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Quadrinhos e Cinema: tempos de mudanças nas mídias de entretenimento
Por José Pinto de Queiróz
25/10/2010

Mudar é inevitável! As coisas estão mudando o tempo todo, e a mudança é a lei da vida e do universo. Vivemos num mundo impermanente onde tudo flui, tudo devém e nada fica como é. Coisa alguma é estável. Tudo segue seu curso. O devir é a regra geral. Por isso, a realidade que temos diante de nós em dado momento é diferente da que foi há pouco e da que será depois.

Quem bem definiu a mudança foi Heráclito de Éfeso (540 - 476 a.C.), quando afirmou: “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não somos os mesmos e também o rio mudou.” Ainda dentro do tema, lembramos Charles Darwin que criou o conceito de evolução – ou seleção natural – para explicar cientificamente as mudanças na Biologia (plantas e animais) como tentativas de aperfeiçoamento contínuo para sobreviver. O mesmo parece ocorrer com os produtos da indústria de entretenimento. Precisa mudar para se aperfeiçoar e sobreviver.

No que se refere ao cinema e aos quadrinhos, as mudanças têm lhes possibilitado conquistar novos fãs, garantindo-lhes a sobrevivência. No meu fanzine Portal do Encantamento, número 24, de 1998, escrevi a seguinte introdução: “Tenho consciência, o Portal é feito para atingir uma demanda especial de nostálgicos e saudosistas dos quadrinhos das Golden e Silver Ages. Entretanto, na qualidade de fã incondicional da 9ª Arte, não posso ignorar os quadrinhos atuais, mesmo que seja apenas para lhes lançar um olhar crítico/comparativo”. Quer dizer, a minha atenção para os quadrinhos atuais, já existia de longa data. Não foi à-toa que, um dia, delimitei os objetivos do Portal: “Focado nos Quadrinhos das Idades de Ouro e de Prata, sem descurar dos mais recentes”.

Gibi: o leitor de ontem e as mudanças

Em se falando do leitor de gibis vou começar com aquele dos anos 40/50. Eles costumam não aceitar as mudanças estéticas e temáticas produzidas pelos atuais roteiristas e desenhistas de quadrinhos, principalmente quando maculam a imagem do herói favorito e denigrem as lembranças, os sonhos e as ilusões do passado.

Vejam a seguir alguns exemplos de desabafos de leitores dessa geração que publico com frequência na seção de cartas do Portal, sempre a favor dos gibis da Era de Ouro:

“Eu, particularmente, não gosto dos gibis atuais. Raramente passo nas bancas, pois sempre tenho uma decepção ao ver esses Comics atuais, bem diferentes dos que conhecíamos nos velhos tempos”.
Valdir Dâmaso

“Pois agora – com raríssimas exceções – só tem porcaria nas bancas”, (referindo-se aos gibis de hoje).
Aristides Raggi

“Tenho quarenta anos. Aprendi a gostar de quadrinhos com minha mãe, e nunca deixei de apreciá-los. Hoje quase não leio os atuais Comics cheios de cores computadorizadas com heróis violentos, cheios de sangue, sem nenhuma mensagem construtiva”.
Flamarion Cunha

“...Superman, o verdadeiro Super-Homem, na fase em que o Homem de Aço ainda não enfrentava super-inimigos, não era estressado nem raivoso, nem cabeludo, nem com rabinho-de-cavalo, nem abichalhado expelindo raios por todos os orifícios”.
Valdir Dâmaso

“...infelizmente comecei a ler e não continuei por fidelidade ao espírito da Era de Ouro dos quadrinhos. Refiro-me ao Quarteto Fantástico com a figura nada discreta, prepotente e antipática do “mau” Stan Lee... Quanto a nova Mulher-Bala seria de bom alvitre não publicar nada. Simplesmente ridícula, feia e robotizada. Revivê-la para quê? A verdadeira era perfeita assim como todas as musas companheiras de tantos heróis”.
Clovis Ribeiro

São algumas das manifestações típicas do leitor saudosista diante das mudanças inevitáveis. Digo inevitáveis porque toda vez que cai a vendagem de um personagem, os editores tentam salvá-lo da derrocada contratando novos autores e desenhistas para adequá-lo ao gosto da nova geração de leitores.

Curioso é que as reações dos leitores de qualquer data, incluindo aqueles do século XXI, são bastante semelhantes. “Todos têm uma visão super-inflada de sua própria Era. Cada um afirmando que a Idade de Ouro dos Quadrinhos (não importando a época, mas sim a idade do leitor), é exatamente aquela em que viveu, de forma pessoal, a experiência mágica de ler gibis. Por isso, costuma-se falar das Idades de Ouro (?!) dos anos sessenta, setenta, oitenta, noventa, e teremos futuramente, sem dúvida, a Idade de Ouro dos leitores de quadrinhos do século XXI”.

Sem exceções, consideram os gibis de sua infância como únicos, autênticos, legítimos representantes da chamada Idade de Ouro dos Quadrinhos. Um primor de irracionalidade que atinge a todos, em uníssono. Um exemplo? A do nosso antigo leitor Moacyr Maia Filho que venera os anos 50 - a sua Idade de Ouro do Cinema e dos Quadrinhos, pois, afirma, não leu os gibis dos anos quarenta. Seu entusiasmo pelos anos cinqüenta motivou-o a escrever um artigo intitulado Anos 50 sempre presentes, profusamente ilustrado, que publiquei no Portal 35, Edição de Natal 2000.

Uma voz discordante

Mas nem todos os fãs de quadrinhos antigos reagem da mesma forma. Em dezembro de 2006, algo pior do que as mudanças iconoclastas estava por vir. Tudo começou com o que me pareceu um equívoco: meus amigos fanzineiros Losso e Jorge Barwinkel (recentemente falecido), após leitura aligeirada de uma correspondência de Gedeone Malagola, artista italiano de quadrinhos, radicado no Brasil e também já falecido, concluíram que ele queria, mas não tinha condições financeiras para adquirir os fanzines da Era de Ouro. Por isso, capitanearam uma campanha para presenteá-lo com as edições do Gibi tri-semanal do Fanzine Documento. Na edição de seu fanzine "Globo Juvenil" 69 (em homenagem ao famoso gibi homônimo,que Barwinkel adorava), Barwinkel escreveu: “... a remessa do volume nº 2... expressa a nossa admiração por sua pessoa e a vontade de poder presenteá-lo com páginas de sua juventude, datadas do ano de 1947, quando nós garotos da época, de calças curtas, íamos três vezes por semana à banca para comprar o Gibi tri semanal. Que a alegria de todos os domingos, quartas e sextas-feiras voltem a encantar-lhe, são os votos de seus admiradores...”

No Globo Juvenil 70, a resposta de Gedeone – publicada corajosamente por Barwinkel - funcionou como uma ducha gelada: “Obrigado pelo GIBI/Documento, mas devo esclarecer algo. Quando disse em dificuldades para comprar sua publicação me referi a dificuldades físicas e não financeiras. Outro fator, e não se zangue, por favor: quando li o GIBI a mais de 60 anos, achava uma maravilha, e agora ao lê-los novamente, fiquei decepcionado! Não sei como pude gostar tanto daqueles quadrinhos! Mal impressos, mal coloridos, mal montados e traduzidos. Naquele tempo a gente nem notava isso! Guardarei os dois GIBI/Documento e dispenso os demais números... sinto muito! Da velha guarda, só os álbuns de Flash Gordon, Príncipe Valente, Tarzan, de Burne Hogarth, O Espírito (The Spirit), Mandrake, Fantasma, os seriados e pouca coisa mais. Desculpe-me a franqueza e me queira bem. Do eterno amigo, com um Grande Abraço: Gedeone”.

A magia de nós mesmos

Após os dados introdutórios, fica-me a questão de tentar explicar o porquê dos argumentos passionais que conduzem sempre à mesma conclusão: "A nossa era foi a melhor; as outras são um lixo!". Por que o leitor de quadrinhos pensa (e sente) desta forma quando se defronta com os gibis mais modernos?

As pistas aparecem e se multiplicam, quando lemos as cartas dos leitores de fanzines da velha guarda, no dizer de Barwinkel, “uma ponte que liga nossa infância ao presente”. Jorge Barwinkel, meu iluminado Gênio do Bem, único, insubstituível, ressalta, em seus depoimentos, a competência dos fanzines para fazê-lo retornar ao passado: “A capa nos fez voltar imediatamente ao ano de 1952; ... revisitando o Globo Juvenil 1801 (tri-semanal) de sábado, 25 de dezembro de 1949; eu que tinha 16 anos na época, tive a sensação de voltar até aquela data, e foi uma ótima idéia você publicar todas aquelas páginas a cores... Quando começa a longa matéria do Super-Homem, entre uma página e outra, volto à infância e me lembro das primeiras histórias que li em 1940, quando cursava o 1º Ano”.

Outros leitores convalidam o mesmo argumento. Vejamos alguns exemplos:

“Quando você reproduz a capa e o conteúdo de alguma daquelas inesquecíveis revistas, especialmente da década de 40, sinto-me transportado ao passado e experimento a mesma emoção e encantamento que sentia quando punha os olhos e as mãos nas capas do Gibi, Guri, Lobinho, Globo Juvenil Mensal, Shazam, etc. e devorava extasiado, cada uma das histórias publicadas”.
Divino Rodrigues

“O Portal tem a magia de nos transportar aos anos dourados tanto dos quadrinhos como de nossa infância...”.
Achillies Hua

“A abordagem... me fez voltar àqueles belos dias em que as nossas maiores diversões ainda eram o cinema e os gibis”.
Valdir Dâmaso

“Combatentes convocados por você, está para nós veteranos como os Heróis Unidos estiveram em 1946 e 1947. Eu tive a mesma emoção! Parece que o tempo não passou”.
Jorge Barwinkel

Analisando essas afirmações, obtive a resposta procurada: o leitor de gibi (de qualquer época, diga-se de passagem) considera que "a sua era foi a melhor, e as outras são um lixo", porque as reminiscências proporcionadas pela visão de uma capa ou a leitura de uma história antiga, desperta nele a saudade de si mesmo - da pessoa que era quando leu os primeiros gibis!

Estou dizendo que a presença ou a representação de um antigo gibi, são suficientes para reviver no leitor o que era/como era quando criança: a vida no começo, cheia de esperanças; o vigor físico, a curiosidade, a inventividade, a “arteirice” e, principalmente, a reflexão ingênua e inocente, porque sabia pouco sobre as dificuldades da existência: a perversidade humana, o egoísmo, a avareza, a ambição desmedida, a fome, a doença, a maldade, a guerra – a propósito, morte, fome, pestilência e guerra são os componentes dos bíblicos Quatro Cavaleiros do Apocalipse!

Também ignorava a finitude da vida. Assim, nada disso o atingia. Crédulo e ingênuo,vivia seguro, feliz, cercado de cuidados e carinhos de seus pais. Aconchegado nos contextos protegidos (família, escola, lazer), fundia suas experiências felizes com os personagens das histórias em quadrinhos. Quando estimulado, este amálgama de recordações lhe permite reviver através do gibi de ontem, o reencontro com a criança que o tempo não levou.

Explico melhor: quando o leitor vê, lê, toca um gibi antigo, é imediatamente transportado para as experiências vividas de sua infância. O gibi funciona como um mero facilitador, pois as rédeas do tempo podem ser afrouxadas por outra lembrança qualquer. Como um madaleine, por exemplo. A lembrança do gosto de um madaleine, pequeno biscoito francês, produziu em Marcel Proust o desdobramento de sua inesgotável memória de autor que recriou o mundo, à semelhança de um deus, pincelando, a seu bel prazer, com detalhes mil, as minúcias, de suas recordações descritas de modo meticuloso, rebuscado, de cada pormenor dos objetos -, cores, formas e cheiros. Vide "Em busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust.

A ativação das recordações faz o leitor sentir saudade de como era, de como vivia e sonhava no passado! Por conseguinte, a perspectiva do resgate das vivências da criança de ontem, é a ponte que lhe transporta através do Tempo – "compositor dos destinos, tambor de todos os ritmos" (no dizer de Caetano Veloso) para o Nirvana de suas gratas lembranças infantis, que lhes devolve a felicidade. Resumindo: o leitor de gibi é mobilizado afetivamente pelas revistas de antanho, porque elas despertam nele saudades de si mesmo!

Concluindo

Espero ter deixado claros os seguintes fatos:
1) A vida é feita de sonhos e ilusões, notadamente na infância! A intolerância do leitor (de qualquer época e idade) às mudanças nos quadrinhos é uma forma de defesa contra a ameaça de aniquilamento de seus sonhos, crenças, ilusões, e fantasias, que incluíam: a postura honrosa e moral do herói, o seu comportamento assexuado e o final previsível de todas as histórias – a vitória do Bem contra o Mal. A temática e a estética das aventuras tinham menos importância, embora a beleza do colorido chapado, os argumentos ingênuos e os traços simplórios facilitassem à criança o entendimento mínimo das narrativas. Curioso, essa arte primária continua sensibilizando, até hoje, muitos dos antigos leitores. Tudo isto dava ao leitor imberbe um poder ilusório que o fazia sentir-se feliz e seguro no mundo desconhecido dos adultos. Por isso, postulo: a saudade que ele tem não é, em si, a dos gibis que foram lidos, mas a de suas percepções e de seus pensamentos, crenças, ilusões, fantasias, desejos e sonhos, cerne da criança que ele foi quando lia os gibis e que pode ser revivida (a saudade) pelo contato com os mesmos gibis de antigamente ou com as suas múltiplas representações.

2) Lógico, tal conhecimento não impede que o admirador da Idade de Ouro e de Prata dos Quadrinhos, dos anos 40/50 (e das demais datas), continue a usufruir do prazer de reviver as doces lembranças de si mesmo, especificamente aquelas vinculadas ao contato precoce com os gibis. Ele tem todo o direito de resgatar a memória do tempo encantado que viveu.

3) Entretanto, na condição de leitor adulto, não pode simplesmente ignorar o presente, asilando-se no passado. Por possuir raciocínio lógico e conhecimentos suficientes, pode também acompanhar de perto a evolução do gibi, que tanta felicidade lhe deu na infância. É como estar cuidando e se preocupando com o destino de um amigo muito querido. Por isso, considero salutar tomar conhecimento dos aperfeiçoamentos técnicos, estéticos, de formato e conteúdo dos novos quadrinhos, lendo-os, sempre que possível, para acompanhar de perto a sua evolução e lhes dar o devido valor.

Do dito, uma coisa é certa: o futuro dos Quadrinhos não depende de saber qual foi a melhor era; a de ontem ou a de hoje. O que importa é a sobrevivência do gibi; e para isto, os editores têm de adequar os personagens ao gosto dos novos leitores e aos desafios dos novos tempos - mudando formato, conteúdo, ética e estética para vendê-los bem no mercado. E o leitor saudosista, se gosta realmente dos quadrinhos, precisa reconhecer que a mudança é a melhor estratégia para mantê-los vivos e por mais tempo, no confronto com as novas mídias de entretenimento.

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