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Comédia. A fronteira final (parte 1)
Por Ruy Jobim Neto
25/11/2005

Poderíamos perfeitamente colocar aqui uma tira do genial Níquel Náusea (de Fernando Gonsales), que por motivos mais que explicáveis estará completando em 2006 seus 20 anos de publicação ininterrupta na Folha de S. Paulo. Não sem motivo. Mas optamos por esta tira americana, do Bob Thaves. Uma pérola de Frank & Ernest.
 
Nosso assunto não é a tira americana em si. É o humor, a comédia presente nela, e não vamos explicar a piada, porque ela é genial do jeito que está. São raras as tiras geniais, principalmente quando a idéia (oposta a uma outra) é extremamente bem colocada. É o caso dessa tira, em particular.
 
Para muitos criadores de tira, o humor, a tirada cômica, é o elemento mais preocupante. Há a necessidade de se ter pelo menos humor no que se apresenta, caso contrário os personagens despencarão no esquecimento do leitor. E é exatamente isso que os autores de tira, os syndicates e os jornais menos querem. E quando isso acontece, a tira cai mesmo. Desaparece do mapa. Bom, isso não é novidade pra ninguém.
 
Para aqueles que imaginam que seja assim, os jornais americanos realmente costumam fazer pesquisas de opinião de seus leitores pelo material apresentado. Seja por e-mails, seja por folhetos para preenchimento a mão (hoje em dia menos utilizados que outrora). Dessa relação de "aparente cumplicidade" entre jornal e assinante/leitor, é que se entende como uma página de tira é montada num jornal americano, como nos informa um brilhante texto chamado The Comic Strip Problem (a questão da tira cômica), encontrado num livro sobre Jornalismo americano.
 
Quando se era costumeiro encontrar em bancas e mesmo em bibliotecas universitárias o The Washington Post (que por sinal possui um syndicate, o The Washington Post Writers Group, que inclui tiras, horóscopo, cartuns editoriais e políticos - a versão para as nossas charges), era visível essa preocupação. Nas três páginas e meia de tiras cômicas diárias sem repetir um só título, o jornal depositava estrategicamente as tiras (realmente) cômicas - ou as mais famosas - na primeira metade de cada página standard. As demais vinham abaixo dessa divisória.
 
Pois bem, esse luxo nós não dispomos por aqui, neste lado do Equador. Há jornais que exibem apenas suas oito tiras (como a Folha, por exemplo) ou em outros centros como Cuiabá, em que as únicas duas tiras do jornal são americanas, embora clássicas (Peanuts, de Schulz e Recruta Zero, de Walker).
 
E para tratar exatamente de como a tira se processa, dentro desse emaranhado, é sabido que as primeiras tiras de um título apresentadas a um determinado jornal precisam ser eficazes a pontos de determinarem o futuro de um personagem (vide o caso Garfield, de Jim Davis, que foi distribuída gratuitamente por quatro meses para a Folha, em 1984, quando causou furor entre os leitores). Fernando Gonsales fez o mesmo efeito devastador (no melhor dos sentidos, claro) com Níquel Náusea, assim que apareceu nas páginas da Ilustrada, em 1986.
 
Porém perguntará o leitor: de onde vem o humor para que o artista sempre tenha uma tira prontinha para engatilhar? A primeira explicação que se pode ter é: o artista gráfico pensa engraçado o tempo todo, ou pelo menos em boa parte desse tempo.
 
Aqui não nos cabe explicitar a construção semiótica de uma tira, sua relação espacial e temporal, como é realizada (brilhantemente bem, diga-se de passagem) num dos melhores trechos do livro Os Quadrinhos, do Prof. Antonio Luiz Cagnin.
 
E sabedores que não possuímos nem mesmo um mercado em berço esplêndido para que a tira nacional apareça nas páginas de jornais (e mesmo em álbuns próprios) sem sofrer barreiras seja por desconhecimento de editores, seja por imposições contratuais de syndicates, preferimos nos ater a instruções dramatúrgicas de comédia (a chamada comedy writing), que muitos ignoram e ao mesmo tempo trabalham de forma intuitiva.
 
E lembrando ainda que mesmo um livro (quase) genial chamado Comedy Writing Secrets, escrito por Melvin Helitzer, em que o autor destrincha vários tipos de humor e comédia dentro do mercado americano (desde o stand-up comedy, como aparece em Seinfeld, até os cartuns diários de jornal ou de revista como a The New Yorker). O livro não se aprofunda, deixa buracos e quase chega lá.
 
Mas falaremos no próximo artigo sobre as tiras, em específico, e o humor construído dentro delas, um espaço tão exíguo. As tiras cômicas, cômicas desde o nome, são também objeto de estudo de uma tese que vem por aí pelas mãos do pesquisador e jornalista Paulo Ramos. E não devemos jamais esquecer que os quadrinhos, os gibis, têm nas tiras a sua célula-mater, o seu nascedouro.

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