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Re-significando os Quadrinhos - Parte 2
Por José Pinto de Queiróz Filho
22/06/2010

Introdução

Em junho de 1929, nos primórdios do sistema capitalista no continente americano, os EUA viviam o caos de sua primeira Grande Depressão econômico-financeira, fenômeno recorrente, próprio do sistema capitalista cumulativo, que vem se repetindo por certas vezes, com maior e menor gravidade. A mais recente é a que estamos testemunhando neste início de século XXI.

O crack da Bolsa de Valores em 1929, gerou a perda de fortunas, fechamento de bancos, inflação galopante, suicídio em massa, e a disseminação da miséria e da infelicidade na maioria da população ianque. Foi também, paradoxalmente, o começo do Gibi! Alguns estudiosos argumentam que, ao envolver o leitor no mundo de ficção, as histórias em quadrinhos propiciam a fuga da realidade frustrante. Acreditam, foi o que aconteceu na crise de 29. Para fugir da dura realidade, o indivíduo passou a ler avidamente as aventuras escapistas de heróis e super-heróis politicamente corretos, Super-fortes, resistentes, invulneráveis! Sendo assim, atribuem  o sucesso inicial dos quadrinhos à necessidade dos norte-americanos de se refugiarem na ficção para escapar da dura realidade da bancarrota da nação. 

Acredito, tal motivação pode ter existido como uma tendência isolada, mas não como regra absoluta. No início dos anos 30 o sucesso do gibi cresceu ainda mais, apropriando-se das histórias de aventuras publicadas até então pelos pulps (revistas de contos e seriados, baratas e muito populares). Delas emergiram, em quadrinhos, Buck Rogers, de Dick Calkins, Flash Gordon, de Alex Raymond (ficção científica), Dick Tracy, de Chester Gould (policial), Tarzan de E. R. Burroughs e o Fantasma de Lee Falk (selva). Juntos, tornaram-se paradigmas de uma era de sucesso, hoje conhecida como a Primeira Era de Ouro dos quadrinhos!

Nasce o Super-Homem

Em junho de 1938, a editora National (antigo nome da DC Comics) lançava a revista Action Comics, no. 1, com uma particularidade, no mínimo, intrigante. Substituindo os heróis aventureiros, os mágicos e os detetives, herdeiros dos congêneres dos pulps, o debutante da capa era um personagem desconhecido vestido com um manto vermelho, uniforme de malha azul e um S desenhado no peito. O artista optou por fazê-lo em plena ação lançando um automóvel verde contra um pequeno rochedo, enquanto, ao redor, três marginais, de olhos esbugalhados, fogem espavoridos intimidados com o poderoso opositor. Estava nascendo o Superman, o primeiro super-herói  do gibi, criado por Jerry Siegel (texto) e Joe Shuster (desenho).Este gibi funcionou como um divisor de águas das histórias em quadrinhos - o antes e o depois do aparecimento dos super-heróis! Daí em diante, eles se multiplicaram por todas as editoras, e até heróis que não eram tão super, tentaram se comportar como se fossem. Ciosos da importância e da originalidade do personagem, cujos direitos foram adquiridos de seus criadores por quantia irrisória, os editores da National começaram a caçar impiedosamente os imitadores do Superman levando-os às barras da justiça. O primeiro deles foi Wonderman, plágio doloso confessado por Will Eisner, para atender ao pedido do editor V.S. Fox, dono da editora Bruns Publications, criando em 1939, o personagem à imagem e à semelhança do Superman, que, na verdade, nem era tão semelhante. A revista foi cancelada após a publicação de seu primeiro número. Misteriosamente porém, algum tempo depois, o personagem voltou a aparecer em revista própria. 

O processo contra a Fawcett

Em janeiro de 1940, a editora Fawcett criou a revista Flash Comics para lançar um personagem chamado Captain Thunder. Era uma edição ashcan, antigo gibi publicitário em preto e branco para ser distribuído gratuitamente.  A DC entrou comum processo para obrigá-la a mudar o nome da revista, e conseguiu, alegando que já possuía uma com o mesmo nome Flash Comics.  A Fawcett mudou o título para Whiz Comics, mas só pôde lançá-lo nas bancas de jornal em fevereiro de 1940 portanto, um mês depois. Mas o pior ainda estava por vir. O Captain Thunder, mais tarde rebatizado como Capitão Marvel, revelou-se um estrondoso sucesso de vendas no mercado de gibis! Imediatamente, a DC entrou com outro processo. Desta vez, acusando a Fawcett de plágio do Super-Homem. Afirmava que o Capitão Marvel era muito semelhante ao Homem de Aço (acusação injusta e sem fundamento). A Fawcett conseguiu vencer consistentemente em todos os tribunais inferiores, enquanto a DC conduzia o processo apelando para os tribunais superiores. Os juízes poderiam dar ganho de causa a DC se ela arguisse que todo herói com super-poderes era um plágio. Temerosos de que isto ocorresse, outras editoras começaram a tomar providências. A MLJ, por exemplo, decidiu matar O Cometa (The Comet), um de seus heróis que podia voar e lançar raios pelos olhos (mais tarde, surgiu o plágio do Ciclope dos X-Men). Também retirou todos os poderes de O Escudo (The Shield), poderoso super-herói invulnerável, dotado de força descomunal e capaz de dar saltos extraordinários além de ser o primeiro herói dos quadrinhos a usar a bandeira americana como uniforme, antes do Capitão América.

O litígio entre a DC e a Fawcett arrastou-se durante muito tempo, mas não foi adiante, porque o sucesso dos gibis estava, aparentemente, chegando ao fim. Antevendo prejuízos, os editores da Fawcett perderam o ânimo para continuar lutando e, em 1953, cancelaram toda a sua linha de gibis e, em troca da retirada do processo, cederam à DC os direitos de seus personagens3. 

A Segunda Guerra Mundial alavanca o sucesso dos quadrinhos

Em 1939, começa a Segunda Guerra Mundial, mas antes de os Estados Unidos entrarem nela, os quadrinhos já divulgavam a propaganda ideológica. O nazismo avançava pela Europa espalhando medo e incerteza por todas as nações européias. Em 07 de dezembro de 1941, ocorre o ataque japonês a Pearl Harbour, base militar norte-americana localizada no Havaí, “obrigando” os EUA a entrar na guerra. Surge a necessidade de despertar o patriotismo da nação para aumentar o contingente das forças armadas. Pensando assim, o presidente Roosevelt recruta todas as mídias de comunicação de massa, rádio, cinema, jornal e quadrinhos para divulgarem a propaganda antinazista e exaltar os valores éticos sociais e a superioridade econômica, política e militar da América do Norte. 

Propaganda pró-guerra nos gibis

A palavra de ordem do governo ianque era utilizar a forte influência dos super-heróis sobre o imaginário do leitor de gibi para: difundir a propaganda pró-guerra; divulgar o patriotismo exacerbado; tentar motivar os pracinhas alistados para lutar numa guerra, longe de casa, em outro continente, onde certamente muitos iriam morrer.

Para isso, foi necessário adequar o discurso belicista à linguagem dinâmica e imagética dos quadrinhos. A adequação do discurso ideológico para os quadrinhos obedeceu a uma estratégia em que a mensagem era “passada” para a fala  e as ações dos super-heróis, no momento do enfrentamento com os inimigos. O mecanismo de persuasão era simples: quando o leitor gosta de um personagem, com o tempo passa a imitar parte de seu comportamento e a acreditar na maior parte do seu discurso. Com isso, quando idéias antinazistas são lançadas nas histórias, são grandes as chances de serem assimiladas pelo público.

Como consequência, no período de 1940-1945, surgiram cerca de 400 e poucos heróis e super-heróis criados especificamente para enfrentar o nazifascismo em todas as frentes de batalha. Cito, entre outros, o Demolidor (Destroyer, de Stan Lee, Ed. Timely, atual Marvel), O Arqueiro (Marksman, de Bob Powell e Ed Cronin, Ed. Quality), Radar, o polícia internacional (Radar, de Otto Binder e C.C. Beck, Ed. Fawcett), (The Fighting Yank, Richard E. Hughes e Jon L. Blummer, Ed. Nedor), Man of War (Paul Gustavson, Ed. Centaur, acredito, não publicado no Brasil), Major Victory, (Ed. Harry ‘A’ Chesler, acredito, também não publicado no Brasil), Comando Ianque (Commando Yank de Clem Weisbecker, Ed. Fawcett). Cada um com a sua idiossincrasia pessoal: Destroyer (Demolidor) de Stan Lee, por exemplo, residia e combatia o inimigo em Berlim. O Escudo, da Editora MLJ (atual Archie Comics), foi o primeiro herói bandeiroso a vestir uma indumentária estrelada e listada transformando-se num pendão norte-americana ambulante. O Capitão América, foi o segundo a se vestir com o mesmo figurino, mas com uma singularidade: estreou nos quadrinhos esmurrando Hitler logo na capa de seu primeiro gibi, tornando-se, assim, o protótipo de herói declaradamente antinazista. No seguimento, mesmo heróis não combatentes foram recrutados para engrossar as fileiras contra o Eixo do Mal; dentre eles, Mandrake, Fantasma, Flash Gordon, Tarzan dos macacos, e até o Pato Donald!!!

O inimigo típico era retratado como psicopata inato, eterno perdedor, monstro abjeto e aterrorizante, portador de comportamento nitidamente psicopático. Entretanto, mesmo quando tinha a oportunidade de liquidar o herói, de uma vez por todas, com um tiro na cabeça, ou Superman com a exposição permanente à kriptonita, não o fazia. Costumava, sim, aprisioná-los atingindo-os covardemente, à traição; habitualmente com uma violenta pancada na cabeça. Esperava que acordassem para revelar os seu planos ignorando que o general que conta como vencerá a batalha a perde antecipadamente, e assim desperdiçava precioso tempo, ao invés de  liquidá-los. A seguir, os colocava em armadilhas mirabolantes que propiciavam aos heróis tempo suficiente para escapar e derrotá-lo.

Havia sempre nas aventuras uma sucessão de pancadarias e a exibição de feitos super-poderosos, o que tornava difícil explicar porque o Superman e congêneres, que eram tão poderosos, não acabavam logo com a guerra. Em alguns casos, como nas aventuras do Capitao Marvel, por exemplo, juntou-se à trama de guerra, a linguagem ingênua própria dos leitores infantis de HQs. Tudo isto exigiu dos desenhistas e dos roteiristas o máximo de criatividade. Com poucas exceções, a maioria dos personagens combatentes dos quadrinhos não sobreviveram ao pós-guerra. Na leva do modismo, muitos tiveram sucesso nas páginas dos gibis americanos e outros não. Com o fim da guerra acabava também a primeira fase da  Idade de Ouro dos Quadrinhos. 

Continua na próxima semana.

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