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O projeto que não se completa
Por Ruy Jobim Neto
16/12/2005

"Há controvérsias!", diria o personagem do querido e falecido ator Francisco Milani. Se os governos (em todos os níveis) tivessem um projeto cultural em escala, diversos problemas não apareceriam. Exemplo desses problemas é o Mapa Cultural Paulista, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo. Vamos analisá-lo e em seguida ficam aí umas sugestões para o País, como um todo, dentro do fato de que o Ministro-Cantor (ou Cantor-Ministro?) Gilberto Gil anuncia pelos quatro ventos um aporte de 480 milhões de reais para a Cultura.
 
Vamos ao Mapa. A competição cultural é feita em três escalas: municipal, regional e estadual. A primeira, como o próprio nome já diz, é realizada nas próprias cidades, que por sua vez vão "descobrindo" seus artistas nas mais diversas áreas (Desenho de Humor, Teatro, Dança, Música, entre outros).
 
A segunda etapa se dá na maior cidade de cada micro-região do Estado. Ora, os artistas, a essa altura do campeonato cultural, estão mais selecionados. A grande maioria ficou lá para trás, nada mais justo. Quando finalmente todos os selecionados regionais chegam ao Memorial da América Latina, na capital paulista, estarão competindo pelas melhores classificações em todo o Estado, em suas respectivas categorias.
 
Depois da definição necessária e óbvia, vamos a alguns problemas enfrentados, tanto por participantes, como pelos jurados. Mais definições. Os participantes são, em 99% das vezes, artistas perdidos em suas pequenas cidades, tanto desenhistas sem o menor acesso a materiais de desenho (materiais esses que na maior parte das vezes se encontram nas grandes papelarias da capital, específicas para artistas), e sem o menor acesso a dicas, a instrução alguma. Também é formado de um contingente de pessoas que pintam, de todas as faixas etárias, que aprenderam com parentes ou em pequenas oficinas gratuitas de pintura (em geral pintura a óleo) e que tem nas revistas de banca um pouco mais de informação.
 
O contingente é também formado por grupos de teatro amadores que não têm o menor acesso a empresários de suas respectivas regiões e, quando têm, é por conta de indicação política, troca por apoio eleitoreiro ou parcos recursos de alguns empresários, na maior parte das vezes parentes dos atores e do diretor do grupo.
 
E o pior e mais agravante: grupos de teatro precisam de verba para se manter. A estrutura é enorme, principalmente se a companhia resolve montar textos não-originais, de autores consagrados, com grande quantidade de personagens e, portanto, de figurinos e adereços cenográficos. Sem falar no parque de luz e em mínimas condições de ensaio (quando acontece é um luxo). Sabemos que todos os municípios dispõem de verbas de fundo de cultura, mas que raramente essas verbas chegam a grupos de teatro. Esses grupos ficam órfãos, e as verbas... Bem, as verbas vão para onde a sorte quiser.
 
Do outro lado da história, para completar o quadro, estão os jurados. Estes representam o Governador do Estado, para sermos mais exatos. E, no entanto, são tratados dessa forma: recebem verba exígua para viajarem da capital para as mais diversas localidades do interior, a 100, 200, 300 e até a 500 quilômetros de distância. Recebem verba de representação que dá para hotéis mixurucas, com cafés da manhã, almoços e jantares também mixurucas. Há casos de jurados que pegaram até piolho em hotéis como esses, e de hotéis de beira de estrada, daqueles em que se ouve o ronco dos motores de caminhões que chegam e que vão.
 
Os jurados precisam viajar, pernoitar, anotar o que há de positivo e negativo nos trabalhos e, finalmente, entrar em contato direto com os participantes, quando as verdades vêm à tona, em matéria artística e cultural. E, além disso, os jurados precisam fazer relatórios para entregar à Secretaria, sobre tudo o que aconteceu. E com as notas fiscais de tudo. Só que sem verba de representação para esses "detalhes", somente a viagem, o pernoite e as alimentações.
 
O pagamento é feito de forma truncada. Não é tão ruim quanto a dos CEUs da Prefeitura Municipal (em que uma ONG - atravessadora entre a administração municipal e o artista -  fica com R$ 45,00, enquanto o artista-professor de arte-educação fica com parcos R$ 7,00 (isso mesmo, sete reais a hora-aula!!). No entanto, no caso do Mapa Cultural, o pagamento é truncado pela Secretaria de Estado porque o jurado recebe somente quando toda a contabilidade do mês corrente assim estabelecer, depois de todos os trâmites burocráticos e, claro, depois de todos os lucros de aplicação no mercado financeiro.
 
Fora isso, como último problema (com certeza estamos nos esquecendo de mais alguns) há o caso de os jurados enfrentarem cara feia de participantes (quando seus trabalhos não vão para frente por absoluta falta de competência ou qualidade). Muitos jurados são até mesmo criticados por criticarem o trabalho de "artistas" regionais. Mas como a frase de Machado de Assis ("Ao vencedor, as batatas") parece não fazer parte do dicionário egóico de alguns "artistas"... E, evidentemente, para completar, os prêmios para essa competição cultural vão reduzindo ano a ano, embora ela se torne uma das únicas formas de as pessoas se inserirem (falsamente) no circuito cultural (por apenas um dia ou dois) e, o Mapa Cultural, que sempre tem sido anual, corre o sério risco de virar bienal.
 
Como integrante de um grupo teatral, por minha vez, em 1995, competimos com uma peça infantil dentro da categoria Teatro, onde estávamos fazendo frente até mesmo a espetáculos adultos (pasmem!) como Morte e Vida Severina, da obra de João Cabral de Melo Neto. Ou seja, não há critérios nem mesmo para distinguir (da parte oficial, nos regulamentos e na mecânica do evento) um espetáculo infantil do adulto. Eles concorrem juntos. Absurdo total. Espero que isso tenha se modificado com o tempo, mas fica o registro de época.
 
Uma solução para isso seria uma união de forças em escala nacional. Tudo começaria com esses jurados, que na maioria das vezes são pessoas que têm peso dentro de suas categorias. Eles iriam a cidades distantes para ensinar, formar pessoas, criar workshops nas mais recônditas localidades. Assim, e só assim, poderia se ter com mais precisão um acompanhamento do que se produz, e em que medida, isso cidades afora.
 
Assim, haveria uma escala municipal, regional e estadual (dentro de um mesmo Estado), depois uns cinco participantes em cada área sairiam para competir em escala regional (exemplo: Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina). Daí sairiam os melhores para competir em Brasília, em escala nacional. Dessa forma, as verbas seriam partilhadas entre municípios, Estados e o Governo Federal, manteriam assim também artistas empregados para instruírem artistas novatos e serem os seus jurados. Pois então, com certeza, teríamos uma amostragem, um rastreamento mais exato do que se produz de melhor em cada categoria.
 
E, por favor, seria maravilhoso que pudessem destrinchar as categorias em algo mais do que Cartum, Caricatura, Quadrinhos e Charge (na área de Desenho de Humor) - com esses conceitos que nem todos sabem distinguir entre um e outros -, ou em casos como o Teatro, onde poderiam haver prêmios (cada vez maiores, claro) para dramaturgia, cenografia, iluminação e não somente espetáculo, ator, atriz, seus coadjuvantes e diretor da peça). Um pouco de projeto não faz mal a País algum.

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