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Prêmio Angelo Agostini: quem Critica os Críticos?
Por Marcio Baraldi
02/06/2010

Estava eu lendo a revista Mundo dos Super-Heróis deste mês, publicação pelo qual tenho muito apreço e prazer em esporadicamente colaborar, quando de repente me deparo com uma cobertura do 26º Prêmio Angelo Agostini, ocorrido em fevereiro deste ano e noticiado pelo Bigorna aqui.

A matéria, bastante depreciativa com o Prêmio, diz que “o sistema de votação direta do público adotado pelo Prêmio (desde seu início), traz resultados controversos e recebe críticas por isso”. Oras, que análise parcial e tendenciosa é essa?!? Não é apenas o Agostini que recebe críticas, TODOS os três prêmios do mercado atual sempre receberam críticas! Eu mesmo tenho zilhões de críticas ao HQMix, por exemplo, e conheço mais zilhões de colegas de profissão que as possuem também. Basta fuçar a internet e você vai encontrar um monte delas. Inclusive, como tenho vergonha na cara, cheguei várias vezes no Jal e Gual, os donos do HQMix, e as expus como adulto. Se adiantou alguma coisa, já são outros quinhentos.

O próprio Prêmio Bigorna, que eu ajudei a criar e que já está indo para sua terceira edição, foi vítima de críticas diversas logo na sua primeira edição. Para essas pessoas sempre respondi a mesma coisa: “A proposta do prêmio é essa! Não gostou, faça melhor que eu!”. Vejam se eu perdi alguma noite de sono por causa disso. Quem porventura não quiser levar algum prêmio a sério, que não participe dele, oras. Não me arrependo nem um milímetro da minha condução do Prêmio Bigorna, pelo contrário, tenho orgulho de cada artista que o ganhou, todos escolhidos a dedo por quem realmente conhece suas valiosas, e muitas vezes injustiçadas, trajetórias. Também muito me orgulho de nunca ter tido a cara de pau e o ridículo extremo de conceder o prêmio a mim mesmo ou a outros que participaram de sua organização, como se vê por aí. E tenho certeza que Worney de Souza, criador do Agostini, também sabe muito bem como conduzir o prêmio que criou. A revista diz que “só ganha o prêmio quem faz campanha e que não há julgamento técnico do material”. De fato eu, por exemplo, sou um dos que fazem campanha. Um dos, porque já vi muitos outros fazendo também, o que não tem nada de anti-ético ou imoral, nem engorda. E o faço com todo orgulho, pois entendo que a coisa mais profissional e correta que devo fazer é enviar meu livro a todos os eleitores do Prêmio para que ELES MESMOS avaliem o material e decidam se devem votar nele ou não! Ora, por que outros concorrentes não fazem o mesmo? Como alguém vai avaliar seu trabalho e decidir se vota nele se não o conhece? Se você é um artista que não vai aonde o povo está, como espera que ele conheça você e sua obra?

Se você é o tipo de artista que espera ser reconhecido apenas pela Crítica, sinto muito por você. Eu não, eu sempre corri atrás do público, não é a toa que meus lançamentos sempre lotaram de gente bonita! Dou ao público o que eles gostam e querem! E mesmo o fato de enviar  minha obra a alguém não me dá garantia NENHUMA de que este alguém votará em mim. O voto é livre e secreto!!! Esta é a vantagem da democracia e da livre-iniciativa, coisas que a Crítica parece abominar, acostumados que estão a decidirem tudo sozinhos, trancados em panelas ridículas, bem longe do público! A Crítica é muito pretensiosa, paternalista e arrogante quando afirma que o público é incapaz de avaliar a qualidade de uma obra por si só e depende de meia dúzia de “eleitos de Deus” para lhes dizer o que eles devem ler ou não, o que é bom e o que não é! Esse é o velho vício da Crítica: são ótimos para criticarem o alheio, mas péssimos para se auto-criticarem! Estou nessa profissão há mais de vinte anos, vivendo exclusivamente dela, e já sei o óbvio há muito tempo: a visão da Critica sempre foi e sempre será completamente diferente da visão do artista e do público! E previsível também! Um dos maiores chavões da Crítica, por exemplo, é passar vida inteira ignorando ou desprezando um artista para depois que ele morrer, elogiá-lo e premiá-lo postumamente. No quadrinho não é diferente. Tem sido assim desde o primeiro quadrinhista do Brasil, Angelo Agostini, que empresta seu nome ao Prêmio. Agostini (o artista, não o Prêmio) sempre foi amado pelo público e desprezado pela “elite intelectual” de sua época. Hoje, cem anos após sua morte, todos o veneram.

Se estou onde estou hoje, se ganhei grana, se ganhei prêmios, se ganhei popularidade, devo tudo ao público. É a eles que agradeço sempre. Claro que tive a felicidade (ou sorte?) de cruzar com críticos decentes e bem resolvidos ao longo do caminho. Mas também joguei muito livro fora, mandando-o para críticos nojentos e pedantes que nem sequer encostaram na publicação. E olha que tá cheeeeeeio desses tipos por aí! Com o advento da internet, então, nem se fala! Hoje em dia qualquer semi-analfabeto monta seu blog e sai criticando o que bem entende. Falando mal e xingando quem quiser. Da noite pro dia todo mundo virou crítico no planeta! Fazer isso é fácil, qualquer um faz. E sentar numa prancheta, desenvolver um traço particular, criar bons personagens, boas histórias, boas piadas, sair para vendê-los para revistas e jornais, construir uma carreira sólida, um patrimônio físico e cultural, conquistar um público, lançar livros todos os anos, lotar lançamentos? Isso qualquer um faz? Não, amiguinhos! Definitivamente isso NAO é para qualquer um!!! Tem muito “crítico” por aí que vai precisar de duzentas encarnações pra chegar nisso, se chegar!

A matéria diz ainda que o Prêmio “deixa o mérito artístico em segundo plano em prol dos fracos e oprimidos” e que deveria “focar no talento”. Juro que não entendi!!! Quem é fraco e sem talento, cara-pálida?!? Vejamos a lista dos ganhadores dessa edição do Prêmio: Franco de Rosa, Laudo, Rodval Matias, Adauto Silva (puta, como esse cara desenha!!!), Edgard Guimarães, Henrique Magalhães, José Salles, Sill e eu. Será que somos todos autores fracos, oprimidos e sem talento?!? Alguns dos artistas acima já estavam no mercado de trabalho enquanto os autores da matéria ainda brincavam de carrinho e mesmo assim a Critica tem a coragem de chamá-los de fracos e sem talento?!? E nessas horas que eu pergunto: Pra que serve a Crítica afinal? Pra ajudar ou pra atrapalhar?

Mas o mais triste foi ler o depoimento do jornalista e editor Sidney Gusman, sujeito pelo qual sempre tive grande apreço e respeito e que estava no evento participando de um debate, a convite de Worney. Ele diz: “O sistema de votação aberta permite distorções grotescas como as que se viu este ano, com tantos excelentes álbuns nacionais sendo ignorados”.

Ué?!? Mas o Worney tem o cuidado de colocar, pacientemente, todo ano na cédula DEZENAS de lançamentos, justamente pra auxiliar a memória do eleitor. Basta pegar a cédula do Prêmio pra confirmar isso. Já o HQMix, do qual Sidão, que durante muitos anos, foi um dos organizadores, coloca apenas uma meia dúzia. Então, quem está ignorando os lançamentos afinal?!?

Em seguida vem a parte mais dura: “O quadro é tão grave, que poucos profissionais de quadrinhos levam o prêmio a sério. “Juro, caros amigos, que quando li isso quase caí pra trás!!! Imediatamente me vieram a cabeça três perguntas:

1) Por que ao invés de Sidão falar em seu próprio nome, preferiu falar em nome dos “profissionais de quadrinhos”? Será que ele foi eleito porta-voz da minha categoria e eu não fiquei sabendo?Perdão, mas desconhecia essa autoridade dele.

2) Estarei eu tendo alucinações? Porque o local, como em todo ano aliás, estava cheio de quadrinhistas! Quem não estava lá pode conferir nas fotos da cobertura do Bigorna aqui. Se os quadrinhistas não levam o Prêmio a sério, quem era aquele monte de gente lá então?

3) Por fim, a mais intrigante. Se Sidão não leva o Agostini a sério por que aceitou o gentil convite de Worney para participar do evento? Apenas para retribuir a diplomacia de Worney com uma declaração tão grosseira?

Foi chato ver uma revista que prezo tanto tratar de maneira tão indelicada um trabalho importante como o de Worney.

Enfim, passado o susto inicial, é preciso dizer que Bigorna não poderia se omitir nesse caso. Acho que não preciso lembrar os nobres amigos, que Bigorna sempre foi o veículo de sua geração que mais apoiou e valorizou o Quadrinhista Brasileiro, justamente por ter em suas fileiras quadrinhistas de verdade e não apenas críticos de HQs. Esse sempre foi o maior diferencial de Bigorna, o fator que lhe concedeu maior legitimidade e credibilidade entre os produtores de Quadrinhos do Brasil. Aqueles que suam a camisa, passam infinitas noites em claro na prancheta, enfrentam preconceitos e zilhões de dificuldades para transformar em realidade seu sonho de viver de Quadrinhos num país ainda tão deficiente culturalmente. Nenhum outro veículo publicou tantas notícias sobre a produção nacional, sobretudo a independente, alternativa, underground. Ninguém entrevistou tantos autores, do Oiapoque ao Chuí, concedendo-lhes espaço nobre para mostrarem sua obra e falarem sobre o que quiserem. Ninguém colocou lado a lado desde modestos fanzineiros até artistas de renome internacional, tratando a todos com o mesmíssimo respeito e valor. Sempre fomos extremamente democráticos, não boicotamos ninguém jamais, concedemos espaço no site até mesmo para membros de outros sites, cobrimos todos os três prêmios, sempre com toda diplomacia e respeito, sem frescura ou mesquinharia alguma. Nunca tivemos inveja ou despeito por ninguém porque sempre quisemos ter personalidade própria e fazer as coisas a nossa maneira, seguindo nossa crença, nosso ideal. Claro, sempre exercitamos nosso bom senso e questionamos o que não concordamos, o que não consideramos ético, pois não somos covardes nem omissos. Nós, que somos quadrinhistas de verdade, sabemos que não é no bojo da Crítica que está o verdadeiro Quadrinho Brasileiro. Sabemos que não é preciso mendigar um prêmio no exterior, escrever em inglês ou desenhar enlatados americanos chatíssimos para ser bom. Sabemos que para ser bom, o melhor caminho é sermos nós mesmos e fazermos o que queremos, o  que sentimos e o que acreditamos. Sem se preocupar com as “tendências estéticas estrangeiras do momento” ou com o que uma Crítica autoritária acha que devemos fazer.

Para encerrar, parafraseio o chatíssimo Watchmen, verdadeira Bíblia sagrada para a Crítica: “Quem critica os críticos?”.

* Leia aqui a matéria original da revista Mundo dos Super-Heróis # 21.

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