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Quadrinhos na Academia: III Seminário Nacional de Cultura Visual – UFG e as Narrativas Gráficas
Por Matheus Moura
18/07/2010

Quem acompanha de perto o universo das histórias em quadrinhos brasileiras já deve ter percebido como cresce o interesse do meio acadêmico sobre a mídia. Não é à-toa que o mais respeitado prêmio dos quadrinhos nacionais, o Troféu HQMIX, instituiu há pouco tempo uma categoria de premiação para teses e dissertações que tenham como foco as HQs (a chamada de trabalhos para concorrer ao prêmio 2010 pode ser conferida aqui).

Para alguns pesquisadores e acadêmicos, essa tem sido a maneira de romper, ou ao menos diminuir, o pré-conceito com relação aos quadrinhos. No entanto, muito antes de apenas focar no âmbito da aceitação ou não das HQs na sala de aula ou mesmo como objeto de estudo, em junho desse ano a Universidade Federal de Goiás, especificamente a Faculdade de Artes Visuais, inovou.

Durante o III Seminário Nacional de Cultura Visual, realizado entre os dias 9 e 11 do referido mês, estreou o singular Grupo Temário (GT) de Narrativas Visuais. Nele, antes de tratar apenas de Histórias em Quadrinhos, a ideia era de levantar a discussão e debate das narrativas visuais independentemente do suporte. Foram, então, exibidos estudos de sites, vídeos-performance, clipes, livros ilustrados, vídeos conceituais e, em um dia especial, HQs.

Nos três dias de evento foram apresentadas ao todo 18 narrativas, a começar pela mesa coordenada pelo professor Dr. Elydio dos Santos Neto (colaborador do Bigorna) . Nessa mesa participaram Ciça Fitipaldi (FAV/ UFG) com Quem tem medo do Mapinguary?; Ana Beatriz de Paiva Costa Barroso (UnB), Novos Ventos; Rafael Castanheira Pedroso de Moraes (UFG), Pirarucu z-32 e a fotografia documental na Amazônia; Fábio Purper Machado (UFSM), Narratividade, quadrinhos e arte-educação: uma experiência escolar com adolescentes; Vânia Olária Pereira (FAV/UFG), Cultura visual: uma narrativa com imagens; Lyara Luisa de Oliveira Alvarenga (FASM), com 2324; e Mércia Albuquerque e Mônica Moura, Hipertextualidade e Complexidades.

Nesse primeiro dia, como o assunto aqui são quadrinhos, destaque para o trabalho desenvolvido por Ciça Fitipalti e pelo gaúcho Fábio Purper. Ciça, na verdade, não apresenta uma HQ, mas sim um livro ilustrado. O inusitado fica por conta da maneira como ela interfere na história original, criando uma segunda narrativa – por imagens – que complementa a história original contada pela escritora Vássia Silveira. Esse tipo de recurso imposto por Ciça leva a criança a se aprofundar ainda mais no contexto em que se passa a história, além de forçá-la a interagir com o objeto livro.

Já Purper, em Narratividade, quadrinhos e arte-educação: uma experiência escolar com adolescentes, mostra, através de uma HQ, o resultado da proposta de se trabalhar quadrinhos em sala de aula. Na verdade, os alunos de Fábio acabaram não desenvolvendo as atividades propostas, sendo assim, o artista resolveu contar a experiência em forma de quadrinhos. A história mescla fotos com desenhos contando o dia-a-dia das atividades sugeridas e como foi a receptividade da turma frente ao intuito do pesquisador.

No segundo dia, a mesa de Narrativas Visuais, coordenada pelo quadrinhista e pesquisador Dr. Edgar Franco (também colaborador do Bigorna), foi composta exclusivamente de histórias em quadrinhos. Nela foram apresentados os trabalhos: Gênesis revisto: processo criativo de uma HQ poético-filosófica, de Edgar Franco (FAV/UFG); Não basta nascer: o ser humano hilo-holotrópico e a construção de si mesmo no mundo da cultura, de Elydio Dos Santos Neto (UMESP); Nefelibantes pareidólicos: um nefelibata em busca da pareidolia explicada, de Gazy Andraus (FIG –UNIMESP) [mais um colaborador do Bigorna]; Gibiozine e o processo de criação das histórias em quadrinhos do Sr. Toti, de Renata Midori Saito e Hylio Laganá Fernandes; e, Encontro - Processo criativo em construção de narrativa, de Matheus Moura (este escriba) e Guilherme Lima Bruno E. Silveira (Encontro pode ser lida na integra aqui).

A apresentação de Gênesis revisto, de Edgar Franco, trata das minucias de sua história homônima publicada na revista Artlectos e Póshumanos # 3 (resenha aqui), a qual trás como principal característica a inovação estilística. Edgar comenta que, através das composição das  imagens, insere contextos que obrigam o leitor a fruir a história inconscientemente. Seguindo a mesma linha, Elydio dos Santos discorreu sobre sua história de única página, composta apenas por imagens, em que trata da condição humana quanto ser propício a viver e, além, aprender a viver. Assim como Edgar, Elydio usa de uma maneira singular na disposição de quadros e requadros, criando uma leitura inusitada e não linear da HQ.

Gazy Andraus, na verdade, não apresenta bem uma HQ – apensar de haver uma –, mas sim um fanzine, em que mescla ilustrações baseadas na observação de figuras formadas em nuvens e outros objetos como tacos e azulejos. O conceito central que permeia a obra do pesquisador é a construção de sentido a partir do mundo sensível do observador. Como ele comenta no texto introdutório do fanzine, Leonardo Da Vinci já incentivava esse tipo de observação – chamada de pareidolia, ou seja, perceber nuances de novos significados em objetos – com o intenção de exercitar a criatividade. Além disso, o fanzine de Gazy é uma provocação que convida o leitor a questionar as posições tradicionais da arte e da narrativa.

Dentre as HQs/pesquisas apresentadas no dia, a mais tradicional foi Gibiozine e o processo de criação das histórias em quadrinhos do Sr. Toti, de Renata Midori Saito e Hylio Laganá Fernandes. No entanto, apesar de caracterizada como uma HQs convencional, a revista Gibiozine tem como mote a divulgação científica. Na história do Sr. Toti, que Saito exibiu, a trama se passa dentro do corpo humano, especificamente no mundo celular. O Sr. Toti, então, é uma célula nervosa, e tem sua vida contada do nascimento até a quase morte. Entre as várias fases dessa célula é mostrado ao leitor um pouco mais do universo celular, com seu desenvolvimento, perigos e funcionamento. Renata Saito explicou ainda sobre o trabalho desenvolvido com a revista na promoção do conhecimento científico e as dificuldades em se distribuir e divulgar um material tão importante como o do Sr. Toti. No final, os presentes tiveram a sorte e a oportunidade de receberem alguns exemplares do Gibiozine, revista editada por Saito em que são publicadas as histórias do Sr. Toti. Para conhecer mais o Gibiozine clique aqui.

Para encerrar a mesa do segundo dia, foi apresentara a HQ Encontro -  Processo criativo em construção de narrativa, escrita por Matheus Moura e desenhada por Guilherme E. Silveira. A história, de três páginas e com leve toque de horror, descreve implicitamente o processo criativo de uma HQ. Como contou Guilherme, apesar da HQ não possuir uma história explicita, são distribuídas ao longo dos quadros “pistas” aos leitores para que possam ler as entrelinhas da narrativa podendo, assim, se aproximarem mais do conceito imposto pelos autores, mesmo tendo um final aberto à múltiplas interpretações. Dessa forma, Encontro se torna uma HQ que necessita de uma leitura, e releitura, atenta para uma melhor compreensão da história.

No terceiro e último dia da Mesa de Narrativas Visuais, não houve trabalhos voltados aos quadrinhos. Como registro, vale citar trabalhos e autores: Poder é resistir [resistir é poder], Daniela Maroja Ribeiro, Cláudio Aleixo Rocha e Luciana Hidemi Santana Nomura – PUC-GO; The omega neocortex: um videoclipe para a Aurora Pós-Humana, de Edgar Franco e Luciana Hidemi Santana Nomura – FAV/UFG; En route [along the way]: estrato da série "paisagem-percurso", Paula Cristina Somenzari Almozara - PUC- CAMP; RG - Narrativas visuais de identidades híbridas –, Valdemir de Oliveira - Universidade do Estado do Amazonas; A grande invenção, Gabriel Lyra Chaves e Pablo Petit Passos Sérvio – FAV/UFG; Design de Hipermídia - visualidades e interações contemporâneas, Mônica Moura e Mércia Albuquerque.

Apesar da falta de quadrinhos na mesa, havia ao menos um quadrinhista a compô-la: Edgar Franco. Edgar despensa apresentações, tendo sido até mesmo citado acima. Nesse último trabalho do Seminário, ele deu continuidade ao tema que permeia seus outros trabalhos, mas de forma musical e visual.

Além da mesa de Narrativas Visuais, o III Seminário Nacional de Cultura Visual teve alguns trabalhos/artigos referentes às HQs apresentados em mesas temáticas. Para ficar em um exemplo vale citar o artigo de Guilherme E. Silveira a respeito da intertextualidade entre Quadrinhos e Cinema, intitulado “Quadrinhos em Revista: uma análise da graphic novel ‘Asilo Arkham’ de Dave Mckean e Grant Morrison”. No texto, Guilherme aponta como Grant Morrison dialogou com o filme Psicose, de Hitchcock, para construir e sugerir os estados mentais de seus personagens. Quem tiver interesse em ler o artigo pode baixá-lo aqui.

Em suma, um evento que superou as expectativas dos presentes, ainda mais se estes esperavam ver algo relacionado as pesquisas envolvendo quadrinhos. A iniciativa da FAV em incluir uma mesa temática para Narrativas Visuais foi muito bem vinda, uma vez que isso extrapola o lugar comum de encontros acadêmicos como esses, ainda mais quando se fala numa Academia de Artes. O que não se pode perder a continuação de tal iniciativa pois, a partir do momento que estudiosos e autores se familiarizarem com o formato, há de surgir novos e inusitados trabalhos. Que venha, e esteja repleto de HQs, o IV Seminário Nacional de Cultura Visual.

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