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O caminho natural para desenhar
Por Bira Dantas
02/07/2007

"O modo de aprender a desenhar, é desenhando" *

Conheci Kimon Nicolaides (1891-1938 - pintor, escultor e professor de desenho norte-americano), através do piracicabano radicado em Campinas, caricaturista, papa-prêmios de Salão e meu ex-professor de pintura em tela, Paulo Branco. Ele me emprestou o livro The Natural Way to Draw (Houghton Mifflin Company Boston, 1969 - reedição - veja a capa ao lado) e assim descobri o grande impacto com seus métodos inusitados de desenho e teorias de como desenhar.

Kimon Nicolaides no traço de Bira Dantas

Nicolaides colocava seus alunos desenhando modelos vivos ou objetos sem olhar pro papel. A mão deveria seguir a mesma velocidade do olho enquanto este contornava o corpo. Aqueles que não conseguissem desenhar devagar, por já terem prática no desenho, ele fazia desenhar com a outra mão (no caso do destro, fazia desenhar com a canhota e vice-versa), para ir mais lentamente até o fim do desenho. Mandava a turma para parques e ruas desenhar gente em movimento, para que captassem rapidamente as imagens, como se fossem assinaturas caligráficas de movimento. Dizia que saber desenhar era apenas questão de saber observar a natureza, nada mais. Fez módulos de exercícios lentos e repetitivos, só pra ensinar os alunos a usarem os sentidos. Neste livro tem uma foto da escultura de um violinista feita por uma cega de nascença. Impressionante. Aqui está uma parte que traduzi do livro:

Introdução
O impulso de desenhar é tão natural quanto o de pensar. Via de regra, aprendemos a falar pela simples prática, errando muito quando temos entre 2 e 4 anos de idade. Sem estes primeiros esforços para entender e falar, seria besteira estudar gramática ou composição. As primeiras palavras balbuciadas com significados reais são os primeiros passos que o aluno deverá dar durante os primeiros anos de estudo. Só há um caminho certo para se aprender a desenhar, e é um caminho perfeitamente natural. Não tem nada a ver com artifícios ou técnica. Nada a ver com estética ou concepção. Tem apenas a ver com o ato de observar corretamente e quero dizer com isso, um contato físico com todo tipo de objetos através de todos os sentidos. Se um aluno perder esse passo e não o praticar por uns cinco anos, deverá voltar e começar tudo de novo. O trabalho do professor, como vejo, é ensinar alunos não a desenhar, mas a aprender a desenhar. Eles devem ter a capacidade de não limitar o resto de suas vidas às regras ensinadas por seus professores. Eles devem descobrir algo da verdadeira natureza da criação artística – os processos ocultos por onde a inspiração trabalha. O conhecimento do que deve ser sabido sobre arte, é propriedade comum. Está em muitos livros. O que o professor pode fazer é apontar a estrada que guia a realização e tentar persuadir seus alunos a seguirem-na. E não pode ser uma mera fórmula.

Experimentar acima de tudo
Meu método completo consiste em habilitar alunos a experimentar. Eu tento planejar com eles coisas para fazer, pensar, contatos a fazer. Quando tiverem tido esta experiência bem e profundamente, é possível apontar o que é e porque conseguimos tais resultados. As verdadeiras regras da arte, as básicas, são poucas. São as leis da natureza. E existem muito antes do primeiro desenho ser feito. Pelo esforço constante, tentativas pacientes, passo a passo, certas regras têm sido estabelecidas quanto à técnica de pintar. Estas regras resultam da habilidade humana em relacionar o balanço, que encontramos na natureza, ao negócio de fazer um quadro. Mas, no começo, não é necessário se preocupar com elas, pois suas aplicações vão permanecer secretas. Homens podem fazer apenas regras. Não podem fazer as leis, que são as da natureza. É entendendo essas leis que um aluno se habilita a desenhar. Sua dificuldade nunca será a de falta de habilidade em desenhar, mas falta de entender. Arte deveria estar mais ligada à vida do que à arte.  Quando usamos números, usamos símbolos. E apenas quando os transferimos para a vida eles se tornam reais. É assim com as regras do desenho e pintura. Devem ser entendidas não como regras, mas como realidades. Aí as regras se tornam apropriadas.

Apenas entender teorias não é o bastante, é necessário praticar muito e os exercícios deste livro foram pensados para isto. (Kimon Nicolaides)

* Esta e outras frases de artistas célebres podem ser lidas aqui.

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