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Quadros de ontem e de hoje
Por Ruy Jobim Neto
31/08/2005

Arte de J. Carlos

Maria Cristina Merlo
defendeu sua tese na USP, ganhou nota 10 com louvor, virou mestra, e no ano seguinte, em 2004, abocanhou o HQ Mix por sua pesquisa de três anos em cima da revista centenária O Tico-Tico. Ufa! Foi mesmo uma aventura engendrada pela pesquisadora, que ficou encantada pelo material, quando se defrontou com ele na Biblioteca do Prof. José Mindlin.
 
Uma das histórias por trás dessa pesquisa gigantesca envolve o criador do Menino Maluquinho. Ziraldo, como último sobrevivente de uma entrevista com Loureiro, também último remanescente da época áurea da revista, foi praticamente um anjo da guarda, no Rio de Janeiro.
 
Conhecedora do Centro do Rio por ter morado lá algum tempo, Maria Cristina retorna à Cidade Maravilhosa não como turista, mas como alguém que foi atrás de uma dica que lhe foi passada por outro anjo da guarda, de Campinas – há uma gravação, nos arquivos do MIS carioca, com Ziraldo (ainda bem moço), o cartunista Álvarus e o poeta Carlos Drummond de Andrade. Todos entrevistando o Loureiro, o último desenhista de Chiquinho e Jagunço, o garoto e o cachorro que simbolizavam O Tico-Tico.
 

Angelo Agostini

A revista surgiu em 1905, numa quarta-feira histórica, a 11 de outubro. Muito antes das 11 da manhã daquele dia o exemplar de O Tico-Tico desaparecera completamente das bancas de jornal, no Rio de Janeiro. Sucesso imediato. Pois bem, a revista abarcou artistas como o legendário Angelo Agostini, e nomes como J. Carlos, Seth, Alfredo Storni, Max Yantok, Luis Sá e tantos outros. A revista durou até 1962, e nunca falhou uma única quarta-feira, nos áureos dias, para alegria da petizada.
 
Pois bem, quando Maria Cristina se defrontou com a recepção do MIS, uma decepção: ela simplesmente não poderia, nem mesmo como pesquisadora da USP, uma mestranda, ter acesso aos documentos, à fita com a entrevista. A única condição para que alguém tivesse acesso ao material seria ter autorização de uma pessoa que tivesse participado do mesmo. Um absurdo! Imaginem, pasmem! E se todos já tivessem falecido? Bom, por sorte, havia ainda alguém: Ziraldo.
 
Maria Cristina pegou o telefone do estúdio do cartunista e falou diretamente com ele. Ziraldo disse: “Você está aqui, no Rio?”. Quando ela afirmou, ele continua: “Então vem pra cá agora, que eu te faço uma carta de autorização”.
 
Chegando lá, Maria Cristina viu a seguinte cena – Ziraldo não só lhe entregou uma carta por ele escrita (e que se encontra, como homenagem, nos anexos da tese dela), como também telefonou para o MIS e disse: “Olha, aqui é o Ziraldo quem fala e vai aí a pesquisadora Maria Cristina Merlo e ela tá precisando de um material, ela tá levando uma autorização minha, e eu gostaria que você liberasse o material para ela”.
 
A tese se chama O Tico-Tico – Um Marco das Histórias-em-Quadrinhos no Brasil, e foi defendida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, em setembro de 2003. Na banca examinadora estavam o orientador, Prof. Antonio Luiz Cagnin, e os examinadores convidados, os professores Marcelo Tassara e Sonia Maria Bibe Luyten. Foi uma tarde e tanto, aquela, entre cafezinhos e petiscos, e Maria Cristina trazia à vida, oficialmente, um dos mais importantes relatos sobre quadrinhos de que se tem notícia. Falta agora uma editora se aperceber disso e editar a obra antes que feche o ano.

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