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Santos-Dumont: para os que lembram do aeronauta
Por Ruy Jobim Neto
28/08/2006

Santô, de Spacca

Santos-Dumont
, nome composto. Brasileiro misto com francês, mas universalmente brasileiro na intenção de criar o aparelho mais pesado que o ar. Na última quinta-feira, dia 24, tirei foto ao lado de outros dois criadores de materiais gráficos que homenagearam o aeronauta brasileiro, neste seu centenário do vôo do "14-Bis". Na realidade, a data do centenário é 23 de outubro, mas mesmo assim fiquei sabendo que duas peças teatrais foram realizadas em colégios a partir do livro Santô e os pais da aviação, editado pela Companhia das Letras, um livro superpremiado lançado em 2005, que foi escrito e desenhado brilhantemente pelo cartunista Spacca, um dos caras na foto. Aliás, foi exatamente no estúdio do Spacca, ao lado das vigorosas estantes recheadas de incomensuráveis livros de pesquisa utilizados para Santô e outros projetos vindouros, que a foto foi tirada. O outro cara na foto era o muy simpático e divertido ilustrador Angelo Bonito, que desenhou as páginas de infância do aeronauta, para a Editora Callis. Mostra de que Santos-Dumont está mais do que na ordem do dia. 
 

Santos-Dumont, de
Angelo Bonito

A tal foto foi proposta pelo jornalista e cartunista Zé Roberto, que vai escrever um artigo num jornal impresso carioca relembrando como os caricaturistas, chargistas e cartunistas retrataram Santos-Dumont ao longo deste século. Uma boa idéia, por sinal. Minha contribuição, nesse aspecto, é o volume Santos-Dumont, publicado pela Editora Bentivegna, e que foi lançado em setembro do ano passado, junto com outros três títulos meus sobre heróis brasileiros. Posso dizer que não é nem fácil nem difícil falar do grande aeronauta, uma vez que a maioria dos acontecimentos ligados à vida pública dele tiveram lugar no raiar do século XX. Muito bom motivo, portanto, para conseguir boas fotos de seus balões e aeroplanos tanto em livros como na Internet. 
 

Santos-Dumont, de
Ruy Jobim Neto

"Le Petit Santos", como era chamado pelos franceses, sem dúvida era uma personalidade exótica na Paris da virada do século. Sim, estamos falando da mesma Cidade Luz vitoriana onde rolaram histórias que geraram belos filmes como Moulin Rouge (de John Huston, onde José Ferrer interpreta o pintor Henri de Toulouse-Lautrec, tendo ganhado o Oscar da Academia pelo papel), Sede de Viver (onde Kirk Douglas interpreta ninguém menos que o pintor holandês Vincent Van Gogh, ao lado de um Paul Gauguin interpretado por Anthony Quinn) e, obviamente, a fantasia musical de Baz Luhrmann, Moulin Rouge, com Nicole Kidman e Ewan McGregor. Ah, isso sem falar em Os Aristogatas, dos Estúdios Disney e, claro, Gigi, um dos maiores musicais da Metro, estrelado por Leslie Caron e o mais que vitoriano Maurice Chevalier. Portanto, já estamos bem localizados em termos de imagem.
 
Essa mesma Paris era percorrida pelo alto, por balões que subiam na vertical (apenas) e que voavam literalmente ao sabor do vento. Aquilo fascinou Santos-Dumont, ao mesmo tempo em que o instigava a maiores aventuras. Ele queria mais. E conseguiu. Nosso brilhante aeronauta queria domar aqueles balões, torná-los dirigíveis, isto é, dar a quem os pilotasse, a possibilidade real de ascender aos céus na hora em que bem entendesse, bem como na hora de tocar o chão, novamente. E que pudesse conduzir o balão para onde quisesse, para que direção desejasse, sem que o vento assim ficasse determinando. 
 

Santos-Dumont

Desnecessário dizer, Santos-Dumont não só fez isso de forma genial, como também poderia ter morrido diversas vezes em seus experimentos, caso a História não lhe tivesse obviamente guardado um desfecho mais lamentável, em 1932. O maquinário de seus dirigíveis era movido com motor a explosão. E o balão era de gás hidrogênio, em alguns casos. Ou seja, algo pronto para explodir. Mas Santos-Dumont tinha outro pensamento em sua cabeça.  Ele voava pela Paz (com "P" maiúsculo), voava pelo prazer de voar, de estar ao lado dos pássaros e também acima das nuvens. Voava pela Humanidade. Como um Ícaro moderno.
 
Ele foi o primeiro que teve a idéia de construir hangares. Foi também o primeiro que teve a genial idéia de sugerir que um relojoeiro, Cartier, criasse especialmente para ele um relógio de pulso, algo que ele poderia consultar enquanto voava, sem que precisasse tirar o chamado relógio de bolso com toda aquela correntinha. Santos-Dumont era prático. Dentre os deliciosos costumes bizarros dele, coisa que os parisienses simplesmente adoravam, estava a mania de descer seus balões no meio das avenidas para uma pausa... Para tomar café.
 
Havia mais. Santos-Dumont e um amigo caricaturista dele, o Sem, adoravam andar no mesmo passo, usando as mesmíssimas roupas, tudo combinado, para se divertir à beça com os olhares dos outros. Nosso aeronauta tinha outro costume intrigante, o de chegar sempre depois das dez da noite no famoso Maxim’s, o restaurante parisiense que aparece muitas vezes no filme Gigi (de Vincente Minelli), e de se sentar sempre à mesma mesa, num canto, para observar as demais pessoas. O aeronauta era um tímido. Baixinho que só, ele determinou, por um tempo, o modo de se vestir naquela Paris enlouquecida por novidades. Ele ditava moda, literalmente. Que bela contradição, a timidez e a moda.
 
O chapéu côco (para dar impressão de altura), o sapato com sola alta, as golas altas, as roupas listradas, A gravata super apertada, o cabelo dividido. Tudo era motivo para ser copiado, e deliciosamente desenhado pelos chargistas da época, dos dois lados do Atlântico. E hoje, nessa foto que tirei ao lado dos desenhistas, somos a mais nova geração de pessoas que lembram do aeronauta com carinho. Com certeza, há muitas outras histórias a lembrar do inventor da Demoiselle, do Balão Número 1 (batizado de "Brasil"), do brilhante aeronauta brasileiro que deu a volta em torno da Torre Eiffel em 1901, em menos de meia hora. Do homem que viu sua invenção sendo usada para a guerra.
 
Enfim, Santos-Dumont, que veio embora para o Brasil em 1915 por motivo de doença, de aposentadoria da aviação e, entre outras coisas, estava chateado com os franceses simplesmente por que tinha um mordomo alemão na sua casa de verão de Deauville (em plenos dias da I Guerra Mundial ele foi quase tido pelos como espião, como um colaborador dos alemães, por causa disso), e voltou para casa, tendo deixado para a Humanidade legados tão belos quanto a Encantada, a sua bela casinha de Petrópolis, aquela que não tinha cozinha, mas que para você subir até ela, pela escada, tem que pisar primeiro com o pé direito. Coisas de Santô, coisas de um brasileiro genial que um belo dia, em 1996, o presidente americano Bill Clinton, relembrando num discurso em Brasília, finalmente chamou de "O Pai da Aviação". Já não era sem tempo, né, Tio Sam?

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