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Ângelo Agostini elege os melhores de 2009 e sofre críticas
Por Rodrigo Febronio e Manoel de Souza
07/06/2010

Em 27 de fevereiro ocorreu no Senac-Scipião, em São Paulo, SP, a 26a edição do Troféu Ângelo Agostini, a mais antiga premiação dos quadrinhos nacionais. O evento foi criado em 1984 pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC), com o intuito de reunir, incentivar e premiar profissionais de HQs. Segundo o organizador Worney de Souza, “a importância do prêmio está na sua durabilidade e no reconhecimento da arte de quem dedicou boa parte de sua vida aos quadrinhos e aos cartuns”. Para Worney, o Agostini é a única premiação que homenageia artistas que não são conhecidos do grande público, mas reverenciados pelos colegas. Para isso, existe a categoria Jayme Cortez, voltada para evidenciar os mestres das HQs brasileiras. 

Apesar da importância histórica e da boa vontade da organização, o que deveria ser um dia de festa foi uma cerimônia morna e com baixo comparecimento do público. Uma das atrações do evento foi um debate sobre divulgação de quadrinhos na internet, reunindo profissionais da área. Houve atraso e o debate foi reduzido para meros 30 minutos em prol da exibição do longa-metragem Tanga, Deu no New York Times, ignorado pelo público, que preferiu papear e conferir os títulos da banca de quadrinhos do coletivo Quarto Mundo. Uma grande HQ coletiva começou a ser desenhada na premiação, mas teve poucas páginas. Logo no primeiro quadro, ironicamente, o pioneiro das HQs Ângelo Agostini reclama dos detratores do troféu que leva seu nome.

Não é de hoje que jornalistas e artistas criticam o troféu Agostini por não considerá-lo mais um bom termômetro do que realmente é produzido nos quadrinhos nacionais. O sistema de votação é aberto ao público em geral por correio e internet, mas conta com um pequeno número de votantes: entre 300 e 350, segundo Worney. “Isso é mais ou menos o número de interessados pelo quadrinho nacional e um pouco menos dos que produzem quadrinhos no Brasil”, especula. O problema é que esse sistema de votação acaba invariavelmente trazendo resultados controversos. Geralmente, quem tem mais torcida se destaca, pois faz campanha para receber votos de amigos e conhecidos. Não há um julgamento técnico do material.
Para Raphael Fernandes, editor da revista MAD, “a renovação do mercado nacional de quadrinhos exige dos organizadores do Agostini uma renovação do sistema de seleção e de votos”. A opinião é compartilhada por Sidney Gusman, editor-chefe do site Universo HQ: “O sistema de votação aberto permite distorções grotescas, como as que foram vistas neste ano, com tantos álbuns nacionais excelentes sendo ignorados”. Para Gusman, “o quadro é tão grave, que poucos profissionais de quadrinhos levam o troféu a sério”.
O Agostini vive um impasse: Worney acusa os críticos de apenas reclamarem e nunca participarem da votação ou das reuniões da ACQ. Os críticos, por sua vez, demonstram um crescente desinteresse pelo prêmio por discordarem do modo como ele é conduzido. Durante o evento, houve cenas constrangedoras que mostram as falhas na organização: em determinado momento, o apresentador precisou pedir silêncio à plateia, que não prestava atenção aos discursos dos ganhadores.

Worney conta com defensores como o editor Franco de Rosa, um dos homenageados da edição de 2010 na categoria Mestre dos quadrinhos. O editor lembra que o colega faz reuniões com profissionais do ramo e organiza palestras e encontros sobre quadrinhos. “O Agostini só existe devido ao esforço total e exclusivo do Worney, que conduz e organiza o prêmio”, comenta. 

Worney de Souza se apoia na tese de que “os produtores do quadrinho nacional são divididos em dois blocos. Há os que ganham mais, estão na grande mídia e têm muitos amigos influentes. Do outro lado, existe uma maioria que ganha pouco e, muitas vezes, é reconhecida apenas no Ângelo Agostini”. Ele acredita que os “grandes autores” podem parecer melhores que os que publicam em revistas de pequenas tiragens, mas não são. 

O problema é que deixar o mérito artístico em segundo plano em prol de um discurso pelos fracos e oprimidos pode ser nocivo aos quadrinhos, e desvaloriza tanto o Agostini quanto os artistas premiados. Ao enaltecer o melhor da produção brasileira, a premiação deveria focar no talento e tornar o troféu um objeto de desejo. Hoje, o processo parece estar baseado exclusivamente na popularidade dos concorrentes. O processo de votação precisa ser repensado, e Worney precisa de ajuda urgente nessa difícil empreitada. O troféu Ângelo Agostini merece um status que honre a importância de sua proposta.
 

Ganhadores do Ângelo Agostini 2010

> Melhor desenhista: Adauto Silva

> Melhor roteirista: Laudo Ferreira Jr.

> Melhor cartunista: Sivanildo Sill

> Melhor lançamento: Roko-Loko – Hey Ho, Let’s Go! (Editora Rock Brigade)

> Melhor fanzine: QI (Edgard Guimarães)

> Troféu Jayme Cortez: José Salles (Editora Júpiter II)

> Mestres do quadrinho nacional: Franco de Rosa, Henrique Magalhães e Rodval Mathias

*Matéria originalmente publicada na revista Mundo dos Super-Heróis # 21

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