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Animação: O dia de conspirarmos contra a conspiração
Por Ruy Jobim Neto
03/02/2006


Gertie. Uma dinossaura criada no início do século XX pelo animador americano Winsor McCay, um dos maiores gênios da raça, é quem está ilustrando a foto acima. Não pude usar melhor imagem do que essa para clamar a idéia que pretendo discutir aqui. Lamenta-se uma série de coisas, é verdade, principalmente se começarmos a traçar paralelos e ligações perigosas. Vamos lá. Meu assunto hoje é a América Latina, o desenho animado como fator cultural. E o esquecimento que é imposto.
 
Não é mais possível que venhamos a tolerar, suportar, agüentar o fato de que nossos governantes, nos mais variados níveis ( tanto governantes como tecnocratas e industriais) deixem um item maiúsculo de lado. O Brasil e este continente do qual fazemos parte. Temos que pensar de quem realmente é a culpa. Somos nós que elegemos e damos aos seus produtos as preferências, estamos lembrados?
 
Davos 2006 foi um fiasco? Não. Davos, com o seu Fórum Econômico Mundial, foi um sucesso de vendas e marketing. Os stands de China e Índia chamaram a atenção dos investidores como nunca. Também pudera. Só a China cresceu 9,9% em todos os anos da última década, e vem fazendo isso paulatinamente. Tem o seu mercado ávido de um bilhão de bocas para alimentar.
 
A Índia chama a atenção não somente pelo grande contingente populacional, como também pelas taxas de crescimento. Esses dois países milenares, Índia e China (cada um a seu modo, cada um de um lado do Tibet e do Himalaia) têm consumido a atenção da mídia global. Estão mais que certos. Davos foi um sucesso, sim senhor.
 
Um terceiro país emergente ficou faltando, e nem fez falta, nem foi lembrado. O Brasil, ele mesmo, que enviou apenas o Ministro das Relações Exteriores, o Ministro da Indústria e Comércio Exterior, Pelé e a cantoria do ministro-rouxinol Gilberto Gil. Davos foi um sucesso? O Brasil enviou oito (em números: 8) empresários. Ninguém citou o Brasil em Davos. Nem o Brasil foi pensado, tampouco a América Latina foi citada. Vejamos o resto.
 
Já que citamos Gilberto Gil, cuja arte é fonográfica - mais que sua arte política - é volátil, e cujo material torna-se disponível via internet, via CDs e DVDs (basta comprar ou alugar ou fazer download de qualquer canção, a qualquer hora, de qualquer ponto do mundo), temos que lembrar do quanto a música é diferente do futebol e até mesmo de outras artes.
 
Vamos falar de uma arte que é cara aos olhos e ouvidos do mundo. O desenho animado, enquanto arte-indústria audiovisual, tem a qualidade de ficar na mente de quem assiste. E, uma vez assistindo, imagina-se que há pessoas, uma cultura, um País por trás daquela obra. É o caso do cinema americano, que é usado pela Casa Branca como arma mais temerária do que seus bombardeios mortíferos. O audiovisual é tema mortal nos debates da OMC, a Organização Mundial do Comércio. Um tiroteio de dólares.
 
Um livro que vi dia desses, em inglês, algo como A História da Animação no Mundo, maravilhosamente editado no Hemisfério Norte, tem um buraco negro. Folheei sentado, com o livro no meu colo, aquelas páginas extraordinárias, a cores, que traziam desde os experimentos de Winsor McCay e sua dinossaurinha Gertie (a mesma do início deste texto) até os sensacionais filmes da Pixar. Até as obras maravilhosas de Miyazaki.
 
O livro perpassa por Jiri Trnka (o genial mestre do cinema tcheco de animação de bonecos), viaja pela obra de Walter Elias Disney, fala dos estúdios da Warner, da Metro, de Hanna-Barbera. Fala dos japoneses, dos chineses, do cinema de animação russo. Este magnífico livro lembra obras-primas do cinema canadense, inglês, francês, mesmo o português, na área de animação. Livro completo?
 
Como cada assunto tinha duas páginas, e o livro era dividido por décadas, nada mais justo que eu encontrasse Sinfonia Amazônica (do nosso Anélio Latini Filho), ou alguma citação a Mauricio de Sousa. Ou mesmo os curtas realizados em Cuba, ou os longas argentinos (Patoruzito já havia sido lançado) e mesmo chilenos. E olha que eu chequei com olhos de lince o índice onomástico do livro e o índice remissivo. Nada. Nem um verbete.
 
Fomos uma vez mais esquecidos. Tal como em Davos, não fomos lembrados nem mesmo num extraordinário, riquíssimo (e, diga-se de passagem, caríssimo) livro sobre a História da Animação no último século. Nada. A impressão que se tem é que não se produz um fotograma de animação abaixo da linha do Equador. Não existimos. Tomamos Doril.
 
E eu mesmo já havia reclamado aqui, nesta coluna, da ASIFA (a Associação Internacional do Filme de Animação), que tem sede em Toronto, no Canadá. Em seus textos virtuais ou impressos, sequer há um artigo, por menor que seja, sobre a animação feita neste canto do mundo, salvo alguma referência ao gaúcho Otto Guerra e ao premiado (em Cannes) Marcos Magalhães, dois artistas perdidos no limbo desta História. Mas não para nós, saibam.
 
Começo a entender. Há uma conspiração, só pode ser isso. O pessoal lá de cima do Equador, os da OMC, da ONU, da Casa Branca, da União Européia, dos Tigres Asiáticos, a China e a Índia (as vedetes de Davos 2006), todos querem nos fazer sumir do mapa. Bom, e é melhor eu parar por aqui antes que este texto também seja deletado pela CIA tal como nossos países da ordem econômica e política e cultural planetária. Ou antes que me acusem de conspirador, de louco, de perigoso.

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