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HQtrônicas Brasileiras
Por Edgar Franco
05/11/2007

Apresento neste post e no próximo, exemplos de HQtrônicas que se destacaram no panorama brasileiro, pelo grau de experimentação envolvido em sua criação ou pela popularidade entre os leitores/navegadores. Iremos também apontar brevemente os códigos hipermidiáticos utilizados nesses trabalhos, infelizmente, devido à volatilidade da Internet, muitos deles não estão mais online.

Experiências Brasileiras em CD-ROM

Tela do CD-Rom Solange – A Enfermeira (2001), Marcatti

O primeiro CD-Rom de quadrinhos a ser lançado no Brasil foi o SLAM!, no ano de 1998, tratava-se da versão digital do fanzine homônimo e compilava, segundo relata-nos Henrique Magalhães em seu livro A Mutação Radical dos Fanzines (Editora Marca de Fantasia, 2005), 360 páginas de HQs, sendo 170 coloridas. Entretanto esses trabalhos não traziam nenhuma novidade quanto à exploração das possibilidades da multimídia, ou seja, simplesmente eram versões digitalizadas através de escaneamento das HQs impressas. Depois do lançamento de SLAM!, o segundo trabalho veiculado em formato CD-Rom que conseguimos mapear é o pioneiro Solange – A Enfermeira, trazendo uma HQtrônica inovadora criada pelo lendário quadrinhista underground Marcatti. O trabalho traz o selo da editora de Marcatti, a Pro-C Ltda, mas veio encartado em uma revista em quadrinhos editada pela Escala em 2001, recentemente foi relançado pelo autor e pode ser adquirido em seu site. O CD-Rom engloba um sem número de recursos multimídia para narrar a história de Solange, uma enfermeira que deve desvendar um mistério em seu plantão noturno. A HQtrônica usa a multilinearidade narrativa muito bem, transformando a leitura do trabalho numa espécie de jogo lúdico, onde o navegador deve buscar pistas para conseguir chegar ao desfecho desejado, além disso os recursos de animação, trilha sonora e efeitos sonoros são utilizados com maestria pelo autor tornando esse trabalho um dos grandes destaques das HQtrônicas brasileiras até o momento.

Tela do CD-Rom Quadroid – Versão 2.0 (2001), E.C.Nickel

Outro trabalho que merece destaque, e que infelizmente permanece inédito devido à insensibilidade dos editores brasileiros, é o CD-Rom Quadroid, desenvolvido pelo notório quadrinhista E.C.Nickel entre os anos de 1998 e 2001 para veicular uma série de suas HQtrônicas de ficção científica. Sem ter o conhecimento da existência do software Flash, Nickel desenvolveu um interessante aplicativo multimídia para a apresentação de suas histórias que incluem instigantes efeitos sonoros, e alguns trechos animados ao longo da narrativa. O leitor pode também controlar o fluxo de leitura através de um comando que vai introduzindo gradativamente na tela os balões de fala das personagens. O software desenvolvido por Nickel poderia ser utilizado amplamente para a leitura de HQtrônicas, mas infelizmente diante do desinteresse dos editores o criador acabou engavetando o seu projeto. A versão 2.0 de Quadroid, do ano de 2001, trazia oito HQtrônicas com destaque para o primoroso trabalho de incorporação da multimídia em Ultrax: A Origem e Imortalidade, o quadrinhista não chegou a produzir uma edição comercial desse CD-rom e consegui diretamente com ele uma cópia desse trabalho pioneiro. Depois desse experimento Nickel conheceu o software Flash e pensa em desenvolver alguns projetos utilizando essa ferramenta. O autor chegou a disponibilizar online várias aventuras de seu personagem Ultrax em um site exclusivo batizado de Quadroid, mas que infelizmente não trazia os recursos hipermidiáticos de seu software.

Tela do CD-Rom HQtrônicas (2001), Edgar Franco

É também de 2001 o meu CD-Rom HQtrônicas que traz a trabalho Ariadne e o Labirinto Pós-humano, uma longa HQtrônica que explora os recursos de diagramação dinâmica, multilinearidade, animação, trilha sonora, efeitos sonoros e interatividade, convidando o leitor a criar o seu próprio final para a história. O trabalho fez parte de minha dissertação de mestrado em Multimeios na Unicamp, sendo atualizado e lançado como parte integrante do livro HQtrônicas: Do Suporte Papel à Rede Internet no ano de 2004 (Editora Annablume). Em 2005 o CD-Rom integrou a importante Mostra Sesc de Artes – São Paulo, sendo apresentado em 7 Sescs da capital paulista.
 
Linda de Morrer: Multilinearidade Narrativa em Destaque
O projeto H2Q – História Hiperbólica em Quadrinhos, foi lançado durante a quarta temporada do extinto site CyberComix, sendo a proposta mais inovadora e criativa do site no uso dos recursos de interatividade. Ele propõe a veiculação de HQs onde o leitor escolhe a cada página o caminho que quer seguir na história, tendo a possibilidade de optar entre dois caminhos em algumas páginas e até entre três em outras. Esse recurso, a multilinearidade narrativa – discutida no post anterior, é um dos critérios que usamos para incluir os trabalhos veiculados nessa seção do CyberComix na categoria de HQtrônicas. A primeira HQ publicada nesse espaço, Linda de Morrer, criada por Marco Antônio Pavão em 2000, apresentava mais de 600 caminhos possíveis, tornando-se uma forma de jogo onde o leitor retorna ao começo tentando salvar a personagem principal de seu trágico destino: a morte. Apenas um dos vários caminhos da HQtrônica levavam a heroína a sair com vida da trama.

A resposta dos leitores/navegadores do site foi muito positiva à seção H2Q, resultando num grande número de e-mails no fórum elogiando o trabalho de Pavão, o que demonstrou a receptividade a inovações como essa. As chamadas HQs hiperbólicas foram a maior atração do site, entretanto, devido à dificuldade em sua construção - pois a proposta envolve a criação de dois ou três caminhos possíveis a cada nova página, o que implica um trabalho de desenho e roteiro praticamente triplicado, demandando muito tempo para criação e execução dos desenhos –só foram feitas três HQs hiperbólicas para o CyberComix, a referida Linda de Morrer – a mais complexa e interessante de todas; Os Perigos de Aline, de Heinar e Pavão; e já na quinta temporada, You Can’t Always Get What You Clic, de Caco Galhardo, a primeira a introduzir algumas animações na narrativa multilinear.

Intempol: Primeira Experiência Brasileira de Exploração da Tela Infinita

Capa do CD-Rom A Mortífera Maldição Da Múmia (2003), grupo Calango

A Intempol – Polícia do Tempo Internacional - foi desenvolvida na forma de um universo ficcional multimídia aberto à participação de artistas e autores interessados nele. As bases do universo foram traçadas a partir da noveleta Eu Matei Paolo Rossi, de Octavio Aragão, publicada em 1998 na coletânea de contos de ficção-científica Outras Copas, Outros Mundos. Nela, um jovem volta no tempo para impedir a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, provocando muita confusão. Ele encontra a Intempol, uma agência internacional empenhada em proteger a humanidade de pessoas que tentassem alterar o passado. Mas a Intempol tem algo de familiar: uma maneira de agir puramente brasileira, folgada e divertida. Atualmente, o projeto Intempol conta com uma antologia publicada, dois romances e uma HQtrônica, intitulada A Mortífera Maldição da Múmia, que infelizmente não está mais online. O trabalho foi baseado no conto homônimo do escritor Carlos Orsi Martinho e desenvolvido em 2002 pelo grupo Calango, integrado por Rodrigo Martins, Carlos Felipe Figueiras, Gustavo Novaes & Felipe Moura. O destaque vai para o uso criativo e pioneiro no Brasil do recurso da “Tela Infinita” proposto por Scott McCloud. A HQtrônica lança mão das possibilidades ilimitadas de avanço da narrativa nos sentidos vertical e horizontal da tela do computador, não se prendendo ao tradicional formato instituído pelas HQs do suporte papel. No ano de 2003 A Mortífera Maldição da Múmia chegou a ganhar uma versão em CD-Rom.

No próximo post falarei sobre a revolução do software Flash da Macromedia e seu reflexo na criação de HQtrônicas em nosso país.

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