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Quadrinhos de Arte por Roy Lichtenstein
Por Ruy Jobim Neto
30/09/2005

Roy Lichtenstein

Chegou ao Brasil a exposição Roy Lichtenstein - Animated Life/Vida Animada (já noticiada aqui), a primeira individual na América Latina de um dos maiores nomes da Pop Art norte-americana, Roy Lichtenstein (1923-1997), em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, de 22 de setembro a 20 de novembro. Imperdível para quem estiver na cidade.
 
Ao lado de Lichtenstein, somente Andy Warhol (o criador dos silks da lata Campbell´s ou mesmo da Marilyn Monroe multicor) foi preponderante no movimento nova-iorquino, uma verdadeira revolução estética que discutiu como nunca, na História da Arte, o efeito da imagem na vida contemporânea. Nesse ponto, Lichtenstein foi o que mais mergulhou nessa análise.
 
Enquanto Andy Warhol era um tipo excêntrico, pura imagem, criando todo um signo em torno de si, cultuando-se e se promovendo às custas de muita, muita, muita mídia (lembremos que Warhol aparece, inclusive, ao lado de Dustin Hoffman, numa foto, em Tootsie, de Sydney Pollack), Roy Lichtenstein, por sua vez, era o oposto. Muito pelo contrário, ele apoiava jovens artistas e se mostrava nem um pouco estrela. Até bastante acessível.
 
Nesta individual, são 78 obras expostas, 78 desenhos. O banal e o vulgar, extraídos do cartum, da História em Quadrinhos e dos anúncios publicitários. O público poderá apreciar todas as temáticas do universo iconográfico de Lichtenstein - os Mickeys, as pin-ups, as fachadas de prédios, interiores e espelhos. A profusão de hachuras e retículas é efusiva. Nada mais norte-americano ou ocidental, portanto.
 
Através de sua técnica, Lichtenstein pôde demonstrar o esvaziamento da arte de pensar provocado pelas imagens veiculadas nos meios de comunicação de massa. Por isso, na visão do artista, essas imagens são meticulosamente produzidas, reduzindo o potencial da comunicação humana a um rebaixamento da escrita, fazendo a fala parecer balbucio destituído de sentido.
 

Whaam!, 1963


Para quem chega à exposição, os painéis gigantes, em reproduções de obras famosas, como as explosões (e seus "splashes") e as onomatopéias (nada mais História em Quadrinhos, portanto), já vão norteando o Lichtenstein que se vai apreciar logo em seguida. Uma série enorme de desenhos a grafite, pintados com lápis de cor, uma boa parte deles como estudo da obra que se apresentará exatamente ao lado.
 
Para os grandes painéis, Lichtenstein fazia nada mais que as velhas ampliações, trabalhando em compensado, na utilização criteriosa de fitas adesivas (perfazendo traços) e papéis estampados (delimitando, com variedade de pesos, as famosas retículas com as quais o artista relembra quadrinhos impressos). Nos estudos, as hachuras são substituídas, nos painéis, por uma quantidade de papéis metálicos e coloridos cortados em estilete. Há, inclusive, moirés de plásticos com cores variadas, mas as retículas aparecem sempre, de uma forma ou de outra.
 
De longe, os quadrinhos de Lichtenstein reproduzem a banalização da mídia, ficam melhores vistos realmente de alguns passos para trás. De perto, há o emaranhado de seu trabalho, quase confundindo o olho. Lichtenstein produz, inclusive, no último ano de vida, prédios (real estates) com essas "retículas", trabalhos maravilhosos de design. Beira a publicidade, embora ele tenha feito cartazes para eventos variados.
 
Outro detalhe são os materiais confeccionados no final da década de 1950, utilizando os personagens de quadrinhos e desenhos animados, como a seqüência de Mickeys, Donalds e Pernalongas, todos muito expressionistas, quase imperceptíveis à pouca distância. Um pequeno desenho a lápis de cor e grafite com Donald chama-se Portrait of a Duck, de 1989. O público presente, seja com monitores ou não, busca aquele Lichtenstein que todos conhecem, dos desenhos de explosões e onomatopéias (como VAROOOMM!!) e, por sua vez, os nus femininos, da década de 1990, também são belíssimos - a destacar dois trabalhos, estudo e painel, Nude with Joyous Painting (de 1994) e Woman Contemplating a Yellow Cup (este, também de 1994, mas somente em grafite sobre vegetal).
 
Seja nas naturezas mortas (still life), seja nos estudos, nas sombras meticulosamente vertidas em retículas gigantes trabalhadas a estilete à base de papéis ilustrados, ou nas curiosas anotações a lápis (nos painéis gigantes, coisas como n.edge of), o que transparece são 35 anos do artista, um dos dois papas definitivos do movimento da Pop Art norte-americana, um Roy Lichtenstein apresentado em 78 obras imperdíveis de ver de perto. Ou de longe, reduzidas, quando ficam melhores ainda.

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