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Salões de Humor & Concursos
Por Bira Dantas
31/07/2007

A Arte em busca da liberdade – O mito de Dédalo

Em 1973 foi realizado em São Paulo na Universidade Mackenzie, o primeiro Salão de Humor de nosso país, organizado por Fernando Coelho dos Santos, com o apoio de Zélio Alves Pinto e a turma do Pasquim. Toda essa história está registrada em DVD, recentemente lançado na Menor Livraria do Mundo, no Jeremias o Bar. Este foi o primeiro pedregulho que resultou em uma avalanche de Salões municipais, nacionais e internacionais que assolou nosso país: Piracicaba, Ribeirão Preto, Araras, Santo André e Paraguaçu Paulista (SP); Belo Horizonte e Caratinga (MG); Rio de Janeiro e Volta Redonda (RJ); Piauí; Pernambuco; Porto Alegre, Lageado e Univates (RS); Unacom (DF) foram apenas alguns deles. Desde então são 44 anos de concursos, exposições e festas no Brasil, que conta com talentos incríveis que dariam uma lista interminável de nomes que brilharam e brilham em biombos cheios de humor espalhados do Oiapoque ao Chuí. E se tem algo que sempre atormenta a todos é: 

-Por que meu trabalho ficou de fora?
-Por que não fui premiado?

É claro que já vimos várias atrocidades nos concursos famosos como Piracicaba, onde trabalhos de primeira linha não foram selecionados e ao serem enviados a outro Salão, ganharam primeiro lugar; HQs enviadas foram consideradas sem nível para premiação (sic), mas foram expostas (ao ridículo) e quando um dos participantes tentou retirar o trabalho da exposição, explicaram que não podia, estava exposto e era para ser visto; a HQ que ganhou primeiro lugar já tinha sido publicada, o premiado em segundo lugar avisou, provou e denunciou, quase foi escorraçado do palco pelo Paulo Caruso. No Rio, jogaram nossos originais fora, pois ocupavam muito espaço na Casa de Cultura e queriam manter só os trabalhos premiados. Em Ribeirão Preto fizeram abertura rápida da exposição, colaram os originais na parede, e depois do show de uma banda, descolaram os trabalhos da parede e foram embora, sem pagar o prêmio. Mas o aspecto que quero abordar hoje é: DEVO FAZER OS TRABALHOS QUE EU GOSTO OU QUE O JÚRI GOSTA? Procurando um texto sobre a queda de Ícaro, reli a lenda de Dédalo (o criador do labirinto de Cnossos, em Creta) e notei algumas semelhanças com várias discussões em que participei sobre os Salões de Humor e sobre a necessidade que o cartunista tem em deixar seu trabalho com um padrão considerado “premiável”. Mas a bronca de vários participantes, novatos ou veteranos é sempre sobre os critérios adotados pelos juízes. A seguir, trechos do livro II, págs 498 e 499 da coleção de Mitologia Greco-romana (Abril Cultural).

Para os gregos, Dédalo é a personificação do espírito da arte. Seu nome significa engenhoso, hábil, criador. Sua importância reside em conter toda a trajetória libertaria da arte. Analisando-se cada fato da lenda, podemos retirar belas lições de sentido ético. Dédalo era um escultor-arquiteto. Um artesão e engenheiro. Vivia para criar obras que servissem para melhorar o trabalho dos cidadãos de seu tempo. Sua pátria era Ática, mas foi em Atenas que montou uma oficina, onde (ao lado do sobrinho e aprendiz Talo) criou instrumentos úteis como o mastro, a vela e o machado. Nos primeiros anos a rotina de Dédalo era descobrir materiais, formas, volumes e o próprio espaço. Depois, sentindo-se suplantar pelo aprendiz, comete o crime que o condenaria à morte, assassinando-o. A partir daí, o artista perde sua liberdade criadora. Vítima da fuga, passa a produzir apenas aquilo que lhe ordenam, dentro das necessidades dos Estados que o fazem prisioneiro. A antiga busca de materiais novos (como o uso do mercúrio na argila) é trocada pelo trabalho projetado com um fim político, determinado, limitado. Condenado à prisão, foge de Atenas e é acolhido na ilha de Creta pelo rei Minos, para quem trabalhara de graça por longos anos. Aí temos o mito da escravidão da Arte, e ao ser lançado com seu filho no labirinto, o objeto da arte aprisiona o artista, pois não partiu de sua necessidade fundamental de expressão. O labirinto e a mente do gênio escravizado, que cria segundo as exigências de seus dominadores, abandonando o motivo básico de sua inspiração. Dédalo passa a dever e prestar serviços aos que o acobertam, seu trabalho obedece apenas a um fim político. Aprisionado em Cnossos com o filho Ícaro (também artista e inventor), percebe que a única possibilidade de fuga é pelo céu, e cria dois pares de asas, que possibilitam sua volta à liberdade. O homem se salva através da arte e do trabalho. O vôo de Dédalo corresponde também à imaginação conduzindo para o espaço infinito aquilo que antes estava encerrado dentro de um enigma, aparentemente indecifrável: o Labirinto. No entanto, nem tudo termina bem, Ícaro voa muito alto, se aproxima demais do sol (que derrete a cera de suas penas) e cai, morrendo no mar Egeu.

Em La Ville Radieuse, o arquiteto Edouard Jeanneret-Gris (1887-1932), conhecido como Le Corbusier, afirma que a aventura diária da natureza, em seu ciclo de vida, obedece a uma lei fundamental de nossa terra, a lei do sol – o grande ditador. O astro provedor da vida não perdoa o desafio do homem. Mas a imagem de Ícaro continua viva inspirando os inventores como Leonardo da Vinci (o principio dos aviões), Santos Dumont (14 Bis), Yuri Gagarin (A terra e azul), Neil Armstrong (pisando na Lua). Dédalo e Talo eram artistas plásticos, ambos faziam uso das asas pra buscar a liberdade, um dos princípios fundamentais para a arquitetura, a conquista do espaço, a luta contra a lei da gravidade, o vão livre, a curva para o infinito de Niemeyer, mostra uma tentativa da arquitetura de prescindir cada vez mais das colunas que ligam as formas ao chão. O arquiteto constrói a moradia dos homens, mas quer voar como as nuvens, os deuses, as aves. Só este desejo perene, faz arte. E só voando, permanecerá artista.

Por isso, devemos produzir arte para nós mesmos, sob padrões que nos agradem, sem nos importarmos com quem vai decidir a seleção ou premiação. O cuidado na criação da piada ou caricatura e no desenho, o esmero na técnica de arte-final e pintura, a pesquisa no tema, o estudo na história de cartunistas nacionais e internacionais, isso tudo é de suma importância para que nosso trabalho melhore cada vez mais. Participar de listas de discussão ajuda. Duas listas importantes são a ImagoDays2 e a Tupixel. Para participar é só enviar e-mail para ImagoDays2-subscribe@yahoogroups.com e tupixel-subscribe@yahoogrupos.com.br. Reclamar das injustiças com colegas de profissão esclarece muita coisa. Assim vamos acabando com as amarras e os labirintos. Tudo deve ser claro e livre. O vôo para o alto e para frente. E sem quedas mortais. E para quem não entendeu a ilustração desta coluna, inspirada no filme de Mario Monicelli (Brancaleone), somos como o pequeno e esfarrapado exército do cavaleiro atrapalhado, perambulando pela Europa em busca de um feudo.

(ilustração: Bira Dantas)

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