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O maravilhoso mundo dos quadrinhos filipinos (parte III)
Por Otacílio d'Assunção
01/06/2010

Ao contrário do que se pensa, a importação dos artistas filipinos pelos EUA não começou quando Carmine Infantino e Joe Orlando foram catar mão de obra no país, no início dos anos 70. Bem antes disso já havia filipinos no mercado americano.

Ela poderia ter começado quase vinte anos antes. Em 1953 a revista Tagalog Klasiks publicou uma adaptação do filme Quo Vadis, estrelado por Robert Taylor e Deborah Kerr, roteirizada por Clodualdo del Mundo e desenhada por Nestor Redondo. A HQ havia sido encomendada pela produtora MGM para servir de chamariz para o filme prestes a estrear no país. Os executivos da MGM ficaram tão impressionados com a qualidade do trabalho de Redondo que lhe ofereceram no ato um emprego nos EUA. Redondo recusou a oferta, achando que não estava preparado. A emigração filipina para os EUA só iria começar cerca de dez anos depois.

O primeiro artista a publicar fora das Filipinas talvez tenha sido Emil Rodriguez, que já tinha se firmado no mercado de seu país natal e adquirido fama com suas quadrinizações de histórias bíblicas, chegando a ser equiparado com mestres como Alcala e Redondo. Quando teve a oportunidade de concluir sua educação nos EUA mudou-se para lá e começou a colaborar com uma revista educativa, a Treasure Chest of Fun and Fact. Essa não era distribuída em bancas, mas sim em igrejas católicas, nas escolas dominicais. Quase nada dessa revista foi publicado no Brasil, a não ser aquela clássica edição publicada pela Ebal nos anos 70, O Desenho Passo a Passo, número 1 da Coleção HQ, onde Frank Borth ensinava a desenhar.
A edição de 17 de janeiro de 1963 da Treasure Chest (reproduzida ao lado) publicou a história (coincidentemente chamada First to America), relatando a viagem que os vikings fizeram ao continente americano por volta do ano 1000 D.C, cinco séculos antes de Cristóvão Colombo.
A carreira de Rodriguez como quadrinhista não durou muito. Ele acabou trocando as HQs por um emprego bem melhor pago de designer de carros numa fabrica de Detroit.

Mais tarde, foi a vez de Tony DeZuniga e Jesse Santos emigrarem para os EUA. Santos estabeleceu-se na editora sediada em Wiscosin, a Western Printing (que lançava suas revistas pelo selo Gold Key). Jesse ilustrou revistas como Dr. Spektor (traduzido em português como Dr. Spektro, para a Vecchi em Eureka Terror número 1, o que acabou dando origem à Spektro, a mais importante revista de terror brasileira do final dos anos 70).
Ele também desenhou personagens épicos como Dagar the Invencible e Irmãos de Lança, série esta herdada de Russ Manning, que estava ocupado demais com Tarzan.

Outro pioneiro nos EUA foi Tony DeZuniga. Este já tinha ido para lá em 1962 para estudar design gráfico, mas voltou para sua terra onde fez fama como quadrinista e publicitário. No fim dos anos 60 voltou a Nova York e procurou trabalho na DC Comics. Suas primeiras encomendas forem histórias românticas para a linha de gibis voltados ao público feminino da DC, mas logo se destacou por ter co-criado com John Albano o cowboy desfigurado Jonah Hex e com Sheldon Mayer a Black Orchid (Orquídea Negra) original.

Foi DeZuniga que abriu os olhos dos editores Carmino Infantino e Joe Orlando para o talento de seus conterrâneos. No fim dos anos 60 a DC estava expandindo sua linha de publicações e tinha cada vez mais páginas para preencher. Infantino, ex-desenhista do Flash e Batman era agora o bambambam da DC, e estava preocupado. Alguns desenhistas estavam se bandeando para a Marvel, que começava a disputar com a DC a liderança de mercado. Havia rumores de que os desenhistas estariam se organizando para reivindicar melhores preços e era preciso montar um plano B para uma eventual emergência. Por isso, em 1971 Infantino incumbiu Joe Orlando de viajar para a capital filipina com o objetivo de recrutar novos colaboradores. Num hotel de Manilla Orlando recebia os candidatos indicados por DeZuniga. A proposta era tentadora para os filipinos, porque ganhariam um preço por página quase dez vezes maior do que estavam acostumados a receber em seu país.

Entre os novos contratados no ato estava o jovem Alex Nino, dono de um traço particularíssimo e que diferia um pouco do estilo clássico de seus mestres.
Nino desenhou histórias de terror, aventuras de Korak, o filho de Tarzan e co-criou, com o editor Robert Kanigher, o pirata caribenho do século 19 Captain Fear (Capitão Temor) para a recém-reformulada Adventure Comics. Foi exclusivo da DC por algum tempo, mas depois começou a colaborar também com as editoras Marvel e Warren e até mesmo na famosa revista Heavy Metal. Sua carreira não ficou apenas nos quadrinhos: fez muitos projetos de design de séries de animação, entre eles o filme da Disney, Atlantis the Lost Empire (2001). E está até hoje em atividade.

Os mestres Nestor Redondo e Alfredo Alcala estavam, obviamente, na primeira leva de contratados pela DC. Diz a lenda que, quando recebeu Alcala no hotel, Orlando ficou impressionado com a qualidade de seu trabalho. Perguntou quantas páginas ele seria capaz de produzir por semana e Alcala respondeu quarenta. Orlando não levou a sério. Disse que nos EUA o nível de qualidade exigido era outro. Puxou de sua mala alguns originais de Neal Adams e Joe Kubert e os mostrou a Alcala, dizendo que ele teria que desenhar tudo naquele padrão e o serviço compreendia tanto o lápis e arte-final como até o letreiramento. Alcala olhou para as amostras e disse que, se ele queria o trabalho naquele nível as coisas mudavam de figura. Nesse caso ele poderia produzir oitenta páginas semanais! Cético, Orlando lhe deu uma cota de quarenta, mas quando os trabalhos começaram a chegar pontualmente todos viram que ele não estava brincando. Por algum tempo suspeitaram que Alcala na verdade comandava uma equipe mas ficou comprovado que era ele mesmo que fazia tudo sozinho.

Alcala foi o campeão mundial juntando os quesitos qualidade e quantidade. Superava em rapidez até mesmo o dinâmico Sergio Aragonés, hoje considerado o desenhista mais rápido do mundo. Quando havia alguma emergência para cumprir algum prazo, era Alcala sempre o convocado para quebrar o galho. Além do recorde de páginas, ele batia também o de conseguir trabalhar seguidamente o maior número de horas sem dormir. Dizem que ele era capaz de suportar viradas de mais de três dias. Tabagista inveterado (chegava a fumar até cinco maços por dia), Alcala acabou falecendo de câncer em 2000.

Nestor Redondo, como todos os outros, começou desenhando histórias avulsas para a linha de terror da DC, que livre das amarras do Código de Ética, agora mais permissivo, transformou o conteúdo de revistas como House of Mystery de simples suspense ou ficção-científica light para sobrenatural e terror. Estas e as revistas românticas serviam como teste para os filipinos, mas estes foram logo recebendo encomendas mais importantes. Redondo não só assumiu por um tempo o Monstro do Pântano como também desenhou os sete números de Rima the Jungle Girl (publicada no Brasil pela Ebal). Além disso passou por Tarzan e até mesmo Lois Lane. Mais tarde, trabalhando para a Marvel, desenhou algumas histórias de Conan e ainda fez várias adaptações de clássicos da literatura para a Pendulum Press. Redondo morreu relativamente jovem, aos 65 anos, em 1995.

Além dos mestres já citados, dúzias de filipinos foram absorvidos na década de 1970 pelo mercado americano: E. R. Cruz, Ruben Yandoc, Romeo Thangal, Gerry Talaoc,Ernie Chan,Ruddy Nebres,Pablo Marcos, Ruddy Florese (clone perfeito de Joe Kubert!!!). A lista é interminável. Embora mandassem inicialmente o material pelo correio, vários deles acabaram emigrando e fixando residência nos EUA, bem como foram se espalhando por outras editoras além da DC. Não faltava trabalho para desenhistas de talento. Por outro lado, embora com o escrete desfalcado, as Filipinas não se se ressentiram tanto da debandada de seus principais artistas, porque afinal o que esse país asiático mais tinha era gente que soubesse desenhar bem. Mesmo o período áureo do quadrinho filipino (décadas de 1950 e 60) já tendo passado a indústria continuava prosperando. E sem dar muito espaço aos quadrinhos americanos. Embora houvesse edições em tagalo de certos gibis americanos (como os de Disney), o povo preferia consumir o produto local, mais de acordo com a sua cultura.

O que fez o mercado de quadrinhos nas Filipinas se retrair não foi a falta de público, mas a política! Quando o ditador Ferdinand Marcos, marido de Imelda (a perua que tinha três mil pares de sapatos), estabeleceu a lei marcial nas Filipinas em 1972, além de fechar o congresso e restringir as liberdades individuais, exigiu que o papel em que os komiks fossem impressos fosse de pior qualidade e restringiu seriamente a liberdade de expressão. Mas mesmo assim não conseguiu acabar com os quadrinhos filipinos, como veremos no capítulo final desta série. Até lá!

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