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Nova Iorque - a cidade que nunca dorme
Por José Pinto de Queiroz Filho
21/09/2010

Eram os anos oitenta (1986), quando fiz a minha primeira viagem à Nova Iorque. Havia visitado os EUA, mas nunca a Big Apple. Formávamos um grupo de excursão: eu, minha mulher e conhecidos. Fomos recepcionados por um guia local e após o check-in no Hotel Continental, localizado no centro da cidade, ele nos levou, de microônibus, para um city-tour.

Enquanto nos deslocávamos, um sistema de som reproduzia a música New York, New York, na voz de Frank Sinatra. Passamos por logradouros encantados - Time Square, Broadway, Harlem, Chinatown, etc.- , com direito a pequenas paradas para esticar as pernas e explorar o entorno. Ouvir Sinatra e simultaneamente ver a cidade, funcionou como se estivéssemos sonhando acordados.

Eram nove horas da manhã. Os carros amontoavam-se nas largas avenidas, com destaque para os famosos táxis amarelos. Uma pequena batida atravancou, ainda mais, o tráfego, o que me inspirou a pileriar: “Afinal, onde está o Superman?”.

A multidão transitava pelas calçadas; e quando acendia o sinal verde do semáforo, transeuntes atravessavam a pista, aproveitando a breve parada do tráfego grandiloqüente.

Gente de todo tipo, com vestuários típicos: aqui, um hindu de turbante e bata características; ali, um sudanês, roupa colorida e chinelos abertos, tentando vender relógios falsificados. De quando em vez, olhava de soslaio, para não ser surpreendido por um agente da lei. Belas mulheres, ricamente vestidas; afro-americanos nas calçadas, "voando baixo" nos patins, carregando nos ombros volumosos rádios portáteis a tocar, estridentemente, Rap e Hip Hop. Também havia lugar para pessoas convencionais, homens de negócio, de paletó e gravata, pessoas comuns, com roupas comuns, muitos e muitos brasileiros, hispânicos, vendedores de alimentos, bugigangas e mendigos... estes, barbudos, ensimesmados, maltratados, ignorados e escondidos nas sarjetas.

Surgiu-me a primeira impressão: positivamente, Nova Iorque não é uma cidade americana típica; é, na verdade, uma cidade cosmopolita, que pertence ao mundo, com seus defeitos e suas virtudes. Como se isto não bastasse, o guia nos contava histórias lindas, engraçadas e culturais sobre a Big Apple.

Um pouco de história

Nova Iorque - a cidade que nunca dorme- é uma babilônia moderna e prática, voltada para o status e o dinheiro. Contém, em si, todos os sonhos de ascensão social, e mais um atributo simbólico, a de ser considerada empório do mundo.

Surgiu em 16 de maio de 1626, fundada por imigrantes belgas. A data recorda o episódio da compra da ilha de Manhattan aos nativos, por uma quantia que corresponderia hoje a míseros 24 dólares. Foi o maior negócio imobiliário da história do planeta.

O nome Big Apple foi cunhado na década de 30, quando musicistas de jazz expandiram o uso do nome de um nightclub de Harlem, The Big Apple, para referir-se a toda a vizinhança, nome que ficou conhecido em toda a cidade. Entretanto, à partir dos anos sessenta e setenta, começou a perder o charme, afugentando novos investimentos. Foi então que os especialistas em marketing, numa tirada genial, decidiram resgatar o símbolo da década de 30, capaz de expressar o que a cidade representava no imaginário coletivo de todo o planeta: foi assim que The Big Apple, a grande maçã, voltou a imperar.

Maçãs lembram tentação, numa alusão ao pecado original. Sugerem também prazer e desfrute, pois para que serviria uma maçã, senão para comer?

A imagem que Nova Iorque projeta, é a de um centro de cultura e de entretenimento sem fronteiras e em permanente evolução. Também está fundamentalmente ligada a seus arranha-céus. O Empire State Building e, mais tarde, as torres gêmeas do World Trade Center, expressam a experimentação e criatividade estéticas que deu a Nova Iorque, desde muito cedo, um perfil revolucionário entre as grandes cidades do mundo. Suas ruas e nomes de lugares refletem a nacionalidade de seus colonizadores, começando pelos holandeses, com palavras como Harlem, Gramercy e Brooklyn (de Breuckelen, uma pequena cidade na região de Utrecht) a nomes indígenas americanos (a palavra Manhattan evoluiu de Manhatta). Palavras de origem alemã, espanhola, húngara, russa, inglesa, iídiche e chinesa também marcaram sua passagem.

Em 1609, Henry Hudson chegou às margens de um rio, hoje conhecido como Rio Hudson. Por volta de 1647, Peter Stuyvestant foi governador da colônia holandesa. O primeiro governador de Nova Iorque foi indicado em 1702 e, em 1789, George Washington proferiu o juramento de sua posse como presidente, na Cidade de Nova Iorque, que se tornou a primeira capital da nação.

Uma atração fundamental para o turista é a visita à Estátua da Liberdade, construída em 1886, por dois franceses, e doada pelo Governo da França aos EUA. Simboliza a odisséia dos imigrantes em busca da liberdade e da inserção no novo mundo.

Outra das grandes atrações do centro de Manhattan – principalmente depois da destruição das Torres Gêmeas - é o Empire State Building, que de seu topo majestoso nos proporciona uma vista deslumbrante da cidade, quando vista de cima.

Também existe Atlantic City, considerada o “Playground Predileto dos Americanos”, onde a diversão e os eventos eletrizantes nunca cessam. São 13 fantásticos cassinos, abertos 24 horas, entretenimentos diários, e um variado menu de refeições. E mais: o encanto das areias brancas das praias, a primeira plataforma ao longo da costa para caminhadas, prática de swing em 23 campos de golfe impecáveis, velejo, remo e pescaria. Fica difícil escolher, dentre tantas atrações.

Na verdade, não haveria espaço suficiente - nem é meu objetivo - para discorrer sobre todas as maravilhas da cidade cosmopolita. Por isso, pretendo me concentrar em breves aspectos que gostaria de destacar, relacionados, basicamente, aos quadrinhos.

Quadrinhos e cinema

Visitar Nova Iorque assemelha-se a um sonho. Principalmente, para quem gosta de cinema e de quadrinhos. Sobre o cinema, quase todos os filmes que admiro, tem como cenário a cidade de Nova Iorque. Sendo assim, quer seja no centro quer na periferia, topa-se, a cada instante, com cenários e edificações curiosamente familiares, que parecem ter saído das telas para ancorar-se na realidade.

Comic shop

Enquanto minha mulher e amigas decidiram “ir às compras”, resolvi andar pelas ruas – a melhor maneira de conhecer uma cidade – deslumbrando-me com as singularidades da Big Apple. Muitos que preferiram viajar de metrô acabaram se perdendo naquela teia subterrânea (se é a sua primeira vez em Nova Iorque, prefira se locomover a pé, de táxi ou de ônibus).

Regra geral, o nativo comum é bastante amigável, notadamente os prestadores de serviços. E com um simples mapa turístico obtido em qualquer hotel, pode-se chegar a muitos lugares.

Passei pela Time Square e segui em frente. Andei bastante, até cansar. Então, decidi pegar um táxi. O motorista hispânico facilitou a comunicação (pois não domino fluentemente o idioma inglês). Dei-lhe um endereço que havia pegado no Hotel. Uma loja de quadrinhos chamada Forbidden Planet (Planeta Proibido).

Forbidden planet

No Brasil, costumamos comprar gibis em bancas de jornal. Nos Estados Unidos a realidade é diferente. Só excepcionalmente, se encontra gibi nas bancas, fato perfeitamente lógico se considerarmos que, lá, gibi não é revista, e sim comic book.

O mercado americano de quadrinhos funciona, através do sistema de vendas diretas. Sendo assim, desde a criação do Sistema de Vendas Diretas (apontado por muitos – com alguma razão - como o grande responsável pelo declínio da indústria de HQs por lá), o americano só tem duas saídas para comprar mensalmente os seus gibis: ou assina seus títulos preferidos, ou vai a uma Comic Shop.

Existem várias em Nova Iorque, mas a mais famosa é mesmo a Forbidden Planet, parada obrigatória para qualquer turista fã de quadrinhos que encontra uma variedade maravilhosa de comics e álbuns luxuosos. Fica na 840 Broadway, esquina com a 13th St.

Dentro da loja

Ao adentrar, fui recebido com um gentil “bag, please”, pois, bolsas e afins têm de ficar no balcão de entrada. Dentro, o contexto impressiona pela limpeza e organização; os freqüentadores são diversificados (inclusive, crianças, garotas e senhoras comprando gibis), e, pasmem, o ambiente é relativamente silencioso.

Encantado com a quantidade e a diversidade de gibis expostos nas estantes, comecei a procurar, sofregamente, o que mais me interessava: edições regulares e especiais de gibis das Idades de Ouro e de Prata (1930/ 1970). Escolhi, dentre outros os álbuns: Superhero Comics of the Silver Age; Superhero Comics of the Golden Age; The Comic Book in America, An Illustrated History, todos de Mike Benton. E algumas reedições de gibis da década de 40. Ao final, dirigi-me até o caixa, paguei e saí da loja sobrançando pesada sacola, prenhe de preciosidades.

A Odisséia do "Over 50 years of American Comic Books"

Infelizmente não encontrei a famosa antologia, Over 50 years of American Comic Books, o que me deixou bastante contrariado. Sobre este álbum ocorreu fato interessante. No início da excursão, parti de Salvador para o Rio de Janeiro onde fiquei aguardando o embarque para os EUA. Aproveitei e visitei algumas livrarias onde encontrei o Over 50 Years... Quis comprá-lo, na hora, mas minha esposa, muito racionalmente, argumentou que não tinha sentido levar na bagagem um objeto tão pesado para os EUA e trazê-lo de volta até Salvador, quando poderia adquiri-lo na terra do Tio Sam, talvez por um preço menor. Concordei, mas ao chegar aos States, por mais que procurasse, não consegui encontrá-lo, o que me deixou frustrado.

Felizmente, no retorno ao Brasil, fui obrigado a permanecer durante 18 horas no aeroporto do Rio de Janeiro – sem possibilidade de sair das dependências porque a qualquer momento poderia ser chamado - aguardando o translado para Salvador, simplesmente porquê um gerente da extinta Soletur (com o qual havia tido pequeno desentendimento durante a excursão, em defesa dos interesses de meu grupo) havia “esquecido” de reservar o meu retorno, em tempo hábil.

O Dr. Walter Magalhães, colega e amigo ilheense – o conheci durante a excursão -, iria permanecer alguns dias no Rio de Janeiro. Despediu-se, mas horas depois retornou trazendo um exemplar do álbum tão desejado, que comprou numa livraria de Copacabana para me presentear. Até hoje sou grato pela deferência pessoal e por acreditar que simbolizou a aceitação do grupo à minha atitude em defesa de nossos interesses.

A Editora Marvel

Ainda em Nova Iorque, tive a oportunidade de visitar a sede da Marvel (embora goste mais dos heróis da DC), situada no centro da cidade. A editora ocupa vários andares de um edifício. Subi num elevador super-rápido, sem cabineiro nem botões para apertar, que sabe falar, ouvir e entender. Basta pedir -, em inglês -, o andar desejado, para que ele leve o passageiro a seu destino, avisando o momento da chegada, com voz clara, alto e bom som.

Ao saltar, topei com um corredor fechado por uma divisória, com porta e um pequena postigo onde se encontrava um guarda, armado até os dentes. Um amigo que me acompanhava (e falava inglês fluentemente) disse-lhe que éramos brasileiros, fãs dos quadrinhos e que desejávamos visitar a editora.

O guarda anotou num caderninho, nos mandou esperar e, passados alguns minutos, retornou, abriu a porta e, desta forma, ingressamos na primeira das amplas salas que formam a editora. Fomos recebidos por um relações públicas que falava portunhol. Enquanto nos guiava ia dando informações sobre a editora e seus produtos.

Pendurados nas paredes, pôsteres gigantescos reproduzindo capas antigas e recentes. Curvados sobre as pranchetas, distribuídos pelas salas, diversos artistas desenhavam, retocavam e pintavam páginas de quadrinhos.

Tomamos cafezinho, compramos exemplares de revistas e escutamos o anfitrião discorrer sobre a história e os recentes lançamentos da Marvel. Saí impressionado com a estrutura profissional da editora e cativado com a gentileza de seus funcionários.

Finalizando, visitei pontos turísticos, teatros, inferninhos de jazz, zonas proibidas para menores, a Escola de Medicina da Universidade de Cornell, o Hospital Metropolitano e muita mais. Entretanto, o contato que me deixou a mais forte e gratificante impressão foi, sem dúvida, com os gibis e suas fontes geradoras -, gibis que encantaram a minha infância, a minha juventude, e continua encantando o adulto que sou.

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