia de folga e a portas fechadas. O contingente se formou como que por encanto. A livraria estava, no meio da madrugada, sendo palco de mais um lançamento de livros, desta vez fictício, de um volume da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado, com o roteiro completo do clássico O Bandido da Luz Vermelha. Na mesinha de autógrafos, estará sentada Sinai Sganzerla (ela fez a cena toda de vermelho, a propósito do personagem rubro). Sinai é atriz do filme e também uma das duas filhas do casal Helena Ignez e Rogério Sganzerla. Na fila dos compradores do livro, entre atores profissionais e não-profissionais, encontravam-se os próprios Gualberto e Daniela, as filhas Morena e Gaia, além do caricaturista Ricardo Soares.
 
Quando Zé Bob chega na área, adentrando o set (a livraria), os olhos do experiente diretor de fotografia já analisa tudo. Parte da cenografia teve que ser rearranjada, mas sem muita firula. Tinha que filmar e pronto. Ao menos duas câmeras estavam dentro da HQMIX, numa cena que incluía o lançamento do livro – propriamente dito – e o roubo de um exemplar da própria estante. A maquiadora verificou não ter base para tantos figurantes. A segunda assistente de câmera, atentíssima, vinha imediatamente colocar mais rolo de filme dentro do chassi, com suas mãozinhas hábeis enfiadas num saco plástico completamente vedado contra a luz. Iniciada a filmagem, a ordem era silêncio! Ainda não se é possível atinar por que falam “gravando” quando na verdade estão “rodando” um filme em 16mm, mas tudo bem, as pessoas se entendem e isso é o que importa. Câmera, som, ação! A cena da entrada do ladrãozinho, ator muito elogiado pelo Zé Bob, foi repetida algumas vezes, já que era necessária toda uma coreografia da figuração
 
A propósito: José Roberto Eliezer (o Zé Bob) trabalhou com cineastas como Nelson Pereira dos Santos (no filme Na Estrada da Vida), Bruno Barreto (em Caixa Dois), Walter Salles (em A Grande Arte), Heitor Dhalia (em Nina e O Cheiro do Ralo), Roberto Santos (em As Três Mortes de Solano), Carlos Reichenbach (em Filme Demência), Paulo Betti (em Cafundó) e Daniel Filho (em A Dona da História e Se Eu Fosse Você), entre diversos outros, praticamente desde o final da década de 70. Nos anos 80, o nome de José Roberto já era reverenciado nas rodas de conversas sobre Cinema. Principalmente na famosa fase da chamada “ditadura da direção de fotografia”, da qual ele participou ativamente – trabalhando para diretores como Wilson Barros (no longa Anjos da Noite) e Chico Botelho, que também era diretor de fotografia (em Janete e Cidade Oculta). Mas enfim, a presença de um diretor de fotografia desse quilate dá ao set um ar de majestade. E Zé Bob descontrai, brinca com a equipe, conversa com todos em plena madrugada de lua cheia. Felizmente não choveu em São Paulo.
 
Kelly, da produção, perguntou ao colunista se ele não queria estar dentro da livraria, com os demais figurantes. Como disse anteriormente, assistir à parafernália acontecendo do lado de fora era muito mais interessante. E foi mesmo. Chega um momento em que os relógios celulares desligados fazem todos esquecerem que horas são. Ou que horas poderiam ser. Tudo em nome da fantasia. Alguns mendigos passam pelo local, alguns outros transeuntes são barrados momentaneamente por alguém da produção. De longe, eram ouvidos os caminhões e ônibus na noite paulistana, em alta velocidade, na Rua Xavier de Toledo. Mas nada interrompeu o Cinema Nacional.
 
Ao final dos trabalhos, todos se despedem, aplausos dentro da livraria. Era quase quatro da manhã em São Paulo. O livro foi devolvido gentilmente pelo ator, que se divertiu bastante e fez todos se divertirem nas imagens que puderam ser vistas pelo vídeo assist. Roteiro do dia seguinte distribuído para todos pelo assistente de direção, e os diretores Ícaro Martins e Helena Ignez se despedem. Sinai Sganzerla também se vai, e o dia seguinte é afinal deixado para o dia seguinte. Kelly informa a este colunista que já estavam filmando há duas semanas, e que haveria ao menos um mês e alguma coisa para terminar os trabalhos. As equipes que chegaram primeiro, a dos técnicos de luz, desligaram os spots todos, tiraram as gelatinas da livraria. E tudo voltou a ser o que era antes. Só que agora aparecerá nas telas. O filme está previsto para estrear ainda em 2009, é o que informam os produtores. Quem quiser acompanhar mais das filmagens, mais detalhes, fotos e outras curiosidades dos bastidores de Luz nas Trevas – A Revolta de Luz Vermelha (tal como Fernando Meirelles fez no blog de Ensaio Sobre a Cegueira / Blindness), pode seguir aqui. A Internet ajudando a divulgar o Cinema Brasileiro. É, os tempos são outros. Que bom. Mais fotos nos links a seguir.

Bandido da Luz Vermelha na HQMIX Livraria - Foto 1
Bandido da Luz Vermelha na HQMIX Livraria - Foto 2
Bandido da Luz Vermelha na HQMIX Livraria - Foto 3
Bandido da Luz Vermelha na HQMIX Livraria - Foto 4

(Fotos: André Bogdan)

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